As Crónicas de Hermione
14 Depois deste tempo todo
Notas iniciais
Noite de 31 de Agosto de 2009
Os olhos castanhos encontraram os olhos cinzentos.
E, durante alguns segundos, nenhum dos dois pareceu capaz de respirar.
Hermione Granger piscou os olhos uma vez. Depois outra. E outra. Como se, ao fazê-lo, pudesse obrigar a realidade a corrigir-se. Mas ele continuava ali. Do outro lado da porta.
Os mesmos olhos cinzentos que ela conhecia demasiado bem. O mesmo rosto que durante anos tentara esquecer e que, ainda assim, surgira tantas vezes nos seus sonhos. Só que agora havia qualquer coisa diferente. Mais adulto. Mais cansado. Havia linhas junto aos olhos, pequenas rugas que denunciavam o tempo que tinha passado. O cabelo continuava louro, embora já não tivesse o aspeto cuidadosamente impecável de outrora. E havia nele uma espécie de humanidade que Hermione não se lembrava de ter visto quando eram jovens.
Mas era Draco Malfoy. Era mesmo Draco Malfoy.
Hermione abriu a boca mas nenhuma palavra saiu. Pela primeira vez em muitos anos, ela, Hermione Granger, não tinha absolutamente nada para dizer.
Seria possível? Levantou uma mão e esfregou os olhos, quase com desespero. Talvez tivesse adormecido sobre o trabalho. Não seria a primeira vez. Talvez o seu subconsciente, cruel como sempre, tivesse decidido presenteá-la com mais uma daquelas imagens que durante anos a tinham perseguido. Voltou a abrir os olhos. Ele continuava ali.
O Draco que a tinha marcado para a vida. Pelo pior. E, contra toda a lógica, também pelo melhor.
O coração de Hermione apertou-se. Como poderia ser um sonho? A sua imaginação poderia inventar um Draco mais velho, certamente. Poderia recuperar o rosto que conhecera, alterar-lhe os traços, acrescentar-lhe rugas. Mas como poderia inventar aquelas mudanças que não conhecia? Como poderia dar-lhe uma aparência tão… mundana? Tão muggle.
Não tinha memórias suficientes para o imaginar daquela maneira. Ou a sua imaginação tinha evoluído. Ou aquele homem estava realmente à sua frente. E, se era real… Porquê?
O primeiro impulso foi fechar-lhe a porta na cara. O segundo foi gritar. Gritar que ele não tinha o direito de aparecer ali. Não depois de dez anos. Não depois de uma década inteira sem uma única palavra, uma carta, um bilhete, uma tentativa de contacto. Nada.
Durante aqueles dez anos, Hermione tinha inventado centenas de explicações para o silêncio. Morreu? Perdeu-se? Aconteceu-lhe alguma coisa? Encontrou alguém? Constituiu família? Esqueceu-a? Esta última hipótese acabara por ser a mais fácil de aceitar. Dolorosa, mas simples. Ele tinha seguido em frente. E, portanto, ela também teria de seguir. E tentara. Sabe Deus, como tentara. Conheceu pessoas novas, as amigas apresentavam-lhe amigos. Mas nunca ninguém era suficiente, havia sempre um vazio que não era preenchido.
Mas algumas coisas tinham resultado. O trabalho no jornal, por exemplo. O seu apartamento. As rotinas. A vida que construíra em Londres e que a deixava confortável mesmo que estivesse sozinha. E Sami, um gato que adoptou, ou que a tinha adoptado a ela.
Pouco depois de se mudar para Londres, dez anos atrás, encontrou um pequeno gato branco na rua, ainda bebé. Tinha olhos azuis tão claros que, dependendo da luz, pareciam cinzentos. Ela tinha achado que aquilo era um sinal e levou o pobre bichinho para casa.
Este mesmo Sami naquele momento parecia ter decidido que aquela conversa também lhe dizia respeito. Escapou por entre as pernas de Hermione e avançou para o corredor, curioso. Ela nem teve tempo de o chamar. O gato parou diante de Draco. Olhou para ele, miou, e para completo espanto de Hermione, começou a roçar-se nas pernas do homem.
Hermione ficou imóvel. O seu Sami fugia de praticamente todas as visitas, ou melhor, escondia-se de todas e só após alguns minutos, às vezes horas é que ganhava confiança para vir ver quem eram. Mas, aparentemente, tinha acabado de decidir que Draco Malfoy era uma exceção.
Draco olhou para o gato e, pela primeira vez desde que Hermione abrira a porta, sorriu.
Aquele sorriso. Hermione sentiu o estômago revirar-se. Conhecia aquele sorriso. O mesmo sorriso que conhecera, quando ambos tinham 18 anos, o mesmo que o seu coração reconheceu antes da razão, antes da mágoa e antes de todas as promessas. O peito apertou-se-lhe com uma violência quase humilhante. Ainda o desejava. A constatação foi tão imediata quanto odiosa. Durante uma década, Hermione convencera-se que o que sentia era apenas saudade, uma memória persistente, um vestígio de uma história interrompida cedo demais. Mas a saudade não fazia o corpo aquecer daquela maneira, a saudade não lhe prendia a respiração. A saudade não fazia com que quisesse atravessar a distância entre os dois e tocar-lhe no rosto, apenas para descobrir se a pele dele ainda era gelada e ao mesmo tempo quente sob o seus dedos.
Alheio aos seus pensamentos, Draco baixou-se, pegou no gato ao colo e afagou-lhe distraídamente a cabeça. Só então voltou a olhar para ela. E o sorriso desapareceu.
— Podemos falar?
