As Cores
28 Capítulo 27
DOIS MESES ANTES DO 1 DE SETEMBRO
Bellatrix fechou seu livro, espreguiçando-se na sala aconchegante.
Gostaria de poder conversar com Tom, mas ele realmente parecia apenas mais um dos escravos da Suprema Elizabeth, comendo em silêncio, estudando em silêncio, parecia alguém mudo. Entretanto, Avery conseguiu quase morrer duas vezes naquele mês, na primeira ao esquecer-se do silêncio e pedir mais vinho e na segunda por xingar ao machucar deu mindinho do pé. Os homens que falassem no Castelo seriam envolvidos por um encantamento e sufocariam até a morte.
Por serem convidados, as Guardas estavam liberadas para quebrar o encantamento caso algum deles cometesse o erro de falar, mas a Suprema fora direta quando encostou seu nariz no de Avery, sibilando que na terceira vez que ela ouvisse sua voz seja lá em que cômodo estivesse, seria a última vez que ele teria uma língua. A garota cobria sua boca, querendo rir, o que fazia Elizabeth olhá-la com carinho, confidente.
A Suprema, por alguma razão, gostara de Bellatrix e foi sua guia pessoal. Ela parecia dominar todas as matérias de Hogwarts com uma habilidade que faria Dumbledore sentir-se ameaçado. Os dias se dividiam em estudos escritos e práticos. Ela dizia que a mente de Bella era como um uma parede torta.
— É preciso quebra-la e construí-la novamente. — disse ela, enquanto caminhavam pelo jardim. A jovem observou Tom ajudando os outros escravos a construir uma ponte, movendo as mãos com habilidade, fazendo tudo se mover apenas com as mãos. Ele a olhou por um segundo, e voltou ao trabalho. — Precisa dominar todas as faces da magia.
— Faces? — Elizabeth pegou a varinha entre seus seios.
— Acha que preciso disso? — perguntou ela, suave. — Posso tocar fogo em um homem apenas com uma piscada. Europeus inventaram a varinha para refinar nossos costumes, deixa-los menos... Diabólicos?
Bellatrix sorriu lentamente, admirada.
— Mover coisas com a mente, controlar alguém apenas com a voz ou o olhar, desaparecer de um lugar e aparecer em outro, adivinhação e intuição, não se lembra de fazer tudo isso quando criança? — Bella assentiu. — Então você precisa ir para escola, “aprender” a usá-los. Eu gosto de dizer que você vai para a escola aprender a esquecê-los e aprisiona-los.
Ela continuaram a caminhar pelo vasto jardim do castelo. Bellatrix sorriu para as pequenas meninas gargalhando, fazendo um gatinho negro flutuar.
— Não vou negar, eu adoro o charme de uma varinha... Mas prefiro saber que também consigo viver sem ela. E expandir minha dádiva a ela. — disse Elizabeth, passando a mão delicadamente nas costas de Bellatrix. — Você tem muito potencial, sei que os Black são uma família nobre na Grã Bretanha, tem o sangue de Salazar, não?
Ela assentiu, sorrindo.
— Eu o conheci. — Elizabeth deu um suspiro apaixonado. — Um homem de sua época. Explodiria o mundo se visse o que acontecera conosco.
A jovem focou-se em seus estudos. Tomava café ao lado da Suprema e todas as suas conselheiras, fascinada com a conversa. Gostava de tomar seu chá e olhar Rodolphus servindo a mesa com os outros escravos, sentia-se no topo do mundo. Então afundava-se nos livros e guardou sua varinha em sua mala, pronta para expandir sua mente.
Noite inteiras em laboratórios de Poções, aprendendo até mesmo a fazer a poção que matou seu pai. A vasta lista de feitiços capazes de barbaridades. Levantar mortos de suas tumbas, explodir órgãos internos... Bellatrix estava sentindo-se mais poderosa que Dumbledore. Na quadrigésima noite no Castelo, Rodolphus invadiu seu quarto.
Ela fechou seu livro, enrugando a testa. O homem foi em sua direção e colocou o joelho sob sua cama, a beijando. Bellatrix continuou de olhos abertos, feito uma boneca sem vida. Ele terminou o beijo fervosoroso, a olhando, tocando seus seios, em busca de aprovação.
