Há àquela altura do dia Carlos Eduardo, se encontrava um tanto mais ansioso que o natural. Impaciente, tornava a olhar contínuas vezes o relógio cingido pele adentro por uma pulseira de couro desgastada em seu pulso esquerdo. Repetia o gesto reiterada vezes mais rápido até mesmo do que o próprio cambiar dos ponteiros.

A preocupação não era para menos.

Além das obrigações habituais que só se avolumavam cada vez mais havia uma extra que sobrecarregaria de forma exponencial seus dias dali em diante.

Como de praxe sua mãe havia vindo passar uns meses na sua casa. Quatro para ser mais exato!

Estava cedo, muito cedo. Não bastasse ter de acordar ao alvorecer do dia para trabalhar todas as manhãs contrariado (pois não lhe agradava em nada as funções que lhes eram atribuídas); teve que naquele específico, despertar ainda em plena madrugada. Toma o café às pressas para logo depois se dirigir para uma estação de trem não muito longe de sua casa é verdade!

A estrada estava escura como se fosse ainda noite. Mas aos poucos, a medida que seu carro avançava em direção ao seu destino, sem que ele percebesse, o firmamento vai clareando, até que, finalmente se faça dia por completo como que num passe de mágica. O amanhecer com o nascer do sol, o que para muitos denota ser uma dádiva, para ele se fazia absolutamente indiferente.

Sem se ater muito, pois, a essa transformação eis que ele alcança enfim o seu local de chegada.

Era uma estação fabulosa, deve-se dizer, uma das mais antigas do país. Possuía um imenso telhado de vidro em forma de “V” com a vértice apontada para o alto como que em ligação direta com o reino celestial. Teto testemunha diária não só das idas e vindas de seus passageiros, mas das baforadas da fumaça esbranquiçada que saiam, aos montes, da chaminé daquele trem dissolvendo-se pelo ar. Em ritmo harmônico a emanação confundia-se com as nuvens alvas do céu azul celeste. Atrás das suas estruturas metálicas pode-se ver, ao longe, a silhueta fosforescente de prédios e arranha-céus tomando conta do resto da paisagem cinzenta que se estendia pelo horizonte.

Alheio aos detalhes do lugar, pois aquilo tudo era mais do familiar, não demora muito, Carlos Eduardo vê ao longe um banco comprido de madeira carcomido parcialmente por cupins, pondo-se a se sentar nele. Com o passar dos minutos percebe que não consegue ficar por muito tempo acomodado na mesma posição sem nada ter para fazer. Se ao menos tivesse trazido comigo um livrinho como aquele Pão Diário que estava em cima da mesa, pensou consigo. Tratava-se de uma pequena brochura de cunho religioso cristão que sua esposa gostava de ler no trabalho. Algo que cabia até no bolso. Qualquer coisa valia a pena para se distrair naquele momento.

E lá estava Carlos Eduardo ora sentando balançando os pés de forma frenética, ora andando de um lado para o outro como se pudesse encontrar algo com que pudesse se distrair. Depois, observara ao longe, uma pequena lanchonete, mas nem um cafezinho arriscara tomar. Sua esperança era de que a bendita locomotiva chegasse logo e então faria o que tinha de fazer para depois partir rápido dali em direção aos seus afazeres laborais. Se entreter com um lanche poderia atrasar tudo, embora fosse algo que demasiadamente gostava fazer. Em seus cálculos, depois de mais alguns minutos de atraso do trem, ele deveria estar logo chegando. Mas trem se atrasa? Essa não seria uma das suas principais vantagens diante dos outros modais de transporte?

Não bastasse o incômodo da estéril espera, o calor como sempre naquela cidade se fazia seco, causticante e infernal. Mal adiantava tomar banho para depois sair de casa com a esperança de chegar ao ponto de destino asseado e cheiroso. Bastava pôr os pés para fora de casa e o suor minava por entre o cabelo e a testa escorrendo como óleo pela barba até estacionar na gola de suas vestes. Fora isso agravava o mormaço pelo fato de ser verão. Decerto, um desconforto individual não só para os cidadãos da cidade em geral, mas, também um fator negativo para quem sonha em enriquecer comercializando no ramo de vestuários.

