As Cores
15 Capítulo 14
Narcissa olhou-se no espelho, fascinada.
Parecia ter um relacionamento com sua beleza. Brigavam, como todo relacionamento saudável, onde ela se arranhava e se machucava, irritada, escondendo-se de tudo e todos, apavorada com sua beleza e com o fato de ser uma faca de dois gumes. E então, faziam as pazes. E ela passava horas olhando-se no espelho, completamente apaixonada por suas curvas, seus seios infantis, sua vagina e todos seus detalhes. Sua penugem clara, seus olhos dóceis.
Ela nunca amou tanto alguém como se amava.
Fez sua gravata com toda a delicadeza que conseguia, sentindo o olhar invejoso de suas companheiras de quarto. Pegou seu material e deu-lhes um sorriso dócil, descendo para a Sala Comunal.
— Bom dia, MacNair, bom dia, Irina, como passou a noite? Bom dia, Pietro... — ela conhecia a todos, e todos conheciam Narcissa Black, onde quer que ela estivesse. Se quisesse, Cissy poderia ficar com quem quisesse, escolheria a dedo. Porque todos os garotos, sem excessão, querem uma garota legal como Cissy. Porque homens, como ela bem sabe, são seres alienados, egoístas e infantis, dos quais só querem alguém que goste de absolutamente tudo que eles gostam, dependendo do gosto deles e a única semelhança entre todas elas é que provavelmente serão brancas, louras e magras.
Narcissa assistiu suas aulas do dia, era muito inteligente, entendia de tudo, mas não levantava a mão sempre, sabia se conter, não seria ser tachada de nerd, mas também não seria tachada de burra. Garantia estar sempre rodeada de pessoas, por mais que os achasse um bando de imbecis. Observou Gilderoy Lockhart ao longe, reforçando que eles tinham um trato que deveria ser cumprido.
Agora que finalmente era noiva de Lucius, ela fazia questão de passar a maior parte do seu tempo perto do garoto. Gostava de fingir que não sabia absolutamente nada de Feitiços ou DCAT apenas para ouvi-lo explicar, impaciente. Ela passa os minutos, admirando suas feições, completamente encantada.
Gostava da forma como seus olhos pareciam berrar coisas para ela, mesmo que fossem coisas que ela provavelmente não gostaria de ouvir. Gosta de tocar levemente sua mão, sentindo sua pele, é fascinada até mesmo pelos detalhes de cada poro em seu rosto. Narcissa quebraria o mundo no meio por Lucius se ele quisesse.
Após notar a ausência do mesmo no almoço, ela retirou-se, preocupada. Andou pelos corredores, cumprimentando todos os conhecidos, subindo as escadas e fazendo a vistoria em cada corredor. Pegou o bombom no bolso de sua capa, sorrindo feito uma idiota. Faria com que ele gostasse dela, mesmo que aos poucos. A história deles seria mais um conto de romance, mas revolucionário, já que o mocinho iria se apaixonar lentamente pela mocinha, sentindo-se um tolo por ter perdido tanto tempo.
— Eu sinto muito por você. — Cissy grudou na parede, impedindo-se de virar o corredor, espiando quem estava do outro lado. Seus olhos se arregalaram quando ela viu Lucius e Nikolina na parede, próximos a um armário de vassouras. Ele parecia entretido em mexer nos cachos dela enquanto a garota acariciava sua mão. — Não tem como mudar isso...?
— Não, meu pai me mataria. — respondeu ele. — Estou começando a me tornar religioso de tanto que rezo para que ela tenha um infarto fulminante ou qualquer coisa do gênero...
Nikolina riu de Lucius e o garoto pareceu encantado com o riso, aproximando-se para um beijo. Cissy olhou a cena, dura, sentindo um vácuo no lugar de seu corpo. Era como se cada célula de seu corpo tivesse parado para observar a cena. As mãos de Lucius no corpo escuro de Nikolina, cheio de desejo e malícia, a forma como os lábios dos dois se completavam perfeitamente e cada virada, compartilhando um único sentimento. Amassou o bombom em seu bolso, sentindo sua mão ter o poder de quebrar uma parede.
Narcissa saiu do lugar e refez o caminho, normalmente, como se suas pernas andassem sozinhas. Voltou a sentar-se ao lado de Clementine e ouviu seu monologo, servindo-se de mais comida. Olhou o filé em seu prato, sangrar lentamente. Cortou metodicamente, sentindo-se um robô. Perfurou lentamente um pedaço com seu garfo, assistindo o sangue esvair-se.
Colocou na boca.
Mastigou.
Assistiu o garoto entrar no Salão, sem Nikolina, e sentar-se não muito longe dela. Cissy lhe deu um sorriso leve e amigável, e ele acabou retribuindo, com a boca vermelha de tanto pressionar na de Briedz. Cissy nunca foi beijada. Cissy nunca foi tocada. Cissy nunca foi amada. Ela guardou tudo isso para que Lucius usufruísse, como um novo brinquedo que ninguém tem.
Cortou outro pedaço de carne, tranquila.
...
