O sol começava a desaparecer lentamente nas águas do Helesponto, o grande estreito

marítimo que separa a Ásia da Europa. No lado europeu estava situada a cidade de Sestos, onde

vivia uma jovem sacerdotisa de Vênus, chamada Hero. A moça subia as escadas que levavam ao

topo do farol da ilha, levemente ansiosa. A ponta de um sorriso, porém, iluminava os lábios

fechados. Seu sorriso sempre fora assim, velado, com apenas duas riscas graciosas nas

extremidades da boca finamente desenhada.

Acostumada a enfrentar todo dia a longa escadaria com suas pernas de musculatura rija,

porém afilada, Hero ia cantando, baixinho, um hino à deusa de sua devoção. Poderia cantar a

plenos pulmões, se quisesse, pois não havia ninguém naquele lugar desolado. Mas Hero tinha

predileção pelos gestos discretos.

Chegando até o topo do farol, Hero relanceou a vista para fora. Suas narinas de asas

delicadas fremiram, aspirando o ar levemente acre do fim da tarde Constatou que a chama do

pavio da grande lanterna estava quase apagada. Na verdade, ela quase nunca chegava a se

extinguir, mesmo com os fortes ventos que costumavam soprar do oriente, pois estava sempre

protegida por um grande caixilho espelhado.

— Está na hora de avivá-la outra vez — disse, ciciando as palavras, que escaparam quase

imperceptivelmente dos lábios entreabertos. Logo, dentro da grande caixa prateada, brilhou outra

vez a grande e fosforescente jóia de ouro. o sinal benfazejo que guiava as embarcações por toda a

extensão do Helesponto. Hero adorava este nome, que aprendera a ouvir desde criança; sua

sonoridade elegante a fazia repeti-lo constantemente:

— Helesponto... — dizia, escandindo as sílabas, enquanto fechava outra | a portinhola que

mantinha a chama brilhante a salvo da chuva e dos ventos.

Naquela noite, entretanto, o céu estava completamente limpo. A esta altura, Hero não

tinha mais os olhos postos no horizonte nem tampouco no céu. Eles estavam voltados para a

outra margem — na distante Abidos, que ficava no outro extremo do estreito — e procuravam

algo, com ansiedade.

— Não, ainda é muito cedo... — disse Hero, fechando a túnica e debruçando-se

levemente sobre a balaustrada exterior.

Ela esperava alguém. Todas as noites, essa pessoa, guiada apenas pela lua e pela luz do

farol, lançava-se audaciosamente ao mar. Após atravessá-lo a nado, ia em seguida atirar-se aos

braços da jovem, que o aguardava.

Leandro era o seu nome — um belo rapaz que morava em Abidos. Há um bom tempo o

jovem usava desse ousado expediente para ir visitá-la todas as noites — ou ao menos naquelas

em que o céu permitia que se lançasse ao mar com segurança.

Hero permaneceu ainda um bom tempo reclinada no parapeito. Um de seus pés apoiavase

levemente sobre o outro, subindo até a canela e descendo outra vez, numa carícia inconsciente.

De repente, porém, a jovem teve sua atenção despertada por um ligeiro espanejar em meio às

águas, que estavam incomumente calmas. Era ele, com toda a certeza!

Atirando os braços com vigor e regularidade, Leandro, de fato, avançava, subindo e

descendo por entre as ondas que ondulavam com suavidade.

A jovem, com um grito de satisfação, lançou-se em direção às escadas, descendo com a

agilidade de uma pequena corça os grandes degraus da escadaria. Hero já estava agora em pé, nas

areias da praia deserta, segurando o manto de Leandro: o jovem chegava e partia sempre liberto

das roupas, para ter seus movimentos facilitados no confronto com as ondas.

Hero o divisava, já, na rebentação. Mais um pouco e ele já não necessitaria da força dos

seus musculosos braços para vencer as ondas. Pondo-se em pé, atravessou com decisão o resto

do percurso, fendendo com os joelhos a água que lhe dava já pela cintura.

— Leandro! — exclamou Hero.

O rapaz, renovando o ímpeto, avançava em direção a ela. Hero, deixando que suas vestes

lhe deslizassem até os pés, imitava-o em sua nudez. Embora demonstrasse uma calma aparente,

Hero também tinha uma vontade louca de sair correndo na direção de Leandro.

