As Carambolas da Vida

1 Capítulo 1 – INTRODUÇÃO


Desde que entrei na lanchonete percebo sua presença nos fundos do estabelecimento, mas meu coração está em solavancos, saindo do ritmo, fora de compasso, iniciando uma dança. Sinto como se eu fosse um desenho animado e qualquer um pudesse ver meu coração se esforçando para sair de dentro do meu peito.

Não consigo controlar o tremor em minhas mãos, meus olhos estão totalmente arregalados encarando o embrulho que ela carrega nos braços, meu cérebro não assimila o que Alice diz, seus lábios se movimentam em um ritmo rápido, mas o som se perde pelo caminho e não chega aos meus ouvidos.

Meu cérebro está aos trancos, faço várias tentativas para calcular quanto tempo se passou desde que nos vimos em sua casa pela última vez.

Um ano?

Dois anos?

Talvez algo entre isso?

Não me lembro de me sentar ou o que eu disse quando o fiz, tenho dificuldade de determinar a quanto tempo estou aqui e o que já foi dito por ela.

Ela tem muito o quê dizer, mas não consigo assimilar nenhuma informação.

Seus lábios param de se mover. Procuro algo interessante para preencher o silêncio que recai entre nós. O pouco que escutei causa um zumbido nos meus ouvidos.

Meu braço não está formigando, o que me tranquiliza um pouco... Eu não posso estar enfartando, posso?

Opto por responder algo que me mantenha em um caminho que acredito ser seguro:

— Você tem certeza?

Alice volta a mover seus lábios com velocidade, ainda não consigo absorver nada do que diz. Minha atenção se perde quando o embrulho volta a se movimentar em seus braços. A posição em que o embrulho se encontra não me parece nem um pouco confortável, o que não me causa espanto quando volta a chorar.

O choro tem um início como um alerta, começa lento e vai ganhando força, mas Alice não faz nada para mudar a situação, é como se ela não escutasse a sirene que está segurando.

Apesar disso, não me atrevo a dar palpites, afinal, o que eu entendo sobre tudo isso?

O barulho me deixa atordoado e se antes tinha esperança de compreender o que está acontecendo, elas se perdem quando o embrulho se agita frustrado. Compartilho desse sentimento: frustração! Eu também queria poder chorar e espernear.

Retiro o boné da minha cabeça e passo as mãos pelos meus cabelos. Minha vontade é de tampar meus ouvidos para abafar a voz, o choro e o zumbido. Coloco o boné de volta na cabeça e encaro Alice. Ela tem todas as justificativas e explicações do mundo para dar, e tudo que eu quero é entender uma única palavra, qualquer que fosse.

Ela está linda, claro, sempre foi atraente. Suas curvas estão mais acentuadas do que me lembrava. A expressão em seu rosto contradiz com minhas lembranças, essa, ouso dizer, é de puro desgosto, quando olha para mim, mas principalmente quando olha para o embrulho que carrega nos braços.

Seus lábios se fecham, formando uma linha, as sobrancelhas visitam sua testa, como se estivesse esperando a algum tempo que eu dissesse alguma coisa.

— Tem certeza disso?

Sim, eu já havia feito essa mesma pergunta cinco vezes, como também já utilizara a expressão “Está certa sobre isso?” umas três ou oito vezes.

Quando ela bufa, o ato afasta a franja que caem sobre seus olhos.

O pacote tem um choro persistente e pernas agitadas que chutam o ar a sua volta. Pergunto-me se o rosto está vermelho pelo esforço de se livrar do aperto de Alice ou então, pela cabeça do embrulho estar praticamente voltada em direção ao chão.

— Aaron, está prestando atenção? – Sua expressão é de quem vai cometer um assassinato, e talvez seja exatamente isso, talvez queira me matar, mas em minha defesa, estou no meio de um ataque de pânico ou algo muito parecido com isso. – Preciso de uma resposta!

O que ela dizia?

Sua expressão é realmente homicida, nunca a vi neste estado antes.

Procuro me lembrar de suas palavras, juntar alguns fatos soltos.

Retiro o boné da cabeça e fico apertando a aba enquanto recordo sua última declaração.

— Você não quer. – Afirmo com uma convicção que na verdade não tenho.

— Não, Aaron, eu não quero. – Não há um pingo de incerteza em sua voz.

— Por que não? – Coloco o boné de volta, a aba para trás, e rezo para minha dor de cabeça passar ao massagear minha testa.

— Nunca quis. – Ela bufa e algo me diz que ela já respondeu essa pergunta antes. – É simples, quero voltar para a minha vida, para a casa dos meus pais e temos um acordo... Primeiro eu teria e depois me livraria disso.

