As Cem Melhores Historias Da Mitologia
56 O Nascimento de Páris
Príamo, o mais poderoso dos reis de Tróia, tendo já sido abençoado pelos deuses com o
nascimento de seu filho Heitor, estava às vésperas de ser pai outra vez.
— Hécuba querida — disse o rei à sua esposa -, alegre sua alma, pois parece que já não
tarda o nascimento de nosso segundo filho, que os deuses haverão de fazer tão formoso quanto
nosso amado primogênito!
A rainha, no entanto, acordara naquela manhã terrivelmente angustiada. -Príamo, meu
esposo e senhor! — disse ela, agarrada aos ombros do soberano. — Tive um sonho funesto que
nada pressagia de bom quanto ao novo nascimento! O rei, apreensivo, tomou as faces da rainha
em suas mãos.
— Hécuba, querida, acalme-se e conte-me tudo! — disse ele com decisão, pois temia
muito os presságios funestos.
A rainha, então, após enxugar as lágrimas que banhavam seu rosto, falou:
— Sonhei, meu esposo, que, no lugar de um belo menino, me saía das entranhas uma
tocha, uma imensa tocha de labaredas ardentes!
— Como pode ser?! — exclamou Príamo, aterrado.
— E isto não é tudo! — acrescentou Hécuba, cujos lábios tremiam convulsa-mente. —
Sonhei ainda que esta tocha ganhava vida e que alastrava suas terríveis flamas por todo o nosso
reino, a ponto de só restarem ruínas após a sua passagem.
Príamo desvencilhou-se involuntariamente dos braços hirtos de sua esposa e dirigiu-se até
a janela dos aposentos reais.
— É um aviso dos deuses! — disse ele, baixando a cabeça, como quem recebe dos
deuses imortais um terrível e inapelável decreto. — Só pode ser...
Hécuba, no entanto, arrependida já de sua confissão e temendo as conseqüências de seu
ato, tentou minimizar a situação:
— Príamo, querido, acalme-se... — disse ela, pondo-se em pé. — Talvez não passem de
tolas premonições!
Mas era tarde, o rei já estava convencido de que aquele sonho era um aviso claro de que
as Parcas sinistras tramavam algo terrível para si e seu reino. No mesmo instante foi consultar seu
oráculo e ouviu dele a confirmação daquele terrível presságio. O novo bebê seria, de fato, a causa
da ruína de sua Tróia amada e de todos os seus cidadãos, caso vivesse.
— Só o sacrifício dessa criança evitará essa horrenda tragédia! — exclamara o adivinho,
que pela primeira vez Príamo via proferir seu vaticínio de olhos esgazeados.
No dia seguinte a criança nasceu, forte e saudável. Contudo, nem bem saíra do ventre
materno e foi arrancada dos braços de Hécuba por seu esposo, que surdo ao seu pranto a deixou
desfalecida sobre o leito. Enquanto carregava a criança para um destino que somente ele, Príamo,
conhecia, seus olhos estudavam as feições do garoto. Era um belo menino, não havia como
negar, e o rei sentiu seu coração apertar-se dentro do peito. "É meu sangue, também, que corre
neste pequenino corpo!", pensava, enquanto percorria os corredores gelados do seu palácio com
seu pequeno fardo ainda manchado do sangue da batalha que travara pela vida.
"Não, não, desgraçado Príamo... Deves dar a este inocente o destino cruel que nos livrará
a todos de um mal ainda maior...", pensou novamente, e com tanta força que temeu que suas
últimas palavras reverberassem nas paredes imensas e nuas que levavam para fora do palácio real:
"Um mal ainda maior... AINDA MAIOR... !"
Lá fora o aguardava o pastor Agelau, encoberto por um manto negro e vergado por uma
chuva torrencial que o vento lhe atirava em cima com toda a fúria.
— Aqui está! — disse o rei, mirando o queixo do miserável pastor.
— Perdão, Alteza — disse o pobre homem, tomando o pequeno embrulho nas mãos
vacilantes -, mas não quer refletir melhor sobre o destino que quer dar a este inocente?