— Consegui, mais uma vez! — disse ele, tomando o rosto da jovem em suas mãos.

— Que bom... — retorquiu Hero, com seu sorriso velado.

Leandro deu-lhe um beijo na boca, que Hero retribuiu sem o mesmo pudor dos seus

habituais sorrisos.

Os dois, de modo geral, eram impotentes para refrear os primeiros instintos. Depois,

abraçados, avançavam mais calmos para o interior da ilha, onde a jovem morava em solidão

completa. Recolhidos aos aposentos da jovem Hero — que naqueles instantes pertenciam a

ambos —, ali completavam, durante toda a noite, os mistérios prescritos por Vênus.

— Leandro, querido — disse Hero, já de madrugada, passando a mão nos cabelos

revoltos de Leandro.

— O que foi? — perguntou o rapaz, que sentia seus olhos pesarem, finalmente, após

tantos esforços combinados numa mesma noite.

— Preferia que você não repetisse mais as palavras que você sempre diz quando chega do

mar — disse Hero, séria.

— Que palavras, meu amor? — perguntou o rapaz.

— Consegui, mais uma vez — disse a moça, imitando com graça a voz rouca de Leandro.

— Por quê?

— Porque dá a impressão de que um dia você, talvez, não consiga. Leandro colocou o dedo

indicador sobre os lábios de Hero, silenciando-a:

— Não diga tal coisa. Sempre conseguirei! — completou, com a confiança característica

da juventude.

Quando a manhã surgiu, Leandro partiu novamente para o mar, deixando, como sempre,

o manto nas mãos da amada. Hero, de cima das pedras, acompanhava com os olhos o corpo

másculo do amante afastar-se, com pisadas firmes em direção à praia, saltando sobre os

pedregulhos com saltos ágeis e precisos.

Dali a pouco o dia voltava a ser o mesmo. Um pouco diferente, talvez, pois fizera-se mais

quente do que os habituais. Desde as primeiras horas o sol brilhara no azul do céu,

completamente despido de nuvens. Hero, entregue às suas atividades, teve até mesmo de se

desvencilhar das roupas para poder suportar o calor. A tarde, a jovem recolheu-se aos aposentos

para escapar do mormaço, que descia sobre tudo como um manto escaldante e invisível. Hero

contava as horas, esperando que a noite trouxesse alívio para o calor.

Quando o sol, porém, começava a cair no horizonte, foi logo coberto por uma espessa

camada de nuvens, que surgia com uma agilidade espantosa de regiões desconhecidas, muito além

da linha do mar. Alguns clarões começaram a espocar, avançando até quase a altura do farol.

Hero, no entanto, já havia acendido a sua chama outra vez. Apesar de toda a sua intensidade, ela

desaparecia no confronto com os clarões cada vez mais intensos e ofuscantes dos relâmpagos.

Júpiter tonante, por alguma razão enfurecido, esgrimia nos céus os seus espadins recurvos, com

uma cólera incompreensível e cada vez maior.

Ao mesmo tempo os ventos — que pareciam haver escapado de suas prisões —

lançavam-se em todas as direções, encapelando as águas do Helesponto com uma intensidade

assombrosa. Erguiam para o alto grandes massas de água. que desabavam em seguida com um

fragor assustador. A chuva começou, então, a cair, com uma intensidade jamais vista. Cordas

d'água balançavam-se no céu. desmanchando-se de tempos em tempos pelas rajadas furiosas do

vento.

Nos intervalos dos relâmpagos, Hero relanceava a vista para o alto do farol. Não havia

agora, porém, luz alguma a brilhar em seu topo. A jovem, assustada, lançou-se para lá. Chegando

na entrada, viu que uma cascata vinha direto da escadaria e desaguava aos seus pés. Subindo os

degraus, de três em três, chegou finalmente ao topo, no mirante. Tudo estava às escuras, o

ambiente iluminado apenas pelos clarões ocasionais dos relâmpagos. À luz de um destes clarões,

ela descobriu que o vidro do caixilho que protegia a grande chama estava quebrado. A um canto

viu uma grande ave branca caída. À exceção de uma das asas, quase toda ela estava queimada e

ferida. Assustado com a fúria do temporal, o pássaro arremessara-se cegamente sobre o vidro

protetor, estilhaçando-o e consumindo-se inadvertidamente em sua poderosa chama. Em seguida

a chuva apagara a fogueira que ardia na lanterna, tornando-a inútil para o resto da noite.

