Arvore de fios
1 Parece que minha sina era correr
Notas iniciais
“Volte para o seu lugar Alisso querida”
“Eu não posso. Eu não quero. “
“Mas seu coração sabe que pode minha filha, apenas o siga”
“A caminhos neste mundo que jamais serão traçados por ninguém. Outros caminhos que serão feitos por muitos. Mas o seu caminho é especial. Você e apenas você, poderá segui-lo. Então corra para ele”
“Corra Alisso, pegue o coelho! — Disse meu pai –Muito bem filha! VENHA DAR UM ABRAÇO EM SEU PAI!!”
Me conte uma história papai – Eu disse enquanto o abraçava fortemente.
“Ah que tal a do Lugh deus sol? – Ele sempre me contava essa mesma história
De novo esta, papai? – Fiz um bico e ele sorriu
É que não sou muito bom com histórias princesinha” — disse e me deu uma piscadela
“A princesa com toda certeza é estranha, você já viu aquele cabelo dela? Branco, deve ser as cores do mal, o padre me disse para não ficar muito perto dela. Ela tem cheiro de gente que traz problemas.
*risos e cochichos*
—Realmente Clara, eu fiquei sabendo que ela foi dada a eles pelo diabo! E ...
*Corri o mais rápido que meus pés de 10 anos conseguiam, e senti as lagrimas caírem em uma velocidade assustadora*
“Batia forte. Eu ouvia um som me chamando, um sentimento de loucura tomou conta de mim, entrei na floresta na hora que a lua estava o mais alto possível no céu. Corri. Toda vez eu estava correndo. Acho que eu tinha a triste sina de ter que correr na minha vida.
Uma luz forte.
—Quem está aí?
Risos de algum garoto e um suspiro.
Cheguei mais perto da luz, mas ela se apagou com o vento. Aquilo era fogo? Mas...
ALISSO?!
ONDE VOCÊ ESTÁ QUERIDA??
ALISSO!!
ALISOOO!!
Várias vozes me chamavam na mata atrás de mim.
ESTOU AQUI! — Gritei
O que era aquilo? O que foi que eu vi ali? Porque vim parar ali”
Naquela estação, não havia flor que não tivesse morrido em seu galho seco. O ar era de um cinza claro morto, tão triste quanto um funeral. As copas das árvores estavam secas e o clima era gélido. Os animais se escondiam e hibernavam para fugir do frio assassino, e eu morria junto com as últimas partes sem neve do bosque.
Dentro do castelo eu sentava perto de uma lareira com intenção de tentar quebrar o frio de meus ossos. Meu cabelo parecia desbotado e seco, igual o meu coração partido. Que dia inacreditável. Meu estomago estava revirado de nervoso, toda hora me retirava para tentar (sem sucesso) aliviar meu nervoso. Meu coração apertava de uma forma nova, a qual eu jamais sentira antes, era uma mistura de aperto e falta de ar sem se quer estivesse praticando qualquer coisa que desse esse sentimento de canseira e dor.
Com os olhos fechados imagens de meu pai sorrindo e me pegando no colo em um abraço no momento em que acertei meu primeiro coelho com o arco e flecha, me atingiam como uma dessas flechas procurando o alvo. Abri os olhos tentando ver se eu conseguia acordar desse sonho muito ruim.
A poucas horas estávamos juntos no café conversando sobre como o frio estava congelante esse ano. Meu pai bebia cerveja em pleno café da manhã, eu comi torradas e geleia de valeriana, era um bom calmante para minha ânsia constante.
Passos. Meus ouvidos ouviam um milhão deles. Em todas as direções.
Pessoas de todos os cantos do Castelo corriam sem parar tentando administrar aquela situação. Saiam e entravam sem parar no quarto de meu pai. Eu me sentia cada vez mais angustia e ansiedade com tudo aquilo. Será que eles não entendiam o que aconteceu? Era tão simples. A vida daquele homem tão amado se esvaziara em cerca de segundos diante dos olhos presentes e não podíamos mais fazer nada. Seu rosto caloroso e cheio de vida agora se tornara apenas uma sombra escura de morte que o abaterá naquele lugar.
