Ars Olins, estado de guerra
9 Capítulo 4.5° — Molusco ridículo
Notas iniciais
Ars Olins — Imperium ignis
O ataque começou. O estômago de Ars agitava-se, mas ela não sabia se por excitação ou nervosismo. Bebeu mais um gole da xícara de café, o punho subindo firme e sem pressa, a expressão no rosto uma austera seriedade. Estava em um submarino a cem metros mar abaixo, o alvo do primeiro avanço seriam as montanhas de Ozymandias, um dos agentes havia feito contato com uma militar recém demitida e conseguido arrancar informações sobre a segurança do complexo bélico em Seth. Naquele exato momento os doze que acompanhavam Ademir estavam adentrando a base. Em meia hora saberemos se conseguiram dominá-la. Desceu a xícara de volta ao apoio para braço do assento. O recipiente estava quente. Uma pessoa qualquer poderia arranjar uma queimadura de primeiro grau só de encostar. Voltou a fitar os operadores do veículo a frente de si, uma das mãos apoiando a bochecha. Com a central de Seth sob controle, poderiam usar suas armas para explodir as demais e então atacar o palácio de Nictoris. Embora seja provável que só destruiremos uma ou duas antes das restantes usarem um escudo de emergência… e a sede da rainha dificilmente estará vulnerável. No fim ainda será uma campanha progressiva na base da força bruta.
— Chegamos.
Ars levantou da cadeira e Nao prontamente a entregou seu rifle, colocou o distintivo em seu sobretudo e depositou-lhe a boina com o símbolo de Marte na cabeça. Para a investida com os submarinos funcionar, e também o motivo de ela ser improvável o bastante para as linhas de defesa subaquáticas de todas as nações terrestres serem consideravelmente desleixadas, Atlântida era fundamental.
Mas abordá-la muito cedo a daria tempo para pesar o risco de deixar Marte se espalhar por seu território. No meio do caminho arriscaria ter todas os veículos de navegação destruídos, mas não eram submarinos equipados com armamento bélico, então Ars apostou que os atlantis prefeririam uma abordagem pacífica primeiro. E, nos últimos momentos, os convencer a não intervir teria uma probabilidade mais alta de sucesso. Quando o esforço para realizar um favor é menor, reduzido a um estágio em que praticamente já foi feito, no caso em questão o fingir não ver os submarinos se espalhando pelo mar, as chances de um sim para ela são elevadas.
Um tubo de cristal bolha, uma substância firme e maleável que era particularmente resistente a pressão do fundo do mar, tinha sido acoplado a entrada do veículo de Marte. A porta foi aberta e Ars atravessou, seguida de Ludmilo, Chique Chique e outros dois soldados.
Três atlantis, figuras azuladas com grandes olhos negros, barbatanas despontando dos antebraços e outras menores das bochechas e panturrilhas, que trajavam uma armadura azul escura e carregavam rifles longos dotados de duas lâminas próximas ao cano de saída da bala, os receberam a partir de sete metros tubo adentro.
— Sigam-nos — o atlanti do meio.
A comitiva de Ars começou a andar. O militar azul ergueu a palma na direção deles.
— Apenas Ars Olins.
— Você acha que vamos deixá-la só com vocês? — o soldado de Marte, apelidado de Zero Meia há tanto tempo que nem Ars recordava seu verdadeiro nome.
— Está tudo bem — a comandante do exército.
— Mas, com…
— É só uma negociação amigável. — falou rápida e austeramente. — Fiquem aqui e aguardem.
Ela seguiu os homens de Atlântida para dentro da enorme estrutura. ´´E os matou``, era o que gostaria de fazer, mais do que qualquer coisa em que pudesse pensar naquele momento. Haviam a separado de sua pequena tropa, estavam a levando para o que poderia perfeitamente ser a uma cova e tinham-na conduzido a tal sem nenhum real esforço.
Mas estaria morta em pouco tempo se o fizesse.
E então tudo até aquele momento teria sido uma série de idiotices que não puderam sequer chegar a serem postas a prova.
E então… e então…
Fechou os olhos com força por três segundos e respirou fundo. Era só mais uma aposta. Conseguir liberdade marítima poderia ser uma das cruciais, mas continua sendo só outro rolar de dados.