Então, depois de se passar bastante tempo, finalmente eis que se escuta ao longe o barulho metálico das engrenagens da locomotiva cortando o ar. A engenhoca, apesar do aspecto enferrujado, chega na plataforma com certa opulência; anunciada por um barulho ensurdecedor por conta de seu motor de combustão e sua chaminé que expelia uma fumaça que tinha o poder de empestar todo o ambiente. Era um veículo robusto, datado do século XIX, fabricado por uma companhia inglesa mesclando vagões de carga e de passageiros. Como um ciclope de ferro, em sua fronte, ostentava uma farol único ao alto tendo logo abaixo o número 970 adornado em forma de círculo com enormes parafusos com os cabeçotes hexagonais fincados em sua estrutura.

Apesar da ansiedade em pôr em prática logo o que tinha de fazer para depois ir trabalhar Carlos tenta — aos trambolhões — se aproximar; abrindo espaço entre a turba mas logo é barrado, de forma abrupta, por um dos funcionários responsáveis por manter a distância das pessoas do trilho. Sua função principal era garantir a parada do veículo e desembarque dos viajantes com o máximo de segurança.

Carlos não era o único! Familiares, amigos, taxistas e carregadores se amontoavam nas portas mesmo ainda fechadas, nutrindo cada um, grandes expectativas no que estava por vir.

Quando elas finalmente se abrem uma infinidade de interações e sentimentos tomam conta do ambiente. Sem que se pudesse identificar seus rostos, uns recebiam seus visitantes com calorosos abraços, beijos e sorrisos. Carregadores e choferes disputavam, quase que a tapas, a busca por pretensos clientes daquela linha. Outra oportunidade dessa para ganhar um dinheirinho extra somente pela tardezinha horário de chegada da próxima leva de viajantes.

Carlos Eduardo ressabiado tenta se colocar novamente em meio a todo aquele alvoroço. Estica o pescoço para ver se encontrava sua mãezinha, uma senhora pequenina e franzina para os padrões normais. Pergunta para uns e para outros se todos já haviam descido da engenhoca mas não obtém resposta.

Então, imersa sob à multidão — agora um pouco mais dispersa — uma senhora se detém na porta do vagão. Ela põe a mão coberta com uma luva de renda no corrimão ao mesmo tempo que tenta visualizar ao longe um rosto familiar. Para tanto, subconscientemente aperta a pálpebra inferior dos olhos como se quisesse potencializar a visão em direção a toda aquela balbúrdia desorganizada.

Ciente de que não iria encontrar e pressionada por outros passageiros atrás de si a velhota trata de desobstruir a passagem da onde se encontrava. Demonstrando certa dificuldade logo é amparada por um outro jovem passageiro desconhecido, mas muito bem educado que, pacientemente, lhe ajuda a desembarcar do vagão oferecendo-lhe o braço. Ela olha bem o rosto o rapazola e se sente ardentemente maravilhada mordendo os beiços e revirando levemente os olhos fitando-o dos pés à cabeça. Por um instante lembrou-se dos velhos tempos de sua mocidade quando os jovens da época cortejavam as damas com o máximo de respeito e galhardia.

Ao descerem, o moço faz questão de perguntar com voz de barítono:

— Pronto. A senhora precisa de algo mais?

Tentando demonstrar segurança e autonomia a passageira tenta esconder sua aflição respondendo: — Não meu querido. Muito obrigada pela gentileza — disse passando a mão em sua cintura.

A bem da verdade é que assim que ela pôs os pés naquela plataforma a única sensação que sentira fora a de estar desamparada. Por um momento, chegou a imaginar que iria passar o resto do dia e noite ao relento. Mas agora como que em um instinto pela própria sobrevivência novamente olha para os lados a procura de alguém. Na esperança logo de encontrar uma “pessoa segura”, seu filho na verdade, aquele único que pudesse conduzi-la dali para frente em pastos verdejantes e caminhos seguros. Enquanto suas preces não são atendidas ela decide se abrigar, sentando-se em um dos bancos de uma cafeteria que havia falido meses atrás. Abre a bolsa em busca de algo e eis que encontra um santinho esquecido e amassado mas, preservando ainda, as bordas rendadas com a imagem piedosa de Nossa Senhora das Lágrimas. Tenta ler com muita dificuldade calibrando os óculos de armação gatinho na face. Mesmo assim começava ler a tal oração: “Eis-nos aqui aos Vossos pés, ó dulcíssimo Jesus Crucificado.”

