As Águas de Veneza
5 Capitulo 5
Notas iniciais
O Café Central parecia demasiado cheio naquele dia de sol. Mesmo assim, Francis Bonnefoy não achava que o trabalho estivesse muito puxado, pelo contrário, para ele era apenas mais um dia normal.
Francis trabalhava como cozinheiro no Café Central desde o começo do ano, tinha os cabelos loiros e bem cuidados, levemente longos que deixava amarado em um rabo, olhos azuis, uma barba por fazer, e uma personalidade encantadora. Francis era francês e amava seu país, tanto que só tinha se mudado para a Italia para poder cuidar de seu avô. Quando ele morreu, Francis já tinha se apegado tanto á cidade de Veneza que acabou ficando.
Mas não foi somente por causa disso que ele resolveu ficar, existia um outro motivo que o prendia a cidade, e esse motivo acabava de entrar na cozinha.
– Oi, frog, mais dois capiccinos mistos e uma tortinha de morango. – Arthur Kirkland pôs a cabeça para dentro da porta da cozinha. Inglês, sobrancelhas grossas, olhos verdes, cabelos loiros e desgrenhados, pernas bonitas, e uma personalidade terrível. Era assim que geralmente descreviam seu amante.
Nenhuma dessas coisas incomodava Francis, pelo contrário, apenas o atraiam. Quem quer que tenha dito, “os opostos se atraem “ não estava brincando.
Mas voltando a cozinha, o francês sorriu e assentiu deixando que o outro se retirasse. Ainda tinha que terminar mais algumas tortinhas e sabia que Arthur também estava bastante ocupado atendendo pedidos e agradando clientes (o que para ele era um desafio).
Para os que não tenham entendido ainda, Arthur era garçon.
O inglês tinha conseguido esse emprego por pouco, isso porque na época, o café precisava de gente que sabia falar inglês, visto que o gerente queria abrir as portas e atrair mais turistas(a fonte de dinheiro mais fácil da cidade). Arthur era o único dos candidatos que tinha um inglês fluente e apesar da personalidade acabaram aceitando-o.
Foi assim que conheceu Francis , ele tinha acabado de entrar nessa época também, o cozinheiro anterior tinha tido alguns problemas e acabou perdendo o emprego, Francis entrou no seu lugar.
Quando os dois começaram a sair foi uma surpresa geral, em um dia eles estava rolando no chão e se ameaçando com espátulas de bolo e no outro trocavam beijos e olhares suspeitos, na verdade, essa rotina de tapas e beijos continuava até hoje.
Ninguém nunca entendia.
Aquela terça estava extremamente normal e o francês estava cada vez mais compenetrado no trabalho quando uma voz conhecida o chamou.
– Ola! Francis, á quanto tempo não? – Antônio, seu amigo de infância, de algum jeito tinha acabado de invadir a cozinha do seu trabalho com o mesmo ar despreocupado de sempre.
O loiro ficou sem reação, até porque a da ultima vez que tinha visto aquele cara foi á uns 10 anos atrás em uma fazenda na Espanha.
Francis colocou o pote de massa que estava mexendo na mesa e lhe deu um abraço caloroso.
–Mon ami, o que faz na Italia? Está me seguindo por acaso? E como entrou aqui?
Dito isso, Francis começou a escutar vozes dos garçons, algo como – Ele – Aqui – Cadê?
E sentindo a encrenca se abaixou com Antônio em baixo na pia. O espanhol nem teve tempo de responder, mas também não questionou, se abaixou junto com o francês e deu um risinho malicioso.
–Se eu não estivesse completamente desesperado, nunca me abaixaria em baixo da pia com Francis Bonnefoy.
O francês deu um risinho e comentou.
–Eu não era tããão pervertido assim.
–Não. –Disse Antônio balançando a cabeça com ironia– Só saiu com toda criatura que usava saia naquela escola
–Isso incluí o escocês – Concluiu o francês.
–Sim, ele também.
E ambos caíram na risada, só se lembrando de onde estavam depois. Então tamparam as bocas e continuaram rindo baixo como dois moleques. Só pararam de rir quando as vozes ficaram mais próximas.
Mas então – Continuou o espanhol – Eu vim aqui te pedir um favor
–Qual? – Disse Francis ainda se recuperando do ataque
– É que eu vou trazer uma pessoa aqui...
– E quem é o felizardo? – O francês apoiou a mão no queixo interessado
–Lembra daquele menino que eu vivia falando? Aquele que roubava os tomates da minha fazenda...
Francis riu divertido.
–Lembro
–Então... É ele...
–É uma missão cupido, né?
Antonio coçou a nuca com um risinho e um leve rubor.
–Sabe que sou a pessoa certa para esse tipo de coisa – Concluiu Francis. – Me diga do que precisa.
–Bom, o fato é. O meu adorado Lovino marcou o nosso primeiro encontro aqui, então como eu me lembrava que você tinha dito qualquer coisa sobre você ser o novo cozinheiro, pensei em vir te pedir uma mão.
–Sobre o quê?
–Vocês não servem pratos com tomate, servem?
Francis tentou fugir com olhar
–Bem... Tem um lanche, mas é do tipo picante...
–Então não vai servir... Tem como servir torta de tomate? Só pra mim! Eu pago os ingredientes se quiser!
– Bom, tomate não está muito caro, eu faço se quiser então – E deu um sorriso jovial.
