Notas iniciais
Desculpem a demora, passei por uma semana terrível de provas escolares, mas finalmente estou livre e de férias o/ Nesse cap temos a incrível saga de Lovino, porque pensei que seria legal mostrar o lado dele também. Boa leitura

Lovino chegou a Roma no domingo á noite. Sentia-se extremamente cansado quando jogou as chaves do conversível vermelho no potinho da entrada do seu apartamento. Lovino morava sozinho em um apartamento alugado em Roma, o lugar era bem pequeno, tinha o quarto, a cozinha, o banheiro e uma minúscula lavanderia. Podia não ter muitas regalias, mas era bom para si.

Ele sabia que podia morar nos dormitórios do colégio, mas se tinha uma coisa que o italiano não suportava eram seus colegas de quarto. De todos os 5 colegas de quarto que Lovino teve nos dois meses morando no dormitório, com nenhum se sentiu confortável.

Eram todos uns bastardos na sua opinião.

Por esse motivo se mudou para aquele apartamento, a mensalidade era barata e ele conseguiu um desconto com o proprietário. Além disso, arranjou um bom emprego em um almoxarifado de uma tapeçaria, ele não se importava de carregar panos o dia todo se ficasse longe das pessoas. Não que Lovino não gostasse de ninguém, é claro que gostava. Gostava do seu irmão, do seu nono, de algumas moças que passavam pela piazza, de um espanhol barqueiro...

Só de pensar na figura daquele infeliz Lovino corou por completo, ele odiava o que aquele homem provocava em si com apenas um olhar, frustrado, o italiano se jogou na cama com toda a força que seu peso permitiu, fazendo a madeira ranger, toda a sua raiva e desespero atualmente se resumiam em um único nome.

Antônio.

O maldito barqueiro bastardo.

Durante o almoço, que foi quase um jantar, Lovino foi aconselhado pelo seu irmão a ligar, o problema era que não tinha a menor ideia do que iria dizer.

Olhou para o telefone durante longos dois minutos.

Nada lhe vinha na cabeça, o papelzinho queimava no bolso traseiro da calça.

–Merda...

Lovino se levantou da cama e se sentou na banqueta do telefone, era tarde, porém era agora ou nunca.

Suas mãos tremiam enquanto ele pegava no telefone, tirou o papel do bolso e colocou ao lado do aparelho.

Discou o numero.

Esperou três toques

E do outro lado da linha pôde ouvir um “alô” carregado de sotaque.

XXX

Antônio tinha acabado de tomar banho e estava completamente relaxado, andava pela casa secando os curtos fios e morenos de seu cabelo com uma toalha amarela, depois de eles estarem secos o suficiente para não pingarem no chão, Antonio foi para cozinha tomar um suco.

O espanhol morava em um apartamento médio perto do canal de Veneza, era um lugar bem cotado que com sorte, tinha conseguido fazer seu primo lhe emprestar.

A vista durante o dia era magnífica, e durante a noite era melhor ainda.

Com a caixa de suco na mão encaminhou-se até a sacada para observar a cidade. A toalha ainda estava pousada sobre os ombros e sem a necessidade de usa-la, mirou e jogo-a em cima da mesinha de centro ao mesmo tempo em que, com a mão, abria a porta de vidro.

O ar quente de Veneza lhe acariciava a pele fazendo-o se lembrar de um pouco da sua amada Espanha, dos tomates, de sua mãe que ainda estava na fazenda. E consequentemente de um certo italiano que acabara de reencontrar.

Deu um suspiro e mais um gole de suco apreciando a vista do canal. Queria tanto que Lovino estivesse pensando nele.

A beleza do canal durante a noite, com todos os casais passeando de gondolas, com os resquícios de conversas e operetas que chegavam aos seus ouvidos, com o brilho da luz refletida nas águas calmas, com o tilintar de talheres, com o aroma de comida pronta trazida pela brisa... Tudo aquilo se tornaria ainda mais magnifico se Lovino estivesse consigo.