Embora meio “perdida” havia algo que pudesse amenizar sua situação em momentos de aflição ou perigo. Uma pequena etiqueta em forma de pulseira amarrada ao seu pulso. Nela, estava escrita abaixo dados como a sua idade, tipo sanguíneo e um número de telefone sabe-se lá de quem; além de uma espécie de “mini prontuário” com os seguintes dizeres: hipertensa, portadora de Diabetes mellitus, Parkinson (em estágio inicial), osteoporose, infecções respiratórias e urinárias; sendo que havia uma debilidade — que se destacava entre todas as demais — escrita em vermelho e em caixa alta “CONFUSÃO MENTAL CRÔNICA”. Para completar embaixo de todas essas informações havia escrito em letras garrafais o pomposo nome:

Sra. VIOLETA GALVÃO DE ALBUQUERQUE

Jamais imaginava que do outro lado, não muito distante, Carlos Eduardo seu filho também estava — embora pelas motivações diferentes — a sua procura com a mesma apreensão.

É quando ele decide, pois, olhar os vagões anteriores de segunda classe mais atrás.

Finalmente ele a encontra!

Carlos a vê sentada um tanto quanto aflita falando sozinha e, às vezes, agarrada a uma pequena bolsinha onde guardava seus documentos pessoais, pílulas, óculos, aparelho para surdez, colírio... Outras vezes se abananava freneticamente com um leque ilustrado como um dragão chinês expelindo chamas pelas ventas. Ao seu lado uma pequena mala onde suas roupas como calçolas, pijamas, camisola, toucas, francisquinha e dodô dentre outros paramentos.

Ele se aproxima com os passos apertados, mas logo é surpreendido, pois antes que chegasse ao encontro dela, a mesma torce o rosto para o lado logo reconhecendo o filho vindo em sua direção. Violeta abre a boca puxa o ar para dentro e dá um sorriso de alívio denotando ter sido arrebatada por um susto bom. Seu filhinho havia vindo lhe buscar. Glórias a Virgem Santíssima!

E então ela se levanta até rápido em comparação ao mesmo ato empreendidos em seus dias normais. A circunstância inesperada influenciou para isso.

Violeta Galvão, então, abre os braços e envolve o filho como se colocasse um frágil bebê em seu colo.

— Carlos Eduardo é você meu filho? — perguntou comovida e os olhos marejados em lágrimas.

— Sim mamãe. Como está a senhora?

— Estou bem? E você? Parece magro. Tem escovado os dentes direitinho?

— Sim mamãe! — responde um tanto contrariado tentando ignorar as últimas indagações.

— Me dê outro abraço, agora bem mais apertado. Quanta saudade!

E mãe e filho tornam a se abraçar. Na oportunidade ela ainda tenta lhe fazer uma carícia no rosto mas logo é repreendida por Carlos, que trata de afastar a fronte de maneira ríspida. Depois, ele empurra levemente a mãozinha frágil da mãe para baixo ao mesmo tempo que pega a alça da mala dela de forma brusca do chão.

— Mamãe por favor vamos! Estou atrasado para o trabalho! Lhe deixarei em casa e rapidamente retornarei para o escritório. De noite preparemos um jantar especial para a senhora. Combinado?

Depois o filho com uma das mãos, apressado, puxa a mãe pelos braços e com a outra arrasta a malinha sem muitas dificuldades seguindo em direção ao estacionamento. Lá chegando ele se posiciona atrás do carro, olha o relógio e... Putz, puta merda estou atrasado! De súbito abre o bagageiro e lança mala adentro como se fosse um saco de batatas. Do outro lado, rente a porta do passageiro, sua mãe, pacientemente, aguarda a sua espera. Permanece lá na ânsia de que seu amado filhinho pudesse abrir a porta para depois acomodá-la no acento. Não era nem tanto por se tratar de um ato cortês mas pelo fato dela já ser uma pessoa bastante idosa portadora de flagrante mobilidade reduzida.

Não é o que acontece.

Depois que bate a tampa traseira Carlos segue, com passos largos, em direção ao lado de motorista puxa a maçaneta da porta e entra. Ao enfiar-se carro adentro coloca o cinto de segurança, põe a chave na ignição retira a marcha do ponto morto e ao ver a mão parada ao lado fala em tom nada amistoso:

— Entre mamãe. Pelo amor de Deus! Você quer que eu perca meu emprego?

E dona Violeta que um dia sonhou que o que mais queria era que seu filho e seu trabalho se tornassem uma só coisa, inseparáveis; há àquela altura da vida estava era dando de ombros para o emprego de quem que fosse, inclusive o dele.

