Arte
1 único
Eu tinha um péssimo hábito, um em que transava com a pessoa depois de trocar apenas algumas palavras.
Já não me lembro mais quando me tornei viciado, talvez tudo começou quando perdi a virgindade ou talvez não. Mas tinha certeza de que era um promíscuo do caralho.
Gênero, cor, idade, nada disso me importava quando me via na cama com um cara que podia ser meu pai. Digo só na idade, porque meu pai nunca teria tanto dinheiro na carteira e nem me exibiria como um troféu muito cobiçado pela carne.
Pele alva que ficava rosa facilmente. Cabelos loiros e olhos azuis. Era a mais pura verdade que um rapaz bonito como eu lhe dariam mais status. Às vezes me via feito um produto difícil de se encontrar, como se me fizessem de cabo de guerra, mas me disseram que eu era arte que nem o garoto em A Morte em Veneza.
Obra que não conhecia e fui atrás para averiguar, ri por achá-los uns completos idiotas como o protagonista. Rapazinhos no padrão da sociedade ficavam num pedestal quase inalcançável por essa gente velha, o pior que havia aqueles que me admiravam tanto a ponto de nunca terem me tocado.
Eu era mesmo uma arte, aquela em exposição e que você tem que ficar dois passos distante. Essa gente é doente.
Mas por ter sido paparicado, percebi que fiquei preso num novelo de lã. Foi numa festa que tive essa sensação pela primeira vez.
Ela era frequentada só pela elite mais alta e todos usavam máscaras para que ninguém soubesse suas identidades, pegaria mal a um governante ou a um idol infantil ser encontrado numa orgia como aquela. Os convites eram distribuídos da forma mais discreta possível, uma senha era usada na maior parte do tempo.
Eu passeava pelo salão segurando uma taça de champanhe, observando pessoas transando bem ali na minha frente. Os velhos observavam como se estivessem vendo mesmo um quadro.
Por mais promíscuo que eu fosse, não permitia que alguém me visse durante uma transa. Mas eu não fazia parte do entretenimento, eu era um dos convidados também, eu que tinha que ser entretido. Isso me lembrou que naquela noite um velho me disse no pé do meu ouvido "gostaria muito que você estivesse no meio deles..." e finalizou com um tapa na minha bunda para se juntar aos amigos de novo.
Eu enruguei o cenho e tive a sensação que o menos promíscuo ali deveria ser eu, se não fosse as próprias mulheres nuas como carne exposta na feira e os olhares sendo suas moscas varejeiras. Tínhamos isso em comum, vendíamos nossos corpos da forma mais barata quando somos obras de arte.
Passavam dias em que eu estava na companhia de um velho. Não me lembrava da minha cidade, da minha casa. Dos meus hobbies — eu gostava muito de cozinhar — e da pessoa que amava.
Um rapaz de cabelos esverdeados e com doçura nos olhos, dava-me até vontade de acreditar na humanidade de novo.
Zoro me perguntava se estava bem toda vez que me encontrava. É claro que eu não diria onde passei noite passada e me resumia a responder que "sim". Ele ficava desconfiado e terminava dando um suspiro, depois retornava para o seu apartamento ao lado do meu.
Enquanto cozinhava, eu pensava se poderia haver uma vida com ele, mas eu me lembrava de como era doente por sexo e de como estava acostumado em ser paparicado. Eu só traria infelicidade na vida dele dessa forma. Seus olhos eram doces demais e eu não podia mais voltar, os nós do novelo de lã me deixavam cada vez mais preso.
Ora, parece até que vejo o marimo como uma obra de arte em que não posso pôr as mãos jamais.
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