Arthur: Parabéns Pelos 10 Anos de Hiato
8 CAPÍTULO 7: O ROTEIRO DO DESEJO
O dia 30 de dezembro amanheceu com um céu de um azul tão sólido que parecia pintado à mão. Para Arthur, no entanto, as cores do mundo real estavam começando a empalidecer diante das cores da sua própria mente. Ele vivia um estado de transe criativo. O Capítulo 88 fora finalizado em um surto de quatro horas logo após o café da manhã, e agora ele se via diante do penhasco final: o Capítulo 89, o penúltimo da saga, aquele que deveria preparar o terreno para o desfecho apoteótico.
Sua rotina havia se tornado um ciclo de café, digitação e diálogos com Helena que beiravam o insuportável de tão eletrizantes. Ela não era mais apenas uma leitora; ela era a coautora de sua nova identidade.
O celular apitou. Arthur já não sentia mais aquele frio no estômago de pavor, mas sim um calor de antecipação.
@H_Lena: "O Capítulo 88 me deixou sem fôlego. A forma como você descreveu a entrega do Kaelen... foi quase como se eu pudesse sentir os dedos dele na minha pele. Você evoluiu de um cartógrafo de mundos para um mestre de anatomia emocional, Arthur. Mas agora vem a parte difícil. O penúltimo ato. Onde o desejo encontra o destino."
Arthur sorriu, recostando-se na cadeira. Seus dedos latejavam de tanto digitar, mas a mente estava clara.
Arthur: "Estou pronto para o Capítulo 89. Mas preciso de uma última diretriz. A cena agora é de despedida antes da batalha. Eles sabem que podem não voltar. O que um homem diz para a mulher que o transformou em humano, minutos antes de enfrentar o impossível?"
@H_Lena: "Ele não diz nada que envolva o futuro, Arthur. O futuro é uma mentira quando a morte está à espreita. Ele diz a ela o que ela significa no presente. No aqui, no agora. Ele descreve o mapa da alma dela com a ponta da língua. Ele faz uma promessa que não depende de sobrevivência, mas de eternidade."
Arthur sentiu o impacto daquelas palavras. Helena tinha esse dom de transformar tropos literários em punhais de realidade. Ele voltou ao teclado e começou a escrever. A cena era intensa. Kaelen e Elara estavam no topo da muralha, o vento gelado soprando contra eles, mas o calor entre seus corpos criando uma redoma de proteção.
Arthur escreveu sobre a urgência. Escreveu sobre como Kaelen memorizava cada curva do rosto de Elara, como se seus olhos fossem as lentes de uma câmera capturando o último frame de luz antes de um eclipse total. Ele usou a imagem de Helena na varanda do loft para descrever a postura da princesa — altiva, doce e corajosa.
Por volta das dez da noite, o capítulo estava pronto. Arthur sentia-se vazio, como se tivesse drenado cada gota de sua energia vital naquele texto. Ele o enviou para Helena antes de publicar no fórum.
@H_Lena: "O final ficou perfeito", ela respondeu apenas dez minutos depois. Arthur sentiu o peito inflar. Mas a mensagem seguinte fez seu coração errar a batida:
@H_Lena: "Não use mapas, Escritor. Siga o brilho do Edifício Áurea. O loft é o 1202, o ninho que meu amigo deixou para trás. A chave estará na portaria, em um envelope com o seu pseudônimo. A geladeira está cheia, o vinho está respirando e a vista para os fogos amanhã será a melhor da cidade. Mas há uma condição: você só atravessa essa porta se o último capítulo, o 90, estiver postado. E Arthur... venha pronto para viver o que escreveu. Sem edições. Sem rascunhos. Apenas você e eu."
Arthur pesquisou imagens do edifício. Era um condomínio de luxo, um daqueles prédios de vidro com vista para o mar que ele sempre olhara de longe como se pertencessem a outro planeta. O pânico de Arthur ganhou um novo ingrediente: a realidade. Enquanto tentava processar a localização, um estouro de transformador na rua mergulhou o quarto em um breu repentino. O silêncio momentâneo em meio à escuridão foi substituído pelos gritos de alegria dos turistas e pelo som de buzinas que celebravam na intensidade de gol da seleção brasileira quando a luz finalmente foi restabelecida. Arthur respirou profundamente; agora ele tinha um cronômetro de bateria no notebook e uma cidade em festa como obstáculo. O universo parecia testar se ele realmente queria aquele final ou se voltaria para o conforto do seu abismo.