Narcissa encomendou da Travessa do Tranco a melhor capa invisível que eles tivessem e praticou arduarmente durante noites sua Transfiguração. Passou noites em claro, trancada no banheiro do dormitório, lendo como se transfigurar tão bem quanto um metamorfomago. Passou a prestar toda a atenção que tinha nas aulas de transfiguração, treinando sempre que podia. Todas as manhãs, observou o dormitório das meninas do 4º ano, atenta a Nikolina. Fazia o mesmo durante a noite, muitas vezes fingindo que errou de dormitório, para ter uma completa visualização do quarto e de onde ela dormia.
Durante o dia, nas horas vagas, ela ficava no banheiro. Estudou as encanações do Castelo, tentando entender como funcionava o sistema no banheiro. Cissy aproveitava quando o banheiro estava vazio para desmontar os chuveiros, aprendendo sobre cada peça, como uma mini mecânica. Aprendeu a montar e desmontar o chuveiro e gravou bem o sistema de encanação.
Não foi difícil para ela cumprir sua meta e continuar sendo uma pateta por Lucius, lhe dava a dose diária de ego, cumpria suas obrigações e passou a “estudar” mais do que o normal, desaparecendo em armários de vassoura, passagens secretas e o banheiros interditados.
Encomendou um pressurizador e estudou o manual de instruções no Corredor Proibido, sozinha. Segundo o mapa de Hogwarts que roubou na sala de Filch, a caixa d’agua do banheiro masculino era bem próxima a terceira janela próxima do último box. Durante a noite, subiu de vassoura até a caixa d’agua, analisando bem o local. Desceu e observou a locação do cano único.
Então Narcissa começou a transfigurar-se, mas, para ter certeza de que não iria falhar, usou a capa de invisibilidade como proteção. Entrou no dormitório masculino e observou Lucius e seus colegas comentarem sobre as coxas das garotas do sexto ano. Ela sorria, fascinada com o garoto louro de calções, sequer imaginando que sua noiva estava bem ali, sentada na cadeira próxima a porta.
O observou durante o sono, até que despertasse.
Analisou como ele recolhia suas roupas e descia para um banho matinal, tirou uma foto do box que ele utilizou e anotou em sua cardeneta. Assistiu as pessoas que passavam no corredor daquele banheiro, e sorriu ao ver que Nikolina era uma delas. Já no café, tirou sua capa e tomou café normalmente, o bajulando como sempre. Roubou o horário de Louie Hoffman, melhor amigo de Lucius, e gravou em sua mente a semana dos garotos. A noite, fez a mesma coisa que fizera na noite anterior. Pegou seu despertador, o observando em suas mãos, aprendendo como funcionava. Olhou para o garoto adormecido em sua cama, semelhante a um anjo.
Sorriu, dócil.
Observou sua rotina todos os dias, gravou qual seu box preferido, que horas entra e sai do banheiro. Quem entra e quem sai desse banheiro. Quem passa naquele corredor todos os dias, naquele horário.
Observou o dormitório de Nikolina esvaziar-se e entrou no local, pegando suas roupas sujas com luvas, esfregando, e seus fios de cabelo no travesseiro, guardando. Todas as manhãs, pegava alguns fios novos.
Lucius tomava banho em um local estratégico, apenas quatro andares para o Salão Principal e mais um para sua primeira aula do dia, já que ela escolhera que ele receberia seu presenta na sexta feira, na véspera de seu maior presente. Muitas pessoas passavam por ali, porque era a concentração da maioria dos banheiros do Castelo, ele parecia estar ajudando a garota.
No fim do mês, Cissy pegou a primeira página de sua cardeneta, checando sua lista:
1 — Aprender os horários de Lucius, check.
2 — Aprender os horários de Nikolina, check.
3 — Aprender a rotina do corredor, check.
4 — Sabotar o encanamento do banheiro do quarto andar, check.
5 — Gravar muito bem qual box ele usa, check.
6 — Sabotar seu despertador, check.
7 — Sangue.
8 — Nikolina.
Narcissa olhou seus últimos itens, respirando fundo.
Havia chegado a hora.
Enquanto dedicava-se ao seu planejamento, Gilderoy Lockhart também estava fazendo sua parte após ter recebido a gorda bolsa de galeões de Cissy. O garoto, da mesma forma que sabotava suas próprias provas, sabotou as provas de Nikolina, colocando as respostas erradas onde ela acertara.
O garoto passou algumas noites em claro, conversando com seus informantes, sabendo quem era o pior e o melhor aluno do quarto ano da Sonserina, assim trocando as provas de Nikolina e do aluno que conseguia ir mal em tudo. Havia alguns monitores que trabalhavam para ele, e Gilderoy não era idiota de ir nas matérias mais difíceis (como Transfiguração, onde ele teria que assaltar o armário de Minversa McGonagall), preferia as matérias de Herbologia e Poções, onde ele sabia que seria mais fácil.
O garoto sentia-se um pouco mal quando a via chorando nos corredores, com seus amigos bolsistas, assustada com sua prova.