Ele nunca pensou que estariam tão perto e tão longe ao mesmo tempo.

Um vento refrescante e calmo bateu no seu rosto arrepiando sua pele ainda parcialmente molhada, ao mesmo tempo em que um telefone tocou dentro do apartamento e Antônio despertou dos seus devaneios. Ainda um pouco atrapalhado foi atendê-lo. Deixou pelo caminho a caixa de suco de maçã parcialmente bebida na mesinha de centro e atendeu ao telefone.

–“Alô”

Silêncio do outro lado da linha.

O espanhol pensava ser engano e ia desligar o aparelho quando uma voz extremamente trêmula começou a falar.

–É-é-é-é da casa do Antônio?

Lovino se debatia do outro lado da linha por usar o primeiro nome do individuo, mas se usasse o ultimo pensava estar sendo demasiado formal.

–É sim. Sou eu mesmo, quem fala?

Silêncio novamente, Lovino apertava o canto da banqueta o máximo que podia.

–É-é-é, Lovino.

Merda, merda, merda, merda.

–LOVINO???

Antônio quase arrancou o aparelho da tomada tamanha a felicidade, seus olhos brilhavam tanto que o italiano podia ouvir o barulho das estrelas do outro lado da linha.

–SÉRIO? Não achei que fosse me ligar. Como estou feliz!!! Estava pensando em você agorinha, não acredito que também estava pensando em mim. Deve ser o destino!

Lovino enrubesceu enquanto amaldiçoava cada pequeno pedaço do seu ser. Agora o espanhol não parava de falar e ele não sabia o que fazer. Iria chegar uma hora em que ele iria parar e Lovino teria de responder, essa com certeza era a pior parte.

E ela chegara mais rápido do que ele pôde prever.

–Então... Você ligou para...

–É! É-é-é! Eu liguei para... te... perguntar se... você...Não! Nós! Isso, nós! Não podíamos s-s-s-s-sa...ir no próximo-fim-de-semana...

A ultima parte foi dita em um tom de voz tão baixo que Antônio quase nem ouviu. Quase. Porque ele ouviu tudinho e por pouco não teve um ataque. Seu coração queria sair pela boca, ele precisava ir, precisava ver o pequeno.

–EU VOU! Tenha certeza! –Gritou ao telefone batendo a palma da mão ao lado do aparelho, inconsciente do barulho que fazia.

–Pode ser... no sábado ...no Café do Centro?

–PODE! QUE HORAS?

–As... duas...da tar...

–VOU ESTAR LÁ!

–Tá...

E desligou o telefone deixando Antônio com o tum tum tum do aparelho e com o tum tum tum do seu coração. O espanhol se deixou cair no sofá com um sorriso do tamanho do mundo.

XXX

Lovino se jogou na cama novamente fazendo-a ranger mais do que antes, ele estava se controlando para não tentar suicídio com o travesseiro. Seu rosto estava vermelho e suas roupas o incomodavam tamanho o calor que sentia. Ainda não acreditava que fizera aquilo... Não acreditava.

Marcara no café onde seu irmão trabalhava porque se alguma coisa acontecesse ele podia pedir conselhos. Não iria ficar sozinho com aquele perseguidor maníaco bastardo e jeito nenhum.

Mas agora que pensava, isso era uma burrada sem tamanho.

Feliciano era o tipo de pessoas que iria querer colocar velas vermelhas na mesa e tocar violino assim que os visse chegar, sem falar que tentaria ouvir a conversa deles o encontro inteiro.

Lovino odiava isso no seu irmão.

Mas que se dane, o que está feito, está feito. Ele com certeza não iria ligar para o espanhol bastardo novamente.

XXX

Lovino acordara naquela manha com mais sono do que o normal. Na noite passada ficara filosofando sobre o encontro até adormecer. Nem mesmo percebeu que não tirara a roupa do dia anterior, dormindo de qualquer jeito.