A voz era mais grave do que ela se lembrava. Mais baixa. Mais cansada. Mas continuava a ser a voz dele e o arrepio que lhe percorreu a espinha não teve nada de imaginário, e Hermione odiou o próprio corpo por reagir assim àquele homem sem conseguir impedi-lo.
— Se não quiseres, eu entendo. Mas preciso que me ouças. Tenho tanto para te contar… tanto para esclarecer.
Os dedos dele continuaram a acariciar o pelo branco de Sami, e sustentou o olhar dela. Havia qualquer coisa nos seus olhos que Hermione não conseguia decifrar. Esperança? Medo? Mas sobretudo uma vulnerabilidade que ela jamais associaria ao rapaz que conhecera.
— Por favor? — As palavras saíram da boca de Draco quase num sussurro.
Hermione sentiu o peito apertar. Tinha mil perguntas na cabeça, mil acusações e mil frases que ensaiara ao longo dos anos, em noites nas quais imaginava encontrá-lo por acaso na rua, num café ou numa estação. Algumas eram frias, outras cruéis. Havia discussões com gritos que terminavam em lágrimas, e outras que nunca chegavam a começar, porque nos seus sonhos, ela simplesmente o beijava antes de lhe perguntar onde estivera. Nenhuma dessas sobreviveu àquele momento.
— Porquê?
Foi tudo o que conseguiu dizer. Uma única palavra. Dez anos de perguntas comprimidos em duas sílabas.
Draco baixou os olhos por um instante. Como se tivesse esperado por aquela pergunta desde o momento em que decidira procurá-la.
— Porque eu disse que voltava para ti.
Hermione deixou de respirar.
— Apenas demorei mais tempo do que eu próprio esperava. — ele continuou.
A mão que segurava Sami apertou-se ligeiramente.
— Nunca pretendi falhar com a minha palavra. Não contigo. Não desta vez.— Ele engoliu em seco. — Eu sei que foi muito tempo.
— Dez anos. — disse ela. Não fora uma pergunta, fora uma acusação.
Um sorriso triste apareceu-lhe nos lábios, e depois de alguns segundos calado, acrescentou:
— Mas nunca, em momento algum, deixei de pensar em ti durante estes dez anos.
Hermione sentiu os olhos arderem. Não. Ele não podia fazer aquilo. Não podia aparecer depois deste tempo todo e dizer-lhe aquilo como se aquelas palavras fossem capazes de atravessar uma década inteira de silêncio, como se fossem suficientes para apagar o tempo que passara.
— Só quero contar-te a minha história — continuou ele. — Depois farás dela o que quiseres. Podes odiar-me. Podes mandar-me embora. Podes nunca mais querer ver-me.
Uma pausa.
— Apenas… ouve-me… por favor.
Hermione desviou o olhar. Durante alguns segundos, lutou contra tudo o que lhe gritava para fechar a porta. Devia fechá-la, a porta era uma fronteira simples, um pedaço de madeira entre o passado e o presente. Se a fechasse, talvez conseguisse voltar à vida que construíra, sem problemas acrescidos. Mas o corpo não obedeceu. Porque debaixo da raiva, havia ainda aquela fome antiga: a necessidade vergonhosa de saber, de ouvir a voz dele dizer que ela não fora esquecida, de descobrir que em algum lugar, durante aqueles dez anos anos, ele também ficara preso à mesma ausência.
Hermione odiava essa necessidade. Odiava que ele ainda tivesse poder sobre ela. Odiava que bastasse a Draco Malfoy aparecer à sua porta para que todos os anos de esforço, todas as decisões e todas as certezas se tornassem frágeis.
Mas em vez de fechar a porta. Deu um passo para o lado e fez-lhe um pequeno gesto com a mão, num convite mudo que ficou subentendido.
Draco ficou imóvel durante um segundo. Como se aquele simples movimento tivesse sido uma dádiva que não se atrevia a acreditar que recebera. Mas aproveitou a nova chance que a vida lhe dava, e sem perder tempo entrou.
Assim que passou da porta, percebeu que havia uma cozinha quase em frente, de onde vinha um aroma quente a café acabado de fazer. Havia uma chávena esquecida sobre a bancada, papéis empilhados numa cadeira e uma camisola dobrada no encosto da mesma cadeira. Pequenas provas de uma vida quotidiana. Uma vida que continuara sem ele.
Draco pensou seguir em direção à cozinha, mas Hermione indicou-lhe outra porta um pouco mais em frente e conduziu-o até uma divisão que, à primeira vista, parecia mais uma biblioteca do que uma sala.
Havia livros por toda a parte: estantes cheias, pilhas cuidadosamente organizadas. Uma poltrona confortável junto à janela com uma manta dobrada num dos braços, luz suaves e quentes que tornavam o espaço acolhedor. Sem dúvida alguma aquele era o espaço dela e Draco percebeu isso imediatamente.
Percebeu que ela tinha construído uma casa à sua imagem, criara rotinas, tinha uma vida, na qual ele não existia. Draco sentiu uma ponta de ciúmes tão absurda que o envergonhava. Ciúme dos livros, dos móveis, ciúmes do gato que vivia com ela, ciúmes de todos os dias que ela vivera bem, sem ele. Viu fotografias numa estante, e ele não conseguiu evitar olhar. Viu Hermione mais jovem, sentada numa mesa rodeada dos amigos que ele conhecia. Hermione diante de uma pilha de jornais, feliz. Hermione arranjada, com o cabelo preso de forma diferente e sorrindo animada para quem tirava a fotografia. Sentiu ciúmes por não fazer parte de nenhuma.
Hermione deixou-o ver a sala, e a seguir indicou-lhe o sofá branco, situado no meio da sala, em frente de uma lareira, acesa, que aquecia e aconchegava o espaço.
— Senta-te.
