Artemis
7 06. Tudo que escolhemos interpretar

Estendi a mão uma vez mais, esperando pelo pior. Contudo, ao invés de me provocar agonia, o calor me aqueceu a ponto de abrir um sorriso.
O sol não era terrível. Ele poderia substituir minha blusa, afinal.
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Apesar de ser uma entrevista por videoconferência, o nervosismo de Nora é perceptível por qualquer um que a encare por mais de dois segundos. Quando nervosa Nora costuma se acocorar num canto e deixar que o suor frio permeie seu rosto até que seja insuportável ficar quieta. Daí, ela grunhe e faz um esforço de vir se acocorar para o meu lado.
— E se eu aparecer com uma cara ridícula? E se a maquiagem na câmera parecer mais acentuada do que está?
Paro com o pincel bem no meio do caminho, estreitando os olhos.
— É por isso que estou fazendo uma maquiagem leve, Nora...
— Ah! Ah, desculpe. É que eu não entendo muito bem o que está acontecendo do ponto de vista da modelo, sabe? Confio em você, foi mal. Deixa-me ver?
Reviro os olhos de brincadeira, erguendo um olhar para Elio e Reid que estão sentados em nosso sofá aguardando a transmissão. Os dois não se desgrudavam e aparentemente não se desgrudavam de nós duas também. Não que isso fosse ruim... Apreciávamos a presença dos dois, e tínhamos descoberto que Reid se aventurava na cozinha – graças a Deus com os cabelos presos – e Elio sabia de cor todas as letras das músicas da Barbie por conta da irmã. Notando que eram requisitados, os dois voltaram o olhar para mim.
— O que? Eu me perdi no negócio que alonga o olho — Elio finge um ronco.
— Hora dos elogios, seus idiotas!
— Ela parece brava — Reid comenta com o amigo, simulando um arrepio pela espinha. Desejo acertá-lo com uma escova de cabelo. — Qual foi?
Observo Elio traduzindo minha fala em meio a sussurros para que Nora não o escute. Após um arregalar de olho genuíno em profundo desespero de Reid, ele arqueja e exclama com um pouco mais de ânimo que o necessário:
— Ah! Ah, digo... Está excelente a produção, Nora. Mais bonita do que o normal.
E isso é o que eu chamo de elogio. Dá para ver as bochechas de Nora corar acima do blush de onde estou... Aproveitando-me do fato que ela não vai escutar minha risada maldosa, resgato um espelho na pilha de itens e bato as unhas no cabo para que Nora olhe para mim. Ela o faz, abrindo logo em seguida um sorriso doce diante do resultado – delineado gatinho e um batom vermelho cardeal.
— Viu só? Eu não sei exagerei.
— É verdade! Obrigada, obrigada, obrigada! — se atirando em meus braços para um abraço um tanto quanto dramático e exagerado ao estilo Nora Fox, ela abandona o nervosismo para dar lugar a uma euforia descontrolada. Tento acompanhá-la tanto nos movimentos quanto na tarefa de segurar as maquiagens no lugar para elas não caírem, o que provoca uma risada dos garotos no sofá. — Arrasou, Lady Di!
— Está mais para Diana, da One Direction.
Dito isso, Nora se dá a liberdade a iniciar uma versão acapella e amadora da música, provando que mesmo que a banda tivesse acabado – oh, perdoe-me, entrado em hiato de 18 meses — há quase dois anos, a adolescente esperançosa ainda está viva em cada uma de nós. Reid e Elio se entreolham com uma expressão cômica, provavelmente perguntando-se com que tipo de pessoas eles tinham se metido do outro lado do mundo que conheciam. Quanto a mim, apenas sorrio e permito que Elio me auxilie a guardar os pincéis e maquiagens que parecem infinitas daqui. Sem querer, observamos juntos os dois restantes interagirem um com o outro com um sorriso no rosto.