Não que a morte fosse desconhecida para mim, já que a várias estações, minha mãe também tinha sido pega pela mesma. Diferente do meu pai, a doença da minha mãe chegou de modo alarmante em uma primavera e no outono seguinte sua breve vida tinha sido esvaziada do seu sorriso brilhante. Meu pai nunca tinha se recuperado da perda da amada. Apesar de ser forte para suportar suas obrigações reais e nós dar apoio, eu jamais o vi sorrir como sorria antes.
Mesmo sendo minha conhecida, a morte sempre me arrebatava de modo que meu coração parecia congelar e se despedaçar. Ela conseguiu levar as duas pessoas que mais amava. O que seria de mim agora?
Vi de longe minha avó me olhando com um olhar fraterno, parecia que ela conseguia ler meus pensamentos, abaixei a vista. Eu choraria ainda mais se ela tentasse me consolar.
Senti alguém se aproximando devagar. Por favor avó não venha agora.
Botas sujas.
—Irmã? -uma voz forte oscilando da minha frente me chamou. Esse era meu irmão mais velho, e próximo Rei desse lugar, que neste instante, se encontrava caótico.
—Diga irmão. – Eu disse com a cabeça ainda abaixada, queria olhar sua face dolorida.
— Você está bem? – que pergunta mais enfadonha pro momento Filipe. Quis rir, mas não conseguia nem abrir o sorriso.
— Bom, estou segurando as pontas. – Logico que eu me sentia vazia, e morta. Mas ele não precisava sofrer por mim também naquele momento. Já havia seu próximo sofrimento.
—... Eu sei, vim o mais rápido que pude das fronteiras, recebi o recado no meio do caminho para Lubrad, e eu não consigo entender muito bem o que houve ainda. Eu... me desculpe por não chegar mais rápido. Sabe que estou aqui se precisar de mim, não é? Para tudo. – Assenti. Ficamos em silencio, não tínhamos o que dizer. Finalmente olhei seu rosto. Não estava tão estragado como o meu, nem havia sinal de lagrimas, mas vi o tique que sempre estava ali quando ele estava nervoso. Seus olhos não paravam de piscar. Ele também estava todo suado e sujo. Ele deve ter feito o cavalo correr mais do que aguentava com toda certeza.
Meu irmão mais velho era o chefe do exército de meu pai. Ele não era a pessoa mais sentimental que eu conhecia, nem de longe, mas ele e meu pai era muito próximos. Não como pai e filho, mas como melhores amigos. Meu pai sempre o aconselhou muito, e eu sabia que havia um segredo entre eles, que Filipe jamais conseguiu me contar. Ao olhar para seu rosto mais uma vez, eu sentia sua feição mórbida começando a aparecer, sua imensa tristeza e seus olhos piscando.
—Você sabe que terá que assumir o lugar de papai, não sabe? – ele me olhou com um olhar assustado, como se eu tivesse arrancado sem dó de seus pensamentos.
— Eu sei. Porém nunca serei um Rei como ele foi. Jamais serei como o papai. Queria que ainda fosse ele aqui ...- dei um sorriso torto de um jeito meio tristonho, era o máximo que conseguia no momento. – Desculpa Ali, preciso ir agora arrumar as coisas...- e se foi falar com funcionários do palácio, que agora se curvavam para ele mais do que o normal.
Ele abanou com a cabeça uma última vez, me olhando de longe, eu amava meu irmão e me aliviava que ele também sentiria a falta do nosso pai como eu, não me sentia tão sozinha.
—Você será tão bom quanto ele. Tenho certeza. — Sussurrei para meu coração triste e levantei para ajudar a dizer um último adeus.
Quando já era a hora de verdadeiramente me despedir de meu pai, minhas lagrimas escorriam e meu nariz entupiu, de modo que me faltou o ar. Depois de uma oração para a mãe terra, deixei um buquê de lírios sobre seu corpo. Era as flores preferidas de minha mãe, quando ela se foi meu pai vivia arrumando arranjos pelo castelo para sentir que ela ainda estava lá com ele, seu hobby se tornou em algum momento a jardinagem depois disso. Achei que se levasse um buquê, ele poderia entregar para ela depois.