Ele obedeceu.
— Queres tomar alguma coisa? Café? Chá? Ou alguma coisa para comer?
A formalidade da pergunta atingiu-o mais do que deveria. Ela falava com ele como falaria com um desconhecido. Talvez, para ela, fosse exatamente isso que ele era.
Draco pousou Sami no espaço ao lado do seu, no sofá. O gato afastou-se alguns passos, mas não pareceu ter intenção de ir muito longe.
— Um café, por favor.
Hermione assentiu.
— Está bem. — respondeu ainda de forma fria, de braços cruzados junto à porta e saiu em direção à cozinha.
Draco ficou sozinho. Por alguns segundos, limitou-se a olhar para o chão. Talvez tivesse sido um erro aparecer ali daquela maneira. Devia ter esperado. Podia ter pedido a Pansy que falasse primeiro com ela. Podia ter enviado uma mensagem. Uma carta. Qualquer coisa que lhe desse tempo para se preparar. Quem esperara dez anos poderia ter esperado mais alguns dias. Porém, agora estava ali. Na casa dela. A poucos metros da mulher que nunca conseguira esquecer. E, se ela o mandasse embora, teria de aceitar e respeitar.
Pela primeira vez, talvez tivesse de aceitar que algumas promessas não podiam ser cumpridas simplesmente porque se desejava muito que fossem.
Mas tinha imaginado aquele momento tantas vezes, em algumas versões, Hermione chorava e atirava-se para os seus braços. Noutras, batia-lhe. Noutras ainda, limitava-se a fechar a porta sem dizer uma palavra. Mas nunca imaginara o silêncio. Nunca imaginara o peso de estar sentado na sala dela, a ouvir os sons da sua vida do outro lado da parede, sem saber se ainda tinha direito a pronunciar o nome dela.
Da cozinha, ouviu-se o som de uma chávena. Depois outra. Talheres. Depois silêncio e um pequeno ruído estranho, que Draco não decifrou à primeira. Levantou a cabeça e ficou mais atento aos sons que chegavam da cozinha. Ouviu qualquer coisa. Um som abafado. Talvez um soluço? Ficou imóvel, franzindo sobrolho. Ouviu outro, mas não tinha a certeza.
Sami, porém, não teve dúvidas, levantou as orelhas assim que ouviu os sons mais abafados, saltou para o chão e correu na direção da cozinha.
Draco levantou-se imediatamente. Seguiu-o, parando à entrada. Viu Hermione de costas, com uma mão apoiada na bancada, fazendo tanta força que os nós dos dedos começavam a perder a cor. A outra segurava uma chávena, também com tanta força que eventualmente quebraria se não a pousasse. Os ombros tremiam.
Draco sentiu o coração partir-se.
— Hermione?
Ela ficou completamente imóvel. Como se tivesse prendido a respiração. Ele deu um passo, falou sem pensar nas palavras:
— Posso ajudar?
Nada. Nem sequer uma resposta. E naquele instante ela pareceu-lhe tão pequena. Tão frágil. Nada parecida com a mulher determinada que ele guardara na memória, tão diferente da mulher que enfrentara guerras, julgamentos e perdas sem permitir que ninguém visse o quanto lhe custava permanecer de pé.
Draco não pensou e simplesmente atravessou a distância entre os dois. Dois passos, foi tudo o que precisou para chegar junto dela. Passou os braços à volta da sua cintura por trás e puxou-a cuidadosamente contra o peito. Sabia que não tinha esse direito. Mas desde o momento em que Hermione abrira aquela porta, havia uma única coisa que desejava fazer. Abraçá-la, segurá-la nos seus braços e sentir que era real. Para nunca mais a deixar..
Afundou o rosto no cabelo dela. O perfume era diferente, mas a mulher que tinha nos braços também era diferente da menina que deixara com 18 anos. O cabelo castanho de que tanto gostava estava preso num coque solto e alguns fios tinham escapado, roçando-lhe o rosto. Draco fechou os olhos. E, pela primeira vez em dez anos, sentiu que tinha chegado a casa. Era ali que devia ter estado. Sempre.
Por um segundo, o tempo parou, e ele não estava mais naquela cozinha. Estava novamente diante dela naquela tarde de julho de 1999, quando eram dois jovens sonhadores e ele lhe prometera que voltaria. Recordou o calor daquele dia, a luz dourada sobre o rosto dela, a forma como Hermione tentara parecer corajosa enquanto lhe pedia que não demorasse. Recordou o modo como ela segurou a sua mão, com medo de largar, e recordou que naquele momento acreditara sinceramente que conseguiria cumprir a promessa em poucas semanas.
Não sabia que o mundo tinha outros planos. Este pensamento veio acompanhado de uma certeza terrível, ele tinha perdido tempo. Tempo demais. E talvez, durante aqueles dez anos, ele tivesse perdido também Hermione.
Ela afastou-se abruptamente. Virou-se para ele com lágrimas nos olhos.
— Por…quê?!
A voz dela partiu-se no meio da palavra.
— Porquê?! — repetiu, elevando o tom de voz, mostrando a raiva contida.
Draco ficou imóvel. Hermione bateu-lhe no peito com a mão, uma vez. Depois outra. Pequenos murros que tentavam magoá-lo, sem sucesso.
— Porquê, Draco?! — Hermione insistia naquela pergunta, continuando a esmurrá-lo fracamente.
Ele deixou-a descarregar a sua frustração. Não tentou impedi-la. Tinha esperado por aquilo, e sabia que era até merecido.
— Porque…
A voz falhou-lhe. Draco respirou fundo, mas continuou:
— Porque entraste na minha vida quando eu mais precisava de alguém.
