Artemis
22 019. A sinceridade é a melhor das identidades
Notas iniciais

Eu ainda o amaria, porquanto que a sua sensação em minha pele permaneceria por um bom tempo. No entanto, agora eu poderia me dedicar à arte do esquecimento. Afinal, eu voltaria para o outono, uma vez que ele sempre foi meu. Amar também significava deixar ir.
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— Não podemos descartar a hipótese de te acusarem de falsidade ideológica. Mesmo se formos positivos, o que estamos sendo, não seria um completo absurdo se isso acontecesse.
Fanny, como qualquer boa irmã mais velha que se preze, atendeu prontamente ao pedido do irmão – indiretamente, o meu – e deixou Palermo num dia nublado para vir até Florença. Após Nora expor todo o problema – afinal, seria bem mais fácil falar do que gesticular e traduzir—, Fanny assentiu e proferiu sua fala sagaz conforme citado acima. Então, estávamos eu, ela, Nora, Reid e Elio discutindo sobre a problemática Artemis.
A primeira opção, e a mais honesta, seria contar a verdade. Abrir o jogo e abrir mão da publicação de Meia-Noite e Quinze. E, é claro, correr o risco de levar um processo de uma editora muito bem conceituada. Quer dizer, como poderíamos vencer algo que não foi acidental?
A segunda opção, a desonesta – aliás... A que continuaria na desonestidade – me traria o peso na consciência e, consequentemente, faria com que eu me bloqueasse em Meia-Noite e Quinze e eu mesma me impediria de publicá-lo. Daí, eu voltaria para a plataforma online e...
Eles continuariam a pensar que eu era Nora Fox.
Ah, maravilha.
Tá legal, eu não tenho um enorme reconhecimento na internet, mas dentro do meu nicho posso afirmar que já conquistei meu pedaço do bolo. Ser cancelada estava fora de cogitação, muitíssimo obrigada.
Meu Deus, o que eu posso fazer?
— É... — Elio concorda, mordendo o lábio pensativo. — Mas você viu o que ela escreveu, Fanny?
— Vi. É muito bom — Fanny sorri para mim com gentileza.
Nora respira fundo, mas logo parece que ela é atingida por um cometa.
— Eu pensei numa coisa!
Todos nós voltamos a atenção para ela.
— Sim? — Reid incentiva sua musa a falar mais. Sinto-me aliviada por eles terem encontrado seu ponto de paz. Eu os amo tanto... — Quer dizer, estamos aceitando qualquer coisa.
— Hum... Eu pensei em algo, porque... Ah, de jurisdição eu não entendo nada, mas... De internet, eu entendo. E posso afirmar com toda certeza desse mundo que mobilizar mais pessoas a participar de um manifesto funciona mais do que agir sozinho.
Manifesto...
É cada coisa que me aparece...
— Então, o que eu pensei foi — Nora continua, atribuindo uma pausa mais dramática. — E se... Nós déssemos uma parte do texto para cada um dos escritores e, no final, revelar a verdadeira Artemis? O texto da Di se adequa com essa proposta. E, se parar para pensar, eles não fizeram nada de especial para os outros escritores.
Elio ergue uma sobrancelha e eu...
Bem, eu só prendi o fôlego. Ideias mirabolantes de Nora Fox têm grande chance de dar terrivelmente certo. Ou terrivelmente errado.
— Pode ser uma boa jogada estratégica — Fanny pondera, voltando o olhar para mim. — O que você acha disso, Diana?
Engulo em seco, sentindo minha garganta fechar no processo. Eu não tenho muita escolha a não ser confiar em outros, ainda que isso me amedronte. O resto do pessoal é incrível, é claro, mas não posso saber se vão ficar tranquilos ou até mesmo concordar. O que eles ganham com isso? O que posso oferecer para eles em troca?
— Amizade não pede nada em troca, meu bem — Fanny sorri, colocando uma mão sobre o meu ombro. Olho para ela tentando me situar. — Mas, se estiver preocupada com isso, podemos ajudar.