— Você vai me estuprar? — sussurrou ela. Rodolphus maneou a cabeça negativamente, confuso e ofendido. — Porque será um estupro toda vez que me tocar, pois sabe que não quero nada com você.
Levou um segundo para os olhos do homem se encherem de lágrimas. Ele sentou-se na cama, pegando as mãos de Bella, apertando contra seu peito. Tentando falar, mas conteve-se. Ele tocou sua barriga, erguendo as sobrancelhas e a garota desviou o olhar. Ele quer um herdeiro. Eles precisam de um herdeiro.
— Claro. — sorriu ela. — Me esqueci deste detalhe.
Rodolphus sorriu.
— Lhe darei um herdeiro em breve. — ela tocou seu rosto. — Mas não está noite.
Ele assentiu lentamente, magoado. Beijou as mãos de Bellatrix e saiu do quarto, lhe dando um sorriso esperançoso. A garota sorriu até ele fechar a porta, então matou o sorriso. Não ia ter filho nenhum... Não dele. Levantou-se da cama, determinada a encontrar Elizabeth ainda aquela noite, ia pedir algum feitiço ou poção que deixasse Rodolphus estéril. Andou pelos corredores de pés descalços, apertando-se em seu robe.
Chegou no corredor do quarto da Suprema e parou de supetão, escondendo-se. Tom estava de cabeça baixa diante da Guarda, a mais alta, Sibley. A porta do quarto da Suprema abriu e ela saiu, tocando o ombro de sua Guarda.
— Vá dar uma volta, Sibley. — ordenou ela. A Guarda reverenciou a Suprema e virou o outro corredor, afastando-se. Bellatrix cravou seus olhos em Tom, completamente teso diante de Elizabeth, que passou a mão em seu corpo de forma vulgar, sem tirar seus olhos dos dele. Bella passou a mão em seu rosto molhado, trêmula, sentindo seu coração quebrar ao vê-la beijá-lo. Quando o beijo finalmente acabou, Tom agarrou seu cabelo como se fosse um animal, a empurrando para dentro do quarto, fechando a porta bruscamente.
Bella continuou impassível no corredor e na noite que passou acordada, imaginando o corpo nu dos dois em uma bagunça pecaminosa. No café, olhava Elizabeth com inveja e ressentimento, mas a Suprema parecia revitalizada, sorrindo para os quatro cantos. Uma coruja invadiu o local, jogando uma das cartas em Bellatrix. Ela abriu, sem vontade, e passou os olhos na letra delicada e fina de Narcissa, parando de respirar.
Bellatrix sentiu seu coração parar de bater, cobrindo sua boca com horror.
— Tudo bem, minha pequena? — questionou Elizabeth, limpando a boca com um lenço. Todas as Conselheiras olharam Bella, curiosas.
Ela olhou Rodolphus, com os olhos cheios de água e o homem tentou dar um passo em sua direção, mas uma Guarda o impediu.
— Minha irmã... — disse ela, rouca, sentindo as lágrimas pularem de seus olhos. — Minha irmã fugiu com um sangue ruim!
...
UMA SEMANA ANTES
Narcissa andou pela Travessa do Tranco, coberta por sua capa e pela touca que cobria seu rosto. Entrou no bar, desviando-se das criaturas mágicas que rodeavam o local. Olhou ao seu redor, cobrindo metade do rosto com um lenço. A taberna era escura e imunda, o cheiro de suor e bebida era predominante entre aqueles assassinos de aluguel.
Afundou suas botas, de cabeça baixa, e foi em direção do barman, enchendo uma caneca de cerveja amanteigada. O homem tinha dois metros de altura e seu rosto era tão maltratado que beirava a desfigurado.
— O que vai querer? — questionou ele, com uma voz rouca.
A garota enfiou sua mão no bolso da capa, tirando uma gorda bolsa de galeões. Colocou sob o balcão e empurrou lentamente em direção do barman, que parou o que estava fazendo, segurando-se no balcão, tentando ver o rosto escurecido pela capa.
— Quero saber quem é o melhor assassino de aluguel dessa espelunca. — disse Narcissa, seca.
