Artemis

20 017. Um segredo por outro


Notas iniciais
Boa noite! Como vão vocês? Quase que esqueço de postar o capítulo xD Hoje temos grandes emoções e revelações, então preparem o coraçãozinho. Boa leitura!

No dia seguinte, o meu lugar já estava ocupado. Outra garota de olhar brilhante e coração receptivo havia roubado o meu sol!

O seu sol?, as faias voltaram a me provocar. Ele nunca foi seu, criança. Sempre esteve ali, à procura de quem o adorasse. Já vimos tantas conhecerem o sol... Mas todos se dão conta de que não são únicas apenas quando o vêm iluminar a outro. Daí, eu entendi.

───── 17 ─────

Alguns dizem que, em momentos de necessidade e de pressão, algumas respostas caem do céu. No entanto, se a bagunça tinha sido arquitetada única e exclusivamente por mim, não fazia muito sentido esperar que a força superior se responsabilizasse pelos meus erros. Ainda assim... Eu iria amar se a resolução dos meus problemas viesse por meio de uma pombinha branca, eu ficaria muitíssimo grata.

Leio e releio a mensagem de Nora até que ela faça sentido. O pior: não faz.

Reid sabe que Nora não é Artemis. Pelo seu tom, não se trata de um mero palpite, mas de uma certeza. Agora, como ele sabe disso. Faz parte dos meus grandes questionamentos da minha vida. Infelizmente, como não vou para frente só de ficar pensando, respiro bem fundo e resgato minhas roupas com cuidado. Elio vai sair de seu estado sonolento a qualquer momento, e realmente não quero parecer “aquela que foi embora”, mas também não quero agir como se já estivéssemos juntos há décadas. Opto por um meio-termo: roupas íntimas.

Assim que me sento na beirada da cama, Elio dá sinais de quem está vivo, então encerro minha discussão mental para ir abraçá-lo por trás. Suas costas enrijecem, mas seu sorriso sonolento é ainda mais doce dos que eu já estou acostumada. É irresistível me inclinar e lhe dar um beijo de bom dia.

— Por mim, todos os dias poderiam começar assim — sua voz é rouca e ele inclina a cabeça para trás para receber o carinho com mais eficiência. — Bom dia, milady.

Retribuo o apelido com mais um beijo, desta vez um na ponta de seu nariz.

— Acha que a cidade já se desafogou? Porque, francamente, eu não estou nem um pouco ansioso para sair daqui.

Abro um sorriso contra sua pele, dando de ombros. No momento, sequer sei quem eu sou. Apesar disso, Elio se vira para mim e assume a tarefa de passar o braço ao redor do meu corpo – e eu, pobrezinha, o que é que eu podia fazer a não ser sucumbir e me aconchegar ali?

— Concorda? — ele me rouba um beijo e boa parte do meu fôlego, mas ainda arranjo forças para assentir com a cabeça. — Muito bem, então. Afogada ou desafogada, aqui ficamos. Já perdemos o café da manhã, não é? Com quantas refeições a gente sobrevive sem passar mal?

Não consigo não rir da piada. Entretanto, sou obrigada a me enfiar em seu ombro, primeiro para inalar o perfume delicioso que emana de sua pele e segundo para me esconder.

— Ah, desculpe. Não viemos preparados pra esse tipo de coisa, não é? Que cabeça, a minha — ele ri abafado, estudando minhas feições. — Está tudo bem...? Você parece... Aborrecida. Foi algo que eu fiz ontem...? Porque eu juro que não tinha nenhuma intenção de...

Uso meu dedo indicador para colocá-lo sobre seus lábios, num gesto universal de “um minuto de silêncio”, que Elio acata com um risinho adorável. Aproveito a oportunidade para lhe roubar mais um beijo. Ele não reclama – pelo contrário, corresponde num misto de sonolência matinal e necessidade. Meu coração faz uma acrobacia dentro do peito que já não sei mais se quero que fique contida.

Diana, prioridades.