— É, eu posso abrir mão da minha moradia — Elio completa com um sorriso complacente. — Isso pode esperar mais um pouco.
Nego com a cabeça, segurando sua mão com carinho. Infelizmente tenho de me soltar para dar uma resposta à Fanny.
— Não é com o dinheiro que eu estou preocupada. E eu prefiro criar uma dívida de mil anos do que pegar o seu dinheiro, Elio. Preocupo-me em comprometer o trabalho deles. Essa é a minha bagunça, não a deles.
— Você pode perguntar... — Reid sugere após um suspiro. — Se eles disserem não, vai ter tentado. Senão, vai ficar na dúvida.
— É pegar ou largar — Nora olha para mim com expectativa. — Já tem 3 de 7 do seu lado.
Meu coração se enche de alegria. Não estou mais sozinha nessa. É só agora que percebo que todos que amo estão reunidos naquela sala, aguardando por um veredito que só eu posso dar. Ah, céus...
Eu nunca me senti tão querida em toda a minha vida...
— Tem razão, Nora. Eu vou perguntar.
— Maravilha — Nora já se levanta num ímpeto, e Reid a acompanha. — Vou pedir para termos uma reunião no telhado daqui uma hora. Vá se preparando, meu bem, porque hoje à noite vai ser de matar!
Fanny ri com maldade, virando-se para mim com uma expressão maníaca.
— Eu gosto muito dela.
— É, eu também — sorrio para ela e para Nora, que me oferece uma piscadela de volta. — Eu já estaria louca se não fosse por ela.
— Ah, loucos todos nós somos. Você só não saberia dosar. Enquanto não tiver vozes na cabeça, você está no lucro.
Nora gargalha por mim, e novamente me sinto grata por sua amizade. Com pouca cerimônia, ela toma a mão de Reid e o leva porta afora e escadas abaixo.
E quanto a mim...
Eu estou muito bem ao lado de Elio, porque ele não hesita em segurar minha mão e acaricia-la. Eu sou a maldita Lua, Itália, qual é!
— Vou fazer um lanchinho para os seus amigos — Fanny se propõe, levantando-se com as energias renovadas. — Podem ficar tranquilos, pombinhos.
Elio ri por mim, mas sou eu quem toma a iniciativa de passar um braço ao redor de seu ombro e dar-lhe um beijo no rosto. Eu amo sentir o calor da sua bochecha nos meus lábios. E amo sentir seu sorriso se alargando até suas linhas de expressão dos olhos se manifestando.
— Obrigado, Fanny, você é a melhor!
— Me diga algo que eu não sei, Lino querido. Eu sei que eu sou maravilhosa!
Uma hora depois, quase religiosamente, nos reunimos no telhado. A pior parte foi ter de repetir uma vez mais toda a história, observar todos os olhares de descrença e agora mais os acréscimos de Fanny sobre os prós e contras da participação deles na minha empreitada. Eu mesma estou me tremendo toda, mas hoje é possível usar a desculpa do tempo estar estranho.
Com apreensão, eu espero.
Kiera é a primeira a se pronunciar, e o faz num tom de voz alto que me recordam os trovões e raios de Veneza.
— Diana Davies, você é uma mulher do...
— Incrível! — Mabel a interrompe antes que Kiera use algum advérbio de intensidade... Intenso demais? — Eu te fiz gamjajeon e você me fez achar que não era nada demais!
Nego com a cabeça, rindo um tanto para dentro com sua colocação. Mabel chega bem ao meu lado e oferece um sorriso solidário. Seguro seus braços com vontade de chorar todos os meus problemas para que sua doçura me contagie.
— Então foi por isso que você estava sozinha no escritório naquele dia? — Sariyah ergue uma sobrancelha, brincalhona. Quando assinto com a cabeça, ela ri baixinho. — Você me pegou direitinho!
— Por que quis dizer isso só agora? — Prince quer saber. — Quer dizer, faltam dois meses para a estadia acabar. Se expuser isso agora, é bem possível que mandem vocês duas embora. Não quer esperar... Sei lá, até mês que vem?
Novamente, nego. Olho para Nora e peço que ela me ajude com a tradução.