Olhar seu rosto pálido agora dentro de um pequeno barco feito de carvalho e que finalmente começava a descer pela correnteza, sendo queimado pelas velas brancas, me fez sentir que meu coração se quebrou em cacos. Como se ele tivesse ainda inteiro.
Meu paizinho só havia vivido 160 estações conosco (40 anos). Era tão pouco, não era suficiente, nem de longe.
Muitas pessoas estavam a minha volta, druidas faziam orações aos deuses que levassem meu pai para um lugar de paz, pessoas do reino todo vieram prestar homenagens, meu irmão estava como uma estátua, era seu jeito de mostrar que estava absurdamente triste, seu olhar parecia perdido e parecia ter perdido uns 4 quilos do dia para a noite.
Meu pai não era uma pessoa perfeita, como Rei, teve que tomar medidas que muita das vezes não concordava, mas sempre tentou ser o mais justo que era possível em sua posição e no momento que estava enfrentando. E eu o admirava por isso. Nós, pessoas, somos tão egoístas e falhas sem posição alguma, imagino que com o peso do seu cargo, seria ainda pior.
Meus cabelos batiam com violência contra meu rosto se mesclando ao choro e atrapalhando minha visão, o vento estava tão frio, até o sol estava escondido naquele dia mórbido. Será que papai sentiria frio onde está agora? Eu devia ter trazido uma manta também.
Quem iria me dar abraços ternos agora? Como seria a vida sem ele? Eu não estava sozinha, mas eu me sentia assim. Ninguém jamais iria conseguir preencher seu espaço em meu coração. A morte é dolorida. E deixa uma marca que não pode ser apagada.
Minha avó colocou a mão em ombro, senti um pouco reconfortada. Ela continuou ali do meu lado até o fim daquela cerimônia, que era mais para os nossos corações vivos que se sentiam mortos por sua partida, do que para ele que apesar de não ter mais as batidas ritmadas do seu coração, tinha agora descanso e paz eterna exatamente igual a seus abraços.
“AO REI THOMAS, NOSSO ETERNO GUERREIRO E PROTETOR” Anunciou o druida perto do lago e todos acompanharam jogando flores na água, meus olhos que levantavam para os céus queriam dizer apenas uma coisa.
Adeus papai. Sentirei sua falta. Fique bem.
Então o céu chorou em nós, como se quisesse dizer que também estava triste.
Não se passaram muitas luas e meu irmão já estava sendo preparado para assumir o trono de meu pai. E no dia de sua coroação, também aconteceria seu casamento com Vidia, uma garota linda de cabelos pretos e olhos vividos cor de amêndoa, que lhe fora prometida desde o dia que nascera. Ela era prometida a ele por ser de uma família muito influente nas finanças do reino, seu pai era o escrivão do nosso pai. Eu gostava dela, já tinha tomado chá com ela algumas vezes, parecia tímida e fazia bem seu papel de dama na presença das mulheres mais velhas. Completamente diferente de mim. Apesar de eu me comportar bem e como uma princesa, eu achava aquilo um tedio e me sentia desconfortável o tempo todo.
Eu estava saindo do meu quarto logo cedo com muita pressa para ajudar a arrumar tudo para cerimonia, aqueles dias tinham sido um completo inferno. Como não havia a rainha para organizar os preparativos, fui colocada como substituta pelo meu irmão. Mas aquilo me irritava, eu queria mesmo era ir nadar no lago, desenhar a mata, ou apenas correr. Pessoas para todos os lados entrando e saindo do castelo com os preparativos, até comer tinha se tornado uma tarefa difícil para mim, eu comecei a comer dentro do meu quarto. O silencio era agora um amigo distante.
O casamento começaria no começo da tarde, quando o sol estivesse no baixo céu. E assim meu dia foi passando até que minhas criadas me chamaram para me arrumar, eu tinha até esquecido de me arrumar com tanta coisa para fazer. Fui para o meu quarto e tomei um banho delicioso e relaxante.
— Nilce, obrigada por esse banho incrível- Eu me sentia bem melhor, ela pegou a toalha e comecei a me enxugar. – Eu estava tão cansada que até respirar parecia difícil
—Imagina senhorita, eu sei como se esforçou para tudo estar perfeito para o seu irmão, você merece. — Nós éramos o mais próximo que podíamos, pode se dizer que amigas. Ou o mais próximo do que eu já tive de uma amiga.
