As Cold as a Black Widow
2 Guerra interna
Notas iniciais
Meus instintos de Viúva Negra não demoraram para ser ativados. Larguei Zoey e me coloquei protetoramente a sua frente, tudo em questão de segundos. Não tive tempo para observar meu inimigo, apenas ataca-lo. Eram dois, e um tomou conta de Steve, ou o contrário. Parti para cima do agressor, chutando seu peito, atirando-o para trás. Ele fora pego de surpresa. Não esperava resistência. Me aproveitei de sua confusão momentânea e apliquei o golpe da Viúva Negra, as pulseiras ferrão, que dispararam uma carga elétrica de 30 mil volts, desestabilizando seu coração.
Só então tive tempo de observá-lo com mais atenção. Era estranho, pois ele não se assemelhava em nada com os invasores chitauri. Esse era... Humano. Claro, isso era impossível. Mas sua pele, suas feições, seus cabelos... Eram totalmente humanos. O que o diferenciava eram suas vestimentas. Usava um casaco longo do que parecia ser lona, e uma armadura metalizada dardejante, com três cristais cor de rubi incrustados.
— Tem alguma ideia de onde venha? — Steve me tirou dos devaneios. Seu lábio inferior sangrava um pouco.
— Nenhuma. Tem certeza de que não é um humano?
— Bem... — ele ponderou, e concluí que ninguém sabia de onde vinha esse ataque.
Fomos interrompidos pelo grito agudo de Zoey, que se apavorou diante das lutas e correu ao meu encontro. Eu deixei que ela me abraçasse e tentei acalmá-la, usando um vocabulário de fácil compreensão
— São só pessoas ruins. Mas temos ótimos heróis aqui que vão proteger você a sua família. Mas você precisa ser forte, como uma garota grandinha, acha que consegue fazer isso? — Steve olhava para mim com admiração, e não consegui entender por que. Eu só estava fazendo meu trabalho, cuidando dos civis, mas parecia ali que eu estava me apegando a uma criança qualquer. Não era o caso.
Não que eu não gostasse de Zoey, eu só... Não sentia absolutamente nada especial por ela. Eu fora programada a não sentir, e por um momento me senti culpada por isso. Será que uma pessoa normal, com um coração quente, levaria a menina no colo? A abraçaria? Você nunca vai saber, Natasha. — Eu disse para mim mesma. — Não é uma dessas pessoas.
Encontramos o resto da equipe em uma avenida antes movimentada, mas agora só havia carros estacionados no meio da rua, como se seus motoristas os tivessem abandonado, destroços e alguns corpos. Zoey apertou minha mão ao perceber isso.
— O que estamos enfrentando? — eu fui a primeira a perguntar o que estava estampado no rosto de todos, menos...
— Nunca vi isso antes... — Wanda parecia presa num estado de torpor. — Parecem humanos, mas...
— Mas o quê? — Steve pressionou.
— Mas suas mentes são “desligadas”. Como... Como um humano, só que sem os sentimentos, sem...
— Um humano sem a humanidade? — Stark indagou, perplexo. Wanda assentiu levemente, ainda processando o que vira.
Eu mesma não sabia o que pensar, apenas que estávamos em perigo iminente.
— Vamos recuar, de volta ao centro de treinamento. Precisamos conhecer o inimigo antes de atacar. — Steve vociferou, e ninguém discordou.
Deixei Zoey com uma agente social, e internamente, uma parte em mim quis ficar com ela até acharem sua família, mas uma barreira impediu esses pensamentos de surtirem algum efeito sobre minha pessoa física, e eu segui em frente.
Já no centro rumei para meu quarto. Não era um quarto luxuoso, mas era confortável e espaçoso. A cama redonda e enorme ficava bem no centro, e eu queria muito simplesmente me esparramar sobre ela e dormir um pouco, mas sabia que não podia. Tinha trabalho a fazer.
Nem me dei ao trabalho de me limpar, e me sentei em frente ao computador, tentando me conectar com Maria Hill. Ela, junto com Nick e outros muitos agentes, tentavam ardilosamente trazer a SHIELD de volta à tona. Mesmo ocupada, ela me atendeu.
— Agente Romanoff. — ela saudou profissionalmente.
— Hill. Preciso de um relatório completo sobre o ataque de hoje, possíveis suspeitas, algum portal, qualquer coisa que possa me levar...
— Não há nada. — ela não esperou nem que eu completasse. — Ninguém sabe de onde veio o ataque. Parece que foi... — ela pigarreou. — Interno.
— Acha que humanos fizeram isso? Por que iriam querer destruir sua própria casa?
— O mesmo motivo que os levou a guerras, a atentados, etc. Humanos são sádicos, às vezes são piores do que invasores de outro mundo.
— Vou ter que discordar nisso. Humanos pelo menos são facilmente derrotados.
— Assim esperamos. — ela encerrou a ligação.
Eu devia acreditar nisso, que não era problema nosso, quer dizer, dos Vingadores. Eram só humanos idiotas fazendo coisas idiotas. Mas algo dentro de mim se recusava a aceitar isso. Algo no que Wanda dissera não fazia sentido. Mas então, me dei por vencida e fui tomar um banho.
Enchi a banheira até o topo com espuma e água quente. Eu estava totalmente submersa, exceto pela cabeça e a pontinha dos pés. Passei a mão pelos cabelos molhados, me assustando com o tanto que eu estava cansada. Não conseguira dormir na noite anterior, assombrada por pesadelos realísticos do passado.
Então, assim como sempre acontecia quando eu ficava sozinha e sem ocupação, imagens de Bruce Banner me invadiram a cabeça.
— Ei grandão, o sol já vai se pôr... — era o que eu sempre dizia.
Quando ele colocava sua mão sob a minha, um calafrio percorria meu braço até o peito. Mas então... Ele se foi. Meus sentimentos em relação a ele conflitavam em minha mente. Eu não considerava aquilo “amor”. Apenas uma admiração e compreensão. Eu entendia suas frustações com seu âmago, porque passava pelo mesmo todos os dias, ter que ignorar a dor lancinante no seu peito te dizendo que você é um monstro. Nós poderíamos ser grandes amigos, mas namorados? Eu duvidava.
Mesmo assim, senti uma lágrima escorrer por minha bochecha com a lembrança, e rapidamente a sequei, deixando-a misturar-se com a água que me cercava. Eu não gostava de chorar, de me sentir fraca e impotente, e de repente fui invadida por uma fúria insana.
Tudo tinha que acabar assim para mim? Em abandono? Em destruição?
Esmurrei a parede atrás de mim, e a força fez com que o espelho mais a frente caísse e se estilhaçasse no piso de mármore. Minha respiração estava acelerada, outras lágrimas ameaçando cair, mas essas eram raivosas... Eu mal escuto o grito gutural saindo da minha garganta, até que ela comesse a arder com a força, e minha voz fraqueja, se transformando em um soluço reprimido. Como às vezes acontece quando me encontro em estado de revés, eu automaticamente encontrei o caminho para a cama, percorrendo o piso com os pés molhados, e desabei na cama.
Eu estava prestes a pegar no sono quando a porta do meu quarto foi arrombada, mas meu estado de alerta foi lento demais. Para minha sorte, não era um agressor, era apenas Steve, seu semblante preocupado.
— Ouvi você gritar! Está tudo bem? — eu não o respondi, porque as palavras não saíam da minha garganta. Sua imagem começou a ficar difusa, e de repente, eu não me encontrava mais no quarto, e sim em um porão escuro e fétido.
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