Hermione parou, embora as lágrimas continuassem a escorrer-lhe pelo rosto, continuou a ouvi-lo:
— Quando eu estava pronto para desistir de tudo.
Ele aproximou-se um pouco.
— E mudaste a minha perspetiva sobre tudo.
A voz tremia, e Draco odiava que ela pudesse vê-lo assim. Mas, com ela, e por ela, não queria esconder-se.
— Tudo mudou quando recebi a tua primeira carta.
Hermione franziu o sobrolho.
— Ainda sem saber que eras tu.
Um silêncio.
— E depois vieram todas as outras.
Os olhos cinzentos encontraram os castanhos.
— Cada palavra que escreveste fez diferença, deram-me esperança num lugar tão sombrio. Fizeste-me descobrir aos poucos o amor num lugar sem esperança
Draco levantou lentamente uma mão. Parou por um instante, como se lhe pedisse permissão em silêncio . Quando Hermione não recuou, tocou-lhe no queixo e ergueu-lhe delicadamente o rosto. Queria vê-la. Queria que ela visse que ele não estava a mentir.
— Quando te deixei naquele dia, há 10 anos…
A voz tornou-se quase um sussurro.
— Foi uma das coisas mais dolorosas que tive de fazer na minha vida, teria sido tão mais fácil ficar, não te deixar, não sair dos teus braços, criar uma vida contigo. Mas eu disse-te tudo, que não podia ficar daquela maneira, com vergonha de mim mesmo, sabendo que seria um empecilho na tua vida.
Uma pausa.
— Mas eu prometi que voltaria.
Os olhos de Draco ficaram húmidos.
— E prometi que, quando esse dia chegasse, podias ter orgulho em mim. Eu teria orgulho em mim, para estar ao teu lado de cabeça erguida, sem vergonha do meu passado miserável.
Respirou fundo, lutando contra o nó que lhe apertava a garganta.
— Só não sabia…
Os dedos dele afastaram uma lágrima do rosto dela.
— Não sabia que iria precisar de tanto tempo. Perdoa-me.
E, pela primeira vez naquela noite, Hermione viu qualquer coisa para além do homem que desaparecera.
Viu o rapaz que conhecera.
O rapaz que lhe fizera uma promessa.
E talvez, apenas talvez, o homem que passara dez anos a tentar cumpri-la, estava ali à sua frente a pedir-lhe perdão. Como dizer que não, quando aquilo que ela mais queria era saber tudo o que lhe tinha acontecido e porque tinha demorado tantos anos a voltar para ela. Não podia esquecer o que tinha passado em todos estes anos, o sofrimento que ele lhe tinha causado com a sua ausência e silêncio, mas tinha de saber o que acontecera. Estava na hora.
Serviu uma chávena de café para ele e outra para si, colocou um pâté para Sami comer. E depois, disse entre algumas lágrimas que teimavam em cair:
— Dez anos! Dez anos sem uma única palavra. Nem uma carta, nem um bilhete… Nada…
A voz falhou, mas ela continuou:
— Sabes o que é isso? Sabes o que é acordar todos os dias sem saber se a pessoa que amas está viva? Sabes o que é esperar por alguém que talvez nunca tenha tido intenção de voltar?
Draco baixou os olhos. Cada palavra dela encontrava o lugar exato onde mais doía.
— Eu esperei por ti. — Hermione terminou num sussurro quase imperceptível.
E aquela palavras atingiram-no com uma violência maior que qualquer outro feitiço.
— Eu sei… — disse ele, mas foi interrompido por ela mais uma vez.
— Não! — a resposta saiu controlada mas com um tom mais feroz que um grito. — Não sabes.
Ele levantou os olhos para ela. Hermione desta vez chorava sem tentar esconder-se. As lágrimas desciam-lhe pelo rosto e ela parecia odiar cada uma delas, como se fosse uma fraqueza que ele não merecia testemunhar.
— Não sabes o que foi para mim — repetiu ela — Não sabes quantas vezes pensei que tinhas morrido, quantas vezes imaginei que estavas com outra pessoa ou quantas vezes me convenci de que nunca significara nada para ti.
Draco respirou fundo. Tinha imaginado aquele momento centenas de vezes. Nas suas fantasias mais puras, Hermione dizia-lhe que o amava e perdoava-o antes mesmo de ele ter de se explicar. Nunca imaginara que teria de olhar para o rosto dela enquanto ela lhe contava exatamente o que a sua ausência fizera.
— Tens razão. — disse apenas.
Hermione soltou uma risada trémula.
— É tudo o que tens para dizer? — perguntou ela com voz fraca.
— Não, mas é a verdade. — a voz dele saiu baixa e rouca.
— A verdade? — repetiu ela. — A verdade é que desapareceste. A verdade é que me deixaste sozinha. A verdade é que eu escrevi cartas que nunca tiveram resposta, procurei notícias tuas em jornais, perguntei por ti a pessoas que não queriam responder e passei meses a convencer-me de que não devia continuar a esperar.
Draco ficou imóvel.
— Eu escrevi-te — respondeu ele.
Hermione parou. A raiva não desapareceu. Apenas mudou de forma.
— Não recebi nada.
— Eu sei.
— Claro que sabes. Mas não sabes o que foi abrir a caixa do correio todos os dias e encontrar contas, publicidade e cartas de trabalho, mas nunca uma palavra tua. Não sabes o que foi guardar o teu último bilhete numa gaveta e relê-lo até o papel começar a desfazer-se nas dobras.
A voz dela tornou-se mais baixa.
— Não sabes o que foi deixar de contar às pessoas que estavas vivo porque já não tinha a certeza.
Draco sentiu o rosto perder a cor.
— Hermione…
— Não me interrompas.