— Cale a boca, maldito! — rugiu Príamo, temeroso de que sua consciência o obrigasse a
retroceder. — Sabe bem o dever que lhe imponho, e o que lhe espera caso não o cumpra com
todo o rigor.
Agelau introduziu, então, o pequenino embaixo de seu manto coberto de furos e lançouse
à estrada, que a chuva e a neblina misturavam com a floresta. Assim, o pastor escalou até o alto
do monte Ida, conforme as instruções que recebera do rei, e tão logo alcançou seu destino
sentou-se sob uma grande árvore, descobrindo novamente o rosto do garoto.
— Ainda... vive... Ainda... vive... — disse o bom homem, num tom baixinho e quase sem
fôlego, como se temesse que de tão perto das nuvens Láquesis, a Parca que corta o fio da vida
humana, o pudesse escutar. "Agora, entretanto, devo abandoná-lo!", pensou agoniado.
E assim fez. No fim do dia, entretanto, consumido pelo remorso, Agelau decidiu retornar
ao local e, ao fazê-lo, deparou-se com uma cena espantosa.
— Por Júpiter, será isto possível? — exclamou.
Uma ursa enorme e marrom, deitada placidamente, amamentava o garoto!
— Só pode ser um sinal dos deuses de que não desejam mais a sua morte! -ponderou ele,
contente.
Após perceber o afastamento da ursa, correu então até o bebê, colocou-o num cesto e
levou-o para casa. Sua esposa ficou tão feliz com o novo filho que resolveu batizá-lo ali mesmo:
— Se chamará Páris, posto que veio num cesto! — exclamou ela, pois "Páris" significava
"cesto" na língua dos antigos gregos.
O menino Páris virou em breve um belo rapaz e tornou-se pastor, tal como aquele que
julgava ser o seu pai. Durante toda a sua juventude vagou pelos campos e encostas tangendo seus
bois e levando uma vida amena, até o dia em que conheceu Enone, uma ninfa dos rios. Com ela
manteve um relacionamento intenso, embora não pudesse dizer que a amava, pelo menos não
tanto a ponto de poder retribuir o sentimento intenso que esta lhe devotava. Assim, prosseguiu
em sua vida despreocupada, promovendo lutas entre os seus touros, a ponto de tornar este
passatempo a principal ocupação de sua vida.
Estava nisto quando um dia viu chegar um soldado do rei Príamo, rei este que o jovem
Páris nem desconfiava ser seu verdadeiro pai.
— Jovem pastor, o rei de Tróia nos mandou aqui para que levemos até ele o melhor
touro do rebanho.
— Por quê? — disse Páris, temendo que levassem justo o seu animal preferido.
— O rei pretende fazer um sacrifício funerário em honra de seu filho morto — disse o
emissário.
Páris levou o soldado até o rebanho e, com efeito, viu-o escolher justamente o touro de
sua predileção. Em desespero, o jovem pediu então ao soldado que lhe permitisse ir junto, para
ver se conseguia recuperá-lo nos jogos que se realizariam concomitantemente com a cerimônia
expiatória.
— Como quiser — disse o emissário, que já ia conduzindo o touro pela estrada.
Assim que chegaram em Tróia, Páris foi correndo se inscrever em todas as modalidades
de competição, na esperança de sair vitorioso ao menos em uma delas. Foi recebido com
escárnio, porém, pelos outros competidores, pois eram todos filhos das melhores famílias. Entre
eles, inclusive, estavam vários irmãos de Páris.
— Quem é este pastorzinho atrevido que ousa nos desafiar deste modo? -disse Deífobo,
o mais encolerizado de seus irmãos.
Ninguém sabe dizer direito, senão que é um pobre pastor.
— Não se preocupe, Deífobo — disse um dos competidores. — Já na primeira disputa
será esmagado como um piolho.
Páris, no entanto, acostumado às duras lides do campo, derrotou com facilidade o seu
adversário da disputa de pugilato. E assim, sucessivamente, foi derrotando a todos nas demais
modalidades, a ponto de encolerizar definitivamente o seu invejoso irmão:
— Basta, tocador de bois! — disse Deífobo a Páris, ao final da última disputa, sacando
das dobras de sua túnica um afiadíssimo punhal. — Vai pagar agora por seu infame atrevimento!