Demorou um pouco para o barman pegar a bolsa de galeões, guardando debaixo do balcão. Ele encheu outro copo para um homem manco que estava a dois bancos de distância de Narcissa e voltou, limpando as mãos rapidamente.
— Norton. — disse ela, apoiando-se no balcão novamente. — Só trabalha com quantias acima de trezentos galeões. É o melhor assassino de Londres, foi ele quem quase explodiu a cara de Alastor Moody em 62.
Ele apontou brevemente e Narcissa virou-se para olhar. Era o único homem que estava com a mesa vazia, analisando um anel em suas mãos, acompanhado de um uísque. Ele tinha cabelos grisalhos e uma cicatriz cortando o rosto. Ela foi até sua mesa, desviando das mesas lotadas de homens gritando, gargalhando, batendo canecas ou impondo varinhas um contra o outro. Parou diante do homem, que não se deu trabalho em olhá-la.
— Posso ajudar?
— Preciso dos seus serviços. — disse Narcissa, nervosa. — Quero que ache uma pessoa.
— É mesmo? — indagou ele, irônico. — E depois? Vamos tomar um chá?
Narcissa colocou as duas mãos nos bolsos e pegou duas bolsas pesadas de galeões, colocando sob a mesa. O homem fitou as bolsas e então olhou para a pessoa coberta, com o rosto escurecido.
— Eu vou lhe dar mil galeões adiantado para que ache essa pessoa... — Narcissa colocou suas mãos sob a mesa, com suas luvas de couro. — E coloque seus melhores homens para vigiá-la. Se um Auror aparecer, mate. Se qualquer pessoa tentar encostar ou fazer algum mal a esta pessoa... Mate.
— E o restante? — indagou Norton, colocando seus cotovelos sob a mesa.
— Terá que manter essa pessoa a salvo pelo tempo que eu determinar. — ela colocou uma das mãos por dentro da capa, pegando um enrolado de pergaminhos no bolso interno. Colocou sob a mesa e Norton pegou, abrindo. Ele analisou a descrição, e a foto da garota de feições salientes, com madeixas castanhas e olhos expressivos.
— Andrômeda Black... — disse ele. — Ok, e para quem faço esse serviço?
— Loretta. — ela tirou sua capa lentamente, revelando apenas os olhos azuis. O homem sorriu, fascinado. — Irá receber cinco mil galeões por mês para manter ela a salvo. Ela mora com um homem... Não precisa protegê-lo. Ela... — os olhos azuis de Cissy vacilaram por um segundo. — Está grávida... Então... Caso essa criança nasça e você ainda esteja a protegendo, a criança também entra no contraro.
Ele recolheu as bolsas e o pergaminho, se levantando. Olhou para baixo, tendo certeza de que estava sendo contratado por uma criança. Narcissa passou os outros detalhes, não tendo certeza do que estava fazendo, mas sabia que era algo que Cygnus faria.
Era o que Cygnus faria.
2 DE SETEMBRO
Druella passou a mão delicadamente em sua testa, sentindo-se mais velha que Dumbledore.
Ela ignorou os resmungos de reprovação de Walburga e voltou a olhar o nome e o rosto de Andrômeda na tapeçaria, completamente devastada. Agradeceu de certa forma o fato de Cygnus estar morto, ele infartaria de dececpção. Havia uma semana que Andrômeda tinha fugido, esperaram, esperançosos, que ela aparecesse na Estação King Cross, mas Druella segurou as lágrimas ao enviar apenas Narcissa para Hogwarts.
Tomou mais um gole de vinho, perdendo a paciência com Walburga e agitando sua varinha na direção da mulher, lhe dando um choque. A mulher virou-se, de olhos arregalados, furiosa com a expressão impassível de Druella.
— O quê? Não posso me indignar com a desgraça que sua filha instaurou sob nossas cabeças? — debochou ela, cruzando os braços. — Que surpresa, riu tanto quando Sirius fora para a Grifinória... Isso é um sinal dos Deuses, Druella, para você abaixar sua crista...
Druella abaixou os olhos, triste demais até mesmo para debochar de Walburga.
— Quieta. — sibilou Orion, afundando seus olhos nela. — Não é hora para brigas.
— Você deve ser amaldiçoada ou algo do gênero, minha filha. — Lucretia abanou-se com seu leque, estralando os dedos para Kreacher, impaciente. — Uma filha louca e outra traidora, o que Narcissa irá nos trazer?