Ele fechou a boca.
— Durante os primeiros meses, eu dizia a toda a gente que voltarias. Defendia-te. Dizia que devias ter uma razão, que não eras capaz de me abandonar sem explicação. Depois começaram a olhar para mim com pena.
Ela limpou as lágrimas com raiva.
— E eu odiei-te por isso. Odiei-te por me fazeres parecer uma idiota.
Draco baixou a cabeça.
— Depois deixei de falar de ti. Mudei de casa. Mudei de emprego. Cortei relações com pessoas que me perguntavam se ainda estava à tua espera. Aprendi a responder “não sei” quando alguém perguntava por onde andavas.
A respiração dela tremia.
— E sabes qual foi a pior parte?
Draco não respondeu.
— Não foi pensar que tinhas morrido. Não foi pensar que tinhas outra pessoa. Foi perceber que, mesmo depois de tudo, eu continuava a querer que voltasses. Porque podes dizer que tiveste de partir para seres digno, para que eu me orgulhasse de ti. Precisaste de 10 anos para isso. E no fundo, no fim de tudo, eu só precisava de te ter ao meu lado, não precisava de mais nada. Não tínhamos nada a provar a ninguém, seríamos suficientes um para o outros. Tu eras tudo o que eu queria.
A confissão ficou suspensa entre os dois.
Draco aproximou-se um pouco.
Hermione não recuou, embora também não se movesse na sua direção. A distância entre os dois parecia pequena demais para a quantidade de coisas que os separavam.
— Tens razão, não posso voltar atrás e apagar tudo… — continuou Draco — Não posso fingir que sei o que passaste. Não posso apagar os dez anos que estiveste sozinha, devolver-te as noites em claro ou as respostas que te neguei.
Fez uma pausa breve e continuou:
— Mas posso contar-te o que foi para mim.
Hermione cruzou os braços, como se precisasse de se proteger do que vinha aí.
— E isso irá fazer-me sentir melhor?
— Não sei, talvez sim, talvez não. O que te posso dizer, sendo o mais sincero possível é que não vim aqui para te fazer sentir melhor. Ou para eu me sentir melhor.
— Então por que vieste? — ripostou a morena.
Draco sustentou-lhe o olhar.
— Porque já não conseguia continuar a viver sem ti e sem te dizer a verdade.
Hermione desviou o rosto até que respondeu de forma amarga:
— A verdade chega tarde.
— Eu sei.
— Para algumas pessoas, chega tarde demais.
Draco sentiu a garganta apertar-se.
— Eu sei.
— Para de dizer isso. — Hermione mostrava-se novamente irritada.
— O quê?
— Que sabes. Não sabes. Não sabes nada.
Ele aceitou o golpe sem se defender.
— Tens razão.
Hermione fechou os olhos por um instante, exausta.
— Eu odeio quando fazes isso.
— O quê?
— Quando não lutas.
Draco ficou em silêncio.
Ela abriu os olhos.
— Antes, terias discutido comigo. Terias dito que eu estava a exagerar, que não compreendia, que tinhas razões. Terias feito qualquer coisa para não parecer culpado. Terias inventado qualquer desculpa. És um slytherin, bolas.
— Eu era um idiota.
— Eras.
— E ainda sou, provavelmente.
— Provavelmente?
Apesar das lágrimas, a boca dela quase se curvou. Foi tão breve que Draco poderia ter imaginado. Mas viu aquele meio sorriso que o seduzia sempre. E aquele pequeno vestígio da Hermione que conhecia foi suficiente para lhe devolver o ar aos pulmões.
— Não quero que me perdoes porque apareci aqui e disse as palavras certas — continuou ele. — Nem quero que acredites em mim apenas porque ainda sentes alguma coisa.
O rosto dela fechou-se.
— Eu não sinto nada.
Draco não respondeu. Hermione percebeu o silêncio e irritou-se.
— Não sinto nada por ti.
— Está bem.
— Não digas “está bem” como se não acreditasses em mim.
— Não disse que não acreditava.
Ela encarou-o.
Durante um instante, a raiva pareceu vencer a tristeza.
— Continuas insuportável.
— Também senti a tua falta.
Hermione soltou uma gargalhada curta, incrédula, que se desfez quase imediatamente.
— Não tens o direito de fazer piadas.
— Não era uma piada.
— Para ti, talvez não. Para mim, é quase ofensivo.
Draco franziu o sobrolho.
— Ofensivo?
— Sim. Porque dizes que sentiste a minha falta como se isso fosse equivalente ao que eu senti. Como se a tua saudade pudesse apagar as noites em que eu não dormi. Como se teres pensado em mim fosse o mesmo que teres estado aqui.
Ele não encontrou resposta imediata.
Hermione avançou um passo, agora movida por uma coragem amarga.
— Sentir a minha falta não te obrigou a voltar. Não te obrigou a escrever. Não te obrigou a procurar-me. Podias sentir a minha falta todos os dias e, ainda assim, escolheste continuar longe.
Draco fechou os olhos.
— Sim.
— Então não uses a tua saudade como prova de amor.
Ele voltou a abrir os olhos.
— Não uso.
— Usaste desde que chegaste.
— Não.
— Usaste quando disseste que nunca deixaste de pensar em mim. Usaste quando disseste que voltaste. Usaste quando olhaste para mim como se eu ainda fosse a rapariga que deixaste.
A voz dela tremeu.
— Eu não sou essa pessoa.
— Eu sei.
Hermione soltou um suspiro frustrado.
— Não sabes.
— Tens razão. Não sei quem és agora. Mas quero saber.
— Querer não chega.
— Eu sei.
Ela fechou os olhos.
— Odeio-te.
Draco não se mexeu.
