As Cem Melhores Historias Da Mitologia
8 Mercúrio, o Deus dos Pés Ligeiros
A cena é lírica: Maia, uma das belas ninfas do monte Cilene, está parada diante do berço.
Observa com toda a ternura o seu filho Mercúrio, que está aparentemente adormecido, com odedinho metido na boca.— Um digno filho de Júpiter! — diz baixinho a filha de Atlas. Enquanto observa o filhoadormecido, relembra o dia em que, nos braçosdo pai dos deuses, concebeu o filho numa das cavernas do monte Cilene. Júpiter haviafeito descer dos céus uma grande tormenta para abafar os amorosos ruídos de sua união com aardorosa ninfa. Agora, ali estava, diante dos seus olhos, o produto daquela inesquecível etempestuosa noite de amor. Maia, na ponta dos pés, afasta-se do quarto, deixando o pequenodeus entregue aos cuidados do Sono, que vela ao seu lado.Mas tão logo a mãe se afasta, uma minúscula pálpebra lentamente se abre. Mercúrio, como rosto parcialmente oculto pelo cobertor, estuda o ambiente. Sim, o Sono, bem ao seu lado, estácompletamente adormecido.Afastando as cobertas, o pequenino deus, ainda deitado, faz deslizar uma de suasperninhas para fora do leito. Enquanto o Sono sonha e ressona, o pequeno pé tateia o chão, àprocura de sua minúscula sandália: ah!, ali está!Deslizando o resto do corpo para fora do leito, o pequeno Mercúrio está pronto paraprotagonizar a primeira de suas façanhas. ''Uma façanha perfeitamente memorável!", pensa odeusinho, lá no seu tatibitati divino.Já com suas sandalinhas aladas presas ao pé, Mercúrio aproxima-se da janela. A noite écálida e estrelada — perfeita para um delicioso vôo noturno. Dando um impulso às suas pernas,o deus menino lança-se à vastidão do espaço negro, isento de qualquer receio — porque opequeno Mercúrio fora brindado com esta inexcedível virtude: nascera sem medo.Pela primeira vez o filho de Júpiter corta a imensidão dos ares, levado por suas sandáliasaladas. Incumbido por seu pai das mais diversas missões — na maioria das vezes urgentes einadiáveis -, Mercúrio se notabilizará justamente por este seu atributo básico: o da irrequietamobilidade. Nenhum deus mais ágil, mais expedito, mais voluntarioso e, ao mesmo tempo, maisdisciplinado do que Mercúrio. Condutor de recados, não se limitará, porém, à função demensageiro, sendo também condutor de almas. A ele, o mais atarefado dos deuses, caberátambém a tarefa de conduzir as almas dos mortos até as margens do sinistro Aqueronte. Pormuitas vezes, assim, o veremos levar heróis e mortais pelos caminhos obscuros do Hadessombrio: será ele, por exemplo, quem conduzirá Orfeu até os braços de sua amada Eurídice parao ardoroso e fugaz reencontro.Mas o pequeno Mercúrio também, desde cedo, já revela outra de suas inúmeras vocações.É o que veremos agora.O deus-menino, após viajar muito, já está em Piéria, local onde Apólo, o deus solar,guarda os seus rebanhos. É noite, ainda, e os animais estão abrigados em seu redil. Mercúrio, semse deixar deter por tão mísero detalhe, abre a porteira e sozinho — daquele tamanhinho —aparta cinqüenta novilhas para si."Uma... duas... três... três e uma... três e duas... cinqüenta de uma vez!", contabiliza ele, lána sua matemática infantil.Uma coisa é furtar grosseiramente, sem arte nem graça; outra é fazê-lo com a elegância doestilista. Mercúrio é isto: um esteta do furto. Por isto é padroeiro dos ladrões e também —desculpem — dos comerciantes. Mas sigamos adiante com o divino garoto, porque ele já vailonge, obrando a sua primeira façanha.Conduzindo, então, as novilhas, ele chega ao Peloponeso. Na cauda de cada animal — eaqui está o engenho — prende uma vassoura de ramos, que vai apagando o rastro das reses. Masisto ainda não é o bastante: o pequenino Mercúrio, sempre previdente, inverte também a posiçãodos cascos das novilhas, calçando igualmente as suas sandalinhas de maneira invertida, paratornar mais perfeita a ilusão.No caminho, entretanto, cruza com um velho enxerido, que pergunta:— Aonde vai com tantas novilhas, gracioso menino?Mercúrio sabe que não o enganará, porque velhos metidos têm muita lábia.