Atlântida encontrava-se em hexágonos feitos de diamantes ocos espalhados e flutuando pelos sete mares. Seus interiores são vastos e repletos de construções talhadas a partir do minério, além de completamente submersos na água do mar ao redor. É como olhar para a cidade das esmeraldas de um conto de fadas, um tom verde, ou azul a depender de a quem pergunte, formatando estruturas cilíndricas, ovais, retangulares e em diversos tamanhos, com riquezas de detalhes, misturas de diferentes formatos e com suas entradas no teto. Não há ruas como em uma cidade terrestre e feras pairam sobre os edifícios ou carregando Atlantis velozmente de um lado ao outro. O tubo que Ars atravessava cruzava um espaço muito acima da zona urbana, seguindo para a construção no núcleo daquela metrópole, esse corredor era uma estrutura recente, criada para facilitar a passagem de emissários da superfície aos governantes de atlantis. O próprio salão de audiências havia sido modificado para receber aqueles que respiram ar. Acima, abaixo, a esquerda e a direita, há quilômetros de distância de Ars e do lado de fora do tubo transparente, os edifícios brilhavam.
Se tudo der certo contra as nações da superfície, destruir esse lugar será meu próximo passo.
Alcançaram o centro de Atlântida, a pedra brilhante e de extremidades irregulares de onde se acredita ter surgido a primeira forma de vida no planeta. Havia um buraco ao qual o tubo conectava o submarino. Para além dali estará um salão rude, longuíssimo, marcado por fileiras de assentos feitos de diamante mal trabalhados as laterais e, no fundo, quase tocando a parede verde azulada, um enorme trono tão irregular quanto todo o resto.
Entrou no palácio e atravessou o largo corredor entre as fileiras de assentos. Parou a três passos dos degraus que levavam ao estrado elevado onde o rei pairava sobre seu trono. Além dele, dos cinco guardas próximos as fileiras de cadeiras à esquerda e à direita, do trio que a guiara até ali, haviam doze atlantis sentados. Ars podia ouvir murmúrios, enxergar fitares ao olhar para os lados e também ao monarca na dianteira, Cthulu, uma lula vermelha e humanoide, trajando apenas uma tanga negra que descia até a altura dos joelhos. As íris da criatura eram lilases, sem espaços brancos.
— Sei que é um tanto tarde, mas peço humildemente permissão para usar os oceanos.
Os tentáculos que iam mandíbula da criatura abaixo moveram-se tenuamente. Ars mantinha uma expressão séria e havia levado a mão esquerda ao centro do peitoral.
— E para quê? — a voz do rei atlanti era cavernosa e espalhava-se por todo o enorme espaço daquele edifício.
— Guerra. — sem um único momento de espera após a questão deixar Cthulu. — Pretendo acoplar novos reinos da superfície a Marte. Gostaria que meus submarinos não fossem destruídos até o término da empreitada e garanto, como vossa alteza já deve estar ciente, eles não estão equipados de modo a representar-lhe uma ameaça.
Silêncio.
— Devo entender isso como um sim, majestade? — Ars, a postura imutável, o rubro das íris imóveis rumo ao lilás.
— Não — Cthulu. — Retorne teus veículos e tuas ações serão esquecidas.
As mãos da comandante de Marte tencionaram. Maldita lula. Um dia ainda o terei aos pedaços dentro de uma panela. Respirou fundo. Mas não é como se não houvesse previsto uma negativa.
— O que o faria mudar de idéia, rei Cthulu? — ela.
— Seria sábia em não testar minha paciência com jogos que se passam por sagacidade no seu lar, membro da superfície. Nada advindo de uma guerra interessa a Atlântida — uma lufada de ar frio agitou-se pela sala do trono.
Ars deu um passo a frente e as bordas afiadas das armas dos guardas atlantis foram a dianteira dela, quase tocando no tecido de sua roupa. Eu poderia discursar sobre o que o lado de cima tem a oferecer, sobre propostas de união por casamento e desinteressantes promessas acerca da conservação da natureza, mas que se foda toda essa merda.
— Vossa alteza, ouvi dizer que o rei atlanti pode ser desafiado para um combate no qual sua derrota vale um favor, mas que nenhum jamais foi vencido — a comandante de Marte disse e então teve o canto esquerdo da boca a pender acima. — Vossa majestade gostaria de saber o motivo?
Os tentáculos de Cthulu moveram-se tenuamente.
— É porque esses moluscos ridículos nunca tiveram os culhões de aceitar o desafio de alguém da superfície.