Arthur largou o celular na mesa. O pânico, aquele velho conhecido, tentou se infiltrar. Ele olhou para o próprio reflexo no espelho que enfeitava uma das paredes do quarto. No reflexo, a imagem de um homem comum, com olheiras, cabelos bagunçados e uma timidez que o acompanhara por toda a vida adulta. E do outro lado o homem que acabara de receber a localização da mulher que o desafiava: Helena — ela que falava de desejo como quem fala de café, que o provocaria a ser herói, que o conhecia através de seus parágrafos mais íntimos.
Ele começou a ter pensamentos de sabotagem. E se eu não for o que ela espera? E se na hora H o meu "texto" falhar? Ele nunca estivera com uma mulher. A ideia de entrar naquele loft sendo virgem parecia uma piada de mau gosto do destino. Ele era um mestre em descrever o ato, um acadêmico da volúpia fictícia, mas um analfabeto na prática.
Ele tentou digitar o Capítulo 90, o grande final. Mas as mãos tremiam.
“O sol nasceu sobre os campos de batalha...”
Não.
“Kaelen olhou para o horizonte e viu a esperança...”
Pior ainda.
Ele estava travado. O bloqueio voltara, mas desta vez não era por tédio, era por terror. Ele percebeu que o final da história estava intrinsicamente ligado ao seu encontro com Helena. Ele não conseguia terminar o livro porque não sabia como terminaria a sua própria noite. O autor e o personagem estavam na mesma encruzilhada.
Foi então que ele decidiu mudar a estratégia. Ele não tentaria ser o herói. Ele escreveria a verdade.
Arthur passou as próximas horas escrevendo o final mais honesto de sua carreira. Ele não escreveu sobre uma vitória gloriosa. Ele escreveu sobre a vulnerabilidade do herói ao admitir que, diante daquela mulher, ele se sentia pequeno. Ele escreveu sobre como Kaelen tremia ao tocar Elara, e como esse tremor era a prova definitiva de que ele estava vivo.
Cada palavra era um degrau que o aproximava do loft 1202.
Arthur: "Helena, o Capítulo 90 está sendo gerado. É o mais difícil de todos. Mas ele vai sair. Só me diga uma coisa... você tem medo?"
Houve uma demora. Arthur viu o símbolo de "digitando" aparecer e desaparecer várias vezes.
@H_Lena: "Tenho. Tenho medo de que a realidade não seja tão boa quanto a sua prosa. Tenho medo de que, quando eu te olhar nos olhos, você perceba que eu também estava me escondendo atrás dessas provocações. Mas o medo é o que faz a cena valer a pena, não é? Sem risco, não há recompensa. Te vejo na virada, Arthur. Traga o seu 'Fim' e eu te darei um novo começo."
Arthur respirou fundo. Ele limpou as lágrimas que teimavam em aparecer — lágrimas de alívio e de tensão. Ele voltou ao trabalho. A inspiração agora não vinha de dragões ou de reinos distantes. Ela vinha do som imaginado do riso de Helena, do cheiro de baunilha que sentira no café e da promessa de que, no dia 01/01, o mundo seria um lugar completamente novo.
O Capítulo 90 estava ganhando corpo. O roteiro do desejo estava traçado. Arthur não sabia se estava pronto para ser o protagonista, mas ele sabia que o autor dentro dele não aceitaria nada menos que um final lendário. Ele ia terminar aquela história, nem que fosse a última coisa que fizesse na vida. E então, ele iria buscar a mulher que lhe ensinara que a vida não é feita de capítulos, mas de momentos que nos deixam sem palavras.
Ele fechou o notebook à meia-noite do dia 30. Faltavam 24 horas. O palco estava montado. O público (milhares de leitores ansiosos) estava de prontidão. E a musa estava à espera.
Arthur deitou-se, mas não para dormir. Ele ficou olhando para o teto, ensaiando mentalmente o que diria quando a porta do 1202 se abrisse. Ele não sabia, mas naquele momento, Helena, no loft, também olhava para o teto, segurando o celular contra o peito, sentindo o mesmo tremor que ele acabara de descrever no Capítulo 89. A fanfic estava prestes a se tornar carne. E nenhum dos dois estava preparado para o que viria a seguir.
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