As Cores
32 Capítulo 31
Rodolphus entrou no quarto de Bellatrix, lento, com cuidado para não derrubar a xícara de chá. Temeu estar errado, mas anotou literalmente cada palavra de Kreacher, a quem recorreu, desesperado com os surtos violentos de Bellatrix, perturbada com vozes que só ela conseguia ouvir. Olhou a mulher dormindo, o cabelo estava desgrenhado e oleoso, e ela parecia realmente estar se dedicando à suas aulas, porque quanto mais mexia com Artes das Trevas, mas esquisita aparentava, as veias de seus braços ficavam visíveis, a boca seca e machucada, além da olheiras vermelhas.
Ainda assim, a achava bonita.
O Lestrange observa Bellatrix desde que a notou pela primeira vez, na aula de feitiços, ao lado de um pequeno Evan Rosier, cuidando da prima como um elfo fiel. Primeiro Rodolphus se assustou, nunca tinha visto uma criança tão pálida e quieta, parecia estar fora do eixo. Então os boatos correram, ela era doida, por isso era daquele jeito. Os amigos de Rosier eram uma barreira ao redor dela, ninguém mexia com Bella, eram garotos demais para enfrentar. Poucos anos depois sua irmã, Andrômeda, chegou, e tomou o posto de cuidado de Evan. Então Bellatrix melhorou um pouco, foi deixando de aparentar sempre dopada, mas tinham meses que ficava completamente esquisita, como se estivesse enlouquecendo de vez. Sempre tentou aproximar-se, mas era tão óbvio o fascínio dele para com ela que a garota instantaneamente o rejeitava.
— Se você me ama, Rodolphus — O homem despertou, aproximando-se e sentando-se na beira da cama, pegando a mão de uma Bellatrix frágil, desfalecida. — Me mate. Eu não aguento mais, ninguém da minha família tinha coragem… ninguém me amava o suficiente.
Ele fitou os olhos escuros da mulher, assustado.
— Não tem pena? De me ver nesse estado? — ela segurou as lágrimas. — Eu vou perder a batalha. — ela tocou a própria cabeça com o indicador. — Eu não consigo mais.
A acomodou na cama, ignorando o que dissera. A serviu de chá e quando tomou o primeiro gole, ameaçou chorar. Ela tocou o peito arranhando e vermelho, e Rodolphus soube que ela lembrou de Kreacher. Segundo o elfo, aquilo a faria dormir profundamente, e acordaria mais calma, ficaria dopada por alguns dias, o que era bom, pois assim conseguiria se recompor. A deixou tomando o chá e saiu do quarto, fechando a porta. Quase levou um susto ao ver o elfo doméstico no corredor.
— Temos visita, senhor Lestrange. — anunciou, retirando-se em seguida. Rodolphus respirou fundo, descendo as escadas atrás do elfo, finalmente chegando no hall de entrada. Foi até a sala de visitas, surpreso em ver Rabastan.
— Irmão. — o mesmo levantou-se e Rodolphus aproximou-se, o abraçando. Se fitaram em silêncio. — Vim sem avisar, peço desculpas.
— Você não é visita — pediu para que sentasse, mas Rabastan maneou a cabeça negativamente. — Não está cansado? A Cidadella não é nem um pouco perto.
— Eu voltei à trabalho — cortou Rabastan. Quis perguntar se o irmão estava bem, como estava sendo depois que Andrômeda fugiu com um nascido trouxa, mas não teve coragem, não quis compartilhar com ele a vergonha que ele deve ter sentido. — Preciso de um bom duelista.
Rodolphus franziu o cenho, confuso.
— Um bom duelista? Por que?
— Preciso visitar algumas criaturas mágicas — ele sorriu brevemente.
— Você conseguiu entrar no projeto de Slughorn? — Rodolphus sentou-se em seu sofá, impressionado. — Li nos jornais que se eles conseguirem elaborar essa poção Wolfsbane, vai mudar a vida de muita gente. O que não faz sentido, lobisomens são uma população muito pobre, não tem como comprar uma poção cara dessas.
Rabastan respirou fundo, fitando o irmão, ainda de pé.
— Rodolphus, você pode me acompanhar?
O irmão maneou a cabeça negativamente.
— Minha esposa está doente, não posso sair — declarou. — Sinto muito.
— Sua esposa será bem cuidada pelo elfo doméstico, como ela sempre foi. Se ela soubesse desse convite, exigiria que você fosse.
O homem fitou o irmão, desconfiado.
— Te encontro perto da estação de Londres, você sabe onde. — Apesar caminhou em direção da lareira, queimando em labaredas verdes e então sumindo.
Rodolphus levantou-se, subindo as escadas novamente, em direção do quarto de Bellatrix. Hesitou ao abrir a porta, levando um susto ao ver uma mulher de pé, fraca, abotoando lentamente seu vestido negro. Fechou a porta, boquiaberto.