—Vocês me ajudaram muito, eu que devo agradecer. – Sorri e me calei para ela me vestir e acabar de me arrumar.
Me olhei no espelho e me senti bela, um vestido de seda verde logo se ajeitou muito precisão no meu corpo, uma leve maquiagem e me cabelo estava em um coque muito bem penteado. Simples, mas eu me sentia eu mesma. E isso era bom, eu já me sentia uma estranha a um tempo, então as vezes eu esquecia que essa era eu.
—Está muito bem senhorita- sorri ainda mais e agradeci sinceramente e as dispensei. Sai para descer para o salão.
O salão estava muito bonito. Eu podia ganhar um pequeno crédito nisso, tentei deixar o mais próximo possível do Vidia tinha me contado no ultimo chá que tomamos juntas. Com flores azuis e violetas, com detalhes prata no tapete, nas velas, na parede, em tudo. E claro, as bandeiras mostrando o escudo de nosso reino, marcava todos os lados. O povo não foi chamado para o evento religioso, apenas para a festa. Meu irmão acreditava que o casamento deveria ser apenas para os mais próximos. Lógico que os mais próximos queriam dizer os Reis e Rainhas, que são importantes para economia e estratégia do Reino, do que para a gente. Maioria deles católicos agora, como nós. Apesar de minha família ainda levar em sua raiz, a antiga cultura celta, que principalmente meu pai prezava muito.
Observei meu irmão no altar, ele tinha um semblante sério, cabelos loiros bem penteado e olhos verdes penetrantes, extremamente militares e sérios. Ele estava com uma roupa de um bom tecido vermelho, com várias medalhas que tinha ganhado de meu pai, e sua espada. Ele não parecia feliz. Talvez nem todo mundo viva um conto de fadas afinal. E eu sentia um pouco mal por isso, mas desde cedo nós fomos ensinados a seguir nossos deveres, e apesar do meu coração doer por vê-lo infeliz, eu não acreditava que ele fosse ser infeliz com Vidia. Pelo menos ele seria um bom marido, e ela uma boa esposa. Nem sempre o amor estava envolvido nos nossos relacionamentos. Meus pais mesmo tinham casado por contrato, mas no fim se amaram. Esperava Filipe e Vidia fossem assim.
Ao entrar fui parada por alguns nobres para me dar seus pêsames e contar as novidades de seu reino. Eu não estava extremante interessada, mas ouvi com uma falsa atenção. O Padre começou finalmente o casamento e nós sentamos para ouvir sobre como Deus tinha um destino para nós. Destino. Apesar de ser ingênuo, eu acreditava um pouco nisso. Um tempo depois, uma música suave e sem melodia atrapalhou o barulho das conversas baixas que não prestavam atenção no monologo do padre. Iria começar, nos levantamos e a porta principal se abriu.
Lá estava ela entrando pelo tapete prata, parecia radiante e estava muito bonita com um vestido bufante creme de mangas e com pingentes de um azul sutil, as joias simples e o buquê de flores de maio e lírio azul. Mas seu sorriso era a mais bela joia, ela realmente gostava do meu irmão, se notava isso com pouca dificuldade. Nem todos tinham essa sorte. Meu irmão continuava a não parecer que estava no dia mais feliz de sua vida. Seu rosto estava fechado e cansado agora. Ele nunca comentava muito sobre ela. Ele não teve muita escolha e mesmo assim escolheu aceitar seu destino. Senti um pouco de pena dela por isso. Então o padre voltou a seu infinito monologo.
“Todos saúdam o novo Rei Filipe e sua Rainha Vidia!”
O Casamento passou rapidamente, os dois nem se beijaram no fim. Vidia parecia meio decepcionada, mas recebeu um beijo na testa de meu irmão. Foi singelo, mas pelo o que conheço dele significava que iria cuidar dela apesar de tudo. Ao sair, fui até ele e lhe dei um abraço de parabéns e desejei toda sorte do mundo aos dois. Esperava de verdade que os dois fossem felizes juntos, e apesar de terem muitas responsabilidades pela frente que o fardo fosse suave. Meu irmão me olhou com olhar fraterno e depois continuou a cumprimentar os convidados.
