Notas iniciais
É fevereiro de 2020 e apareço com um projeto que está engavetado desde 2017 e que só agora que consegui dar a cara a tapa para revisar e voltar a escrever. Foi tudo culpa minha por ter mandado a capa para fabricação e ela ter vindo super cedo (fala sério, essas designers são anjos na terra) e da Iara por ter me inspirado (gentilmente, sem pressão) com The Sound. Vou deixar o link lá nas notinhas para vocês babarem também. Sem mais delongas, apresento a vocês as amigas mais doidas do meu catálogo de personagens ♡

— Olha, não é querendo ser pessimista nem nada, mas as chances de você ganhar estão em 50 a 50. Ou mais. Ou menos. Ah, eu não sei nada de matemática... mas não custava tentar, então eu mandei. É Florença, amiga. Dá uma chance para as chances, que tal?

Nora mal dá uma pausa para respirar quando está animada, ansiosa ou agitada. E esse é um dos momentos no qual eu adoraria compartilhar de sua empolgação, no entanto tudo que consigo sentir é o suor frio empapando minhas mãos. Agarro-as no lençol que algum desconhecido usou essa noite – quem será que se casou hoje com o reverendo Elvis Presley na capela? – e suspiro. Estamos em Vegas, a cidade dos sonhos abstratos. Nunca os meus. Não seria agora que a vida daria uma chance, seria?

— A gente só abre o site, dá uma olhadinha para tirar as dúvidas... se não der nada, fingimos que nada aconteceu. Se der... bom, é Florença, não é?

Sorrio de escanteio com seu argumento. Deixo de lado o lençol que estava desamassando para respondê-la.

Eu adoraria que tivesse me consultado antes...

— Ah, mas eu sei exatamente o que você iria dizer! Ia dizer não, de um jeito ou de outro. Não iria tentar algo assim nunca.

É claro! Como quer que eu responda por mim? Nunca vão me levar a sério.

Nora revira os olhos. Não é porque ela me leva a sério que as outras pessoas vão seguir seu exemplo – e ela tem anos de experiência nisso para saber que sei do que estou falando. Ou melhor, sei no que estamos pensando. Mesmo assim, ela caminha até onde estou e me oferece um abraço. O retribuo, aproveitando o carinho.

— Se fosse aprovada, eu responderia por você. Você não precisaria ter vergonha. Sabe que sou incrível com discursos.

Daí, ela se separa de mim para poder observar minha reação. Não resisto a um riso fraco.

É. Já dá para ver as notícias. "Nora Fox, de Nevada, é a face por trás de Artemis, autora de 'Rosas Selvagens' e 'Um Milhão de Estrelas'. A autora, que manteve o anonimato até sua estadia em Florença, lança o ousado 'A Arte do Esquecimento', pela primeira vez assumindo quem é de verdade." Mentiras atrás de mentiras. Eba!

Nora gargalha, tomando o meu lençol para estender na cama. Olho pela janela do hotel; as luzes fortes do cassino agora estão ofuscadas pelo brilho do sol das sete e meia da manhã. Falta meia hora para nosso turno acabar. E eu não vejo a hora de dormir. Meus ossos imploram por um descanso.

Seria ótimo dar uma pausa nessa vida.

— É que, Di... estamos juntas em qualquer situação — Nora sorri, terminando de passar o ferro quente sobre a cama. — Só temos uma à outra. Eu quero que sejamos felizes, independentes de onde estivermos. Mas é tentadora a perspectiva de querer fazer com o que você quer que seja realidade... seja. Entende?

Assinto com a cabeça, abrindo um sorriso de derrota. Me apoio no carrinho de produtos de limpeza e deixo o peso nos ombros ir embora. Não perderemos nada, apenas ganharemos. Não há nada em Vegas esperando por nós. A não ser um apartamento minúsculo e lasanha de microondas.

Você tem toda razão. Por que não abrimos o resultado do concurso e liquidamos isso logo de uma vez?

E lá está ela novamente. A Nora animada e empolgada que eu conheço bem. Ela saltita até mim e me sacoleja pelos ombros – não agressivamente, é claro.

— Isso! Isso mesmo! Mas sem afobação, hein? — quando menos percebo, Nora já está sacando o celular do bolso do avental e abrindo na página da editora Orpheus. O resultado saiu ontem à noite, nosso período de trabalho. Por isso mesmo estamos nos arriscando. Ainda bem que o daqui saiu bem cedo. — Vamos lá. "Por mais de dez anos, a Università degli Studi di Firenze oferece bolsas de moradia para jovens escritores, recomendados por nós, nas categorias arquitetura, design, preservação histórica, literatura (ficção), literatura (não-fictícia), poesia e artes visuais. Escritores e aspirantes do mundo todo enviaram seus contos participantes, e finalmente temos os vencedores. É com grande prazer que anunciamos..." E aí vai a lista...

Nora pausa para procurar pelo nome que nos interessa. Quase imploro para que ela faça isso logo, apesar de termos estabelecido os termos de "sem afobação".

— Certo. Certo. Aqui, desculpa. "Literatura (ficção): A..." ai, meu Deus,

O que foi?!

— "A Arte do Esquecimento, por Artemis." Diana...

Minha cabeça já está girando a este ponto. Só consigo me concentrar no som do meu sangue correndo pelos ouvidos, em pura ansiedade. Nora está falando mais algo, porém não consigo entender. É real?

— "Os textos ganhadores estarão disponíveis na íntegra em nosso site. Entraremos em contato por e-mail em breve, e desejamos felicitações sinceras. Boa sorte, e nos vemos na Itália!" Ei, por que você está com essa cara? Tá se sentindo bem?

O sangue nos ouvidos fica mais alto a cada segundo. Arquejo com a falta de ar, e a última coisa que consigo registrar antes de tudo ir para o espaço são a expressão de preocupação de Nora e o carrinho de limpeza indo direto para o chão, comigo.

Notas finais
Babação de ovo merecida: https://fanfiction.com.br/historia/786050/The_Sound Mulher ao chão xD e aí que começamos a treta toda. A parte de realidade que tirei daqui vem do Rome Prize, um prêmio real da Academia Americana em Roma. No entanto, mudamos aqui para Florença e a diferença aqui é que a premiação é para jovens iniciantes. A original se designa a profissionais experientes. Algum palpite do porquê eu deixo as falas da Diana no itálico? Quem acertar antes de eu falar explicitamente ganha um bolinho :3 Até o próximo!