Walburga gargalhou para o teto, ao lado do enorme quadro com sua pintura arrogante e prepotente. O quadro tinha rasgos que a própria Walburga fizera em um surto ao descobrir que Sirius fora para Hogwarts o cortando em mil pedaços com um athame amaldiçoado, aos gritos. Alphard apertou a mão de Druella, lhe dando apoio. A mulher deu um leve sorriso para o homem, terminando sua taça.
— Ainda há tempo, podemos acha-la e trazê-la a força. — disse Orion. — Já mandei meus melhores homens vasculharem a Grã-Bretanha inteira, ela não vai conseguir fugir.
— Não quero essa garota aqui dentro novamente. — cortou Walburga, enfiando seu dedo na cara de Orion, de olhos arregalados. Druella sempre indignava-se em ver o quão semelhante Bellatrix era a ela. — É uma traidora, deitou-se com o inimigo. É uma porca... — olhou para Druella, sorrindo perversamente. — Imunda. — sibilou lentamente.
— Bem, tenho que concordar com Walburga neste ponto. — Lucretia chutou Kreacher após pegar uma taça de água de gilly. — Não se esqueçam o que fizeram com Marius depois dele se casar com aquela sangue ruim...
Ela ergueu a sobrancelha de forma maléfica ao bebericar sua bebida. Alphard olhou para a mulher após girar os olhos.
— Quer matemos Andrômeda? — questionou ele. — Não estou em 1800, Lucretia.
— É assim que se vinga de um traidor! — sibilou Walburga, violenta. — Tirem o nome dessa garota de nossas heranças, tirem tudo dela, tirem até mesmo o nome se for possível!
Orion ainda tinha o rosto coberto pela mão direita, exausto.
— Druella por que você não a forçou a tomar a maldita poção na mesma noite? — indagou Orion, com uma esgotada. A mulher baixou seus olhos para sua taça, observando Kreacher enchê-la com cuidado. — Nada disso estaria acontecendo agora.
Walburga deu um resmungo de escárnio e olhou a mulher, maneando a cabeça negativamente.
— A vergonha de ser avó de um sangue ruim comeu sua língua, Druella? — debochou ela. Lucretia remexeu-se no sofá, espalhafatosa com suas roupas do século passado. A mulher loura olhou para a janela, suspirando.
— O que Cygnus faria? — perguntou ela, em voz baixa.
Os Black ficaram em silêncio.
— A mataria. — disse Lucretia.
— Acharia essa garota nem que fosse no fim do mundo e a traria de volta. — disse Orion.
— Faria com que sumisse do universo.— disse Walburga, com os olhos impiedosos.
Druella olhou Alphard, em busca de refugio, mas o homem apenas abaixou a cabeça.
— Nunca saberemos. — disse ele, parecendo tão triste quanto ela. — Ele era único. É impossível recriar seus pensamentos.
A porta principal fora aberta violentamente e Orion levantou-se da cadeira quando Bellatrix apareceu na sala. Druella olhou a filha, tocando seu peito, fraca demais para correr até ela. Entretanto, Bellatrix caminhou até a tapeçaria e ergueu sua varinha, queimando o nome de Andrômeda, fazendo a sala explodir em gritos de reprovação e felicidade. Ela soltou-se do aperto da mão de seu tio Orion e arregalou os olhos para sua mãe, psicótica. A voz da filha estava fria e rouca, com os lábios rachados:
— Façam uma fogueira. — ela tirou suas luvas. — Vamos queimar Andrômeda.
Ela olhou o rosto semelhante a Bellatrix atrás da mesma, mas ao contrário do rosto de sua filha, Walburga tinha um sorriso venenoso. Lucretia vibrou, animada e Orion simplesmente saiu da sala, resmungando.
Druella olhou para a janela novamente, ignorando a bagunça que se instaurara na sala, e os gritos de protesto entre Bellatrix e Alphard. Confiou em sua filha. Cometeu um erro. Andrômeda não hesitou em traí-la, desaparecendo assim que ela abrira seus olhos na manhã seguinte. Cometeu um erro terrível.
Agora tinha que saber o que fazer em seguida.
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