Pagou um primeiranista para que falasse que Nikolina o ameaçara, e pagou outros para que fossem a testemunha do garoto. Gilderoy sorriu enormemente quando viu que tinha conseguido sujar a ficha da garota. Nos primeiros dias de fevereiro, o Lockhart encontrou a Black, lhe dando o feedback de suas conquistas, dizendo que ela poderia dar a cartada final.
Narcissa e Gilderoy apertaram as mãos, trocando um olhar confidente.
Gone Girl Soundtrack — Technically Missing
A garota encomendou da Travessa do Tranco uma garrafa de vinte litros de sangue de porco e um porco morto. Já era madrugada quando Cissy voltou pela passagem secreta após aguardar por horas em Hogsmeade a encomenda. Ela jogou em cima do galão e do porco a capa da invisibilidade e transfigurou-se todo o caminho de volta. Às cinco da manhã do dia treze de fevereiro, Narcissa colocou as luvas que esfregou nas coisas de Nikolina e colocou todo o sangue de porco na pequena caixa d’água que conectou na caixa original, onde o sangue sairia apenas pelo pressurizador que comprou, apenas para o box em que Lucius utilizava todas as manhãs.
O cadáver do porco ficou guardado em seu malão, revestido por um plástico transparente.
Colocou uma barreira quando retirou a peneira do chuveiro, e colocou uma faixa de interditado no box em que ele usava. Soltou alguns fios da garota ao redor do box e tirou as luvas, guardando. Voltou para a Sala Comunal, e observou todos os seus colegas de dormitório descerem. Confiou na maldade dos Sonserinos ao não acordarem Lucius naquela manhã e se tudo desce certo, ele acordaria com cinquenta minutos de atraso, conforme programara seu despertador.
Desceu as escadas para o quarto andar e passou algumas vezes no corredor do quarto andar, observando o movimento. Faltando dez minutos para Lucius despertar, Narcissa entrou no banheiro com a capa da invisibilidade e a tirou quando viu que não tinha ninguém. Trancou o banheiro e tirou a faixa do box de Lucius, tirando também a barreira na peneira do chuveiro, abrindo sua bolsa, pegando outros bloqueadores e colocando nos outros chuveiros. Conferiu o relógio.
Três minutos.
Colocou também nas torneiras, garantindo que não sairia água limpa de nenhum lugar. Saiu do local e misturou-se na multidão, todos já tinham tomado café, indo para suas Salas ou apenas vagando. Em qualquer segundo, Lucius Malfoy apareceria desesperado. A garota pegou a maçã em sua bolsa e mordeu, querendo sorrir, mas seu rosto não o fazia naturalmente. Encostou-se na parede, assistindo a multidão ao seu redor, indo para lá e para cá.
Lucius Malfoy apareceu, com o cabelo desarrumado, correndo em direção do banheiro. Narcissa sentiu seu coração parar. Aguardou quase dois meses para aquele acontecimento. Fitou a mordida em sua maçã, ignorando a falação ao seu redor.
Houve um grito.
Algumas pessoas pararam, enquanto os gritos aumentavam. Um menino do último ano abriu a porta do banheiro masculino e não demorou muito para que a multidão tentasse se estreitar dentro do banheiro, fazendo a falação ecoar pelo banheiro. Narcissa empurrou algumas pessoas para fora de seu caminho, rumo a Sala Comunal.
— Ele está coberto de sangue! — contou uma garota para a amiga, enquanto Cissy saia do corredor vazio. A garota correu para sua Sala Comunal vazia e colocou novamente a capa da invisibilidade, enfeitiçando seu malão. Conferiu se o local estava vazio e foi até o dormitório de Nikolina, empurrando o malão dela e colocando o seu. Não precisou enfeitiçar, já que ambas tinham as mesmas iniciais. Colocou luvas limpas luvas e pegou as coisas da garota, colocando em seu armário, que já era miseravelmente vazio.
Saiu de seu dormitório e voltou para o seu, enfeitiçando o malão vazio. Colocou pacientemente seus pertences no malão. Dobrou suas camisas delicadamente, pensativa. Como ousa me trocar por uma latina, ela pegou suas saias, tirando alguns fiapos. Você não vai fugir de mim, Lucius. Não depois do que fez.
Pegou tudo que podia incriminá-la e jogou no lixinho, tocando fogo em seguida. Formou uma bolha de ar ao redor, para que a fumaça não fugisse.
Narcissa olhou-se no espelho, fascinada.
Tocou seu rosto, espantada. Como alguém iria saber que seu cérebro era sádico e sociopata quando olhasse seus dóceis olhos azuis? E sua boca rosada? Tocou seu nariz delicado, sorrindo levemente, completamente apaixonada. Aproximou-se do espelho, beijando a si mesma. Afastou-se lentamente, olhando suas mãos magras sob o espelho, sorrindo para seu anel de diamantes.
Olhou-se no espelho novamente, sentindo seu rosto distorcer-se.
Porco
/ô/
substantivo masculino
2.
p.ext. indivíduo sujo.
3.
fig. indivíduo moralmente baixo, de mau caráter.
4.
p.ext. o diabo.
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