Algazarra das vozes dos doze atlantis nos estrados. Os guardas exclamaram algo na língua nativa e aquele a esquerda de Ars ergueu a arma rumo a nuca dela. As lâminas do dispositivo bélico foram pressionadas contra a pele da comandante de Marte, estavam gélidas. O rei a encarava sem nenhuma reação a pequena balbúrdia. Vamos sua lula superdesenvolvida, seja o peixe idiota que é.
O lugar fedia a algas. O rei de Atlântida soltou palavras na linguagem local e o atlanti tirou o rifle de contato com a cabeça da militar.
— Será morta aqui, em uma batalha tal qual reivindica. Deseja escolher um campeão?
Ars Olins riu.
— Não, vossa alteza. Creio ser perfeitamente capaz de preparar o meu próprio sushi.
Os atlantis nos assentos a ofenderam e exclamaram. O rei soltou um ruído que dançava entre o gutural e o suave, o silêncio tornou ao salão. Outras palavras em atlanti deixaram Cthulu, as pessoas saíram de suas posições e dirigiram-se às bordas do lugar. A área central ficou vazia, por exceção de Ars.
O rei de Atlântida pôs-se de pé, estendendo-se a uma altura de três metros com um torso e membros musculosos. Duas asas esticaram-se a partir de suas costas. Ele andou por sobre o estrado elevado onde ficava o trono, alcançou os degraus e começou a descê-los, parou a frente de Ars, sua cabeça dotada de tentáculos que tinham o tamanho do tronco da comandante do exército de Marte pendendo a um metro e quarenta centímetros acima dela. A respiração da criatura chegou na mulher quente e derrubando sua boina.
— Arma?
A comandante de Marte agarrou seu rifle e ergueu ao alto.
— Então, que se tenha início.
Ars foi lançada violentamente contra a borda superior da entrada do salão, as costas atingindo o diamante, o ar e saliva a escapando subitamente, e caiu instante depois rumo ao solo quatro metros abaixo. Tossiu e forçou os braços contra o chão para erguer o tronco, os músculos tremendo e a visão intercalando entre normal e turva. Mas que merda de lula desgraçada. Não fosse a armadura de matéria escura que ela usava o confronto teria acabado ali.
Pôs-se de pé e fitou a massiva figura vindo a passos lentos na sua direção.
Os atlantis eram um povo bárbaro e civilizado a depender de qual área de sua sociedade fosse observada. Haviam costumes como o da luta em troca de recompensa e existia um sistema democratico por trás da formulação e aceitação de leis que deixava ao rei apenas o papel executivo, podendo também ser deposto caso ignore a legislação. Embora, nesse advento, seus herdeiros sejam os testados para saber quem seria mais apto ao cargo. Quanto a produção de mantimentos, demais itens e serviços, Atlântida mantinha um regime rotativo onde dois terços da população cuidavam disso por um período, geralmente seguindo o que na superfície seria o calendário das quatro estações do ano, algo possível graças a impressionante facilidade de aprendizagem do povo submarino e sua disciplina que tornava-os em média muito mais capazes do que um mediano cidadão da superfície. O restante dos cidadãos ficava a cargo de pesquisas científicas e produções artísticas.
Em quase todos os aspectos atlantis são seres superiores. Uma das exceções, é a guerra.
Ars correu na direção do imenso polvo humanoide. Ele acelerou, suas passadas ecoando no salão azulado e os tentáculos balançando. A três metros de uma colisão, ela virou abruptamente a esquerda e disparou ainda mais rápido, Cthulu mudou sua trajetória imediatamente. Antes que a distância tornasse a diminuir, a comandante de Marte voltou a correr rumo ao trono, mais especificamente na direção do rifle que deixara cair quando fora chutada pelo rei atlanti.
Fisicamente seria impossível vencer, pelo que leu a respeito dos líderes do povo submarino, batalhas como a que requisitou ocorriam ao menos três vezes por estação há ao menos trezentos anos sem que houvesse uma derrota do rei. Um povo com a cultura ligada a marcialidade e dotados de corpos mais fortes, a resposta imediata para lidar com isso seria magia ou tecnologia, preferivelmente o segundo. Então se Cthulu permitir que Ars pegue o rifle, será o mesmo que dá-la a chance de vencer.
O primeiro bater de asas lançou uma onda de choque que forçou os músculos de Ars a rigidez máxima para não permirtir que fosse lançada para fora do chão. O segundo mandou velozmente a pesada massa vermelha do rei para a frente da comandante de Marte, pondo-o a chegar inclinado a esquerda e com os pés tocando apenas superficialmente o piso.
Fim de jogo.
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