Arthur: Parabéns Pelos 10 Anos de Hiato
5 CAPÍTULO 5: ENCONTRO NO CAFÉ (SEM SPOILERS)
O dia 28 de dezembro não era apenas mais um dia no calendário de prazos de Arthur; era o dia em que o abstrato se tornaria concreto. Após a recepção calorosa — e quase histérica — do capítulo anterior, a confiança de Arthur estava em um patamar perigosamente alto, logo abaixo da sua ansiedade crônica. Eles haviam combinado de se encontrar à tarde em um pequeno café de estilo rústico, escondido em uma rua lateral que fugia do tumulto da orla principal.
Arthur chegou quinze minutos antes. Ele vestia uma camisa de linho azul-claro que sua mãe insistira que "realçava seus olhos", embora ele se sentisse como um garotinho indo para o primeiro dia de aula. Suas mãos suavam. Ele escolheu uma mesa ao fundo, protegida por uma palmeira em vaso, onde pudesse observar a entrada sem ser imediatamente notado.
Ele tentou ler um livro para passar o tempo, mas as letras dançavam na página sem formar sentido. Sua mente estava ocupada tentando montar o quebra-cabeça de Helena. Ela seria a mulher fatal da foto? Ou seria uma acadêmica severa que se divertia em torturar escritores amadores?
O sino da porta badalou.
Uma mulher entrou, e o mundo de Arthur pareceu sofrer um ajuste de foco. Ela não usava a lingerie da sua imaginação, nem o biquíni da foto. Trajava um vestido branco solto, levemente transparente contra a luz do sol, o cabelo estava preso em um coque despojado que deixava alguns fios rebeldes caírem sobre o pescoço. Sua aparecia remetia à personificação de uma manhã de verão: doce, fresca e, ao mesmo tempo, dotada de uma intensidade que fazia o ar ao redor dela vibrar.
Ela olhou ao redor, os olhos castanhos e curiosos varrendo o recinto até encontrarem o homem escondido atrás da palmeira. Um sorriso lento e conhecedor surgiu em seus lábios. Ela caminhou em sua direção com uma confiança que Arthur invejou imediatamente.
— Você tem cara de quem escreve sobre dragões para não ter que lidar com pessoas — disse ela, parando diante da mesa. A voz era a mesma do áudio, mas o efeito "ao vivo" era devastador.
Arthur se levantou em um gesto de cavalheirismo, puxando a cadeira à sua frente para que ela pudesse se sentar.
— E você tem cara de quem destrói dragões antes do café da manhã — ele rebateu, a voz saindo um pouco mais firme do que esperava.
Helena riu e se sentou, cruzando as pernas.
— Ponto para o autor, pelo menos você não gaguejou. Sou a Helena, mas isso você já sabe. E você é o Arthur, o homem que levou dez anos para perceber que o clímax é a melhor parte da história.
Eles pediram dois cafés gelados. O início da conversa foi um duelo de esgrima verbal. Helena queria saber sobre a técnica dele, sobre o porquê do hiato, enquanto Arthur tentava desvendar quem ela era além da leitora crítica.
— Por que você parou naquele capítulo, dez anos atrás? — perguntou ela, séria agora. — Não me dê a desculpa do bloqueio criativo. O que aconteceu na sua vida real que te impediu de dar um final para o Kaelen?
Arthur hesitou. Ele olhou para as mãos, depois para ela.
— Eu me formei. Comecei a trabalhar em uma agência de publicidade, escrevendo slogans para marcas de sabão em pó. A realidade ficou cinza, Helena. E o Kaelen... ele era vibrante demais. Eu senti que não tinha mais o direito de escrever sobre destinos grandiosos quando a minha vida era bater ponto e pagar boletos. Eu me senti um impostor. Se eu não vivia nada épico, como poderia criar algo épico?
Helena esticou a mão sobre a mesa e, por um breve segundo, tocou a ponta dos dedos dele. O contato foi elétrico. Arthur sentiu um formigamento que subiu pelo braço e se instalou direto no peito.
— É aí que você se engana — ela disse, a voz suave, mas firme. — O épico nasce do ordinário. O Kaelen é interessante não porque ele mata monstros, mas porque ele tem medo de falhar. Você parou de escrever porque parou de se permitir sentir medo. Você se protegeu na rotina.
Ela retirou a mão para pegar o café, mas o rastro do toque permaneceu na pele de Arthur.
O garçom se afastou com o pedido, deixando entre eles um silêncio que parecia pulsar no ritmo do ventilador de teto do café. Arthur batucava os dedos no tampo de madeira, sentindo o peso do olhar castanho de Helena. Ele não aguentou mais a pressão do "não dito".
— Sabe, uma leitora comentou ontem que estava intrigada — começou Arthur, buscando coragem no fundo da xícara vazia. — E ela tem razão. Por que agora, Helena? Dez anos de hiato, milhares de pessoas cobrando, e você decide aparecer no aniversário da "obra inacabada" para me chamar de mentiroso e me propor um desafio desses. O que te deu o estalo de entrar em contato justamente agora?
Helena não desviou o olhar. Ela inclinou o corpo para frente, e o perfume de baunilha pareceu preencher o espaço entre eles, tornando o ar subitamente mais denso.