Ela fala do embrulho?

— E você está certa sobre isso? – Constato que falei a coisa errada quando ela grunhe. Sim, uma pessoa é capaz de grunhir, Alice pelo menos faz isso à perfeição. O bufo que ela dá em seguida é algo que ela não tem nenhum controle sobre.

— Segure isso. – Impaciente, ela se levanta e estende o pacote barulhento e agitado para mim.

Fico com medo de pensar que, se mesmo atordoado, não o tivesse segurado, ela soltaria aquilo em meus braços de uma forma ou de outra. O embrulho é maior e mais pesado do que imaginei, e talvez pela proximidade que agora está dos meus ouvidos, o barulho se torna mais alto e insuportável.

Eu quero bufar, também.

— O que eu faço com isso? – Não sei se ela não escuta ou finge não escutar.

Apenas uma garçonete trabalha essa manhã, com idade para ser a bisavó de alguém, pergunto-me se o motivo de não nos enxotar é pelo ambiente estar completamente vazio ou se por ela ser totalmente surda. A velha nos olha por trás do balcão com interesse, mas não se aproxima de nós desde que Alice a expulsara de nossa mesa.

O embrulho faz pausas em seu choro ao soluçar, mas o meu maior problema nesse momento é a garota em pé, na minha frente, aquela que um dia eu pensei que amava. Ela vasculha algo dentro de sua bolsa de grife famosa – ela vivia dizendo o nome das marcas quando se referia a qualquer coisa que comprava ou fosse comprar – retira três envelopes e os coloca um ao lado do outro sobre a mesa redonda. O movimento de pendurar a bolsa em seu ombro não me passa despercebido.

— Não precisa decidir agora... – Sua voz tem um timbre melodioso, diferente de todos os que ela usou comigo durante toda a manhã, muito semelhante ao tom que usou quando nos conhecemos. Sua voz definitivamente não era essa, minutos atrás. – Pode pensar sobre isso por um tempo... – Não faço ideia sobre o que ela está falando, mas ela prossegue com seu discurso como se não percebesse meu desespero. – Independente do que você decidir precisará destes documentos.

— Documentos?

— Sim, contratos que o meu advogado preparou conforme as minhas necessidades. – Ela alinha os envelopes na mesa antes de prosseguir. – Você tem duas opções... Não me importo qual delas escolher, eu e meus pais já assinamos ambos.

— O que é tudo isso, Alice?

Ela fecha os olhos, cada vez mais impaciente, engole uma boa quantia de ar, antes de voltar sua atenção para mim. O sorriso que ela oferece me deixa perplexo.

— É tudo muito simples, Aaron. – Ela retoma seu discurso, mas agora me trata como se eu fosse um tapado com dificuldade de assimilar as coisas... Pensando bem, ela tem motivos para agir dessa forma. Com o indicador aponta para o primeiro envelope sobre a mesa. – Se você não quiser, e ninguém espera que você queira, assine os documentos que estão aqui dentro e leve tudo isso... – Suas mãos rodam ao redor, apontando para todas as tralhas entulhadas em um canto e para o embrulho no meu colo. – Para o endereço escrito aqui dentro, em um cartão, para prosseguir com a adoção.

— Ninguém... – Minha atenção ainda está voltada para o “Ninguém espera que você queira”, por isso, não consigo perguntar o que ela quer dizer com “O endereço escrito aqui dentro, em um cartão, para prosseguir com a adoção”.

— Agora, se você quiser isso para você, Aaron, assine este daqui... – Ela bate o indicador sobre o segundo envelope. Eu me pergunto o que tem no terceiro envelope, visto que, aparentemente, eu tenho duas opções. Ela não perde tempo ao tirar minha curiosidade. – Neste estão os documentos do bebê.

— Bebê? – Sim o embrulho é um bebê, eu sei disso, porém, por algum motivo, preciso confirmar a informação.

— Não precisa decidir agora... – Ela endireita sua coluna, pega um cartão na lateral da sua bolsa e coloca-o sobre os envelopes. – Qualquer dúvida que você tiver, ligue direto para o meu advogado e ele explicará qualquer coisa que você ou os seus pais quiserem saber... Eles vão precisar assinar também.

Meus pais? Indignado me recordo de Alice no enterro da minha mãe.

Ela olha uma última vez para o embrulho em meus braços, que não parou de chorar ou se debater descontroladamente.

Alice parece aliviada ao me dar as costas.