— Esses dois se dão bem juntos, não é? — Elio sussurra para mim, de escanteio. Assinto com a cabeça discretamente, devolvendo o olhar. Ele é um tanto mais alto que eu, apesar de eu ser considerada acima da média com meus 1,75. Portanto, talvez eu me sentisse intimidada se não soubesse que ele tinha um coração gentil. Piscando para me atentar novamente, vejo que ele está brincando de cutucar minhas bochechas com o delineador. — E eu? Acha que fico bem com esse negócio, Lady Di?
— Mas é óbvio que não, seus olhos são pequenos — brinco de volta, dando os últimos retoques no cenário que aparecerá de fundo. A vista que a janela do apartamento fornece da Università é magnífica, e se eu puxar um pouquinho da cortina talvez consiga criar desenhos luminosos com a renda. — Me ajude aqui, por favor?
Deixo essa tarefa para Elio, enquanto Nora se senta na cadeira alta que pegamos emprestada do apartamento de Sariyah. Reid ajusta o notebook e testa a câmera, então peço para Elio segurar a cortina exatamente onde está para que possa usar a mágica silver tape na fotografia da coisa toda.
— Ei, você leva jeito com essas coisas! — Reid elogia, tomando um gole de seu café nos bastidores. — Talvez encontre um talento oculto aqui em Florença, sabe?
É verdade. Aparentemente eu só estou aqui ocupando espaço e gastando dinheiro à toa. Não posso me esquecer disso com tanta frequência. Para não deixar meus reais pensamentos à mostra – e sabendo que Reid não disse para me aborrecer – eu apenas sorrio e aceno com a cabeça. Logo nós três estamos atrás do notebook, espiando como juízes. Roubo um gole do café de Reid, ao passo que Nora suspira:
— Eu nasci pronta!
— Estamos vendo — Reid caçoa, rindo baixo.
— Silêncio. Vamos lá, Elio, conecte-me com aquelas sanguessugas.
Nós quatro gargalhamos e aguardamos até que Elio estabeleça uma conexão com a representante da Orpheus. Não sabemos o que esperar, no entanto não é de se negar que se estivéssemos apenas nós duas seria mais fácil para Nora caso precisasse espiar alguma resposta minha. Se há algo mais ultrajante que o ditado "mentira tem perna curta" estar martelando no fundo de minha consciência, ainda não tive ciência disso.
De qualquer maneira, sabemos que entramos no ar quando Nora abre um sorriso gigantesco – um tanto exagerado. Escutamos com apreensão os cumprimentos iniciais, igualmente exagerados. Não deveria lá ser grande coisa uma escritora sob um pseudônimo, deveria...?
— É uma honra, Tillie — Nora dizia, confortavelmente.
— E então? Como está sendo a estadia aí? — ah, agora sei de quem se trata. Estamos falando com Tillie Price, a mulher que sempre está fazendo as propaganda e lives da editora. Ela é simpática, Nora tirou a sorte grande. — O que tem a me dizer sobre a comida, o clima, as pessoas...?
— Não sei se estou enxergando tudo em cor de rosa, mas não tenho absolutamente nenhuma crítica a fazer... Essa cidade e os amigos que eu fiz são um sonho — mesmo que Tillie não possa vê-la nos lançando um olhar carinhoso por trás do notebook, fico feliz por estar o presenciando. Elio lança seu apoio com os dois polegares erguidos, o que faz Nora rir. — E a comida é maravilhosa, por mais que eu ache que exagere no happy hour.
— Ah, ela é mesmo um anjinho. Ficamos felizes em saber disso! A grande pergunta, senhorita Artemis, é... Temos algum progresso durante o tempo que passou aí? Alguma inspiração em particular que possa nos adiantar?
— Pode ser que sim, mas ainda é um segredo, Tillie.
— Mistérios a atraem como moscas na sopa — Tillie comenta para ninguém em particular, e me pergunto se sou do tipo misterioso. Ah, vamos lá, não dizer nada não me torna a Ariel... Ela era muito ingênua e eu sou desconfiada das coisas até demais. — Por falar em mistério, ainda não sabemos a história de Artemis. O que a levou a criar uma nova personalidade para apresentar seu trabalho? Muitos publicadores na plataforma não usam desse recurso justamente para terem reconhecimento.
