As Cores
9 Capítulo 08
A garota de cachos negros não conseguia ter animação para nada.
Ela sempre ficava dessa forma após um surto, gostava de ficar sozinha e isolada, apenas ela e sua Deusa. Dedicava-se a orações extensas e leituras aprofundadas em seu Livro das Sombras. Vestia apenas negro e enfiava algodoes no ouvido, evitando as vozes em sua mente. Já era quase fim das férias quando Rodolphus resolveu visitar a noiva, mesmo com Druella lhe dando indiretas de que Bella não estava muito bem.
Ela fora lavada e cuidada por suas irmãs, e posta na Sala de Estar para aguardar Rodolphus, ainda com seu olhar vazio e dopado. Ela acariciava as próprias unhas, piscando por força biológica, já que sequer parecia estar acordada.
— Doce Bella... — exclamou Rodolphus, assustado com o estado da garota. Druella saiu da sala assim que viu o convidado sentar-se ao lado de sua filha. A garota bateu seus olhos em Rodolphus, ainda impassível. O garoto tocou sua mão, ainda atordoado com a imagem de uma Bellatrix são frágil e vulnerável.
Seria mais fácil se ela fosse assim o tempo inteiro, pensou, sentindo-se mal em seguida.
— Eu fiquei preocupado com você, minha senhora. — sorriu ele. — Queria ter vindo antes, mas sua mãe me impediu.
Bellatrix continuou muda, fitando o nada. Ele pegou o embrulho em seu casaco, dando a ela. A garota fitou o pacote em seu colo, sem nenhuma curiosidade.
— Vamos, abra, você vai gostar. — ela rasgou o embrulho, sem animação. Tirou da caixa um punhal negro, muito bem detalhado e pesado. Era visivelmente algo de décadas. — É um Athame¹... Sei que é muito religiosa, então quis lhe presentiar...
Os olhos da garota brilharam para o punhal, pegando-o como se fosse um recém nascido. Sorriu levemente, emocionada. Estava oficialmente protegida dos espíritos do mal. Abraçou Rodolphus, ainda admirando seu athame. O garoto beijou seu ombro, sorrindo enormemente com o abraço longo. Sabia que ela estava fora de si, mas estava mais atraído por aquela versão de Bella do que da versão ruim.
Assim que se desgrudaram, Rodolphus beijou sua mão, sorrindo com os olhos. Sussurrou coisas doces em seu ouvido, porém Bella continuou impassível, fitando seu athame, o acariciando. Tocou seu pentagrama, fechando os olhos e sorrindo levemente. Pensou em sua Deusa.
...
Rabastan pegou um livro na estante, interessado.
Andrômeda, ao lado dele, analisou sua escolha. Era sobre política, ela não era muito imersa em história, politica e filosofia, mas o garoto parecia muito interessado. Ela se perguntou que diachos ele fazia que tinha olheiras vermelhas tão fortes e marcadas, era como se estivesse há tanto tempo sem dormir que seus olhos nunca mais voltaram ao normal.
— Você já leu As Brumas de Avalon? — questionou ele, olhando-a. Ela gostava de sua voz educada, mas seca. Era como se ele não tivesse muito interesse nos outros.
— Nunca ouvi falar. — o garoto ergueu as sobrancelhas. — É bom?
— É excelente! Conta as histórias das mulheres que viveram ao redor do Rei Arthur, desde sua mãe a Morgana... Posso lhe dar se quiser.
— Sim, eu gostaria de conhecer... — sorriu ela. Eles eram da mesma sala, do mesmo ano, e as únicas vezes que Andrômeda via Rabastan Lestrange era na sala de aula. Ele evaporava fora das salas, e quando estava nela, só tinha olhos para seus livros e o professor, muitas vezes ignorando até mesmo seu parceiro de trabalho.
Rabastan recolocou o livro em seu lugar e virou-se para Andrômeda, passando a mão em seu colete e pegando seu relógio de bolso, dando uma leve conferida.
— Acho que você já deve ter deduzido que nossos pais irão nos juntar. — Andie ergueu as sobrancelhas, não estava esperando por isso. Ela assentiu rapidamente, apertando as mãos. — Eu acho isso uma tradição completamente retógrada, mas... Bem, eu não me incomodo em casar com você. Entretanto...
Andrômeda sentiu suas bochechas queimarem.
— Se você não quiser, também irei ajuda-la a sabotar este compromisso. — ela não soube o que responder, até notar que Rabastan não tinha perguntado nada, apenas lhe avisado. Deu-lhe um sorriso falho antes de saírem para a Sala de Estar. Sentiu-se estranhamente segura ao perceber que Rabastan tinha uma mente avançada, diferente de seu irmão, que cobiçava Bellatrix antes mesmo de ser prometido.
