As Cartas De Lana Parker
3 18 de junho de 1998
Querido amigo,
Me perdoe por demorar tanto para escrever essa carta, mas como tinha dito na última que escrevi, estou muito ocupada ajudando minha mãe a empacotar as coisas. Finalmente, o divórcio saiu, e meus pais parecem pessoas completamente diferentes. Meu pai já pegou seus pertences, e se mudou para uma casa que se localiza na avenida principal da cidade. Minha mãe escolheu uma casa maior, já que eu e minha irmã vamos morar com ela. Josh também vai nos visitar às vezes, mas a faculdade está exigindo muito dele, então ele só vem para casa nos feriados.
Comecei a fazer alguns cursos no CAE – Centro de Atividades Extracurriculares – essa semana. Gostei e me identifiquei com alguns cursos, tipo fotografia e pintura, e acho que é bom tentar recomeçar. Por incrível que pareça, eu fui a única a ir aos cursos sozinha, porque entrei na turma de férias. As férias duram em torno de um mês, então ao término delas, vou começar (ou deveria dizer recomeçar?) o terceiro ano. Isso é uma coisa que me faz gostar do meu colégio, já que se você sofrer algum tipo de acidente e precisar faltar mil dias, pode recomeçar a série na metade do ano.
Enfim, conheci uma garota, Amy, no curso de fotografia, que por sinal é muito legal. Posso dizer que conversei bastante com ela, já que o curso ocorre todas as terças e quintas, durante a tarde inteira, e acabamos marcando de almoçar no BBB – Bob’s Big Burguer antes da aula. E eu estou gostando disso. Estou gostando porque isso me faz lembrar de como a vida pode melhorar, de que pelo menos alguma coisa vale a pena. E isso faz com que eu goste um pouco mais dessa cidade. Me faz lembrar de como eu me sentia antes da minha avó morrer, de como eu gostava de passear pela cidade com ela. E nós comíamos no BBB, toda sexta-feira. Eu lembro de quando íamos ao cinema, somente nos dias que estreava filmes de comédia. Lembro exatamente o que pedia na “bomboniére” do cinema.
“Uma pipoca média com manteiga extra, uma caramelizada extra, 2 refrigerantes pequenos, e dois M&M’s” .
Ah, como eu sinto saudade... Desde então, parei de ir ao centro da cidade, parei de ir ao cinema, e todos pensavam que eu havia morrido. Bem, não podemos dizer que eu nunca tentei, não é? “Tudo bem, limpe sua mente, Lana, você estava bem até agora. Não tenha pensamentos “estranhos” novamente.”.
“Merda. Merda! Que merda! Pare de chorar, Lana, pare! Jogue fora todas as suas lâminas, você precisa parar de pensar nisso... Você não precisa sentir dor para perceber que ainda está viva. Não precisa ver seu sangue escorrer por suas mãos e pernas. Você não precisa de mais uma cicatriz...”
É, tenho esse costume de “conversar” comigo mesma, e estou escrevendo aqui. Bobagem, não é? Mas não posso evitar. Na realidade, eu até me considero uma garota normal, de verdade. Porque todas as pessoas possuem problemas, todas perdem algum ente querido. Mas algumas são fracas, e não aguentam. Então, acho que eu sou uma delas, não sou?
Acho que o médico que queria me mandar para um hospital psiquiátrico estava certo, eu sou louca, e eu deveria ir para lá. Sou uma garota de 17 anos que já tentou se matar e que mantém uma caixinha de veludo preto escondida na gaveta de meias, a qual possui 3 lâminas iguais à que eu usei, uma carta que mostra os motivos que me levaram à isso, e três vidrinhos de calmante. E ao contrário do que muitas pessoas pensam, eu não gosto de rever as cicatrizes espalhadas pelo meu corpo. Elas me lembram que eu fui fraca mais uma vez, e me lembram os seus motivos. Mas ninguém precisa saber que a “Lana Louca e Suicida” anda se cortando... Eu sei que não devia fazer isso, ainda mais depois daquela tentativa, mas eu não tenho medo. Minha mãe pareceu se importar comigo, mas depois da segunda semana de tratamento ela já estava de volta ao normal, já quase não ligava e voltou a trabalhar. Ainda passo a maior parte do tempo sozinha em casa, mas em alguns momentos, Lili está comigo.
Porra, minha mãe está subindo. “Esconda a carta, esconda a carta...”
OK, vou guardar a máquina em uma caixa de papelão e vou ajudar ela a carregar o caminhão de mudanças. Ficarei algum tempo sem escrever, porque vou ter que desempacotar e organizar tudo. Acho que minha mãe ainda vai querer pintar os quartos, mas eu te mantenho informado.
Com amor, Lana.
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