— Fique com uma delas de uma vez! — diz Mercúrio, dando seus primeiros passos naantiqüíssima arte do suborno. — Mas não me denuncie, hein, velho?!— Oh, não, confie em mim, gracioso menino! — diz o velho, abraçando-se à mais gordadas novilhas. — Confie em mim!Mercúrio dá alguns passos e vira a esquina de um rochedo. O rosto de pica-pau do velhoenxerido, contudo, não abandona a sua mente: "Oh, não, confie em mim, gracioso menino!Confie em mim!".Aquele segundo "confie em mim!" é prova bastante: ele irá denunciá-lo. Mercúriodisfarça-se de proprietário ganancioso e irado e retorna.— Velho enxerido, não viu passar por aqui um ladrão com cinqüenta novilhas?— Bem, não...— Dou-lhe uma novilha e mais quatro bois se me disser.— Foi para lá, meu senhor! — grita o velho enxerido, apontando o dedo.
— Ótimo! — exclama Mercúrio, puxando seus bigodões de crina de proprietárioganancioso e irado. — Vou já buscar a sua recompensa.Dobra por trás do rochedo e dali mesmo esmurra a montanha até fazer desprender delauma rocha imensa, que vai cair exatamente sobre a cabeça do velho enxerido.— Aí está sua recompensa! — diz Mercúrio, retomando a sua fuga.E até hoje lá está um grande rochedo, sob a forma de um velho enxerido, postado em pépara sempre sob o pó do Peloponeso.Depois disso, Mercúrio, novamente na sua forma original, conduz as novilhas até umacaverna, perto de Pilos. Ali faz uma oferenda aos deuses e aproveita para descansar. Está nisto,quando vê o casco vazio de uma tartaruga morta.— Que é isso? — indaga a si mesmo.Então, sem ter o que fazer, estica indolentemente alguns nervos de boi sobre o casco e,ao dedilhá-los, descobre que deles parte um som mavioso!Mas eis que já amanhece, e Mercúrio retorna voando para casa, indo se meterrapidamente debaixo do cobertor. O Sono, é claro, ainda sonha docemente.O deus Apólo, por sua vez, dá logo pela falta das suas cinqüenta novilhas. Mas descobriro autor do maravilhoso furto é que são elas! Ludibriado pelas artimanhas do menino deus, nãotem outro recurso senão valer-se — oh, vergonha! — de seu próprio oráculo, em Delfos.Irado, Apólo apresenta-se diante de Maia, a bela mãe de Mercúrio, para reclamar dastraquinagens de seu pequenino garoto. Ambos correm até o berço, mas pasmem, lá está ele,adormecido. Sua respiração está perfeitamente tranqüila, mas um ligeiro rubor de suasrechonchudas bochechas denuncia, talvez, uma recente atividade.— É que ele está meio febril — diz a mãe, inventando qualquer coisa. Apólo coloca amão na testa do bebê. Não, nada de febre!— É que ele chupou o dedinho demais — diz a mãe, inventando outra desculpa.E assim ficariam para sempre, porque mãe, em se tratando de filho, tem justificativa paratudo. Mas Apólo não está para rodeios, e já se prepara para dar umas palmadas no garoto quandoeste estica os dois bracinhos para fora das cobertas e começa a dedilhar uma bela melodia na liraque inventara.Apólo congelou como uma estátua.— Que instrumento maravilhoso é este?Os hábeis e minúsculos dedos de Mercúrio dedilham com virtuosismo a lira, enquanto elemastiga serenamente a sua chupeta.Apólo, esquecido das malditas novilhas, só quer saber agora de obter aquela preciosidade.— Vamos, dê-me esta lira e está tudo esquecido! — diz o deus, deliciado. Mercúrioestende o objeto — afinal, poderá fazer quantas liras quiser – e expele a chupeta com uma granderisada.
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