— Eu sei.
— Não digas isso. Tu não sabes nada.
— Está bem.
— Também não digas isso. Nada está bem.
Pela primeira vez, ele quase sorriu. Hermione viu e a expressão dela endureceu.
— Não te atrevas a achar isto engraçado. — disse ela.
— Não acho.
— Parece.
— Estou nervoso.
— Devias estar.
— E é verdade que estou.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Ainda doloroso, mas menos rígido.
Draco aproximou-se mais, devagar, como se cada centímetro que os separava tivesse de ser conquistado e qualquer movimento brusco pudesse fazê-la desaparecer ou fechar-lhe a porta outra vez.
— Entraste na minha vida quando eu estava pronto para desistir de tudo: de quem eu era, do homem que queria ser, do futuro. Toda a minha vida mudou com as tuas palavras.
Hermione desviou o olhar e ficou imóvel.
— Não escrevi para te salvar.
Um pequeno sorriso triste apareceu no rosto dele.
— Eu sei.
— Então não transformes isso numa coisa que não foi.
Draco sustentou-lhe o olhar.
— Nunca transformei.
A resposta fez com que ela voltasse a encará-lo.
— Eu sei que não tinhas nenhum objetivo, Hermione, não mudei porque tentaste fazê-lo ou porque tivesses decidido salvar-me. Conseguiste-o apenas por seres quem eras.
Aproximou-se mais.
— E eu amei-te por isso.
Hermione prendeu a respiração. A palavra ficou entre os dois. Ele disse “amei” e não “amo”.
Draco percebeu a diferença no mesmo instante em que a disse, e Hermione também. O rosto dela fechou-se ligeiramente, como se aquela pequena alteração verbal fosse mais uma ferida.
— Amaste? — perguntou.
Draco sentiu o sangue fugir-lhe do rosto.
— Hermione…
— Não. Responde.
Ele não desviou os olhos.
— Amo.
A palavra saiu baixa, mas firme.
Hermione pareceu perder o equilíbrio por um instante. Draco levantou a mão, mas parou antes de lhe tocar, tinha receio da reação dela. Mas ela não se afastou. E para ele foi o suficiente. Tocou-lhe no queixo com uma delicadeza quase dolorosa. Hermione fechou os olhos por um instante, mas não fugiu.
O gesto tímido incendiou-lhe o corpo inteiro. O calor da pele dela sob os seus dedos gelados era familiar e desconhecido ao mesmo tempo. Draco quis aproximar-se mais, encostar a testa à dela, beijar-lhe as lágrimas e descobrir se o desejo que o perseguira durante dez anos ainda existia também nela. Mas não se atreveu.
Hermione abriu os olhos. O desejo estava lá. E o ressentimento também.
Talvez fosse isso que mais o assustava: ela ainda o queria, mas já não confiava nele.
Ergueu-lhe devagar o rosto, obrigando-a a encará-lo.
— Quando te deixei naquele dia de julho de 1999, eu disse-te tudo.
A voz quebrou-se.
— Disse-te que voltaria.
Uma lágrima escapou-lhe.
— E prometi que, quando esse dia chegasse, poderias ter orgulho em mim. Eu só queria que tu te orgulhasses. Tu eras a grande Hermione Granger, e eu era o Malfoy caído em desgraça. Não queria prejudicar-te, não queria que pensassem que me estava a aproveitar de ti. Achei sempre que o melhor para ti, era eu estar longe pelo menos durante uns tempos.
Draco respirou fundo, mas o ar pareceu não chegar-lhe aos pulmões.
— Mas eu voltei, Hermione. Estou aqui, agora.
Os dedos dele tremiam contra o rosto dela.
— Demorei.
Baixou a voz.
— Demorei demasiado.
A garganta fechou-se-lhe.
— E sei que talvez isso não seja suficiente.
Hermione continuou imóvel.
Draco aproximou-se apenas o bastante para que a respiração dos dois se misturasse. O espaço entre os lábios deles tornou-se insuportavelmente pequeno.
Hermione não se afastou.
Mas também não o beijou.
A espera foi pior do que qualquer rejeição.
— Talvez nunca seja suficiente. — disse Draco sem interromper o contacto visual — Mas nunca deixei de voltar para ti. Nem por um único dia.
Hermione afastou-se finalmente do toque dele.
A perda daquele contacto foi imediata, repentina e fria, mas Draco não tentou recuperá-lo.
Hermione olhava para ele como se tentasse decidir se acreditava ou não, como se cada palavra tivesse de atravessar dez anos e tudo o que acontecera, antes de alcançar alguma parte dela.
Hermione respirou fundo, tentando recuperar o controlo.
— Não podes voltar e esperar que eu seja grata por teres finalmente cumprido uma promessa que fizeste quando éramos crianças.
— Não espero.
— Não podes exigir que eu veja nisto uma prova de amor.
— Não exijo.
— Não podes tocar-me como se ainda soubesses onde pertenço.
Draco baixou os olhos.
— Não devia ter tocado.
— Não.
A palavra atingiu-o, mas ele não recuou.
— Tens razão.
Hermione apertou os braços contra o peito.
— E não podes dizer que me amas como se isso resolvesse alguma coisa.
— Não resolve.
— Então o que é que resolve?
Draco olhou para ela.
— Nada do que eu disser hoje irá resolver tudo.
A honestidade deixou-a sem resposta.
— Talvez nada do que eu faça — continuou ele. — Talvez já não haja nada que possa fazer. Mas, se houver alguma coisa, quero fazê-la. Mesmo que nunca me perdoes.
Hermione desviou o olhar para a janela.