A festa para mim não parecia tão alegre como teria sido alguns meses antes, garanti ficar em meu canto, bem afastada da multidão que queria falar sobre meu pai. No momento que todos começaram a ficar bêbados me retirei. Ninguém sentiria minha falta quando tinha barris de cerveja e vinho a sua frente.
Ao passar pelo corredor e subir as escadas todas floridas por begônias e lírios, lembrei como tive que ajudar em todos os preparativos, aquilo não tinha sido nada fácil, principalmente quando meu pai não estava mais ali para me sorrir todas as vezes que eu estivesse cansada.
Minha vontade era apenas de deitar em meu quarto e chorar até dormir naquela noite. Porém havia um lugar que me aliviava um pouco naquele lugar sem fim. Dentro de um nicho do castelo no centro norte, que dava em uma sacada onde eu conseguia ver a maior parte da floresta e do mar e sentir a brisa.
Era naquele lugar que eu me esconderia por um bom tempo, até sentir sono. No dia seguinte era meu aniversário, mas eu não estava nenhum pouco animada e nem queria que ninguém se lembrasse disso. Orei, pedindo que a ressaca dominasse a população do castelo.
Ao chegar na sacada, olhei as árvores que balançavam com o vento, e as ondas que pareciam violentas, o barulho das corujas e uivos de lobos preenchiam o silencio. Uma pena eu estar sem meu caderno, mas eu não iria busca-lo com o risco de encontrar alguém com um monte de perguntas pelo caminho. Depois de um tempo a lua ficou alta no céu, então já era meu aniversário. Parabéns para mim. 76 estações (19 anos). Fiquei com apenas meus pensamentos por um momento e do nada, um barulho horrível soou no ar, parecia um urso sendo destroçado. Fiquei horrorizada. Eu fiquei paralisada de medo.
Então vi algo passar correndo na floresta, como uma pessoa muito alta, maior que as arvores, quase da altura da sacada onde eu estava, senti um cheiro fedorento terrível vindo com a brisa. O que era aquilo? .... Não, eu estava imaginando coisas, eu só podia estar.
Então todos os animais começaram a sair de suas tocas e esconderijos e correr para o Norte apavorados. O céu fechou em segundos, trovões e rajadas de vento fortíssimos começaram e não entendi o que estava acontecendo, senti meu peito ficar ofegante de medo. Sentia meu coração batendo mais forte. Senti a brisa no meu rosto, e ouvi algo que fez meu estomago se contorcer.
Uma mulher berrando apavorada.
Olhei em volta, mas não havia ninguém ali. Eu talvez estivesse ficando doida, ou estava tão triste que comecei a ouvir e ver coisas.
—Não, eu também ouvi. — Dei um grito de susto e ouvi um “shiiiu”.
— Avó, mas que susto que a senhora me deu! Como assim a senhora também ouviu aquilo? Você viu os animais... eles.... Olha como o tempo está!
—Sim eu sei tudo minha neta querida, A floresta está assustada, ela tem medo do que vai acontecer com suas criaturas. Você precisa nos salvar, você precisa ir agora — ela tinha ternos olhos azuis, tão vividos que pareciam o mais lindo dia azul, ela não parecia nem um pouco apavorada como eu. Mas estava falando loucuras sem sentido.
—O que a senhora está dizendo? — Me senti confusa e zonza, o que ela estava me dizendo? — Eu ... eu não posso ir a lugar algum, aqui é meu lugar. Tenho que ajudar meu irmão. E-Eu preciso ficar com a senhora, eu...O papai precisa que eu...- falei gaguejando sem entender absolutamente nada.
—Você ama ajudar, eu sei querida. Está no seu coração. Mas você precisa se ajudar agora. Você precisa fugir rápido, o perigo está chegando. E muito, muito rápido.
— Como assim avó? Eu nem sei do que está dizendo ... Eu quero explicações -Comecei a chorar em desespero. Sinto que vou desmaiar.
O que está havendo aqui? Eu estava aqui fugindo e agora eu preciso fugir de verdade? Para onde? De quem?