— Vamos fazer o seguinte — Elio começa, assim que libero seus lábios. — Eu vou usar o banheiro e então nós dois vamos até lá embaixo ver um jeito de voltar, ok?

Assinto com a cabeça, suprimindo um suspiro de alívio. Ainda assim, o suspiro foge dos meus lábios quando Elio se levanta para se trocar.

Minha avaliação da noite anterior mostrou-se fiel apesar das circunstâncias ameaçarem a realidade. Iluminado pelo sol, o corpo de Elio é ainda mais belo do que banhado pela lua. Particularmente, não há nada que o destaque – ele não tem um milhão de músculos sobressalentes e nenhum clichê a respeito de seu tamanho que me faça perder a cabeça ou confabular sobre medidas. Na verdade, para a altura que tem, Elio chega até a apresentar um pouco de sobrepeso. Seus braços são fortes e o rosto é bem anguloso. Imperfeito ou não, todos os seus mínimos detalhes capturam a atenção dos meus olhos, e meu coração sabe que está na hora de entrar em ebulição.

É mesmo uma pena que, no momento, não posso usar meu dia para admirá-lo por inteiro.

Dentre outras coisas.

Seja como for, Elio me flagra o observando e indaga com as bochechas coradas:

— O que foi? Há algo de errado?

Você é lindo — sorrio, apoiando os cotovelos na cama.

— Ah, milady, eu tinha que estar à sua altura — Elio disfarça a vergonha com uma piscadela pretensiosa, nada natural. Ele é tão modesto que responde meu elogio com outro elogio. Daí, enquanto veste suas calças, Elio conclui por cima do ombro: — Eu... Como nós ficamos agora, Diana?

Essa é uma ótima pergunta, Elio. Depende do quão bravo você vai ficar quando descobrir que eu sou uma mentirosa de meia tigela. Depende de com quanta vergonha eu vou ficar após me ajeitar com essa verdade. Porque, querendo eu ou não, agora Reid sabe e já deve ter confrontado Nora com respeito ao assunto. É bem capaz que alguém tenha ouvido, porque eu e você sabemos como funcionam apartamentos. E então...

É uma bola de neve em plena Itália. Eu poderia chamar de bola de gelato.

Suspiro e opto por um clichê verídico.

Devagar e sempre. Que tal?

— Entendi. Deixar acontecer. Boa ideia.

Ele toma o rumo do banheiro, não sem antes voltar-se para trás encostado ao batente da porta:

— Mas é um talvez mais puxado para o sim, não é?

Eu rio sozinha para disfarçar meu nervosismo. Por sorte, ele ri junto e finalmente vai utilizar o banheiro como se deve pela manhã.

Será que se ele soubesse que eu era Artemis desde o princípio, estaríamos aqui agora?

Para minha infelicidade – no caso, a infelicidade da minha procrastinação –, Veneza já está liberada para saída. Desde que amanheceu os oficiais de justiça já limparam as linhas de trem e o resto da água dos canais escoou o suficiente para os barcos transitarem com segurança. Então, pela tarde já pegamos um trem de volta para Florença, que por precaução inicia sua viagem com lentidão. Cada minuto parece trazer mais um sufoco como ameaça. Elio deita-se em meu ombro como ontem, mas o gesto não parece mais acalentador. Ao contrário: pesa nos ombros junto com a culpa. Procuro manter minha postura indiferente ao máximo, mas é simplesmente impossível de relaxar. A parte boa é que dá para culpar o calor, mas se eu fizesse isso o afastaria de meu ombro. E quero preservar o momento o máximo que posso, portanto mantenho-me ereta e atenta.

Quando chegamos, nos despedimos com um beijo rápido. Elio respeita minha decisão de irmos devagar – irônico para quem já chegou aos finalmentes, não? – e não faz mais do que isso a não ser acariciar minha bochecha com delicadeza. Abro a boca lhe confessar meus pecados, mas tudo está errado. Eu não posso fazer uma confissão breve. Elio jamais entenderia a simbologia para Artemis. Decido, então, por apenas retribuir o carinho e entrar na porta vizinha sem muita cerimônia.