Lá fora, a noite tinha engrossado. As luzes da rua refletiam-se no vidro, duplicando a cidade e tornando impossível distinguir o que estava dentro do que estava fora. De repente, a morena falou:
— Não quero esperar mais. A verdade é que estou cansada de esperar, Draco.
O loiro sentiu a frase como uma esperança e uma ameaça ao mesmo tempo.
— Não te vou pedir que esperes.
— Não quero que apareças quando te convém.
— Não vou.
— Não quero promessas.
— Então não farei promessas.
— Não quero palavras bonitas.
— Então dir-te-ei a verdade, mesmo quando for feia.
Hermione voltou a encará-lo.
— E se a verdade for que escolheste não voltar?
Draco ficou em silêncio. A pergunta que ele mais temera finalmente chegara.
— Então dir-te-ei isso também.
— E se a verdade for que houve momentos em que podias ter voltado e não voltaste?
Ele não respondeu de imediato. Hermione percebeu a hesitação.
— Houve?
Draco fechou os olhos.
— Houve. — confirmando.
A expressão dela desmoronou por um instante, não em lágrimas, mas numa espécie de vazio.
— Então é isso.
— Hermione…
— Não. Não tentes suavizar. Perguntei e respondeste.
— Houve momentos em que pensei que voltar seria pior para ti.
— E decidiste por mim.
— Sim.
— Sem me perguntar.
— Sim.
— Sem me dar a possibilidade de escolher.
— Sim.
Hermione riu, mas não havia humor algum no som.
— Pelo menos agora estás a ser honesto.
Draco sentiu a culpa tornar-se quase física.
— Eu achei que estava a proteger-te.
— Não me protegeste. Abandonaste-me.
— Agora eu sei. Desculpa.
— Não quero desculpas.
— O que queres?
Hermione abriu os olhos.
Durante alguns segundos, pareceu não saber responder.
Depois disse:
— Quero que percebas que não podes voltar a entrar na minha vida apenas porque finalmente estás preparado.
Draco ficou imóvel.
— Eu não estou preparado.
— Então por que estás aqui?
— Porque percebi que esperar até estar preparado, era outra forma de continuar a fugir.
Hermione observou-o em silêncio.
— E eu tenho de pagar o preço dessa tua coragem tardia?
— Não.
— Mas estou a pagá-lo.
— Eu sei.
Ela fechou os punhos.
— Não sabes! — a voz dela voltou a elevar-se. — Não sabes o que estás a fazer comigo! Não sabes o que significa olhar para ti e sentir que ainda te quero depois de tudo! Não sabes o quanto me odeio por isso!
Draco deu um passo na direção dela.
— Não te odeies.
— Não me digas o que sentir!
— Não estou a dizer.
— Estás sempre a dizer!
Ela empurrou-o no peito.
Desta vez, Draco recuou um passo.
Hermione ficou a respirar com dificuldade, os olhos brilhantes e o rosto molhado.
— Eu construí uma vida sem ti — disse ela. — Não é uma vida perfeita. Não é sequer uma vida que eu tenha escolhido completamente. Mas é minha. Aprendi a acordar sem esperar por ti. Aprendi a não imaginar o som da tua voz. Aprendi a não procurar o teu rosto em cada multidão.
A voz dela baixou.
— E agora apareces e tudo volta.
Draco não se mexeu. Hermione soltou um som de desespero, e disse baixinho:
— Eu odeio-te.
— Eu sei. — Draco aceitou, de coração partido.
— E amo-te.
A confissão dela saiu tão baixa que quase se perdeu entre os dois.
Draco ficou sem ar.
Hermione pareceu arrepender-se no mesmo instante.
— Talvez devesses ir embora — disse Hermione.
Draco levantou o olhar. Aquilo era o que temera desde o momento em que atravessara a porta.
— Se é isso que queres, eu vou.
Hermione olhou para a porta da cozinha, depois para o corredor, depois para ele.
— Não sei o que quero.
— Eu não quero ir, mas vou respeitar. — Draco falou abrindo a porta.
O ar frio do corredor entrou no apartamento, esfriando por um instante o calor da casa.
Draco ficou parado na soleira.
— Hermione?!
Ela não respondeu.
— Não vou pedir-te que acredites hoje em mim.
Ela manteve os olhos nele.
— Ainda bem.
— Mas vou dizer-te uma coisa.
— Não quero outra promessa.
— Não é uma promessa.
Hermione esperou. Draco segurou o olhar dela.
— O facto de teres aprendido a viver sem mim não significa que eu tenha o direito de voltar. Eu sei disso.
Ela não se mexeu.
— Mas também não significa que eu vá fingir que não existes só porque cheguei um pouco tarde.
Hermione sentiu o peito apertar-se.
— Vai-te embora, Draco.
Ele assentiu, baixou os olhos e virou-se para sair.
— Adeus, Hermione.
A palavra fez algo dentro dela estremecer.
Adeus.
Era a palavra que ele lhe dissera naquele verão, antes de prometer que voltaria.
Hermione agarrou-se ao balcão.
— Não digas adeus.
Draco levantou o olhar.
Ela parecia furiosa consigo própria.
— Não digas adeus como se tivesses o direito de decidir quando uma despedida termina.
Ele ficou imóvel. Depois fechou a porta devagar. Não disse mais nada.
Hermione em pé atrás da porta, a ouvir os passos dele afastarem-se pelo corredor do prédio. Cada passo parecia levar consigo uma parte do ar. Quando o som desapareceu, ela continuou imóvel. Sami aproximou-se e roçou-se-lhe nas pernas. Hermione baixou os olhos para ele.
— Traidor — murmurou. O gato miou.