— Aonde você vai? – Nervoso, levanto-me o mais rápido que o embrulho em meus braços me permite fazer. – Por que eu, Alice? Por que está fazendo isso comigo? – Ela se vira para mim, me fuzilando mais uma vez.

— Por que você é o pai do bebê, Aaron e por que o meu pai e o meu advogado me obrigaram a falar com você antes que eu tomasse outra atitude... – Admite tudo isso como se conversar comigo a entediasse. Ela morde os lábios, talvez para evitar falar o que realmente pensa. – Foi bom ver você de novo, Aaron. – Sua voz melodiosa me enoja e me pergunto quem é a garota na minha frente.

— Onde você está indo?

— Meu pai está me esperando no carro... – É quando realmente reparo no carro estacionado do lado de fora, como se ele tivesse acabado de brotar do chão e se materializado diante de mim.

— E isso? – Pergunto sobre o pacote em meus braços.

— Você é estupido? – Revira seus olhos e respira fundo. – Você tem que decidir, lembra? Envelope um ou dois, você decide o que será feito com tudo isso... – Tomando outra lufada de ar, repete. – Eu e meus pais já assinamos os documentos, Aaron.

— Alice como você...

— Chega! – Ela corta minhas palavras rispidamente e volta a andar em direção à porta. – Liga para o seu advogado, Aaron.

Para o meu advogado? Que advogado?

Ela sai, sem olhar para trás uma única vez.

Eu pareço uma estátua olhando através do vidro da porta, encaro o lado de fora esperando ela voltar, mesmo que tenha visto o carro ir embora minutos atrás. Seria um exagero dizer que os pneus levantaram um rastro de poeira, ou qualquer coisa do gênero, também seria mentira. Era como se ela nunca tivesse estado nessa lanchonete de qualquer forma. Sinto como se estivesse em um pesadelo, e rezo para acordar de uma vez por todas.

Eu só não poderia mudar ou dramatizar a trilha sonora para esse momento da minha vida, pois os soluços que o embrulho dá, representa exatamente como me sinto.

O pacote abandonado nos meus braços que, minutos atrás esgoelava, volta a chorar em um volume baixo.

Será que está cansado de chorar?

Desistiu de chamar a atenção para si, sem sucesso?

Procuro entender o que está acontecendo e o que devo fazer para consertar isso...

Reparo na garçonete, enquanto Alice estava aqui, esperou pacientemente atrás do balcão, sua paciência deve de ter se esgotado. Ela vem decidida, em passos mais rápidos do que imaginei ser possível, para em pé ao meu lado, mexendo no embrulho que eu carrego.

— Segure a cabeça mais para cima, desse jeito. – Aconselha, tentando firmar meus braços em uma posição desconfortável. De dentro do avental, puxa um pano branco, de aparência limpa e o usa para limpar o rosto encharcado do bebê. – Viu só? Já está parando de chorar...

— Obrigado. – Atordoado, olho ao redor e volto a me sentar.

— É um menino ou uma menina? – A pergunta é para mim, provavelmente, assim como eu, ela não acredita que o bebê fosse começar a responder.

— Hum... – Clareio minha garganta. – Eu não sei.

— Você não sabe?

— É tudo branco e preto! – A roupa, a coberta, as malas, todas as coisas ao meu redor são brancas e pretas. – Eu não tenho a menor ideia... – Admito.

Quem sabe é assexuado?

O que eu sei sobre bebês?

As coisas não deveriam ser azuis ou rosas?

— O que está acontecendo, garoto? – Embora mantenha a simpatia, seu tom me diz que está apenas cogitando “quando” e não “se" ligará para a polícia.

O barulho dá uma trégua aos meus ouvidos, o zumbido está diminuindo, aproveito essa pequena demonstração de silêncio para juntar os pontos soltos nessa história, tarde de mais percebo que faço isso em voz alta, mas aos poucos a história começa a ganhar um sentido, entrar em contexto.

— Alice disse que o bebê é meu... Poderia ser? Sim, existe uma chance, mas é mínima, certo? – Tento calcular o tempo desde que fizemos sexo. – Tá, existe uma chance... Ela não quer a coisa pra ela... Ela acha que ninguém espera que eu queira também... Ela provavelmente está certa sobre isso... Ela realmente está certa sobre isso! Porque eu deveria querer? Ela está decidida... Cabe a mim o poder de decidir o que fazer com isso! – Eu começo a rir, a situação é absurda de ridícula. – Ou eu coloco isso para a adoção ou eu fico com isso... Não acredito que ela foi embora! – É estranho pensar que ela voltará? Em questão de instantes ela abriria a porta e diria que tudo não passou de uma brincadeira? Uma piada de muito mau gosto? – Ela quer o quê? Que eu seja pai? – É ridículo esperar por ela voltar, mas a esperança é a última que morre. – O que eu faço?