— O que está fazendo?
Bellatrix estava ofegante, mas não desabotoou o vestido que cobria sua garganta. Virou-se para ele, pronta para arrumar o cabelo, sentando-se em sua penteadeira.
— Preciso fazer um ritual, hoje.
— Bella, você estava morrendo há dez minutos atrás, como você…? — ele foi até a xícara, a encontrando vazia. — O que é esse chá afinal? Eu gastei uns cem galeões pra conseguir fazer isso!
A mulher continuou penteando o cabelo, frágil.
— Bella… Você precisa descansar. — Bellatrix virou-se para ele, séria.
— Você tem um lugar para estar hoje a noite. — afirmou. — E nada de bom vai sair desse encontro se eu não fizer esse ritual.
Rodolphus fitou a esposa, confuso. Bufou, levantando-se, agora irritado. Abriu alguns botões que apertavam sua camisa, saindo do quarto, colocando a varinha por dentro da manga, como um bom Lestrange. Desceu as escadas novamente, aparatando antes de tocar a porta de entrada da casa. Assim que seus pés tocaram o beco escuro da King's Cross, Rabastan o aguardava com aqueles olhos intensos, como uma coruja no escuro.
— Na hora certa. — sorriu o irmão, começando a andar. Rodolphus respirou fundo, o seguindo pelo beco, sabendo exatamente onde iam entrar. O Lestrange arranhou o dedo direito e colocou o sangue na parede próxima ao fim do beco, a fazendo abrir-se. Rodolphus adentrou, mais uma vez enjoado, odiava o cheiro que rodeava aquele lugar asqueroso. Todos os cidadãos marginalizados se encontravam ali para tratar de negócios, sejam estes criaturas ou bruxos.
Rodolphus segurou a ojeriza ao ver Fenrir GreyBack, e seguiu, cada vez mais incomodado com as criaturas mágicas no local. Entravam no Salão Principal, onde tinham paredes vermelhas e pessoas falando diversas línguas que Rodolphus não entendia.
Rabastan seguiu por uma sala que o irmão nunca tinha entrado antes, calma, silenciosa, havia senhores duendes conversando ali, grisalhos, falavam como se estivessem em um café de negócios, a iluminação era tão baixa que ele quase não enxergava. Continuou seguindo o irmão após um duende abrir uma porta para eles, onde entraram no que parecia um estacionamento. No fim, um homem os aguardava e a cada passo o ódio de Rodophus crescia, foi tolo em não pensar nele.
— Esse é seu melhor duelista? — questionou Lord das Trevas ao ver, levantando a cabeça ainda com a boina que escurece seu rosto. Rabastan abriu espaço para Rodolphus.
— O melhor que conheço. — afirmou Rabastan.
Rodolphus e Lord Voldemort se fitaram em silêncio.
— Vamos ver. — e começou a andar para o escuro. Rabastan o seguiu, e aflito, Rodolphus também, mesmo não enxergando nada. Antes que pensasse em acionar Lumus, seu corpo caiu numa velocidade que roubou o ar de seus pulmões. Arresto Momentum, gritou, desesperado com a possibilidade de espatifar no chão, após alguns segundos bateu no invisível como se tivesse sido pego por uma manta. Colocou-se de pé na floresta escura, iluminada apenas pela lua, com Rabastan e Voldemort já caminhando.
Tocou o peito, apavorado com o susto, seguindo os dois. Um homem alto os aguardava em silêncio próximo a uma árvore maior que as outras. Não fazia ideia de onde estava, mas era muito semelhante à Floresta Negra que permeia Hogwarts.
Rodolphus, cada vez mais próximo, conseguia enxergar olhos brancos dentre as árvores, os observando. Não pegou a varinha, mas sabia que estava em uma toca de vampiros.
Assim que finalmente Voldemort alcançou o homem, começou a falar em uma língua que Rodolphus não entendia. O que parecia uma conversa aos poucos parecia se tornar uma discussão, e os olhos atrás das árvores começaram a ficar ao lado das árvores e então cada vez mais próximo deles. Rodolphus não esperou ordens, antes que um vampiro o atacasse, começou a estuporar tudo que via pela frente e se mexia. Um lhe atacara pelas costas, entrelaçando os braços no pescoço de Rodolphus, que urrou, sacando um athame, esfaqueando o máximo que conseguia quem o atacava pela frente e enfiou a varinha no olho do que tentava mordê-lo por trás, jogando alguma maldição que o fizesse explodir.
— Incarcerous — urrou, jogando meia dúzia de vampiros violentamente contra as árvores, onde cordas surgiram, os sufocando. O vampiro com quem Voldemort conversava estava caído, morto, e os dois já haviam avançado enquanto Rodolphus se livrava da abnormal quantidade de vampiros que aparecia.
— Avada Kedavra! — apontou para um que ressuscitara — Incendio!