— Porque eu cansei de ver o ouro sendo tratado como poeira, Arthur — ela respondeu, a voz suave, mas com uma autoridade que o arrepiou. — Eu conheço a sua voz literária há cinco anos. Desde então, eu acompanho o seu silêncio. Eu via você entrar no fórum, olhar as estatísticas e sair sem digitar uma vírgula. Dez anos é o tempo que uma ferida leva para virar uma cicatriz ou para apodrecer.
Ela fez uma pausa, observando a reação dele antes de continuar:
— Eu decidi testar se você ainda tinha sangue correndo nas veias ou se já tinha se transformado em um dos seus personagens de pedra. Eu não podia deixar o Kaelen morrer naquele portal só porque o criador dele estava com medo de ser... real.
— E você? — ele perguntou, tentando retomar o controle da conversa. — O que você faz quando não está caçando escritores em fóruns de fanfics?
— Eu sou curadora de arte — ela revelou, com um brilho divertido nos olhos. — Meu trabalho é encontrar beleza no que os outros ignoram. É por isso que eu vi a sua história. Ela estava enterrada sob camadas de poeira e comentários de "atualiza logo", mas o núcleo dela era puro ouro. Eu só precisei de uma picareta para chegar lá. No caso, a picareta fui eu mesma.
Eles riram. A tensão inicial começou a se dissipar, sendo substituída por uma sintonia que Arthur nunca experimentara com ninguém. Eles falaram sobre livros, sobre a solidão da criação e sobre como a internet pode conectar almas que nunca se encontrariam de outra forma.
Porém, Helena não o deixou relaxar por muito tempo. Ela abriu a bolsa e tirou um tablet.
— Eu li o rascunho que você postou hoje de madrugada. A cena da cicatriz.
Arthur sentiu o suor frio voltar.
— E então?
— É bom. Muito bom — ela admitiu, inclinando-se para frente, de modo que Arthur sentiu o perfume dela, algo que lembrava baunilha e brisa do mar. — Mas ainda falta algo. Você descreveu o toque, mas não descreveu o receio do toque. Kaelen é um guerreiro virgem de sentimentos, Arthur. Ele não sabe o que fazer com a própria força quando está perto dela.
Ela olhou fixamente nos olhos dele, e Arthur sentiu que ela estava lendo sua alma, descobrindo o segredo que ele tanto temia revelar.
— Está sem alma em alguns pontos — continuou ela, a voz baixando para um sussurro cúmplice. — Você está escrevendo como se estivesse observando a cena de longe. Eu quero que você escreva como se estivesse sentindo o calor da pele dela agora. Como se estivesse morrendo de vontade de fazer algo, mas não soubesse se tem permissão. Escreva como se estivesse me tocando, Arthur. Não teclando.
A audácia da frase o deixou sem fôlego. O café ao redor deles parecia ter desaparecido. Não havia mais o som das xícaras, nem as conversas nas outras mesas. Havia apenas Helena e o desafio que ela lançava a cada frase.
— Você está sendo muito específica nas suas instruções — ele disse, com um sorriso nervoso.
— Sou uma revisora exigente, eu avisei — ela piscou. — Agora, me mostre o que você planejou para o Capítulo 87. Sem spoilers, apenas o sentimento.
Arthur pegou um guardanapo e uma caneta que estava no bolso. Ele não escreveu sobre dragões. Ele escreveu uma única linha e entregou a ela:
"Ele percebeu que a maior batalha não era contra o vilão, mas contra o silêncio entre o que ele queria dizer e o que ele tinha coragem de fazer."
Helena leu a frase. Um sorriso genuíno e doce iluminou seu rosto. Ela dobrou o guardanapo cuidadosamente e o guardou na bolsa.
— Você está aprendendo rápido, Escritor. — Ela se levantou. — Tenho que ir. Combinei de jantar com esse meu amigo que me emprestou o loft. Mas deixo um conselho: não durma muito esta noite. O Capítulo 87 precisa de suor.
Ela se inclinou sobre a mesa e deu um beijo rápido no rosto dele. A pele dela era quente e macia. Antes que Arthur pudesse reagir, ela já estava caminhando em direção à porta.
— Helena! — ele chamou.
Ela parou e olhou para trás.
— O que acontece se o final for ruim?
Ela deu de ombros, com uma expressão travessa.
— Então eu vou embora no dia primeiro e você terá passado dez anos esperando por um "fim" que nunca valeu a pena. Mas... eu tenho um palpite de que você não vai me decepcionar.
Ela saiu, e Arthur ficou sentado por um longo tempo, sentindo o lado do rosto onde ela o beijara queimar. Ele olhou para o notebook em cima da mesa. A inspiração agora não era mais um conceito abstrato ou uma voz no telefone. Ela tinha nome, cheiro e um par de olhos castanhos que exigiam que ele fosse nada menos que brilhante.
Ele pagou a conta e saiu para o sol da tarde. Ele não ia para casa dormir. Ele ia para a praia e sentar-se na areia e observar o mar. Ele precisava entender como descrever o movimento das ondas, porque o Capítulo 87 precisava de fluidez. Ele precisava de coragem. E, acima de tudo, ele precisava transformar aquele guardanapo dobrado na bolsa de Helena em uma realidade que nenhum dos dois esqueceria.
A contagem regressiva para o dia 31 acabara de se tornar a coisa mais importante de sua existência. E Arthur, o escritor tímido que se escondia atrás de pseudônimos, estava finalmente pronto para começar a escrever sua própria história de amor, um parágrafo de cada vez.
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