Arthur: Parabéns Pelos 10 Anos de Hiato

1 CAPÍTULO 1: O ANIVERSÁRIO DO ABISMO


O cursor pulsava na tela branca como um coração artificial, rítmico, insistente e levemente irritante. Arthur o encarava há exatos quarenta minutos. A luz azul do monitor era a única iluminação no quarto bagunçado, destacando as pilhas de livros de fantasia, as xícaras de café vazias com anéis de sujeira no fundo e o pôster desgastado de um dragão que parecia julgar sua inércia.

Na barra de tarefas, o navegador exibia a aba do fórum "Mundos Paralelos". O título da história brilhava em negrito: A Crônica do Reino Esquecido. Abaixo dele, as estatísticas que eram seu orgulho e sua maldição: Visualizações: 1.200.000. Favoritos: 45.000. Última atualização: 24 de dezembro de 2015.

— Dez anos — sussurrou Arthur para as paredes vazias. Sua voz saiu rouca, uma lembrança de que ele pouco falara com seres humanos reais nos últimos dias. — Dez anos hoje.

Ele tinha vinte e nove agora. Quando começou aquela história, era um universitário cheio de sonhos, acreditando que a literatura seria sua fuga e, talvez, sua glória. O protagonista de sua fanfic, Kaelen, era tudo o que Arthur não era: destemido, magnético e dono de um destino grandioso. Mas Kaelen estava parado no tempo, congelado no exato momento em que deveria atravessar o Portal das Sombras para resgatar seu amor e salvar o reino. Kaelen estava esperando. E os leitores também.

Arthur tentou digitar. “Kaelen sentiu o frio do aço em suas mãos...”

Apagou. Clichê demais.

“O silêncio do portal era como o peso de uma era...”

Apagou. Pretensioso demais.

Ele suspirou, recostando-se na cadeira que rangeu em protesto. A procrastinação não era falta de vontade; era excesso de respeito pelo que havia criado. Ele amava aquele universo. Amava tanto que tinha medo de estragá-lo com um final que não estivesse à altura da década de espera. O perfeccionismo era a âncora que o mantinha no fundo do oceano da estagnação.

O silêncio do quarto foi quebrado pelo som metálico de uma notificação. Um e-mail. Depois, outro. E mais um. Arthur franziu o cenho. Naquela data, era comum receber mensagens de "aniversário de hiato" — geralmente cobranças educadas ou súplicas desesperadas. Mas o alerta que piscou no canto da tela era de uma Mensagem Direta no fórum. O remetente era um nome que ele nunca vira: @H_Lena.

Ele clicou, mais por tédio do que por esperança.

"Caro Autor," começava a mensagem. "Hoje li sua história do início ao fim. Foram doze horas seguidas, sem pausas para comer direito. Eu queria entender o fenômeno. Queria entender por que, depois de dez anos, as pessoas ainda comentam 'por favor, volte' todos os dias."

Arthur sentiu um pequeno calor no peito. O reconhecimento ainda era uma droga potente. Mas ele continuou lendo, e o calor rapidamente se transformou em uma queimação de azia.

"Terminei agora. E sabe qual é a minha conclusão? Você é um mentiroso, Arthur. Você escreve com uma técnica impecável, descreve batalhas como se as tivesse vivido, mas você não gosta desse personagem. Você diz que o ama em suas notas de autor, mas quem ama, termina. Quem ama, dá o alívio do desfecho. Você mantém Kaelen preso naquele limbo não por perfeccionismo, mas por covardia. Você tem medo de que, ao colocar o ponto final, perceba que não tem mais nada a dizer para o mundo. Sua história não está inacabada porque é complexa; ela está morta porque você é um guardião cruel que prefere ver sua criação apodrecer a deixá-la voar. Sinto pena do Kaelen. E sinto um pouco de pena de você."

Arthur levantou-se da cadeira tão rápido que bateu seu ombro contra a estante. O sangue subia pelo seu pescoço, tingindo suas bochechas de um vermelho vivo. Quem era aquela mulher? Como ela se atrevia a entrar em sua caixa de mensagens, depois de ler seu trabalho de graça, e diagnosticar sua alma com tamanha petulância?

Ele caminhou de um lado para o outro no quarto pequeno. Covarde? Morta? Ele dedicou sua juventude àqueles parágrafos! Ele pesquisou táticas de cerco medievais, botânica para ervas fictícias e dialetos antigos!

Ele sentou-se novamente, os dedos voando sobre o teclado. A timidez que o impedia de pedir um café sem gaguejar na padaria desaparecia quando ele estava atrás de uma tela.

RE: @H_Lena

"Prezada leitora, agradeço pelas doze horas de audiência, mas dispenso sua análise psicológica de botequim. Você fala de 'dar o alívio do desfecho' como se escrever fosse apertar um botão. Existem arcos que precisam de tempo. Existem complexidades que uma leitura de doze horas não permite absorver. Se você acha que é fácil concluir uma saga de dez anos com a pressão de milhares de pessoas, sinta-se à vontade para escrever sua própria história. É muito fácil ser crítica quando você não tem nada em jogo além do seu tempo livre."