— Isso está tirando meu sono. Pensei que seria fácil mentir, mas não foi. Se eu esperar mais um pouco, vou ficar doente.
— Ela é uma boa pessoa, Prince — Mabel intervém mais uma vez, sem perder a majestade. — Isso só traria consequências piores conforme o tempo... Não sei nem como é que conseguiu esconder isso por quatro meses!
Bom... A bomba já está fedendo, não está?
Respondo através de Fanny, desta vez. Sinto-me uma bola numa partida de tênis.
— Ela disse que não queria estragar o relacionamento de vocês — Fanny se dirige a Nora e Reid. Seus olhos se encheram de brilho. Não é como se eu tivesse escondido as minhas intenções, mas dizer isso na frente de Reid é diferente. — Ela achou que Reid fosse ficar decepcionado, por isso segurou a informação até que fosse mais prudente dizer. Relações com mentiras e segredos estão fadadas ao fim...
— Ah, Di... — Nora vem se avizinhar a mim, ao lado oposto de Mabel, sensível ao extremo. — Sinto muito por isso...
— E foi o que eu fiz — Reid ri fraco, abraçando os próprios braços com vergonha. Desculpe-me também...
— Está tudo bem... Como eu disse, era um risco calculado...
Nora respira fundo, segurando a mão do agora namorado com toda delicadeza que ela adquiriu após conhecê-lo.
— Nós já resolvemos isso. Não tem motivo para se culpar por reagir de uma forma negativa. Teria que pedir desculpas se continuasse de cara amarrada.
Kiera suspira, cruzando os braços com uma impaciência cômica.
— Casal... Vocês são fofos e tudo o mais, mas estamos numa assembleia aqui, podem deixar o mela-mela para depois?
Mabel solta um suspiro exasperado. Kiera ergue as mãos em defensiva, mas Sariyah reforça a ideia com um pouco mais de sutileza:
— Ela tem razão. Se vocês já se resolveram, vamos... Dar mais atenção ao que não resolvemos. Sim?
Reid ri sem graça, mas acata o pedido.
— Eu sugiro que, como uma pessoa neutra, façamos uma votação ou um debate aberto. — Fanny sugere, resgatando meu bloquinho de anotações. — Eu vou anotar os pontos positivos e negativos e depois vocês podem fazer uma média.
— Não é preciso — Kiera intervém, dessa vez com um tom mais parecido com o de Sariyah. — Já estamos decididos.
Ajeito minha postura com cuidado. Não preciso dizer nada – sinto que exalo “o que quer dizer com isso?” há milhas de distância.
— Olha, Diana... — Mabel coloca uma mão em meu ombro, num gesto até maternal. — Sabemos como é fazer parte de minorias. Eu sou coreana-americana, Kiera é negra, Sariyah é libanesa e imigrante e Elio é ítalo-americano. A gente passa a maior parte da vida ouvindo que é melhor ficar quietos e discretos, mas não precisamos permanecer quietos agora que... Sabe, somos alguém.
— Você já ficou em silêncio por tempo demais, gatinha — Kiera pisca para mim, marota. — Está na hora de botar a boca no trombone e agitar tudo.
Prince ri daquele jeito seco que aprendi a me acostumar.
— Quis dizer “botar os dedos no trombone”.
— Ah, cale a boca!
Sariyah finge que não escutou e sorri.
— Estamos dizendo que estamos do seu lado, Diana... Se o problema é dinheiro, se o problema é medo ou insegurança... Está tudo bem, só diga para nós o que precisa que façamos e vamos fazer. Nós todos entramos nisso por méritos próprios. Com um rosto ou outro, você conquistou isso.
— Só falta agora reivindicar — Elio sorri, ofuscando minha visão. Tomara que eu morra de amores. — O que vai ser, Artemis?
Abro um sorriso gradativo, me sentindo subitamente uma deusa poderosa e imbatível. Por isso, concordo com a cabeça. Um sinal verde.
— Perfeito — Nora sorri, sentando-se na beirada do telhado. — Então, o que vamos fazer é...
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