Contudo, percebendo que havia realizado uma enorme besteira, contrariando o filho, Violeta trata de entrar dentro do carro com certa dificuldade. Carlos, por sua vez, torce a cabeça para o lado e observa a cena batendo os polegares no volante.

— Calma meu filho já estou entrando. Falta só colocar essa perna aqui. Ai — resmunga. — A velhice é uma merda meu filho — conclui por fim agora com o corpo totalmente dentro do veículo.

Lá estando Violeta bate à porta, mas não suficientemente para fechá-la totalmente, nem tanto pela pouca força empreendida, mas, sobretudo por tratar-se de um veículo com as estruturas já bem desgastadas. Era um opala azul, ano 1979. Ele já não abria nem os vidros por conta da maçaneta enferrujada. Ao perceber que não havia trancado a porta, o motorista impaciente, estiva o braço direito passando por cima da passageira a abre novamente pelo lado de dentro. Depois, sem nada dizer, a fecha de forma abrupta fazendo — através do impacto — esvoaçar umas mechas de cabeços brancos acinzentados da viajante desavisada.

A máquina ambulante motorizada é ligada. O acionamento dela faz empestar gasolina por dentro do veículo como se fosse uma câmara de gás. Carlos arranca o carro fazendo o ronco do motor ecoar pela cidade.

Ambos de feição mudada, cada um por motivos diferentes, seguem em direção aos seus destinos — a casa dele. O motorista vai passando a marcha rapidamente.

Durante o percurso Violeta olha pela janela com os sobrolhos franzidos ao mesmo tempo que tem os cabelos grisalhos esvoaçados pelo vento. A paisagem urbana lhe era uma violência tamanha. Sempre fora, aliás. Canteiros abarrotados de lixos, asfalto esburacados, construções irregulares, placas e calçadas desniveladas e destruídas, vira-latas e mendigos imundos e mal cheirosos vagando pela cidade...

Alheio ao cenário nada convidativo Carlos permanece calado acelerando e fazendo zig-zag; não respeitando as leis de trânsito em geral, quanto mais as faixas de pedestre e os semáforos quando estes sinalizavam vermelho.

Vendo que filho estava dirigindo de forma temerária, mas sem querer interpelá-lo diretamente com receio de ser mal interpretada e sofrer uma repreensão dura; Violeta usa a sorrateira estratégia de fazer perguntas de maneira despretensiosa e afável, coisa que ela fazia muito bem quando queria conseguir alguma coisa dos filhos ainda pequenos e inocentes. Sua intenção era de que ele se distraísse com a conversa e depois desacelerasse de forma natural.

— Como vai sua esposa a Morgana? — perguntou.

— Hã? — surpreso, reponde Carlos.

— A Morgana sua esposa, como vai?

— Mamãe Morgana é sua filha. A senhora está acabando de vir da casa dela. Minha esposa se chama Natália.

— Ah sim, e só agora você me avisa o nome dela? Santa Maria! E como vai ela?

— Bem.

— Há quanto tempo vocês estão casados?

— 16 anos.

— 16 anos? E você não me convidou para o casamento? Para a festa?

— A senhora veio para o casamento. Não teve festa nem igreja. Fizemos somente um jantar simples.

— Vim para o casamento? Não me lembro de vir para a festa casamento? Será se meu próprio filho não teve coragem de convidar a mãe para seu enlace matrimonial? O mundo está perdido mesmo!

— A senhora veio sim para a celebração. Quando chegar em casa lhe mostrarei as fotos, correto? Agora deixe-me dirigir. Preciso de concentração.

— Onde já se viu. A própria mãe! — disse torcendo a cabeça para o lado.

Se sente profundamente magoada. Por um momento pensou estar acostumada com a ingratidão das pessoas próximas, mas o fato de não ser ficado de fora da festa de casório promovido pelo próprio filho foi um golpe demasiado profundo. Por um tempo prefere permanecer calada, pois não quer correr o risco de se magoar novamente. Contudo, esse mesmo receio de se ressentir não fora suficiente para suplantar as súbitas curiosidades que vagavam em sua mente. Embora básicas, eram informações deveras importantes para se situar no tempo e espaço.

— Que cidade é essa?

Ele responde.

— Mas ela parece...

— É porque a senhora está vindo de lá?

— Hum... — consentiu como se estivesse entendido. — Depois de uns minutos emenda: — Você já é casado meu filho? — E eis que, de repente, o filho encara a mãe com os olhos esbugalhados como quem dissesse: É sério isso? E sem que pudesse se recobrar para responder algo da primeira indagação Violeta torna a disparar uma pergunta atrás da outra como uma metralhadora verbal: — Com quem? Desde quando? Por que você não me convidou para a comemoração?

