As Cartas De Lana Parker
1 21 de maio de 1998
Querido amigo,
Faz uma semana que eu voltei da reabilitação. Algumas pessoas acreditam que fui pra lá porque me envolvi com álcool, ou drogas. Outras acreditam que foi por causa da minha tentativa de suicídio. Isso aconteceu em agosto do ano passado, três meses depois da morte de minha avó, e no mesmo mês de seu aniversário. Nós éramos muito próximas, ia na casa dela todos os dias, só para saber se ela estava bem. Até que um dia, cheguei lá e ela estava caída no chão, tremendo, paralisada e chorando. Ela não falava, não se mexia, apenas chorava. Chamei uma ambulância e a levaram para o hospital. Isso durou por um dia, e depois ela veio a falecer.
Vamos visitá-la mais tarde. Quando digo que “vamos”, quer dizer que dessa vez minha família também vai. Mesmo sendo minha avó materna, minha mãe não a visita regularmente. Para falar a verdade, acho que eu a visito mais que minha própria mãe.
Então, sim, acho que fui pra reabilitação por esse motivo, por não aguentar ficar sem ela, que agia como se fosse realmente a minha mãe. Foi por não conseguir segurar a dor e a solidão dentro de mim. Foi por não me sentir feliz, por não me sentir confortável na minha própria pele, por ser a pessoa mais irritante do mundo, por não ser digna do amor de ninguém. Ah, você provavelmente deve estar se perguntando como tentei me matar, não é? Pois bem, pode achar loucura, eu não ligo, mas digamos que cortei meus pulsos. Se reparar, poderá ver múltiplas cicatrizes imensas sobre eles. Na realidade, queria ter coragem o suficiente para enfiar uma faca na direção do meu coração, mas não consegui, então os pulsos foram “suficientes”. Nesse dia, estava sozinha em casa, e minha mãe disse que demoraria para voltar. Meu pai estava viajando à negócios e meus irmãos, na escola. Já tinha um certo tempo que eu estava me sentindo assim, sozinha. Quase não comia, e se isso acontecesse, eu vomitava. Eu realmente pensava em suicídio. Não tinha vontade de fazer nada, meus amigos sumiram, e tenho um certo problema em puxar assunto com alguém, já que eu sempre acho que estou incomodando. Sentia saudades da minha avó, me sentia gorda, um nada. Então deitei em minha cama, e fiquei ouvindo uma “playlist” que eu gravei em um CD, já que praticamente todas as músicas que eu ouvia eram melancólicas. Ela ia de músicas nacionais até punk rock. De indie até heavy metal. E foi aí, nesse tempo em que passei deitada, pensando em todas as coisas possíveis, e ouvindo aquele CD que alguns pensamentos e perguntas invadiram minha mente. “Será que alguém se importa comigo? Não, ninguém se importa”, “Eu só causo problemas”, “Eu não sirvo para nada”, “Minha vida é uma merda”, “Ninguém vai sentir minha falta”, “Eu sinto sua falta, vovó...”. E dessa maneira, eu decidi. Quando me dei conta já estava trancada no banheiro, sentada no chão, com uma lâmina nas mãos, com os pulsos ardendo, sangrando, e eu os sentia pulsando rápido. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, e eu gritei. A dor explodia em meus pulsos e o sangue escorria sobre minhas mãos. “NÃO ERA ISSO QUE VOCÊ QUERIA, LANA? NÃO QUERIA MORRER? AGORA AGUENTE!” O piso se encheu de vermelho, e eu me sentia fraca. Sentia como se eu estivesse desmaiando e não conseguia enxergar direito. Não aguentava mais. Eu queria que isso chegasse ao fim, por mais que achasse que merecia uma morte lenta e dolorosa. Quando minha mãe chegou, eu estava deitada em meu próprio sangue, e sentia que estava pálida, minha boca estava seca e eu ainda estava chorando.
“ – Lana? Onde você está, querida? Eu trouxe o bolo que me pediu...”
Chorei mais ainda. Qual seria a reação dela ao me ver morrendo? Ela se arrependeria de todos os momentos que não me deu atenção? Eu a olharia nos olhos, chorando, e diria “Mamãe, me desculpe...”. Depois de um longo tempo no banheiro, minha mãe ficou preocupada.
“ – Lana, está aí, bebê?”
Mais tarde, ouvi ela gritando e tentando arrombar a porta.
“ – LANA? VOCÊ AINDA ESTÁ AÍ??? PELO AMOR DE SANTO CRISTO, LANA... SAIA DAÍ!”
E foi assim que ela me encontrou. Fraca, sangrando e chorando. Me vendo daquele estado, minha mãe começou a chorar e correu em minha direção, me tomando em seus braços, e disse desesperadamente:
– Ah, Laninha, o que você fez??? Meu Deus do céu, olhe para isso...- disse ela apontando para meus pulsos – Aguente firme, vou chamar uma ambulância.
E então ela pulou para a escada e correu desesperadamente para a cozinha, que é onde o telefone fica. Estava escutando o que ela dizia, e me senti a pessoa mais culpada do mundo. Apesar de ser uma mulher atarefada, minha mãe não merecia ver a sua própria filha tentando se matar...
“ – É RUA GREEN GARDEN, 78. SIM, MINHA FILHA TENTOU SE MATAR! ISSO, SUICÍDIO... SIM, MOÇA, ELA ESTÁ VIVA. POR FAVOR, MANDE A MALDITA AMBULÂNCIA...”
Depois disso eu apaguei. E foi aí que eu senti a última lágrima escorrendo pelo meu rosto. A última pontada em meus cortes. E a última imagem que eu vi foi a do banheiro em que eu estava, todo ensangüentado, e minha mãe gritando e chorando, correndo em minha direção.
Isso é, eu pensei que estas fossem as minhas últimas “sensações”. Pois algum tempo depois eu acordei, e ao meu lado estava minha mãe. Ela estava segurando minha mão, chorando, e pelo que parecia, estava rezando. No canto do quarto do hospital, estava meu irmão e minha irmã, sentados nas poltronas, olhando para o nada que pairava naquele lugar. Meu pai ainda não tinha voltado, mas o que ele iria pensar quando minha mãe ligasse e contasse o que aconteceu comigo? Passei um mês nessa situação, com faixas de gaze enroladas em meus braços. Acho que os médicos, e minha mãe, tinham medo que eu fizesse alguma loucura novamente. O que eles não sabem até hoje, é que eu ainda vivo infeliz. Parece que não tenho conserto. Não tem volta, eu não aguento. E qualquer dia desses, eu ainda vou conseguir me matar.
Está ficando muito tarde, acho melhor continuar essa história outro dia, caso eu tenha esquecido de algum detalhe.
Com amor, Lana.
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