Notas iniciais
Olá! Esta história é derivada de sessões de RPG "Névoa Baixa", mestradas por Arnaldo Gabrielli, meu namorado. Gostei muito da personagem com a qual joguei (nunca tinha tido essa experiência de jogar um RPG), então me animei de escrever um pouco sobre como foi essa aventura! Espero que gostem! O capítulo é uma introdução ao background da protagonista das histórias "As Confusões de Aelysia Moldaventos em Névoa Baixa" e "Aelysia Moldaventos e os Demônios de Névoa Baixa"

Um farfalhar de folhas e mais silêncio. Mantendo os olhos fechados, ela aguçou os ouvidos, toda a atenção voltada para sua tarefa. Sentia os dedos apertarem com força a faca de caça que trouxera consigo. Gotas de suor escorriam pela testa. Mais adiante, ela sentiu: uma presença localizada a menos de 10 metros, pequena, o coração batendo rapidamente, escondida por entre as folhagens de uma forma arbustiva. Ela abriu os olhos e saltou, a faca parecia pesada entre os dedos molhados pelo suor.

Quando avistou a criatura, ela viu seus olhos e sentiu seu medo. Ela largou a faca.

“Nunca vou ser capaz de fazer isso.”

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— Você falhou em matar um coelho, Aelysia? — Disse a mestra, decepcionada.

— Não sirvo para ser uma caçadora. Não quero tirar a vida dos inocentes.

— Repita isso quando a barriga estiver doendo de fome.

— Mas ela não está.

A mestra élfica suspirou.

— Treino com o arco. Quero o dobro do usual. Amanhã você tentará novamente. Uma caçadora da floresta precisa ter sangue frio.

— E se eu não quiser ser uma caçadora?

A elfa idosa a ignorou. Apesar de ter séculos de idade, ela se assemelhava a uma jovem elfa, e o único sinal de sua idade avançada eram seus olhos. A íris cor lilás era um abismo de sabedoria, os olhos já quase cansados de ver o mundo, cobertos por uma fina camada leitosa.

Depois de atirar flechas com o arco até os dedos sangrarem, Aelysia se sentou na grama seca e fechou seus olhos. Tentou, com o restante de energia que lhe restava, reunir energia natural, ou mana, como algumas raças chamavam. Embora estivesse treinando para ser uma caçadora da floresta, que comporia o grupo das Sentinelas da vila, a jovem elfa tinha certa inclinação para a magia natural, em especial o domínio do ar. Desde quando era uma elfa infante, ela mostrara um dom para a aeromancia. Dizem que sua mãe era uma grande maga e seu pai o melhor herborista que a vila já teve. Não que ela tivesse tido a chance de conhecê-los.

Ela se concentrou um pouco mais, reuniu a mana e se preparou para moldar o ar. Então, Aelysia abriu os olhos violeta-vivo e o ar ao seu redor soprou. Os cabelos lisos cor de areia se revolveram, enquanto o vento não natural a circulava, em uma bola de ar, seguindo o fluxo de mana que ela canalizara. Quando sua energia se esgotou, o vento estagnou. Fatigada, ela se levantou, o corpo doído do dia cansativo. Quando estava para dar o primeiro passo em direção a pequena casa de madeira em que dormia, ela congelou.

Um grande orc cinzento andava na sua direção, os passos pesados fazendo o chão vibrar. Ela sabia que já tinha sido vista, afinal estava sozinha na frente da cabana, com nada ao seu redor, além de folhas caídas e relva verde. Seus dedos tremiam e a respiração ficava cada vez mais rápida, junto com as batidas de seu coração. Mestra Gliandra tinha ido ao boticário comprar mais suprimentos para poções e só voltaria após o anoitecer. Ela estava por conta. Cansada como estava, ela duvidava que conseguiria reunir energia natural e um estranho nervosismo começara a percorrer seus membros, fazendo-os tremer.

Se aquele orc estava ali, então muito provavelmente já chegaram na vila. A cabana em que vivia com a mestra das caçadoras ficava em um local mais afastado, perto das montanhas. A vila deveria estar cercada por uma proteção mágica poderosa o suficiente para ser quase impossível que orcs adentrassem o território élfico.

O orc grunhiu e começou a andar na direção de Aelysia. Ela se virou e correu, a despeito da fadiga que sentia. Um calor inundou seus membros, a medida em que ela os forçava a trabalhar. Entrou na floresta, estranhamente silenciosa: nem mesmo os pequenos insetos eram audíveis. Podia sentir o coração disparado batendo nos ouvidos, na garganta, quando avistou uma caverna estreita. Sem pensar, ela se espremeu para dentro, e se refugiou mais fundo na escuridão.

Respirando alto, ela caiu no chão duro. A caverna estava úmida e ela notou que sentara em uma pequena poça, que ela supunha ser de água. Lá fora, ela ouviu o orc gigantesco bufar, em um misto de raiva e confusão. Ela escutou os esturros da língua órquica gutural, antes de ouvir um grande barulho, de tremer o chão. A caverna inteira pareceu se remexer. Ela se levantou, as pernas ainda bambas, e foi para mais fundo da caverna, procurando uma outra saída.

Sua visão estava começando a captar pequenas luzinhas que brilhavam estranhamente na escuridão, e ela pensou que batera a cabeça em algum canto. Ou então podia ser outra saída. Animada, ela andou mais alguns passos, e então percebeu que havia algo como uma antecâmara, no fundo da caverna. Aelysia adentrou, esperançosa de o brilho misterioso que vira pudesse ser uma fenda, minúscula que fosse, que desse para fora. Quando finalmente entrou, teve duas constatações.

A primeira era que o brilho passou a vir de todos os lugares. Para onde ela olhava, havia pequenas formas cristalizadas, semelhantes a flores, depositadas nas paredes, no teto e mesmo no chão. Cada uma das pequenas flores emanava um leve brilho fluorescente.

A segunda constatação que teve é que não havia saída.

Novamente, um grande tremor abalou a estrutura da caverna, mais forte que o anterior. Aelysia se apoiou numa parede, coberta pelas pequenas flores brilhantes. Ela se encolheu no canto, enquanto o tremor se intensificava, e as paredes começavam a ruir. Rochas se desprenderam do teto, prestes a desabar. Ela se encolheu, pedindo à Mãe Terra que a protegesse, protegendo a cabeça com os braços. Quando o tremor virou um terremoto, ela foi sentindo a caverna inteira desmoronar sobre sua cabeça. A elfa perdeu os sentidos, enquanto a escuridão a envolvia.

Notas finais
O que acharam? Adoro comentários com críticas e sugestões!