— Mas o que é isso? Já disse que sim e que você veio para o matrimônio. — disse Carlos preferindo não esticar mais a conversa com intuito de chegar logo em sua residência.

Se antes estava apressado, agora acelera ainda mais o carro, se valendo de atalhos para chegar o mais rápido possível em sua moradia. As novas ruas, vielas, travessas e becos só deixavam Violeta ainda mais confusa sem um mínimo de noção espacial donde estava. Resolve não mais fazer perguntas. Prefere ficar olhando para janela como se a paisagem da nova cidade pudesse lhe ofertar um consolo ou até mesmo repostas para todas aquelas perguntas as quais, seu interlocutor, parecia não estar nem um pouco motivado para responder.

E lá estando, a confusão interna parecia se irmanar com amontoados de sujeira acumulada daquela cidade a cada esquina que cruzassem. Garrafas de bebidas, copos descartáveis, garrafas de espumantes baratos, latinhas de cerveja e refrigerantes, sacos, papelões, serpentinas, alguns balões (estourados outros mais ainda enchidos) e tecidos baratos na cor branca. Tudo prova materiais de que uma grande festa de final de ano se passou por ali. Era exato dia 01 do ano corrente. Imersos sob esse cenário, silentes, permanecem assim ao longo caminho de chegada em sua casa.

Finalmente chegam ao local de destino.

O carro estaciona a frente ao imóvel. Era uma fachada simples de muro chapiscado acinzentado com algumas plantinhas na frente e uma pequena marquise no alto.

Assim que ela desembarca, se posiciona em frente da casa como quem ficasse embasbacada com o lugar. É informada pelo filho que se precisasse de qualquer coisa, Fátima estaria o dia todo em casa e que poderia ajudar. “Fátima? Quem será essa criatura?”, pensou. Dito isso Carlos desce do carro abre o portão e berra:

— Fátima vem pegar a mamãe aqui! — grita casa adentro. Ninguém responde tornando a vociferar ainda mais alto: FÁTIMA APARECE AQUI!

E lá de dentro tropeçando nos chinelos desgastados e limpando as mãos sujas com pó de trigo com um pano de enxugar louças encardido eis que uma senhora gorda de pele alva, olhos claros e cabelos curtos encaracolados finalmente se prontifica.

— Já estou indo seu Carlos. Pronto!

— Pegue aqui a mamãe — ordena ele. — Mais tarde estarei em casa.

— Essa é a casa? — pergunta Violeta.

— Sim — responde Fátima que a partir dali tomará de conta da visitante. — Venha, levarei a senhora até seu quarto. Ele está prontinho lhe esperando.

E antes mesmo que pudesse se despedir do amado filho ela vira para trás dizendo:

— Tchau meu filho obrigada por me trazer até aqui! Carlos? Cadê o Carlos?

— Ele já foi para o trabalho dona Violeta — reponde Fátima.

Meu Deus, pensou. Paciência! Agora ela tem de seguir a vida sozinha sem o filho, pelo menos até ele chegar. Para seu consolo estava agora aos cuidados de outra companhia, sem vínculo familiar é verdade mas alguém com quem pudesse contar. Sem falar que era detentora de uma das maiores virtudes humanas — a bondade. Violeta é levada para dentro com o maior cuidado por Fátima.

— Ah, muito obrigada minha filha.

— Foi boa a viagem?

— Sim, tudo transcorreu na maior absoluta normalidade só que tudo muito quente.

— Entendo. Que bom a senhora novamente aqui.

— Mas como assim novamente? Essa é primeira vez que venho aqui!

— Não. A senhora já veio várias vezes. Na verdade, todo ano a senhora vem. Deve ser a frente da casa que seu Carlos mudou esse ano que está confundido a senhora.

Violeta permanece com ar pasmo. Essa mulher está é mentindo. Nunca na minha vida que eu pus os pés aqui, diz de si para si.

— Agora não se preocupe com nada pois nos próximos meses essa será a sua nova morada. Seu quarto está prontinho. Conta com um ventilador, guarda-roupas. Estou preparando uma comidinha especial para a senhora com bastante salada e sal moderado. Agora vou levá-la até os seus aposentos e vou ajudar a senhora a tomar banho e se vestir...

