Arthur: Parabéns Pelos 10 Anos de Hiato

4 CAPÍTULO 4: RASCUNHOS E RESSACAS


O dia 27 de dezembro chegou com o peso de uma ressaca emocional. Arthur não havia bebido uma gota de álcool, mas sentia como se tivesse sido atropelado por uma manada de centauros. O cansaço físico da privação de sono começava a cobrar seu preço, e o entusiasmo da noite anterior fora substituído por uma dúvida corrosiva.

Ele estava sentado no chão do quarto, rodeado por folhas de papel amassadas e cadernos de rascunho de dez anos atrás. A tela do computador exibia o Capítulo 86, mas o texto parecia... vazio. As 50 páginas que ele produzira em um surto de energia agora pareciam desconexas, como se o autor estivesse tentando demais ser alguém que não era.

— Isso é lixo — murmurou ele, deletando um parágrafo inteiro sobre a simbologia das estrelas no momento do beijo. — Ninguém fala assim. Ninguém sente assim.

Ele sentia que estava perdendo a mão. A pressão da proposta de Helena, que antes era o combustível, agora agia como um bloqueio. Ele não conseguia parar de pensar que cada palavra que escrevia estava sendo pesada em uma balança cujo prêmio era a intimidade de uma mulher real. O medo de ser "infantil" ou "mecânico", como ela o chamara no primeiro dia, paralisava seus dedos.

O celular, seu fiel carrasco, vibrou no tapete.

@H_Lena: "Você está quieto demais hoje. O silêncio do autor costuma ser o barulho da desistência. Já está arrumando as malas para o país do 'Eu Tentei'?"

Arthur pegou o aparelho. Ele não queria digitar. Seus dedos doíam. Ele pressionou o ícone do microfone e gravou um áudio, sua voz saindo baixa e vulnerada.

"Não estou desistindo, Helena. Só estou... apagando. Apaguei tudo o que fiz hoje. Parecia falso. Como eu vou escrever sobre magia e entrega se a única coisa real agora é a sua voz no meu ouvido e o fato de que eu não faço ideia do que estou fazendo? Eu olho para o Kaelen e ele parece um estranho. Eu olho para o que você espera de mim e me sinto um impostor."

Ele enviou antes que pudesse se arrepender. Jogou o celular longe e cobriu o rosto com as mãos. Ele esperava que ela risse, ou que enviasse mais um desafio ácido. Mas o que veio foi algo diferente.

Três minutos depois, o telefone tocou. Uma chamada de voz. O coração de Arthur quase saiu pela boca. Ele atendeu com um "Alô" trêmulo.

— Você é muito dramático, sabia? — A voz dela, ao vivo, sem a compressão do áudio do WhatsApp, era ainda mais envolvente. Tinha uma textura aveludada que parecia preencher o vazio do quarto. — Impostor? Arthur, você criou um mundo do nada. Você deu vida a pessoas que milhares de leitores consideram amigos. Isso não é ser um impostor. Isso é ser um canalizador.

— Mas e se a fonte secar? — perguntou ele, recostando-se na cama. — Eu sinto que estou escrevendo para te impressionar, e não para contar a história. Isso está matando o texto.


— Então para de escrever para mim — ela disse, e ele pôde ouvir o som das ondas ao fundo, indicando que ela estava na varanda do loft. — Escreva por causa de mim, não para mim. Pense em como você se sentiu quando viu aquela foto das minhas pernas na praia. Pense no que passou pela sua cabeça quando eu disse que o toque é a única verdade. Use esse calor, Arthur. Transforma isso em tinta. O Kaelen não precisa ser um herói perfeito. Ele só precisa ser um homem que está morrendo de sede e finalmente encontrou uma fonte.

Arthur engoliu em seco. A honestidade dela era desarmante.

— Helena... por que você está fazendo isso? Por que se dar ao trabalho de mentorar um escritor de fanfics quebrado no meio das suas férias?

Houve um silêncio do outro lado. Apenas o som do mar e a respiração dela.

— Porque eu também já estive presa em capítulos que não terminavam — ela respondeu, com uma seriedade que ele não esperava. — E porque eu vi em você algo que você ainda não viu. Agora, chega de terapia. Eu quero o Capítulo 86 na minha mesa, ou melhor, no fórum, até amanhã cedo. Se você apagar mais uma página, eu vou aí pessoalmente e quebro o seu roteador.

— Você faria isso? — ele riu, sentindo o peso no peito aliviar.

— Tente a sorte, Escritor. Até amanhã.

Ela desligou. Arthur ficou encarando o teto por alguns minutos. "Escreva por causa de mim". A frase ecoava. Ele se levantou, caminhou até a mesa e abriu um novo documento em branco. Ele não ia tentar ser poético. Ele não ia tentar ser épico.

Ele começou a escrever sobre o momento em que a protagonista toca a cicatriz no ombro de Kaelen. Ele descreveu o estremecimento dele, não como um guerreiro endurecido, mas como alguém que nunca permitiu que a pele de outra pessoa fosse um território de paz. Ele usou a sensação da voz de Helena no telefone para descrever a voz da princesa sussurrando segredos no escuro da caverna.

As palavras começaram a fluir, mas de uma forma diferente. Não eram jatos de adrenalina, eram fluxos constantes de uma verdade nova. Ele escreveu sobre a timidez do herói, sobre como ele se sentia pequeno diante da imensidão do que ela oferecia. Era um espelho. Arthur estava, pela primeira vez em dez anos, escrevendo a sua própria jornada de descoberta.

Lá pelas quatro da manhã, ele parou. O capítulo estava pronto. Era curto, mas intenso. Ele não o revisou. Ele sabia que, se revisasse, o medo voltaria. Ele apenas subiu o arquivo no fórum e enviou o link para Helena com uma única mensagem:

"O dragão não me devorou. Mas ele me deixou algumas cicatrizes. Espero que goste da leitura."

Ele se jogou na cama e apagou instantaneamente.

Duas horas depois, ele acordou com o celular vibrando sem parar. Eram notificações do fórum. Os comentários estavam explodindo.

"O que foi isso?!?"

"O Kaelen parece... real pela primeira vez!"

"Eu chorei com a cena da cicatriz. Arthur, onde você esteve esse tempo todo?"

Mas o comentário que ele procurava estava no topo das suas DMs.

@H_Lena: "Você aprendeu a tirar a luva, Arthur. Estou orgulhosa. Mas cuidado... agora que o leitor sentiu o gosto da sua alma, ele vai querer o banquete completo. E eu também. O dia 28 está apenas começando."

Arthur sorriu, sentindo-se exausto, mas vivo. A ressaca criativa havia passado, deixando em seu lugar uma clareza absoluta: ele não era mais o mesmo homem que celebrara o décimo aniversário do abismo. Ele era um homem em uma missão, e o Capítulo 87 já estava martelando em sua cabeça, pedindo para nascer entre o calor do litoral e o mistério de uma mulher que o conhecia melhor do que ele mesmo.