Ela deixou-se escorregar até ao chão, encostando as costas à porta fechada. Do outro lado, Draco ainda estava parado no corredor. Tinha ouvido o som do corpo dela a deslizar pela madeira. Queria voltar a bater. Queria entrar. Queria abraçá-la até que o tremor dos ombros parasse. Mas não voltou. Pela primeira vez, compreendeu que respeitar Hermione talvez significasse suportar a distância que ele próprio criara.
Do lado de dentro, Hermione apertou os joelhos contra o peito. O amor continuava ali. A raiva também. E, entre os dois, havia tudo o que acontecera, tudo o que fora perdido e todas as palavras que ainda não tinham sido ditas.
Ela fechou os olhos.
A voz dele ainda ecoava na sua cabeça.
“Nunca deixei de voltar para ti.”
Hermione apertou os dedos contra a madeira da porta.
— Mentiroso — sussurrou.
Mas não sabia se estava a falar com ele ou consigo própria
Então ouviu três batidas suaves. O coração parou-lhe. Hermione ficou imóvel, sem saber se tinha imaginado o som. Vieram mais duas batidas. Desta vez, não havia dúvida.
Levantou-se devagar e pousou a mão na maçaneta.
— Draco? — chamou para confirmar se era ele.
Do outro lado, a voz dele chegou baixa, quase rouca.
— Esqueci-me de uma coisa.
Hermione abriu a porta apenas o suficiente para o ver.
Draco estava ali, com o cabelo desalinhado e os olhos fixos nos dela.
— O que foi?
Ele hesitou.
Durante dez anos, imaginara aquele momento. Agora que finalmente a tinha diante de si, todas as palavras pareciam insuficientes.
— De te dizer uma coisa que devia ter dito antes de partir.
Hermione não respondeu.
Draco aproximou-se um passo, mas não atravessou a soleira.
— Eu amei-te quando fui embora.
A respiração dela falhou.
— E amei-te todos os dias em que estive longe.
Hermione apertou a maçaneta.
— Não digas isso.
— Porquê?
— Porque não sei o que fazer com essas palavras.
— Não tens de fazer nada.
Ele baixou os olhos para a mão dela, ainda pousada na porta.
— Só precisava que soubesses.
Hermione sentiu as lágrimas voltarem.
— E agora?
Draco levantou o olhar.
— Agora vou embora.
— Mesmo depois de dizeres isso?
— Sobretudo depois de dizer isso.
Ela abriu um pouco mais a porta.
— Draco…
Ele ficou imóvel.
Hermione queria mandá-lo embora. Queria puxá-lo para dentro. Queria castigá-lo pelos dez anos de ausência e, ao mesmo tempo, esconder o rosto no peito dele como se nunca tivessem estado separados.
Em vez disso, estendeu a mão.
Draco olhou para os dedos dela como se fossem uma promessa perigosa.
— Não estou a perdoar-te — disse Hermione.
— Eu sei.
— Não estou a dar-te uma segunda oportunidade.
— Também sei.
— E ainda estou zangada contigo.
— Também já percebi isso.
— Mas não quero que vás embora assim.
Draco aproximou-se devagar.
— Como queres que eu vá?
Hermione fechou os dedos à volta da mão dele.
— Diz-me que voltas amanhã.
Draco ficou sem respirar.
— Hermione…
— Não é uma promessa — interrompeu ela. — É um pedido.
Ele entrelaçou os dedos nos dela.
— Volto amanhã.
Hermione baixou os olhos para as mãos unidas.
— E vais contar-me tudo.
— Tudo.
— Mesmo as partes que não consegues falar e que eu ainda não consigo ouvir.
— Mesmo essas.
Ela ergueu o rosto.
Draco estava tão perto que Hermione conseguia sentir o calor da sua respiração.
Durante um instante, nenhum dos dois se moveu.
Depois Hermione puxou-o pela mão.
Draco atravessou a soleira. Não a beijou. Não tentou abraçá-la. Apenas ficou diante dela, dentro da casa que ela construíra sem ele, com os dedos entrelaçados nos seus.
Era pouco. Mas, depois de dez anos, parecia o começo de tudo.
Sami passou entre os dois e miou, impaciente.
Hermione soltou uma pequena risada entre lágrimas. Draco também sorriu. Desta vez, ela não desviou o olhar.
— Amanhã, às oito — disse ela.
— Estarei aqui.
— Às oito e cinco, não abrirei a porta.
— Então chegarei às sete e cinquenta e cinco.
Hermione abanou a cabeça, mas o sorriso permaneceu.
Draco levou a mão dela aos lábios e beijou-lhe os dedos. Um gesto simples. Cuidadoso. Quase reverente. Hermione sentiu o coração apertar-se.
— Boa noite, Draco.
— Boa noite, Hermione.
Ele soltou-lhe a mão e recuou.
Antes que pudesse fechar a porta, Hermione chamou-o:
— Draco?
Ele voltou a olhar para ela.
— Não desapareças.
A expressão dele suavizou-se.
— Não vou.
Desta vez, Hermione acreditou o suficiente para fechar a porta sem sentir que estava a perdê-lo.
Encostou a testa à madeira e fechou os olhos.
Do outro lado, Draco permaneceu parado durante alguns segundos, com a mão pousada no mesmo lugar onde a dela estivera.
Depois afastou-se pelo corredor.
Amanhã voltaria.
E, pela primeira vez em dez anos, Hermione não precisou de imaginar como seria vê-lo outra vez.
Porque agora sabia.
O passado tinha regressado à sua porta.
E, com ele, todas as verdades que ainda estavam por contar.
Na manhã seguinte, às sete e cinquenta e cinco, Draco estaria diante daquela mesma porta, para contar cada detalhe do que tinha feito durante dez anos. Tudo o que tinha acontecido. Quem ele era depois desta ausência.
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