Enquanto caminhavam Violeta — com bastante dificuldade, sempre acompanhada por gemidos inexprimíveis — vê um enorme corredor e segue em direção casa adentro achando que alguma daquelas portas fosse seu lugar de acomodação, mas logo é corrigida por Fátima.

— Dona Violeta por aqui. Seu quarto será logo ali do lado de fora da casa. Na verdade esse era para ser o meu quarto mas, como não durmo aqui, ele estava vazio e o Dr. Carlos preferiu que a senhora ficasse aqui visando que para que você tenha maior privacidade, entende?

— Mas como? Não vou dormir dentro de casa com eles?

— Por enquanto não. Mas quando o seu Carlos chegar a senhora pode ver com ele.

Por um momento Violeta para com a mão no queixo. Fátima logo nota o semblante da senhora descaindo e nada mais decidem conversar até que chegam ao cômodo.

Assim que abre a porta Violeta se depara com algo que jamais imaginaria vivenciar em toda sua vida. Seu cotidiano se resumiria a um cubículo, embora um tanto arrumado, mas sem janelas a não ser a do banheiro que contava com um basculante minúsculo no alto; os cantos contavam resquícios de mofo e fungos. Como cômodo havia uma cama de solteiro e um ventilador sem a grade de proteção frontal e uma pequena despenseira sem a última gaveta. Aquilo tudo não era nada convidativo.

O que pode fazer?

Não resta a ela, então, desfazer a mala. Destarte, eis que sentada a beira da cama dura como cimento ela vai retirando, aos poucos, seus pertences. Coloca na cabeceira sua Bíblia em letras gigantes, uma imagem de uma santa Edwiges e um caderninho surrado escrito com alguns rascunho de versos e poesias inacabadas. Àquela altura Fátima já havia se deslocado para a sua cozinha desligar o fogo da panela que já tinha passado da hora.

Na expectativa de que passaria dias auspiciosos, naquele momento percebera que, apesar da idade, havia sido contrariada mais uma vez pelo destino. Afinal, tinha pela frente longuíssimos quatro meses ali.

Quando se deu por satisfeita, em se alojar, decide sair do quarto com o fito de conhecer o resto da casa. Entra nela passa pelo corredor e logo cruza com uma moça de cabeça baixa com fones nos ouvidos e mastigando goma de mascar. Tinha o cabelo com mechas em róseo com as pontas verde cana, unhas pretas e um brinco no nariz. Uma camisa preta cortada a tesouradas com o umbigo a mostra com dizer Girls invented punk rock, not England.

A jovem, por sua vez, passa pela visitante e com os olhos fulminantes como facas disparadas em sua direção como quem perguntasse: “o que você está fazendo aqui?” Mas prefere nada dizer seguindo em direção aquilo que parecia ser o seu quarto. Violeta observa a frieza juvenil atormentando seus ossos.

Contudo, tentando reverter a situação, decide perseverar novamente uma reaproximação nutrindo a esperança de que valia pena insistir naquela relação. Na sua cabeça, talvez numa segunda chance, a recepção pudesse ser melhor.

Então, Violeta gira o corpo e decide segui-la até o seu quarto. Vê a porta entreaberta e espicha o olhar para dentro abrindo-a mais ainda, mas, bem devagar com bastante prudência.

A visão era a de uma moça distraída sentada na cama com as pernas cruzadas em forma de borboleta mascando chiclete com a boca aberta. Vez ou outra, puxava um pedaço da goma rósea da boca e tornava a meter novamente nela, ao mesmo tempo que tentava cantar com a voz desafinada um trecho em inglês sofrível uma música de uma pop-star norte-americana qualquer em pleno sucesso.

Tenta falar-lhe:

— Oi? Como é seu nome mocinha? — Ela não responde, nem poderia o som no fones eram altíssimos. Violeta não desiste fácil. Torna a falar só que dessa vez bem próxima e com um tom mais alto. — Ei você é quem? — Finalmente a meninota retira um dos fones do ouvido vira a cara de poucos amigos como quem não estava disposta nem um pouco de ser incomodada.

— Sou sua neta.

— Minha neta?

— Não sabia disso?

— Não.

— Pois é. Prazer em conhecer!

— Como assim? Não sabia que tinha netos. Nunca me contaram.

— Mas é claro que você tem. Três comigo.

— Minha nossa! E como é seu nome?

— Nicole.

— Nicole? Nunca ouvi falar que tinha uma neta com esse nome. E você já é bem grande.