Páris, desarmado, viu-se obrigado a buscar refúgio no templo de Júpiter, como última
alternativa para salvar sua vida. Ao entrar lá, porém, encontrou Cassandra, também sua irmã,
fazendo suas ofertas ao pai dos deuses. Esta mulher recebera de Apolo o dom da profecia, mas
como desprezara o amor daquele deus, viu retirado de si o dom da persuasão, de modo que toda
profecia que saía de seus lábios, apesar de verídica, não era jamais crida por ninguém.
— Você... ! — disse Cassandra, reconhecendo logo no rapaz que entrara esbaforido o
seu irmão funesto.
Páris, no entanto, como não a conhecia, pediu-lhe apenas que o socorresse, pois jovens
perversos queriam privá-lo de sua vida. Mas nesse instante Deífobo e seus sequazes já haviam
também adentrado o templo.
— Cassandra, afaste-se deste patife! — bradou o homicida, num terrível transporte de
cólera. — Ele é um farsante, que por meio das fraudes mais vis pretende ter vencido o torneio
instituído por nosso pai!
Justo no instante, porém, em que Deífobo estava prestes a enterrar o punhal no peito de
Páris, ouviu-se um grito vindo da multidão que a tudo assistia, estupefata.
— Pare, Deífobo, filho de Príamo! Este que aí está não é outro senão Páris, sangue do
seu sangue, em honra do qual se realizam estes jogos!
Era Agelau, o pai adotivo de Páris, que havia acompanhado todos os passos do jovem
desde a sua saída dos amenos pastos até a sua vitória na última competição.
— O que diz este velho louco? — exclamou Deífobo, cuja mão continuava a apertar o
ferro fatal com todas as suas forças, a ponto dos ossos dos dedos estarem prestes a romper a pele
que os envolvia.
— Sim, Deífobo, acalme a sua cólera, pois este que aqui está é Páris, filho de nosso pai
Príamo e nossa mãe Hécuba — disse Cassandra, interpondo-se entre o punhal e o irmão
ameaçado.
Suas palavras, entretanto, por força da maldição que pesava sobre ela, não foram ouvidas.
— Cale-se, tola Cassandra! — gritou Deífobo. — Haverá aqui alguém ainda disposto a
dar ouvido a seus disparatados delírios?
Num último recurso, então, o pastor Agelau sacou de sua túnica um chocalho que
Hécuba, a mãe de Páris, pusera em suas mãos tão logo ele nascera.
— Levem-no até a rainha e lhes digo se sua mãe não será capaz de reconhecer o próprio
filho numa única olhada.
Deste modo Páris foi levado à presença do rei e da rainha. E, de fato, tão logo Hécuba
pôs os olhos em Páris sentiu seu sangue correr célere por todo o corpo.
— O que vejo, Príamo, meu esposo, diante de meus olhos? — disse a rainha, quase
desfalecendo.
— Eis seu filho, que julgavas erroneamente morto! — disse Agelau, estendendo a Hécuba
o chocalho.
Príamo, a seu turno, apesar de encolerizado com a desobediência do pastor, cedo viu este
sentimento desaparecer por completo de seu peito, por força do orgulho que agora de si
transbordava. Aquele bravo e destemido jovem, que vencera todas as competições, era seu filho.
E que belo rapaz, digno da descendência sua e de Hécuba! E apesar de toda a oposição que os
sacerdotes moveram para que Príamo se desvencilhasse daquele filho amaldiçoado, nada pôde
mover o rei outra vez a levantar a mão contra seu próprio sangue.
— Que Tróia venha abaixo! — rugiu ele, sobrepondo o pai ao soberano. -Que não reste
amanhã uma única coluna em pé no meu reino, mas nem hoje nem nunca mais alguém ousará
levantar um dedo contra este meu filho que vi de repente retornar do Hades sombrio para os
meus braços.
E assim Páris tornou-se outra vez filho de Príamo, apesar de todas as funestas previsões
que mais tarde o confirmariam como o causador da destruição do poderoso reino de Tróia,
também dito reino de Ílion.
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