Quanto se levantou da cama, uma dor no pescoço se fez extremamente forte. Ótimo, agora ele também tinha ganho um torcicolo.

Olhou no relógio e resmungou, não que estivesse atrasado, mas porque era seu costume mesmo, ele só entraria daqui á duas horas e precisava fazer o café e colocar outra roupa para trabalhar.

Abriu o armário que rangeu no primeiro puxão da porta, pegou uma camiseta azul e uma calça de um tom escuro do marrom, os sapatos ainda seriam os mesmos.

Como Lovino trabalhava em um almoxarifado não importava muito a roupa com que fosse trabalhar, até porque só os funcionários da loja entravam lá:O proprietário turco que ficava o dia todo na frente da loja atraindo clientes, o sócio grego que dormia o dia todo e o atendente japonês que cuidava de quase tudo por lá.

Terminou tomando só uma xícara de café aleatória e saiu sem se preocupar muito.

A loja “Emporio di Turchia” ficava bem afastada do centro de Roma mas mesmo assim sempre apareciam clientes. Roma era por sí só um ponto turístico, porque em toda a cidade, sim, em TODA a cidade tem alguma coisa para ver, portanto se encontram turistas em todo lugar.

A loja não era muito longe da casa de Lovino, ele cruzava dois piazzas e já chegava no local. Assim que adentrou a pequena lojinha espremida na paisagem, o enorme proprietário veio lhe dar bom dia com um sorriso do tamanho da cara, comportamento perfeitamente normal de Sadik Adnan.

–Yoo Lovino – Cumprimentou o enorme turco passando um dos braços pelo ombro do italiano — chegaram uns novos tapetes persas, são uma maravilha! Aquele egípcio sabe mesmo o que faz em? hehe! Vá lá para o fundo, desembrulhe alguns e traga-os para a frente, mas tome cuidado, são extremamente valiosos. – E saiu para a frente da loja dando risada sozinho.

Sadik disse a ultima parte mexendo os dedinhos da mão como nas series de TV. Lovino já tinha se acostumado com o comportamento de seu chefe, mas quem acabava de conhece-lo estranhava muito a animação repentina(por vezes demasiada) que ele emanava logo de manhã.

Sadik era um turco alto de pele morena bem bronzeada, ele tinha os cabelos curtos com um ahoge em espiral na parte de traz. no rosto duas coisas chamavam atenção além da sua barba mal feita e do nariz adunco. O sorriso malandro e uma mascara branca que insistia em usar todo santo de dia.

Segundo Sadik, ela servia para se proteger do sol, já que o turco ficava a maior parte do tempo do lado de fora da loja. Segundo Herácles, seu primo e sócio, ela servia para disfarçar o turco da policia, porque segundo ele, “algumas” peças que eles vendiam não eram exatamente "legais".

Herácles passava a maior parte do tempo dormindo no balcão da loja ou então em cima de alguma pilha de tapetes do almoxarifado.Tinha os cabelo mais compridos que os de Sadik, e ao que parecia ele mesmo os cortava, pois eram um tanto bagunçados e desgrenhados, tinha olhos verde oliva e era bastante preguiçoso.

Não foram poucas as vezes que Lovino tivera que acordar o grego para pegar o tapete no qual ele dormia em cima. Às vezes, quando não estava dormindo, Herácles brincava com gatos que misteriosamente apareciam na loja. Nunca ninguém descobriu como aqueles gatos vinham parar ali, eles apenas apareciam e muitas vezes, ao mesmo tempo em que Herácles dormia, os bichanos dormiam em cima dele.

O fato era, Sadik odiava os gatos, eles estragavam os tapetes. Kiku, o recepcionista(e faz-tudo) japonês , os amava, porque nas horas em que ficava sozinho na parte da frente da loja, os gatos eram sua companhia.