— Pois é.

— E o que você está fazendo?

— Ouvindo música. Não está vendo? Sabe o que é isso aqui?

— Não.

— Um Walkman. Você põe isso aqui e ele toca — disse abrindo e fechando o compartimento em que se coloca a fita apertando o play. — Pronto! Quer escutar um pouco? — pergunta.

— Sim — A jovem trata de pôr os fones nos ouvidos da velha e sem que ela perceba, acompanhada de um sorrisinho sarcástico, aumenta o som no último volume. Assim que Violeta recebe o aparelho nos pavilhões auriculares toma um baita susto levantando os sobrolhos enrugando ainda mais a sua tão tracejada testa. — Meu Deus tira, tira! Que instrumentos pesados e mulher da voz diabólica! Santo Deus! — depois de se recuperar do susto emenda: — Nossa, nunca pensei que houvesse um troço desses chamado de música. Ah, a modernidade. Não sei como vocês jovens conseguem passar o dia todo com esses trambolhos infernais nos tímpanos. No meu tempo...

— ...pois é no seu tempo deveria ser na época do gramofone — diz não sem antes disparar uma risadinha zombeteira. — He, he, he...

— Verdade — responde não se dando conta a ironia enternecida por saber que tem uma neta “sangue do seu sangue”. — Seu quarto é muito bonito — diz na esperança de prosseguir na conversa ao mesmo tempo em que enfia o dedo indicador nos ouvidos como quem quisesse limpar algo.

— Obrigada — responde friamente Nicole tornando a colocar os fones do ouvido.

— Uma janela bem ampla, cama macia, teto alto, banheiro limpo...

— Hurrum.

Depois de tecer uma série de observações relacionadas ao cômodo da moça Violeta percebe que ela não prestava mais atenção no que dizia. Supondo que estava agora sendo ignorada Violeta muda de estratégia de tudo para atrair o interesse dela posicionando-se agora sentada a sua frente.

— Como é o seu nome querida? Quem é você?

— Hã — responde Nicole com o ar pasmo. — Você acabou de me perguntar isso. Sou Nicole filha de seu filho Carlos com Natália.

— Nicole? Não conheço nenhuma Nicole.

— Ah, por Zeus!

— E onde eu estou?

— Onde está? A senhora não sabe onde está?

— Claro que não!

Sem paciência a neta levanta toma a avó confusa pelo braço e diz:

— Aff. Venha aqui, vou levar a senhora para a sala. Vou estudar um pouco. Preciso de um pouco de silêncio e privacidade.

Sem que nada se diga nem muito menos consultada se queria ou não retirar-se do lugar, Violeta é conduzida e posta para fora do quarto ao mesmo tempo que tem a porta batida em sua cara. Lá dentro ouve-se a chave girando no trinco. Nicole se joga de costas na cama e retorna a ouvir música novamente.

Largada no meio da casa, uma confusão extrema. Não entende nada. Não tinha respostas para nada. Põe a mão nas ancas frágeis ainda na frente do quarto da suposta neta sem se dar muito conta do que acabara de acontecer. Somente flashes da imagem de uma jovem com o cabelo esquisito vinha na sua mente mas logo se desfazia. Passou o dia todo e ainda não tinha bebido água. Decide voltar para o quarto mas sua intuição lhe atinava para que antes desse uma passada na cozinha, lugar cujo qual, não tinha a mínima noção de onde se localizava. Olha Fátima com um olhar contrito.

— A senhora deseja algo? O almoço já está quase pronto.

— Não, vou esperar meu filho.

— Ele só chega tarde.

— Não tem problema. Eu espero.

— Melhor não. Posso chamar Nicole para almoçar com a senhora.

— Nicole? Quem é essa?

— Pensei que estava falando com ela. Olha mas se ela não quiser almoçar com a senhora eu mesma lhe faço companhia. Às vezes ela não almoça. Prefere comer essas besteiras de fash fuul, fresh tchu sei lá o que diabos é aquilo.

O convite feito por Fátima, embora sincero, não lhe apetece. Prefere esperar a chegada do amado filhinho. Assim sendo decide retornar para o quarto e passando o restante do dia nele deitada em seu colchão em posição fetal. Fátima já havia dito a ela que já tinha terminado todo seu serviço do dia e que estava indo embora. Informa ainda que caso precisasse de qualquer coisa que ela procurasse a neta e que o filho estaria chegando dentre em pouco. Informa, também, que seu almoço já se encontrava na mesa esperando-a caso mudasse de ideia.