–Otimo! — Os olhos do espanhol brilharam — Agora, tem mais outra coisa...
XXX
Feliciano chegou em casa e assim que entrou fechou a porta e se encostou nela com ambas as mãos no peito. Um sorriso de puro contentamento o dominava.
–Eu achei, finalmente... Eu te achei
Ele repetia para si mesmo baixinho, uma sensação quente lhe preenchia por dentro. Ele escorregou pela porta de madeira até se sentar no chão. Estava tão feliz que poderia morrer, de verdade. Mas só de pensar em quantos momentos perderia se fizesse isso lhe doía, ele queria chegar mais perto, tocar aquela pessoa, conhecer todos os seus segredos, passar o dedo por cada fio de cabelo...
Isso seria realmente maravilhoso.
Depois de tanto tempo buscando em cada lugar de Veneza, em cada canto da Itália, encontrara tudo o que queria naquele homem de cabelos loiros, cujos olhos refletiam as cores do canal.
–Obrigado... Por me deixar encontra-lo.
Feliciano ainda não acreditava no tamanho da sua sorte.
XXX
Enquanto isso do outro lado da cidade, Ludwig também já chegava em casa. Depois de colocar o notebook cuidadosamente no cantinho dele, foi até o quarto espaçoso e arrancou a gravata colocando no cabide, depois se sentou na cama e tirou os sapatos.
Assim que os puxou para fora dos pés sentiu a segunda sensação mais maravilhosa de todas.
Alívio.
Tirou a camisa e a calça e colocou um shortão preto, na hora de pegar a camiseta escolheu uma regata branca, mas depois de coloca-la sentiu uma imensa onda de calor sufocando-o, como morava sozinho pensou não haver problema se ficasse sem. Colocou a regata no armário e foi para a cozinha.
A casa do alemão era média e alugada. Tinha uma sala pequena com televisão, e uma porta lateral que dava á cozinha, á lavanderia e ao quintal. Do outro lado da sala tinha um corredor que dava para o seu quarto e escritório. Na verdade era tudo um cômodo só, mas Ludwig colocara uma estante no meio dividindo-o em dois e mesmo assim, o quarto continuava grande.
As paredes eram todas de um tom amarelo pastel claro, não era o seu ideal de cor, mas podia ser pior. O chão era de madeira na casa toda, exceto na cozinha e no banheiro, onde era forrado de pastilhas até o teto.
O alemão caminhou o pequeno corredor que separava o seu quarto da cozinha e abriu a geladeira, depois de correr os olhos pelas estantes pegou uma lata de cerveja, depois se sentou no sofá e deu um longo suspiro antes de abrir a latinha.
Ludwig dizia para si mesmo que precisava relaxar, precisava pensar, mas sua mente sempre o direcionava para o mesmo lugar, o encontro que tivera com o italiano. Não, não era um encontro!
Ludwig sacudiu a cabeça
“O que tinha aquele italiano?”
Era essa pergunta que gritava. Ele era fofo e delicado como uma moça. ‘MAS ELE É HOMEM” protestava seu cérebro de volta. Ele nunca tivera uma namorada antes, e agora se pegava estranhamente atraído por um homem! Isso não fazia sentido para si.
Deu mais um gole na cerveja e foçou um pouco mais a cabeça.
E quando isso começou? Tipo, Ludwig só vira aquele homem três vezes e conversara com ele duas. Não sabia de onde vinha, onde morava, como era sua família, quais era os seus gostos, mas mesmo assim...
“Isso pode ser só uma admiração!”
“Sim, uma admiração repentina e profunda!”
“Mas e se não for?”
Ele só conseguiu pensar em uma coisa. Pesquisar na internet.
Ludwig deixou a cerveja na mesinha de centro e foi buscar o seu notebook, assim que abriu uma nodificação de mensagem saltou na tela, e depois outra, e outra, e mais uma, no fim haviam 10 mensagens novas, todas mandadas nos últimos 10 minutos.
O alemão coçou o cenho e abriu a primeira, era uma mensagem no seu irmão Gilbert.
“Heil Luddy!
Como vai? Eu espero que ótimo! Mas adivinhe, você vai ficar melhor ainda! KESESESESE. Porque o incrível eu vai te visitar, Kesesesese, e pode ir preparando dois colchões, eu planejo ficar uns dias, talvez uma semana. Tenho que resolver umas coisas na Itália, e sem você essa casa não é a mesma coisa, vai ser bom nos vermos novamente!
Até mais tarde!”
As outras 9 mensagens também eram de Gilbert, nela ele soletrava A-W-E-S-O—M-E- -M-E.
Ludwig coçou os cabelos e acabou com a latinha de cerveja.
“Só me faltava essa”
Agora ele tinha dois problemas:
1º Lidar com Feliciano
2º Lidar com seu irmão
O alemão tinha certeza que se os dois se encontrassem as coisas só poderiam piorar, porque se bem conhecia Gilbert, ou ele contaria suas “Incríveis Histórias”, ou então, faria o papel de mãe chata e ficaria contando “Como o Luddy era fofo quando era criança”.
Aquilo fez com que Ludwig sentisse um frio na espinha.
Antes de começar a pesquisa sobre comportamento resolveu voltar á cozinha e pegar mais cerveja, o álcool o ajudava a pensar melhor e ao que parecia aquela seria uma longa noite...
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