As Asas de Alice
1 Prólogo
"Amicus certus in re incerta cernitur"
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Setembro de 1951
Eu não lembro de como fui parar na Casa Kansas. Em minhas lembranças sempre estive lá. Não vou dizer que tive uma boa infância mas também não foi algo aterrorizante. Exceto pelo medo de nunca achar uma família e de pensar que nunca teria alguém no mundo por mim. Vivia com essas preocupações constantemente.
Então aconteceu.
Chegou uma nova criança no abrigo. Bem do tipinho que os pais bobocas fazem questão de adotar em poucas semanas. Loirinho, olhos verdes claros, carinha de anjo, como dizem. Assim como eu, ele tinha 8 anos. Ele havia perdido os pais em um acidente de carro, e isso significava que ele tinha passado bons anos com uma família. Assim como eu, ele também não tinha mais ninguém no mundo para ele. E isso me confortava de uma certa forma, pois eu acreditava que ele não sofreria sem família por muito tempo. "Então que passe por maus bocados", eu pensava maldosamente.
Até que, em um dia, ele veio falar comigo. Estava uma manhã ensolarada, porém fria e todas as crianças estavam do lado de fora, no parque, brincando.
— Oi — falou com a voz baixa e se aproximou devagar — meu nome é Arthur. — Não me olhava, mas eu sabia que estava falando comigo. Ele estava observando a estrutura do balanço em que eu estava sentada. Já era um brinquedo velho, castigado pelo tempo. — Qual seu nome?
— Alice. — Tentei intimidá-lo com o olhar para que ele se afastasse, mas ele ignorou meus sinais e sentou-se no balanço sem ao menos me olhar.
Todos sabiam que quando alguém estava no balanço enferrujado era por que queria ficar sozinho, tentando imaginar o por que estava ali, num orfanato, tão sozinhos. E quando finalmente iriam arranjar uma família para si, quando finalmente iriam ser felizes.
Mas ele não sabia disso, e sua presença me confortava e me machucava.
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