"Meu Deus, e Leandro?", perguntou-se a jovem, angustiada. "Como fará para chegar até

aqui, depois do temporal?" Num gesto desesperado, ainda tentou encontrar alguma brasa acesa

entre os carvões, mas nada mais havia ali que pudesse arder. Tudo estava tomado pelas águas.

Uma onda gigantesca ergueu-se outra vez do mar e espatifou-se de encontro à torre do farol,

lançando para dentro do mirante uma quantidade inacreditável de água. A jovem foi jogada de

encontro à parede. Permaneceu caída no chão por alguns instantes, com o corpo encharcado e os

cabelos gotejantes. Procurando refazer-se do impacto, Hero tentou reerguer-se.

— Leandro... afogado... — disse ela, de repente, erguendo-se, mesmo tonta, ao entrever a

possibilidade da tragédia.

De fato, era inútil que a jovem tentasse acender novamente a lanterna do farol: um erro

de cálculo fatal fizera com que o destemido Leandro se lançasse às águas do estreito antes mesmo

de começar a chuva. O jovem pensara que, com um pouco de sorte, estaria às margens da praia

de Sestos um pouco antes do temporal desabar. Quando as ondas começaram a erguer-se,

Leandro ainda tentou guiar-se pela luz do farol. Porém, quando esta se apagou, o rapaz não pôde

mais encontrar a rota certa. Durante alguns instantes nadou às cegas, bracejando e lutando contra

as ondas. Subiu ainda à tona, heroicamente, por várias vezes. Na última subida, contudo, Leandro

entendeu que o seu fim havia chegado. Ainda tentou resistir outra vez, mas uma onda colossal

sepultou-o sob uma massa como que sólida de água, tirando-lhe a consciência para sempre.

Durante toda a noite a desesperada Hero aguardou a chegada do amante.

"Talvez ele tenha esperado o temporal passar", pensava, ainda esperançosa. "Como não

há mais a luz do farol, ele certamente não cometerá a loucura de se lançar ao mar com este céu

escuro e tempestuoso."

Quando Hero terminou de fazer essas reflexões, as nuvens, como que por «canto,

começaram a se dissipar. As estrelas foram aos poucos retomando no céu o seu lugar, enquanto a

lua ia iluminando com seus raios o restante das trevas.

Hero aguardou durante muito tempo, até que finalmente viu algo boiar sobre as águas,

sendo trazido lentamente até a praia. Parecia que as ondas, tomadas pelo remorso, depunham

com todo o cuidado sobre a praia o corpo do jovem amante. A moça, mais pálida que a lua,

desceu num vento as escadas do farol e correu pela praia até chegar ao corpo de Leandro, preso

entre duas rochas. Contrariando os seus hábitos de discrição, Hero deu um grito desesperado que

ecoou nas montanhas. Colando a boca sobre o peito nu e gelado de Leandro, transmitiu ao

coração dele a dor e o pesar de sua alma. Muito tempo depois, ergueu a cabeça e disse, com os

lábios salgados da água do mar e das próprias lágrimas:

— Fui eu a culpada! — exclamou, desarvorada. — Se não tivesse colocado em dúvida a

sua capacidade, Leandro amado, você ainda estaria vivo...

Depois de muito chorar, concluiu sombriamente:

— Desafiei a Fortuna, ao lhe prever o pior — disse Hero, convicta. — E os deuses não

amam os temerosos.

Talvez não amassem, também, os imprudentes. Ou talvez não houvesse, simplesmente,

razão alguma para aquela tragédia, senão o fato de ambos estarem vivos, à mercê da vida e da

morte. Mas Hero não tinha mais ânimo para especulações.

Levantando-se, tomou nos braços o corpo de Leandro e devolveu-o ao mar. Depois

subiu à fenda do mais alto penhasco que pôde encontrar, escalando-o, durante o resto do dia,

com sombria determinação. Uma vez no topo. com os pés e as mãos machucados, a jovem Hero

ergueu o rosto para a noite estrelada que chegava outra vez. Seus próprios olhos eram duas

estrelas, que brilhavam em meio à noite escura dos seus cabelos negros e revoltos.

Por um momento as duas noites se encararam — embora a face trágica de Hero

demonstrasse não indiferença, mas força e determinação, ao deixar-se cair no abismo do mar.