As Asas de Alice
2 Existem histórias que não se contam
"Ubi major est, minor cedat"
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Julho de 2015
– Ah, Arthur, é de Arthur que você quer saber!-, minha boca solta antes mesmo que meu pensamento se concretize. — Sabe, seu avô era um ser único. Pelo menos dentro daquele orfanato. Ele tinha um sorriso tão... Tão sincero. Tão angelical. Mas nada disso me fez gostar dele nos primeiros dias, sabe? — Ri desconcertadamente, deixando o olhar vagar enquanto lembrava dele tão pequeno e, bom, por que não dizer, inocente? — E ele tentou, por um longo ano. Não entendia como alguém como ele ainda não havia sido adotado. Me questionava constantemente... Na minha cabeça infantil, não fazia sentido aquilo. Se eu fosse uma mulher desesperada para adotar um filho, ele teria sido minha primeira opção. Tão angelical, tão doce. — sorri e deixei a mente vagar pelos meus anos na Casa Kansas.
Agnes me cutucou outra vez, impaciente. Desviei o olhar para ela e sorri. Ela parecia entediada e eu percebi que ela não queria ouvir essa conversa que não saia desse ponto outra vez.
– Depois a vovó continua a contar como conheceu vovô, tá bom? Agora eu estou cansada e acho que tenho que ir tirar um cochilo. — sorri fechando o olhos, fazendo-me parecer realmente cansada. Menti, mas a verdade é que não sabia como contar essa história pra uma criança tão pura.
– Tá bom, vó. Mas eu nem sei se quero saber mais, a senhora nunca passa dessa parte. Blá, blá... Arthur era tão fofinho, olha só... Aff. — bufou e deitou-se no sofá ao lado. — Vou ver TV, ok? — falou de um jeito desafiador, porém doce.
Quando olhava para ela, lembrava de mim em sua idade. Sai para meu quarto e fui deitar.
Não podia mais dormir sem a ajuda dos meus remédios. Se caísse no sono naturalmente, os pesadelos voltavam. E eu não podia deixar aquele mal chegar a minha família, não agora. Logo agora que eu achava que tudo iria ser paz. Como tudo na minha vida, claro que essa felicidade não passava de uma ilusão.
Deixei a mente vagar pelas boas lembranças que tinha com Arthur. Fechei os olhos e lembrei de seu beijo, seu toque, os arrepios que sentia cada vez que ele falava que me amava ao pé do ouvido. Como eu sentia falta dele, como eu queria tê-lo só mais uma vez ao meu lado. O meu verdadeiro Arthur. Eu faria de tudo... Eu faria de tudo para tê-lo mais uma vez. Mas, dessa vez, não tinha mais nada ao meu alcance. Naquele momento me perguntei se sentia falta até dos momentos ruins. "Que bela porcaria sentir saudade dele e de todo o sofrimento que ele me fez passar..."
Abri os olhos tentando varrer aqueles pensamentos que sempre envolviam Arthur. A janela estava aberta e a cortina escondia a maior parte da luz do sol, que ainda assim banhava suavemente o quarto, o deixando quase numa penumbra. Virei-me para o lado e vi. Juro que vi ele parado, como lembrava dele na minha juventude. Meu coração entrou em um ritmo fora do normal por um momento e eu fechei os olhos, respirando todo o ar que podia, e o jogando para fora como se pudesse expulsar de mim também esses pensamentos que beiravam a obsessão. Abri lentamente os olhos outra vez, e lá estava ele. Tão lindo, e sorria. Sorri de volta, como estava com saudade dele... E ele respondeu meu gesto vindo em minha direção. Eu desejei isso tão fortemente que ele veio. Vacilei por um momento e cai na realidade. Ele veio, mas não era assim que eu queria! Não conseguia me mover, tentava me mexer mas tudo que saia era um tolo movimento de quem se agita sem motivo.
Seu dedo indicador estava levantado e ele se aproximava. Comecei a chorar silenciosamente por que já sabia o que viria. Como eu fui tola! "Não! Não!" Balançava minha cabeça de um lado a outro como se suplicasse que ele não fizesse aquilo. Não adiantava, ele ainda estava chegando. Fechei os olhos, senti meus olhos marejados deixando rolar uma lágrima e aceitei o tormento que se aproximava.
A sensação era a mesma de quando eu era jovem. Há tanto tempo não sentia aquilo. Mas eu sabia mais que qualquer um que os pesadelos podiam sim se tornar reais, mais reais que nossos sentimentos, mais palpáveis que as matérias tão maciças que me cercam, mais letais que as armas que os homens fazem.
Abri os olhos. Já não estava mais no meu quarto. Não estava mais deitada. Estava tudo escuro, mas não o suficiente para me cegar, mas tudo que eu podia perceber era o cheiro pútrido que me cercava. Olhei para as minhas mãos e não eram mais minhas mãos enrugadas e envelhecidas. Era eu, Alice Padovani, com uma aliança na mão esquerda. Passei a mão pela minha roupa e senti o tecido de seda que envolvia meu corpo. Então era isso. Já sabia o que me esperava. As lágrimas começaram a rolar. Tentei abafar o som do meu choro que queria sair desesperado. Arthur.
Virei as costas e ali estava ele. E dessa vez, era como eu lembrava de meus pesadelos.
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