As Cores
20 Família
Notas iniciais
Um choro. Mas era um choro de criança. Não exatamente um bebê, era uma criança mais velha de uns sete anos no máximo. E o barulho vinha do fundo do beco.
Pus-me de pé e ajudei Thalia a se levantar. Nós nos entreolhamos, estranhado aquilo e resolvemos nos aproximar para entender o que aquela criança fazia ali chorando.
Era uma menininha loira, bem pequena e magrinha, realmente não tinha mais que sete anos. Estava bem agasalhada e carregava uma mochila rosa nas costas. Abraçada aos joelhos, chorava tanto que até soluçava.
Nos ajoelhamos ao lado da menina e Thalia tocou em seus braços. Ela levantou a cabeça assustada, com os olhos lotados de lágrimas e quando nos viu, recuou para trás, com medo, até se chocar contra a parede do fundo.
– Ei, calma, a gente não vai te machucar. – Thalia falou com a voz mais doce do mundo – Não precisa ter medo. – Ela se aproximou da menina e novamente a tocou nos braços. Dessa vez ela não recuou. – Qual o seu nome?
– Annabeth. – A menina respondeu. Ela tinha os olhos acinzentados e um rosto suave. Era uma criança muito bonita.
– É um nome lindo. – Thalia falou. – Eu sou Thalia. Esse é o meu amigo Luke. – ela apontou pra mim e eu me aproximei das duas.
– Onde estão seus pais Annabeth? – perguntei.
– Meu pai está em casa com minha madrasta. Ela é má. Ela bate em mim e diz que sou estranha e que vou trazer coisas ruins para a família e meu pai não gosta de mim. Eu resolvi fugir de casa. – ela contava choramingando.
– E sua mãe?
– Eu não a conheço. Meu pai disse que ela teve que ir embora quando eu nasci.
Tudo bem, isso aqui é uma convenção de pessoas sem pais? Ou que são uns idiotas? Bom, mas entre nós três, com certeza, os pais de Annabeth eram os grandes campeões. Porque, embora eu ache que não, talvez haja alguma explicação para o meu pai e o de Thalia terem nos abandonado e nossas mães não tem culpa de terem morrido. Mas um pai odiar a filha? Isso é imperdoável. Annabeth é só uma criança. O que ela pode trazer de tão ruim?
Tá certo que eu nunca gostei muito de crianças, devido às péssimas experiências no orfanato, por isso eu cresci rápido e aprendi a me virar sozinho o suficiente para ir embora de lá. Mas Annabeth me fez despertar certo receio no coração. Ela era como eu e Thalia, não tínhamos ninguém, além de nós mesmos.
Thalia e eu nos entreolhamos com o mesmo pensamento em mente. Nós tínhamos que ficar com aquela criança, tínhamos que cuidar dela.
–Annabeth, você tem medo de morar na rua? – Thalia perguntou.
– Tenho mais medo de voltar a morar com o meu pai. – ela respondeu enxugando as lágrimas.
– Luke e eu moramos aqui, sabia? Exatamente nesse beco. Nossos pais também nos abandonaram e nossas mães morreram. Somos como você. Se você quiser viver aqui conosco vai ser muito legal. O que acha?
– Vocês são legais. –Annabeth disse – Eu acho que vai ser muito bom morar com vocês. Mas, por favor, não me levem de volta pra casa.
– Claro que não. – eu disse – Thalia e eu somos uma família e você é parte dela agora. Eu prometo.
Ela sorriu e em um impulso me deu um abraço. Thalia se juntou a nós.
– Sabe de uma coisa? – eu disse a Annabeth – Você não é esquisita. É muito bonita e muito esperta. Quantos anos têm?
– Seis. – ela respondeu sorrindo. – Algumas pessoas dizem que eu sou inteligente e tenho boas ideias.
– Eu aposto que sim. – falei.
– Tudo bem, nós precisamos ir agora. – Thalia disse.
– Para onde vamos? – Annabeth perguntou curiosa.
– Para a casa abandonada de Thalia. – eu respondi enquanto me colocava de pé. As meninas fizeram o mesmo. – Não é justo passar o Natal aqui no frio, não é mesmo?
– Por que não moramos lá? — a pequena perguntou.
– É perigoso. – eu disse – Thalia tinha muitos vizinhos. Eles podem chamar a polícia se perceberem que tem crianças morando sozinhas. Mas só alguns dias não faz mal.
Andamos devagar pela neve. Thalia e eu contávamos tudo sobre nossos dias juntos para Annabeth, sobre nossas aventuras, nossa luta pela sobrevivência. Ela parecia estar achando tudo aquilo incrível e fazia perguntas sem parar. Era bom tê-la conosco. Nossa família havia crescido e eu me sentia mais responsável. Sentia-me na obrigação de proteger as duas. Elas eram a melhor família que eu poderia ter.
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