ALGUMAS SEMANAS DEPOIS
Druella arrumou o cachecol ao redor de pescoço de Narcissa quando Cygnus apagou seu cigarro, o jogando longe. Andrômeda desviou o rosto para fugir da fumaça que ele soltou no círculo. O homem apertou o ombro de sua filha mais velha, orgulhoso.
— Sexto ano! Na próxima vez que voltarmos, você estará indo para o último ano. — sorriu, mas Bellatrix foi seca ao desviar de seu toque. O homem surpirou e inclinou-se, dando um aperto dócil no queixo de Cissy. — E você, princesinha, trate de melhorar em Poções!
— Pode deixar, papai. — sorriu Narcissa, com sua voz melódica e forçadamente infantil. Conversaram mais um pouco sobre o ano que vinha a frente até começarem as primeiras chamadas para entrar no trem. Assim que Cissy e Bella partiram, Cygnus segurou Andrômeda, pegando suas mãos.
— Não deixe de estudar para jogar Quadribol, Andrômeda. — alertou. A garota olhou seu pai, não recebendo o mesmo sorriso carinhoso que as outras.
— Pode deixar. — assentiu ela, sentindo uma tonelada nas suas costas.
— E ganhe a Taça, me dê esse presente. — seu olhar foi tão profundo que Andie sentiu que recebia uma missão. Narcissa orgulhava seu pai sendo uma princesinha intocável e mimada, Bellatrix o orgulhava sendo extremamente inteligente e rebelde – por mais que isso o irritasse na maioria das vezes –, entretanto, Andie não conseguia lhe entregar nada concreto. Era sempre o meio termo, sempre mais do mesmo, entregava a ele um pouco mais de Cissy e um pouco mais de Bella.
Entretanto, nenhuma delas eram boas em Quadribol. E seu pai sempre quis ter um garoto, verdade seja dita.
— Irei, papai. — jurou solenemente, séria. Recebeu seu beijo na testa e sorriu uma última vez para a mãe, quase correndo para o trem. Subiu, desviando os primeiranistas no corredor, indo para os fundos, onde Bella normalmente ficava com os amigos. Passou os olhos em uma das cabines batendo seus olhos em uma garota gargalhando de algo com Edward Tonks. Ela tinha um cabelo castanho cor de chocolate, e uma franjinha que deixava seu rosto delicado e dócil. Se sua memória não era falha, aquela era Alice, a provável namorada de Frank. Só podia ser ela, já a vira andando com Ted diversas vezes.
Continuou andando pelo corredor, agora irritada.
Entrou na última cabine do corredor, não interrompendo a falação absurda do local. Sentou-se ao lado de Scabior, que gargalhava de alguma história Nathan Nott estava contando. Rabastan abriu a porta em seguida, olhando a cabine cheia. Andrômeda apertou-se no banco, empurrando Scabior. Olhou para o garoto firme, que pareceu quase esboçar um sorriso. Abaixou a cabeça e apertou sua bolsa contra o corpo, sentando-se ao lado de Andrômeda.
Ela ignorou a conversação na cabine quando tocou a mão de Rabastan, apertando o banco firmemente. Eles não se olharam, mas ambos sorriram, como se compartilhassem um segredo precioso.
...
Andrômeda lembrou-se que deixou seu livro na Sala Comunal e desceu as escadas, encontrando uma garota de cachos negros acariciando um punhal, deitada no sofá de couro. A Sala estava praticamente escura, a não ser pelas velas próximas da lareira.
Caminhou até a irmã, sentando-se na beira do sofá, tirando alguns cachos de seu rosto, secando algumas lágrimas que ela não tinha notado. Bella tocou a ponta de seu athame no centro de seu ventre, assustando Andie. Será que ela tomou sua poção?, indagou-se a irmã mais nova, pronta para arrancar o objeto da mão da irmã.
— Por que vocês não me deixam morrer? — indagou Bellatrix, dócil, olhando a irmã com uma espécie de rancor. — Por que preferem me deixar sofrer?
— Como eu vou viver se você morrer? — indagou Andrômeda, tirando o athame gentilmente da mão de Bella. Ela sofria junto com a irmã, durante anos assistiu suas crises, das mais violentas, que levavam meses de recuperação, às de segundos. Ela era uma linda bomba relógio, pronta para explodir, a qualquer minuto.
Bellatrix beijou a mão da irmã e encolheu-se no sofá, a convidando para deitar-se com ela. Andie o fez, encontrando seus pés com os da irmã. Apertou sua cintura contra ela, sugando o perfume cítrico de seus cachos. Daria qualquer coisa para curá-la, mas não tinha nada a seu alcance. Não podia ajuda-la... Ninguém podia.
Bella estava sozinha, por mais acompanha que estivesse.
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