Deixou os corpos queimando e seguiu, respirando pela primeira vez em minutos. A medida que andavam, mais escura se tornava a floresta e um cheiro horrível começou a dominar o local, deixando Rodolphus com vontade de vomitar.
— Que lugar é esse? — gritou Rodolphus, o cheiro de carne podre ia matá-lo, não conseguia avançar. Mais alguns passos e o cheiro começou a se explicar: havia montanhas e montanhas de corpos mortos montando uma estrada entre as árvores. Rodolphus cobriu a boca, prestes a regurgitar tudo que comera durante o dia.
— Esses são os corpos. — Voldemort virou-se para Rabastan. — Consigo mandá-los para a Ilha, mas preciso de você para fazer a poção.
Rabastan assentiu.
— É uma poção complexa, leva mais de dois anos para ser feita.
Voldemort esboçou um sorriso, apertando o ombro de Rabastan.
— Não tenho pressa.
O homem olhou ao redor e antes que Rodolphus pudesse dizer algo, um vampiro surgiu entre os corpos, pulando em Voldemort, agarrando seu pescoço, prestes a tirá-lo do chão. Um vulto negro barulhento surgiu pelo céu, aos gritos e pousou na terra, materializando-se em Bellatrix, ela colocou-se de frente para o vampiro, sem dizer nada, apenas o encarando e Rodolphus quase perdeu a sensibilidade das pernas quando viu a criatura recuar, parecendo ver o próprio diabo. Voldemort tocou o próprio pescoço, exasperado, pela primeira vez na vida assustado.
Ele recuperou-se, abrindo as mãos para o vampiro.
— Eu venho em paz — ofegou Lord das Trevas. — Eu preciso conversar com o senhor.
— Quem é você? — A voz distorcida causava agonia. O vampiro tinha quase três metros e continuou dando passos para trás, olhando Voldemort. — Não tem alma.
Virou-se para Bellatrix, que manteve-se estática.
— É deformada — disse, como se fosse um elogio.
Voldemort apertou os braços de Bella, quase a empurrando em direção do vampiro.
— Essa é Bellatrix Black Lestrange, uma das bruxas mais poderosas da atualidade. Ela anda ao meu lado pois acredita no que vim lhe oferecer hoje.
Teho Teardo & Blixa Bargeld — A Quiet Life
O vampiro, aparentemente, era líder. E aqueles corpos, Rodolphus não sabia mais se eram vítimas de Voldemort ou do vampiro, não importava. antes que o homem pudesse falar, mais vultos surgiram, o que despertou Rodolphus, que foi até Bellatrix, a segurando, temendo que durante algo alguém pudesse atacá-la. Aos poucos, várias pessoas foram surgindo, homens de negro, com máscaras de ferro e apenas um tirou sua mascara, apontando a varinha para o céu:
— Morsmordre — gritou e Voldemort foi até ele, agarrando seu sobretudo. Rodolphus reconheceu Avery.
— O que você pensa que está fazendo? — questionou Voldemort, abaixando a varinha de Avery, que parecia ter ido até o inferno e voltando. O homem secou o suor em sua testa e agarrou os ombros de Voldemort, maneando a cabeça negativamente. Rodolphus olhou para cima, apavorado com a iluminação acima deles, uma cobra verde entrava dentro de uma caveira gigante, parecia uma nuvem negra.
— Eles aceitaram sua oferta! Gigantes, lobisomens, todos eles! — gritou Avery — E eles estão vindo, estão vindo pra cá!
Rodolphus sentiu Bellatrix apertar seu braço, cambaleando. Voldemort olhou para trás, olhando brevemente para Bella, chocado.
— É daqui um mês, Avery, daqui um mês! — urrou Voldemort, o sacudindo. Avery soltou-se, empurrando o Lord das Trevas.
— Aparentemente eles não tem agenda, Milorde, porque eles vêem hoje! Então prepare a porra dos seus melhores homens. — gritou de volta.
Voldemort virou-se transtornado, de olhos arregalados, indo em direção dos homens de máscaras, gritando ordens. Após Avery tomar o céu com a caveira, mais e mais pessoas apareciam a um ponto que haviam mais vivos do que cadáveres. Rodolphus virou Bellatrix para si e a sacudiu, não acreditando que ela sabia de tudo aquilo e não dissera nada.
— Você é um bom homem — sussurrou ela, quase sorrindo. — O monstro não está na minha cabeça, mas na minha alma, como você viu… e este rosto despedaçado apenas reflete a abominação que me domina. — Ela apertou sua mão, e o chão tremeu, porque literalmente gigantes se aproximavam. — Você pode ir.
Ela passou a mão em seu rosto e uma máscara de ferro a cobriu. Tentou achar Rabastan ao seu lado, mas não conseguia diferenciá-lo, todos estavam de máscara.
Bellatrix soltou sua mão e misturou-se aos muitos outros, o deixando sozinho.
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