E por falar em Kiku, este como já dito, era o recepcionista. Era baixinho, menor que Lovino, ele mantinha o cabelo liso escorrido cortado no estilo tradicional japonês, tambem conhecido como "tigelinha", seus olhos muito escuros e amendoados eram tais como o de um oriental, e sua pele era muito branca e sensível. De longe Kiku parecia adorável de mais para estar em um lugar daqueles.

Podia não ter talento nenhum para negociar ou barganhar, muito menos sabia a diferença entre um tapete e outro, sua unica experiência anterior era ter trabalhado por seis meses na loja de porcelanas de um primo/irmão, mas era agradável com as pessoas, e isso em um lugar onde gritos e brigas entre primos fazem parte do dia a dia, faz toda a diferença.

Sim, Herácles e Sadik brigavam muito. Ás vezes era sobre as finanças, ás vezes sobre alguma coisa quebrada, ás vezes sobre os gatos, ás vezes porque Herácles tinha repetido a mesma roupa uma semana seguida... Enfim, as coisas andavam de um jeito estranho naquela parte de Roma.

Lovino aceitou o trabalho no almoxarifado porque achou que seria fácil, e em muitos momentos ele discordou disso, mas no fim do mês ele olhava para o pagamento e ria sozinho na fila do caixa. No fundo, bem no fundo, gostava do seu trabalho.

Gostava da bagunça, dos gritos, dos roncos, dos gatos, dos tapetes e às vezes, gostava até dos contatos físicos desnecessários (vulgo: abraços) de Sadik.

Era um lado de Roma que ninguém conhecia, só ele e mais aqueles três.

Lovino foi para o fundo da loja, um lugar cheio de estantes das paredes ao teto, todas repletas de pacotes coloridos com as mais variadas etiquetas. Também haviam as pilhas que não cabiam nas estantes, então ficavam por ali mesmo. (Era nessas pilhas que Herácles se deitava para dormir) Haviam tantos pacotes que Lovino mal conseguia contar, muitos estavam ali desde que ele podia se lembrar. Porém, alguns pacotes ele podia jurar que não eram tapetes coisa nenhuma, mas quando perguntava para o turco o que eram exatamente aquelas coisas ele dava informações vagas. Da ultima vez, a resposta foi : Toalhas de mesa.

“Ok então”, era o que Lovino sempre respondia.

Naquele trabalho um ponto importante era não fazer muitas perguntas.

Achou os tapetes persas por cima de outra pilha de tapetes turcos, por cima de outra pilha de tapetes do Uzbequistão.

Pegou e apoiando as embalagens cor de papelão na sua mesinha bamba de trabalho, e foi desembrulhando um por um com a ajuda de uma navalha.

Primeiro abria a caixa, depois tirava dos saquinhos, rasgava o papel jornal com a navalha e por ultimo, retirava o papel de seda com muito cuidado para não danificar o tecido.

Os dessa vez eram realmente bonitos, todos estampados com tons de azul e dourado, alguns com desenhos de tigres grandes e de um laranja vivo.

Lovino estava encantado.

Gritou para Kiku vir pegar o tapete e levar para frente,mas nada aconteceu. Passado um tempo, Lovino já estava ficando sem paciência quando Herácles apareceu com sua típica cara de sono e olhos verdes quase fechados. Por cima do seu ombro estava pendurado de forma desajeitada um bichano. De certo deve ter dormido por cima dele.

O italiano entregou os tapetes para o grego e este os levou para Sadik. Dali a pouco pôde ouvir gritos do turco reclamando alguma coisa sobre “ gatos – tapetes – milésima vez”.

Lovino suspirou e olhou para o chão, ainda tinha uma pilha inteira de tapetes para desembrulhar.

As cores dos tapetes mexiam com a cabeça de Lovino de tal modo que se esqueceu do barqueiro até o fim do dia.

Notas finais
Bye ;3