— Seu coração sabe. Eu preciso te contar uma história antiga. Gosta de histórias? Vamos entrar primeiro. – Eu não sabia onde ela queria chegar, mas fiz que sim com a cabeça, ela me deu seu braço e foi me levando para fora da sacada. Ficamos do lado da escada, minha lagrimas escorriam e eu continuava ouvindo os raios, será que ninguém no salão estava ouvindo aquele tempo apocalítico lá fora? Eu nem conseguia pensar que era uma brincadeira.
“Há muito tempo atrás, havia um jovem casal que tinha uma vida feliz em seu reino, já tinham tido seu herdeiro, e sua vida caminhava bem. Mas em uma noite extremante chuvosa, uma mulher misteriosa bateu em sua porta. E em seus braços havia uma pequena garotinha de cabelos brancos, a mulher pediu ajuda ao rei e a rainha, que escondesse sua garota, que a adotasse e cuida se dela como sua filha, senão aquele pequeno broto seria morto por forças malignas das quais a mulher não podia explicar para eles. Mesmo sabendo que a garotinha seria perseguida por toda vida, os réis a adotaram como sua princesa. A garota era linda e esperta, ela ficava encantada com a floresta e muitas vezes tentava escapar e correr para dentro da mata, até que o céu fechou e a garota desmaiou e uma sombra alta tentou lhe puxar para floresta. Os reis berraram de dor ao ver sua garotinha sendo levada para longe. Foi então que o ser maligno se assustou e fugiu. Percebendo que sua menina sempre seria perseguida, seus pais a protegeram sempre que possível. Mas a mulher aquele dia disse que ao completar 76 estações, a garota teria uma missão e deveria retornar então a seu lar de origem, isso deixou seus pais ainda mais amedrontados, que missão? De onde sua pequena era? O que teria que fazer? Mas ninguém nunca lhes deu estas respostas, e isso amedrontava seus corações “
— Avó isso não pode ser verdade. Eu não sou ninguém diferente, eu...- eu já não sabia o que dizer, já que eu sentia aquilo as vezes, que eu não estava no lugar certo.
Desde de pequena eu nunca me senti normal de verdade. Parece muito clichê, mas quando se tem o cabelo branco é meio normal pensar que você não se encaixa. Porém jamais pensei que era especial ou qualquer coisa assim. Eu sempre vi que a maioria das pessoas não tinham cabelos brancos. Muitas vezes que eu passava nos corredores do castelo e ouvia os cochichos dos empregados sobre como eu era estranha, mas isso não faz sentido algum... ou será que ...
Senti meu pulmão pedir ar. Esqueci de respirar… Não. Não. Não. Comigo não.
—Eu não sei muito mais que você, mas não é a primeira vez que sinto o quanto você se sente mal entre essas pessoas. Elas sempre pareceram não entender como você se sente. E você não precisa negar isso. Mas agora chega de bobagem, você precisa ir. Eu sinto as forças malignas começando a rastejar pelo castelo, esse lugar não é mais seguro para você Alisso. Seus pais não tiveram tempo para falar sobre isso com você, eles sempre te viram como filha, era doloroso demais pensar em sua partida para os dois, mas pensaram cada segundo de suas vidas em seu bem-estar. Já está tudo pronto para você meu anjo. Você precisa partir agora. — Eu senti um calafrio pelo corpo e vi o céu com mais clareza agora, tudo estava absurdamente escuro. Por alguns instantes, supus que precisava ir ou colocaria aqueles que eu amava em perigo. Senti um arrepio em cada pedacinho do meu corpo. Minhas lagrimas foram parando. Eu preciso ser corajosa. Não sei para onde vou. Mas não podem machucar os únicos que me sobraram.
Minha vó me puxou para meus aposentos e me deu uma bolsa, nela havia muitos amuletos, um pão embrulhado, uma faca, e um frasco que não entendi o queria dizer, colocou um manto pesado azul sobre meus ombros e me empurrou na parede, onde ao puxar um castiçal uma passagem secreta que eu nem sabia que tinha entre os livros do meu quarto se abrira, minha cara devia ser de assustada e chocada porque ela apertava meu ombro meu reconfortando a todo instante.
Trovão.
—Corra, ande o mais rápido que conseguir. Agora.
Correr. Parece ser o carma da minha vida. Eu sempre estava correndo, fugindo de algo.
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