Artificial

1 Artificial | day 27 future


Notas iniciais
Esse foi um dos temas mais complicados, porque não gosto muito de coisas futurísticas. Porém, estamos com a fic feita.
Acho bem dramático esse tipo de conteúdo, essa relação entre androids e humanos. Admito, que senti uma dorzinha no coração quando construí os dialogos.

Quase chegando ao final do desafio...apenas uma reflexão.

Boa leitura.

— Bom dia.

Shouto franziu o cenho, incomodado com a luz que invadiu a penumbra do quarto. Ele girou o corpo na cama e observou o android alinhar as cortinas e abrir os vidros da janela, para que o ar do quarto fosse renovado.

Era difícil de acreditar que o belo garoto de cabelos loiros e intensos olhos vermelhos não fosse humano, e sim, uma máquina desenvolvida para servir e acompanhar Todoroki.

— Bom dia, Katsuki. — murmurou, sem afastar o rosto do travesseiro.

— A banheira já está pronta para o seu banho. — O android parou ao lado de seu mestre e retirou as roupas de cama, deixando-as dobradas sobre a poltrona. Utilizou do scanner de sua visão, para medir a temperatura e a pressão de Shouto, puxando-o pelo cotovelo para que levantasse e fosse para a rotina matinal. — Sua pressão e temperatura estão ótimas, não seja preguiçoso.

O bicolor sabia que estava bem de saúde, mas a mente foi bagunçada há muitos anos e agora necessitava de um apoio emocional, uma inteligência artificial projetada para torna-se seu companheiro, para que não sucumbisse a própria loucura. O projeto — conhecido cientificamente como Ground Zero 001 — foi elaborado na empresa de tecnologia do pai, Endeavor Corps.

No início, odiou a presença de Bakugou, a forma como ele o seguia como uma sombra, a expressão real em seu olhar. Depois de algum tempo, Todoroki confiava cegamente no criado, e não nos humanos.

Nunca confiou.

— Você é amavelmente chato.

Com movimentos lentos, o bicolor moveu os pés para fora da cama e arrastou-se até o banheiro. O pijama ficou pelos cantos e mergulhou o corpo na água morna, na temperatura ideal para o seu gosto mais frio.

O loiro seguiu o trajeto e sentou-se ao lado da banheira, para lavar os cabelos de duas cores.

E foi nessa proximidade de android e humano que Shouto se fragmentou, perdido em realidade e ficção. Por mais que Katsuki não fosse humano, apreciava o contato macio de sua pele artificial contra o couro cabeludo e quando deslizava o sabonete entre as omoplatas, raspando a ponta dos dedos sobre a coluna.

Ele não se lembrava quando foi, mas depois de um tempo, tornou-se difícil encarar os olhos rubis, que brilhavam vivos e sentimentais, mesmo que fosse apenas algum material sintético de alta tecnologia. Todoroki amava os vincos dos lábios carnudos e agradecia em sigilo quem decidiu pintar minúsculas sardas sobre o nariz simétrico de Bakugou.

— Katsuki… — Mergulhou mais na banheira e fechou os olhos para apreciar os movimentos relaxantes em sua cabeça. — Eu me sinto sozinho.

— Estou aqui, Todoroki. — disse sem oscilação na voz, apenas no tom grave e profundo.

— Esse é o problema.

— Sou a primeira unidade, não há outros para me substituir.

As palavras doeram no peito, pois não era aquele tipo de resposta que queria ouvir. Por mais que fosse programado, ainda tinha esperança que algo milagroso pudesse acontecer com Katsuki. Que ele pudesse ser real, repleto de sentimentos, para que pudesse viver com Shouto de outras formas, mais mundanas.

— Não quero que você seja substituído. Eu gosto de você, Katsuki.

Os movimentos dos dedos pararam por um breve segundo e aquilo fez o bicolor girar na banheira, apenas para encarar o android.

— Você também é importante, Todoroki.

— Já disse que você pode me chamar de Shouto. — A mão molhada tocou a face do loiro, que continuou imóvel. Entretanto, ele jurou que a íris dilatou não pelos comandos de seu sistema, e sim, por algo maior.

— Está bem, Shouto.

O coração errou a batida com a nova intimidade. Ele sentia-se doente, por sentir afeto por algo que não era humano, uma aberração criada apenas para confortá-lo de uma vida frágil, de suicídios malfeitos e de uma família desestruturada.

Seu pai estava obcecado por desenvolver androids que pudessem ser uteis, ou melhor, escravizados pela humanidade. Sua mãe sofria de esquisofrenia e estava internada a mais de anos, e os irmãos… não fazia ideia do que aconteceu com eles aos longos dos anos.

Shouto passou anos preso dentro de casa, sobre cuidados de enfermeiros e psicólogos, que alegavam que possuía o DNA problemático de Rei. Nenhum tratamento foi tão eficaz quanto o loiro, que chegou em sua viva e trouxe um pouco de luz.

Infelizmente, era uma luz artificial e não a do sol.

— Você me ama, Katsuki? — O bicolor inclinou-se mais na banheira, agora com as duas mãos em torno do rosto macio do loiro.

— Desculpe, mas não há resposta no meu banco de dados para essa informação.

Doeu, Shouto queria desaparecer na água que já estava fria na banheira. E mesmo que estivesse ciente da loucura que era apaixonar-se por algo proibido, ele queria experimentar mais e mais de Katsuki.

— Eu te amo. — Inclinou-se mais e o beijou sobre os lábios que não se moveram, apenas uma leve tremulação, que Shouto julgou ser de sua imaginação.

— Desculpe, mas não há resposta no meu banco de dados para essa informação.

Doeu.

Notas finais
Eu juro que releio pelo menos uma vez a fic, mas nunca consigo focar numa betagem. Espero que isso não seja um problema para vocês, porque eu fico angustiada por não conseguir focar em nenhuma correção decente.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!