Mesmo que seja uma pergunta retórica, a senhora responde.

— O bebê é seu? – O choque passa por seu rosto, e ela se senta ao meu lado.

Talvez agora ela esteja tão atordoada como eu? Sua mão cobre sua boca, em descrença. E eu, tentando parar os pensamentos sobre essa situação, passo a me perguntar em qual momento exatamente eu me sentei.

— Alice diz que sim... – Atônito é como me sinto.

Sinto um formigamento começar no meu braço.

Será que agora eu estou enfartando?

E com esse pensamento faço a única coisa que não deveria fazer, mudo a posição dos meus braços, apoiando parte do peso nas pernas. Havia batizado aquela posição desconfortável como “silenciosa" por um ótimo motivo! E nem bem me mexera e já quero voltar atrás. Por algum motivo o bebê não percebe meus esforços para encontrar a posição que estávamos antes, se percebesse, talvez esperasse eu encontrar... em silêncio! Mas quanto mais eu me movimento, mais alto o choro fica.

— Pode não ser esse o problema. – A senhora volta a si. – Bebês choram para dizer o que querem.

— E o que isso quer? – Eu aceito qualquer sugestão.

— Com o tempo você vai descobrir a diferença em cada choro, cada um tem uma tonalidade, um ritmo e um significado. – Eu ainda tento encontrar a posição de antes, a velha mulher começa a rir de minhas falhas tentativas de silenciá-lo, e decide tirar o embrulho dos meus braços. – Pode ser desconforto, sim. Mas também pode ser fome, sono, frio, calor, são muitas as opções... Quem sabe a fralda está suja? Ou os dentinhos estão nascendo?

— Fralda suja? – Arght! Bile sobe pela minha garganta com a imagem que se forma no meu cérebro. Concentro-me nas outras opções, se for sono, oras, é só dormir! Concordo que possa ser fome, eu mesmo fico extremamente mal humorado quando estou com fome...

— Pode ser calor... – A senhora continua. – Sinta a grossura dessa coberta! Está um sol muito forte lá fora e...

Eu não presto muita atenção depois disso, estou mais preocupado empenhando-me a descobrir o que exatamente um bebê pode comer, sendo que a única opção que posso pensar são os peitos da Alice, e eu já estou me conformando que ela não voltará.

Pensar em comida me distrai.

O que eu posso comprar para dar para o bebê?

Pego a carteira do bolso de trás da minha bermuda jeans, não apenas para constatar que tenho apenas uma nota dentro da carteira como também que, definitivamente não entendo nada de bebês. O que eu devo fazer? Comprar umas fatias de bacon? Posso garantir que o bebê não comeria isso... O bebê tem apenas dois dentes!

Meus pensamentos estagnam quando reparo no que essa senhora está fazendo. Ela já retirou a coberta e o macacão branco do bebê, quando rapidamente tira as fraldas. Não tenho tempo de formular uma frase para dizer em voz alta, eu encaro partes muito íntimas da minha filha para pensar em alguma coisa.

Filha? Eu tenho uma filha? É uma menina! Eu tenho uma filha?

Que tipo de pensamento é esse?

Oh, céus, eu tenho uma filha! Pronto, era só o que me faltava!

— Meu pai vai me matar! – Como ele fará isso, eu ainda não sei, mas definitivamente! – Meu pai vai me matar! É uma menina! Oh, Deus, eu tenho uma filha e ele vai me matar! – Não que, se fosse um menino, meu destino seria diferente. – Poderia ser assexuado! – Penso novamente. – Ainda assim... Meu pai vai me matar!

Sim, acho que eu entrei em choque.

Será que agora eu estou enfartando?

— A fralda está limpa... Será que é fome? – Meu desespero totalmente ignorado, a velha olha ao redor, faço o mesmo... Alice deve ter voltado! Mas a senhora não olha para a porta e sim para a quantidade de coisas que Alice esqueceu no estabelecimento. É nesse momento que dou a devida atenção para tudo isso... Fora o carrinho e uma cadeira esquisita, três malas grandes, gigantescas... – Garoto, pegue aquela bolsa que está na cadeira e procure uma mamadeira.

Ah, ótimo! Não havia visto a bolsa! Então são um carrinho, uma cadeira, três malas e uma bolsa? Como exatamente Alice espera que eu carregue tudo isso em cima de um skate? Ela poderia, pelo menos, ter me oferecido uma carona!