Nora dá uma olhada discreta em minha direção, e posso sentir a indireta. Agradeço por Reid e Elio não o terem notado, do contrário poderia me comprometer com a situação. No entanto, não posso evitar meus olhos de umedecerem de emoção.
— Insegurança. Pensava que não seria suficiente para esse tipo de situação. Fui criada para acreditar nisso, mas não é verdade. Meus... Meus amigos ainda tentam me convencer de que eu sou uma pessoa ótima.
— E a nós aparenta ser mesmo. Não deixe que essas seguranças te abatam.
Se antes os olhos estavam apenas úmidos, agora eu praticamente não conseguia os encontrar em meio às lágrimas. Sorrio de lado porque, apesar de o incentivo não ter sido para mim, eu posso levá-lo pela frente. Nora tem razão... Agora, além dela, eu tenho amigos ao meu lado. Amigos de verdade, não apenas colegas de trabalho – eu sequer trabalho com eles, e ainda assim me querem por perto! Isso é incrível, contudo...
Bem, agora me sinto absurdamente egoísta.
A entrevista discorre com perguntas neutras e clichês de todo romance adolescente em ascensão, e Nora se sai tão bem que é como se jamais tivesse estado nervosa em algum momento. Penso que ela foi feita para aparecer em câmeras, mas guardo o comentário para mais tarde. Agora, acabamos de dispensar Elio e Reid para retornarem a seus apartamentos e possamos nos ajeitar para dormir. Foi um dia regado à base de café e vinho – e até agora não consigo conectar um ponto a outro –, então nos demos de presente um banho refrescante antes da poderosa soneca. Estou desembaraçando meus cachos quando escuto Nora pigarrear.
— O que foi? — deixo o pente por cima da cama, e sei que vou me arrepender disso pela quantidade de creme que ficou grudada no lençol.
— Eu... Acho que gosto do Reid. Gostar de gostar, sabe?
Assinto com a cabeça, lentamente. Era minha suspeita, todavia escutar diretamente da fonte era outra história.
— E o que tem de errado nisso, querida?
— Ah, é que... Eu tenho medo de ele admirar apenas a Artemis. Se me conhecesse de verdade, poderia se surpreender do jeito negativo...
Tomo a sábia decisão de tirar o pente da cama e deixá-lo na cômoda, me virando por inteiro para ela. Penso um tempo no que irei dizer; apesar de outra pessoa já tê-lo dito hoje mesmo, é bom reafirmar a ideia.
— Nora... Você é uma mulher maravilhosa. O fato de se identificar como Artemis é apenas um bônus.
— É? Então por que me sinto uma farsa e sei que nunca vai me perdoar quando descobrir?
— Não é você a farsa. Sou eu.
Nora me olha com cuidado, negando com a cabeça. Daí, ela toma minhas mãos nas dela mostrando que eu não tenho lá muito direito à resposta com o que ela quer dizer.
— Não diga isso. Nem pense nisso, mocinha. Fui eu quem topou aparecer como Artemis no seu lugar. Aliás, fui eu quem sugeriu isso, para início de conversa. Não pegue as minhas inseguranças para você também, por favor...
Suspiro em completa frustração. Por sua vez, Nora não se abala e apenas ergue uma sobrancelha me desafiando a dizer algo. Quanto a mim... O que posso fazer além de concordar com a cabeça? Vendo que seu plano tinha dado certo, Nora finalmente libera minhas mãos para que possamos dialogar.
— Vou dar um jeito nisso. Veja só, talvez nem seja recíproco.
— É claro que é. Não banque a míope. Deveria o chamar para assistir Barbie aqui em casa, é sucesso na certa.
Nora gargalha, e me aproveito do momento para terminar de pentear o cabelo. No entanto, apesar de seu pedido, não consigo dormir naquela noite pensando que minha covardia ultrapassou a linha do aceitável quando interferiu a coragem de outra pessoa.
Mas o que eu poderia fazer para consertar a situação?
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