Isso, é claro, não acontece. Pois, no último segundo, Elio me chama.

— Diana?

Viro-me para ele, pronta para ouvir que ele também já sabe do meu segredo. Reid o informou de algum modo e, agora, Elio jamais vai poder confiar em mim de novo. Porque ele jamais ficaria com uma mentirosa. Pior: uma mentirosa hipócrita.

— Obrigado.

Por quê?

— Acho que encontrei um tema para escrever, graças a você. Se... Precisar de mim, eu estarei trabalhando nele.

Assinto com a cabeça com um sorriso de lado. Agora sim, eu entro na porta vizinha. Mas minha falta de cerimônia foi substituída por o choro subindo à garganta e fazendo arder meus olhos. Não me surpreendo ao encontrar Nora exatamente na mesma situação que eu, com a diferença de que ela está sentada no sofá com uma expressão de desolamento inconsolável. Ainda assim, eu a abraço de lado.

— Eu... Não entendo... O que fiz de errado — ela suspira cada sentença, quebrando meu coração em mil pedacinhos. — Achei que estivéssemos bem e... Ah, Di... Eu sinto muito...

Nego com a cabeça, virando-a para que consiga me olhar. Primeiro, enxugo minhas lágrimas com violência, depois me expresso como posso. É difícil pensar, por mais que serão minhas mãos a cumprir o trabalho.

Não. A culpa é minha. E eu vou consertar isso. Qual é o apartamento de Reid?

— Primeiro andar, a porta à esquerda — Nora funga, afundando-se no abraço com cuidado. — Ele não parecia bravo, só... Decepcionado... E isso pareceu pior do que se estivesse bravo. Eu nunca vou me perdoar se bagunçar as coisas entre nós...

Mais uma vez, confirmo com a cabeça e continuo a afagando para substituir minha melancolia pela sua. Eu preciso urgentemente organizar minhas ideias, portanto levanto-me, beijo seus cabelos e me espreguiço. Nora merece um final feliz, mesmo que eu seja desonesta. Fui eu quem a meteu nessa enrascada. Eu poderia ter recusado quando ela me ofereceu, mas...

Se eu também tivesse recusado, ela sequer teria conhecido Reid. E não estaria feliz levando a vida que levava em Vegas. Como eu poderia negar a felicidade a quem havia me provado que esse sentimento existia?

Se meu palpite estiver certo, entendo perfeitamente o motivo para Reid sentir-se frustrado. Por isso, preciso garantir a ele que está tudo bem.

Respiro fundo, ao passo que Nora me olha de esguelha. Conto todos os meus segredos para ela, porém esse em especial é apenas meu, e tudo que aconteceu entre ontem e hoje me confirma que deve permanecer assim.

Tome um banho... E relaxe. Prometo fazer o meu melhor.

— Tudo bem... — Nora puxa o ar pelas narinas entupidas. — Daqui eu não saio.

Mesmo sentindo meus ossos se esmagando dentro do meu corpo, desço os degraus da escada até o primeiro andar. Sinto meu coração batendo forte contra o peito, e tenho medo de que ele arrebente se eu não rasgar meu tórax para deixá-lo livre. Então, quanto bato à porta e aguardo Reid atendê-la, não é nenhuma surpresa que eu esteja segurando todo meu ar.

Quando Reid atende, eu paraliso. A única coisa que se move são meus lábios, soltando o ar com medo de eu colapsar.

“As frases, gritadas assim na garganta, no peito, mas sem se expandir no ar, são como estilhaçados de ferro cortante a lhe ferir os pulmões e a faringe”. Por sorte, eu já estava colapsada o suficiente para não ligar para os estilhaçados.

— Olá, dona Lua — Reid sussurra, fincando seus olhos cinza em mim.

Como não posso retribuir o cumprimento, apenas sorrio de lado.

Se eu pudesse me pronunciar, eu diria algo como...

Olá, T. Kyrell. Como é bom finalmente atribuir um rosto ao nome.

Notas finais
Postei e saí correndo KKKKKKKK Até o próximo!