Abro a bolsa que a senhora aponta, e tiro tudo que há dentro: um par de roupas, meias, lenços, tubos de pomada, coisas estranhas que prefiro nomear de “não pergunte”. Nada comestível, como posso constatar, a menos que uma garrafa de café conte? Cinco mamadeiras, todas vazias.

— Quanto essa criança come?

Cinco mamadeiras? Pra que tudo isso? Com um agito de mãos a senhora me incentiva a continuar. Reviro os olhos para a quantidade de fraldas que encontro ali. Quando jogo uma chupeta sobre a mesa, a senhora a alcança com uma rapidez surpreendente e a coloca na boca do bebê, deixando o ambiente silencioso novamente. Respiro, finalmente, aliviado com o silêncio.

— Isso não vai segurar o choro por muito tempo! – Ela garante. – Acho que ela está faminta, a coitadinha! – Faz um carinho nos cabelos loiros do bebê. – Encontrou alguma lata na bolsa, rapaz?

— Tem uma aqui... – Por que ela não pediu por uma lata antes?

— Coloque água na mamadeira... – Estava prestes a perguntar onde eu deveria pegar água quando ela completa. – Veja se a água da garrafa térmica está quente o suficiente. – Sinto-me menos humilhado por não ter perguntado em voz alta “Por que diabos Alice anda com uma garrafa de café dessa dimensão dentro de uma bolsa?” Encho a mamadeira mais próxima, até a senhora dizer chega. – Coloque duas medidas generosas de leite e agite bem.

— Aqui está – Estendo a mamadeira para a velha senhora, mas ela não ergue as mãos para pegar, apenas me encara confusa, alternando o olhar entre mim e a mamadeira.

— O que? – Ela começa a rir, como se a cena fosse uma comédia. – Pegue a sua filha e a alimente! – Apesar do olhar divertido, aquilo é uma ordem.

— Eu não sei fazer isso. – Admito a contragosto. Percebo, tarde de mais, que ela já sabe disso.

— Você precisará aprender uma hora ou outra. Por que não agora? – “Por que não depois?”, quero perguntar, mas acho melhor não chatear uma mulher idosa. Toda simpática, me faz sentar e coloca a bebê no meu colo. Arranca a mamadeira da minha mão, vira de ponta cabeça, deixando algumas gotas de leite pingar em seu punho. – Sempre verifique a temperatura antes de dar para ela. – Ela puxa minha mão, virando-a de palma para cima e derrama uma gota do leite no meu punho também. – Está quente, mas não queimou sua pele, o que significa que também não vai queimar a boca dela.

Devolve a mamadeira e sem qualquer aviso prévio tira a chupeta da boca da criança.

Uma sirene desperta, em um só fôlego, minha filha volta a chorar.

Um instinto me assola e, sem pensar, coloco o bico da mamadeira em sua boca, sabendo ou não fazer isso, eu não aguento mais ouvir esse barulho.

O choro cessa assim que a bebê começa a sugar a mamadeira, evidentemente satisfeita.

A senhora permanece ao nosso lado, arrumando a posição da mamadeira, e explicando a forma certa de fazer isso, não tem segredo, eu só tenho que me atentar se a bebê não está engolindo ar, para ela não engasgar.

Com o ambiente de volta ao silêncio, sou capaz de voltar a escutar meus próprios pensamentos. Sinto um aperto em um dos meus dedos que segura a mamadeira, olho para aquela mão minúscula que me prende, segura, chama, acompanho o caminho do seu braço, seu colo, seus cabelos loiros, seu rosto inchado, as bochechas vermelhas, covinhas iguais as minhas, o lábio rosa, para finalmente devolver seu olhar.

Meu coração sai de compasso, bate fora do ritmo.

Olhos que nunca mais achei que veria, estão me encarando de volta.

Os olhos dela, da minha filha!

Oh, Céus! Os olhos da minha mãe!

— Não precisa chorar... – A senhora suspira em tom maternal. Quero responder que ela está ouvindo coisas, a bebê não está mais chorando, porém ao abrir minha boca, o som não sai, a garganta arranha, e doe para engolir minha saliva. Com o pano tirado do avental, enxuga meu rosto, apaga minhas lágrimas. – Quantos anos você tem, garoto?

— Quinze, faço dezesseis anos no dia dois de julho.

— Quer me contar o que aconteceu? – Dou de ombros, mas narro mesmo assim.

Notas finais
História completa na AMAZON: "As Carambolas da Vida"
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!