O momento que passou em cima daquela cama parecia uma eternidade. De quando em quando saia para ver um pequeno jardim onde pudesse sentir um pouco de ar fresco. No meio da tarde seu estômago começa a roncar, embora soubesse que seu corpo — insensível a vários tipos de dores — podia suportar mais daquilo.

Desiste de esperar não tanto pela fome, mas por se convencer de que não almoçaria na presença do filho naquele dia decidindo, pois, fazer sua refeição sozinha.

No entardecer torna a fazer as mesmas coisas. Vaga pela casa como uma alma desencarnada. Volta para o quarto colocando e tirando as coisas do lugar. Deita, olha as plantas, faz sons com a garganta cantarolando músicas com a boca fechada.

Final de tarde.

A porta da casa abre. Ronco sofrível do motor de um carro entrando pela garagem. Era Carlos. Estava acabando de chegar. Mal põe os pés para dentro de casa e o telefone começa a tocar insistentemente.

Pela distância próxima dele com o aparelho não há como ignorar. Quem estava ligando era Morgana a filha com quem Violeta havia passado os quatro últimos meses do ano passado.

— Alô! — faz a saudação Morgana.

— Alô.

— É o Carlos?

— Sim.

— Mamãe chegou bem?

— Chegou bem.

— Ah, que bom!

— Você já viu a caixa de remédios nas coisas dela? O doutor repassou mais dois para ela tomar. Um deles é remédio para esquecimento. Tem de ser dado no horário certo. Acredita que um dia antes do natal confundi aqui e acabei dando duas vezes o mesmo remédio da pressão pra ela. Foi um susto! O coração dela quase explodiu. Passou quase vinte minutos desmaiada.

— Não vi nada ainda. Estava trabalhando. Sim. E vou sim colocar a tabela aqui na porta do guarda roupas dela.

— Como assim não viu nada ainda? Não pode passar os horários do remédio dela entende? Ela depende dessas pílulas aí.

— Tá, vou regularizar tudo aqui! Mais alguma coisa?

— Ah e não esquece de levar ela na igreja. O médico disse que é bom na idade dela.

— Tá bom. Se tiver tempo levo.

— Certo!

— Outra coisa, o mais importante: onde está o cartão da conta dela e com a senha?

— Ela guarda dentro de um livreto azul chamado Tratado da Verdadeira Devoção à Santa Maria ou Virgem Santíssima... não me lembro bem. Enfim, tem a imagem de uma santa na capa. A senha está escrita com a letra dela na última página é só procurar, três letras e três números.

E ambos desligam o telefone. Estavam livres de pelo menos mais um desse fardo extra: o de cobranças mútuas de um para com o outro.

A par dessas informações Violeta passa praticamente todos os dias o dia todo em casa.

Nunca antes Carlos esteve tão motivado para trabalhar. Solicita horas extras. Assume turnos dos colegas. Pede ao seu superior para colocar em plantões mesmo não estando escalado para tanto. Quanto menos tempo em casa melhor.

Fátima a põe na frente da TV ficando incumbida de ministrar os medicamentos da senhora. Conversa com Violeta tentando dividir e vivenciar boas experiências de seu passado auspicioso.

Nicole rende graças por ter começado as aulas comentando com as colegas as peripécias que pregava na avó.

Três meses passam rápidos. Janeiro, fevereiro e março.

31 de março.

Hora de retornar a estação e colocá-la no trem novamente para uma nova, longa e extenuante viagem. Carlos faz questão de acordar bem cedo, aliviado. Um dia antes já havia feito as malas da mãe com o maior cuidado e zelo, ministrando todos os remédios ele mesmo no horário certo. Informou a irmã Amélia que logo cedo estaria desembarcando a mãe sem falta. No último domingo, como que em um ato de despedida, levara Violeta numa quermesse bem longe da sua paróquia que costumava frequentar. Lá deu-lhe bolo com suco não sem antes fazer a apresentação da freira do lugar.

Já na estação entra com bastante cuidado com ela dentro do vagão e procura no número de seu acento. Seu destino agora era outro. O sítio da sua filha Amélia, uma conhecida advogada de família. Carlos acomoda-a sentada avisando que o trem irá partir dentre em pouco, em cinco minutos, para ser mais exato.

— Boa viagem, mamãe — faz a saudação final e beijando sua testa.

— Obrigada. Como é mesmo o seu nome?


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.