Ele enviou. O coração batia forte. Ele se sentia vivo, de uma forma estranha e agressiva.

A resposta veio em menos de dois minutos.

@H_Lena:

"Ah, então o leão rugiu? Achei que só encontraria um gatinho acuado atrás desse teclado. 'Complexidades', Arthur? Por favor. O capítulo 84 termina com o protagonista diante da escolha entre o dever e o desejo. Você parou ali porque não sabe o que é desejo. Suas cenas românticas são castas, quase infantis. Você descreve a armadura dele por três páginas, mas não consegue descrever o calor de um toque sem parecer que está lendo um manual de instruções de um eletrodoméstico. Você não termina a história porque, para terminá-la, Kaelen precisa ser homem. E você, meu caro autor, parece estar preso na adolescência literária."

Arthur soltou uma risada incrédula. Aquilo era pessoal. Era um ataque direto à sua virilidade e à sua capacidade criativa.

Arthur:

"Você não sabe nada sobre mim ou sobre o que eu sei sobre desejo. A fanfic é de fantasia épica, não um romance de banca de jornal. O foco é a honra, o sacrifício e o destino do mundo!"

@H_Lena:

"O foco de qualquer grande história é o humano. E o humano deseja. O humano quebra. Se você quer provar que eu estou errada, poste o final. Prove que você pode escrever uma cena que faça o leitor sentir o suor na pele, e não apenas o peso do metal. Mas você não vai fazer isso. É mais confortável ficar aí, no seu quarto escuro, celebrando aniversários de fracassos."

Ele parou. O comentário sobre o "quarto escuro" o atingiu com uma precisão cirúrgica. Como ela sabia? Era um palpite óbvio para um escritor de fanfics, mas parecia que ela o estava vigiando.

Arthur:

"Por que você se importa tanto? Se a história é tão ruim e eu sou tão limitado, por que perder seu tempo me insultando?"

Houve uma pausa maior desta vez. O cursor pulsava, pulsava, pulsava.


@H_Lena:

"Porque a história é incrível, seu idiota. É a melhor coisa que li em anos. E me dói ver tanto talento desperdiçado por alguém que se recusa a viver. Estou passando o fim de ano na região a qual você diz residir no seu perfil — vim para as praias nordestinas, decidi fugir do caos de São Paulo. Como uma região tão linda não consegue te inspirar?. Caminhe um pouco nas areias, talvez o ar do mar te faça bem. Ou talvez você precise de alguém que te desafie de verdade. O convite está feito: termine o livro até o dia 01/01, ou admita que eu venci e apague a conta. Afinal, se você não tem coragem de dar um fim, para que serve o começo?"

Arthur olhou para o calendário na parede. Era 24 de dezembro. Ele tinha exatamente sete dias. Sete dias para resolver um nó górdio que ele não conseguia desatar há uma década.

Ele olhou para a foto de perfil de @H_Lena. Não havia foto, apenas o avatar padrão do fórum. Mas em sua mente, ele começou a desenhar uma figura. Alguém com olhos que brilhavam com o mesmo fogo daquelas palavras. Alguém que era doce na forma de apreciar a arte, mas impiedosa na forma de exigir excelência.

Ele digitou, as mãos levemente trêmulas:

Arthur:

"Você está na cidade? Qual praia?"

@H_Lena:

"Perto o suficiente para ouvir os fogos da virada. Mas só me verá se o capítulo final for postado. E aviso logo: eu sou uma revisora muito, muito exigente. Se eu gostar do que ler... posso te mostrar que a vida real tem muito mais adjetivos do que você imagina."

Arthur engoliu em seco. O diálogo estava mudando de tom. A agressividade intelectual estava dando lugar a algo mais denso, algo que fazia o ar no quarto parecer subitamente escasso. Ele era um homem de palavras, mas aquelas palavras de Helena estavam criando imagens em sua mente que nenhuma de suas pesquisas sobre cerco medieval poderiam explicar.

Ele olhou para o cursor. Pela primeira vez em dez anos, ele não viu um abismo. Ele viu um caminho. Perigoso, incerto e possivelmente humilhante, mas um caminho.

— Sete dias — disse ele, desta vez com a voz firme.

Ele apagou a frase sobre o "frio do aço". Se Kaelen ia atravessar aquele portal, ele não faria isso por honra. Ele faria isso porque havia algo do outro lado que ele desejava mais do que a própria vida. Arthur começou a digitar, e desta vez, não parou até o sol começar a dar os primeiros sinais de vida no horizonte do litoral. O aniversário do abismo tinha acabado. A contagem regressiva para o seu despertar tinha começado.