Arthur: Parabéns Pelos 10 Anos de Hiato

7 CAPÍTULO 6: DIÁLOGOS DE LENÇOL


Notas iniciais
Hoje o dia foi corrido. O personagem feliz, contrasta com o autor sonolento. Boa noite!

A madrugada do dia 29 de dezembro era um forno. O ar-condicionado do quarto de Arthur lutava bravamente contra o mormaço do litoral, emitindo um ruído constante que servia de trilha sonora para o frenesi de suas teclas. Após o encontro no café, o mundo físico de Arthur havia encolhido: agora, ele se resumia àquela tela e às notificações de Helena.

Ele estava no meio do Capítulo 87. A cena que ele evitara por uma década finalmente estava acontecendo. Kaelen e Elara estavam sozinhos em uma estalagem de beira de estrada, a última parada antes da batalha final. O clima lá fora era de tempestade, um espelho da turbulência interna do autor.

Seu celular vibrou. Não era uma DM. Era uma foto.

Arthur parou de digitar no ato. A imagem mostrava Helena deitada em uma cama de lençóis brancos desalinhados. Ela usava uma regata de seda preta que contrastava com a pele clara e segurava uma taça de vinho tinto. O olhar dela para a câmera não era desafiador como no café; era um convite, denso e sonolento.

@H_Lena: "Acabei de reler o que você postou ontem. A tensão entre o Kaelen e a princesa está me deixando sem sono. Ou talvez seja o calor. O que eles estão fazendo agora, Arthur? O silêncio está ganhando a batalha ou ele finalmente tomou uma atitude?"

Arthur sentiu a boca secar. Ele olhou para o parágrafo que acabara de escrever: uma descrição técnica sobre a iluminação das velas no quarto. Lixo. Ele apagou tudo.


Arthur: "Ele está parado na frente da porta. Ele sabe que, se der mais um passo, não haverá volta para o homem que ele costumava ser. O problema, Helena, é que o autor dele também não sabe como dar esse passo sem parecer... desajeitado."

@H_Lena: "O desajeitado é humano, Arthur. O que é mais excitante: um guerreiro que sabe exatamente onde tocar, ou um homem que treme porque o desejo dele é maior que a habilidade dele? Descreva o tremor. Descreva o que ele sente quando ela se levanta e caminha até ele."

Arthur começou a digitar, mas não no arquivo do livro. No chat.

Arthur: "Ele sente que o ar desapareceu. Ele sente que cada cicatriz no corpo dele está queimando, como se o olhar dela fosse o fogo que vai forjar uma nova armadura. Ele quer dizer que esperou dez anos por aquele momento, mas as palavras morrem na garganta porque a única coisa que importa é a batida do coração dela contra o peito dele."

@H_Lena: "E o que ela faz? Ela espera? Não... Se eu fosse ela, eu diria que o tempo das palavras acabou. Eu levaria a mão dele até o meu pescoço, só para ele sentir como eu estou pulsando por causa do que ele escreveu. O que você faria se a sua mão estivesse aqui agora, Escritor? No mundo real, sem dragões."

O diálogo tornou-se puramente metalinguístico. A fronteira entre Kaelen e Arthur, entre Elara e Helena, simplesmente evaporou. Arthur sentia o suor escorrer por suas têmporas, mas não era pelo calor do quarto. Ele estava vivendo a cena enquanto a criava.

Arthur: "Eu fecharia os olhos para não me perder no brilho dos seus. Eu tatearia o tecido dessa seda que você está usando, tentando entender onde termina a roupa e onde começa a sua pele. Eu te pediria desculpas pela minha inexperiência, mas você provavelmente me mandaria calar a boca com um beijo."

@H_Lena: "Eu definitivamente te mandaria calar a boca. E depois, eu te mostraria que o 'desajeitado' tem uma beleza que a técnica nunca alcança. Eu guiaria seus dedos. Eu faria você entender que, naquela cama, não existe autor e leitora. Existem apenas duas pessoas tentando preencher um hiato de dez anos em uma única noite."

Arthur respirou fundo. Ele nunca havia falado assim com ninguém. A segurança que Helena lhe dava através da tela permitia que ele explorasse facetas de si mesmo que estavam trancadas em um cofre enferrujado. Ele voltou para o manuscrito. A inspiração era agora uma torrente.

Ele escreveu sobre o toque. Não o toque poético e distante de seus rascunhos antigos, mas o toque real: o calor, a pressão, o cheiro de pele e chuva. Ele descreveu o momento em que a armadura de Kaelen — tanto a de metal quanto a emocional — finalmente caiu no chão de madeira com um estrondo que ecoou por todo o reino esquecido.

Arthur: "O capítulo está fluindo, Helena. Eu descrevi a cena da estalagem. Usei o que você disse sobre o 'silêncio que pergunta'. Ficou... intenso. Eu quase tenho medo de postar e ser banido do fórum por excesso de realidade."

@H_Lena: "Poste. Deixe eles queimarem com você. E Arthur... salve o melhor para o final. O dia 31 está chegando. Eu já escolhi o vinho. E a lingerie que eu vou usar no loft... bem, digamos que ela combina perfeitamente com o final que eu imaginei para nós dois."

Arthur desligou a tela do celular e encarou o cursor piscante. Ele estava exausto, mas seu coração batia como o de um corredor de maratona. Ele percebeu que Helena não estava apenas ajudando-o a terminar um livro; ela o estava preparando para a vida.

O Capítulo 87 foi postado às 05:00 da manhã. O título era apenas uma palavra: "Pulsão".

Antes de desmaiar de sono, ele recebeu uma última mensagem:

@H_Lena: "Dormir agora é um crime, depois do que você me fez ler. Mas vá. Descanse. Amanhã começamos o capítulo 88. Estamos quase lá, meu herói. Só faltam três dias para o nosso clímax ao vivo."

Arthur adormeceu com o sorriso de quem finalmente entendera que a melhor história de amor é aquela que não cabe em uma página, mas que transborda para os lençóis de uma vida real, doce, sensual e irremediavelmente ousada.

Antes de fechar o notebook, Arthur cometeu o erro de atualizar a página do fórum. Em menos de dez minutos, o contador de comentários já marcava três dígitos. Os leitores estavam em choque. 'Onde o Arthur estava escondendo esse fogo?', dizia um comentário com centenas de curtidas. 'Ele escreve como quem sabe exatamente o que está fazendo entre quatro paredes', dizia outro. Arthur sentiu um calafrio. O mundo virtual o estava coroando como um mestre do desejo, mas ele olhou para as próprias mãos trêmulas e lembrou que, no mundo real, ele ainda não sabia sequer como desabotoar um vestido sem pedir desculpas. A distância entre o autor lendário e o homem real nunca pareceu tão abissal.