Arrow de coco

6 Capítulo 6 - Aljava


Meu nome é Olívio Rainha. Vocês sabem, protetor de Brasília e todo o resto. Fracos, oprimidos, água de coco. Coisas assim. Contudo, apesar de passar cinco anos em Dois Irmãos me tornando um perito em arco e flecha, não consegui evitar que bandidos armados invadissem a minha casa e ameaçassem pessoas importantes para mim. Bom ou ruim, o vigilante conhecido como BHatman pretende me ajudar.

– Desde quando você sabe? – Eu pergunto, enquanto seguimos rumo aos andares de cima, para buscar os meus equipamentos.

– Cuidado. – Ele se limita a dizer, com a voz de vigilante, quando topamos com dois dos bandidos nas escadarias. Não estou com a minha arma mortal principal, mas eles sim. Eles disparam um jato de água salgada. Eu desvio por pouco. Sinto o cheiro do sal enquanto a água passa por mim. Bruno também desvia bem, ele é mais velho e experiente do que eu.

O morcegão simplesmente pula os degraus restantes e abate os dois marginais com apenas um golpe certeiro. A mão dele aparentemente não dói. Essa luva que ele usa é das boas. Será que é da tecpix?

Uma coisa pode ser dita, ele se veste rápido. A escuridão certamente o favoreceu, mas o traje dele dificilmente pode ser escondido por baixo das roupas, como o meu. Ok, o meu, na verdade, é a roupa de baixo.

– Vá, eu vou cuidar das pessoas lá de baixo. – Ele diz. Eu apenas concordo. Não há realmente muita coisa a se fazer, não podemos garantir que os bandidos não ameacem os civis enquanto estamos perdendo tempo.

Vou até o meu quarto, subindo os lances da escada. Pego o meu arco e a aljava de baixo da cama, agora estou pronto para a batalha. Desço e no caminho encontro mais um dos palermas, provavelmente um que escapou da ira do BHatman. Temporariamente. Puxo uma flecha, ele me vê e abre a boca para gritar. O que será mais rápido, minha flecha ou a voz dele? Infelizmente, ainda não sou rápido o bastante. O grito sai. A flecha entra.

– Cuecão, venha me ajudar! – O BHatman grita. Quando eu chego ao salão, quase todos os reféns fugiram. Não sei que tipo de bagunça ele conseguiu fazer no curto tempo em que estive fora, mas ele estava cercado por oito homens armados com aquelas pistolas demoníacas. Oito. Quatro vezes três. Oito homens.

Eu puxo uma flecha e atiro em um deles. Agora são sete. A metade de vinte e três. Alguns deles se viram e atiram em mim. Pulo para trás de uma mesa de quitutes, arremessando-a para o chão e usando-a de escudo. O BHatman não tem tanta sorte. Um pouco de água o atinge no traje. Ele agoniza, mas não deixa barato. Derruba dois deles com um soco e um pouco de efeito dominó.

Restam cinco. Que ao quadrado dá cem. Eu me atrevo a levantar de trás da mesa e dou mais uma flechada. E, obviamente, derrubo mais um deles. No entanto, agora a minha aljava está vazia. Eu tento sair da mesa mas recebo mais rajas de água que por pouco não me acertam. O Bruno está acostumado a tomar banho todos os dias, portanto sente menos o efeito. Eu não. Uma dessas pode ser fatal para mim.

Bruno joga um Bumerange da DCT, a marca da diversão, em um deles mas o bumerangue não é simplório como os de R$ 1,99 que eu costumava usar para brincar na praia. Ele não se limita a atingir um, ele desvia e quebra o nariz de um outro, tirando dois do combate. Um deles se desespera ao ver os números caindo lentamente e tenta fugir.

BHatman me olha através da máscara, então eu entendo o que devo fazer. Me ponho a correr na direção do homem enquanto o meu inusitado companheiro de batalha joga algo em minha direção. Não entendo de números. Não sei fazer contas. Mal sei escrever meu próprio nome. Percebo que nada disso faz diferença quando abro o arco vazio em pleno ar. Solto a corda quando o objeto que BHatman jogou está no lugar certo. Então, ele vai na direção do homem que fugia. Não preciso olhar para saber que acertei, mas a pequena explosão de milhares de traques de São João confirma minha precisão.

Eu ouço um barulho de vidro se quebrando quando o último deles foge pela janela. Olho para o salão e Bruno está caído. Alguém é capaz de derrotar o BHatman? Eu corro na direção dele:

– Ele atingiu minha boca. Não consig… Argh! – Ele tentava falar. Sua boca, a parte que ficava exposta na máscara, além dos olhos, estava molhada.

– Bruno! Bruno! – Eu grito. Não posso deixá-lo morrer. Não posso! – Me diga o que fazer! Você precisa de um médico.

– Guaravita… — Ele diz, enquanto aponta para a pochete de utilidades que usa na cintura. Eu a abro, tem uma pequena garrafa de guaravita, das Empresas Caminhone. Eu despejo todo o líquido na sua boca. Ele dorme. Não sei dizer se pra sempre. Mas espero que não.


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– Como assim, ele saiu? – Eu exclamo com a enfermeira. Minha mãe e minha irmã estão comigo. Minha irmã Tereza até carregava uma cesta com flores e mimos para o convalescente Bruno Caminhone. O empresário que se arriscara com os invasores até a chegada dos dois vigilantes conhecidos como BHatman e Cuecão. Ou pelo menos, era isso que a imprensa pensava. Que continuasse assim.

– O senhor Bruno teve alta e voltou para Belo Horizonte essa manhã. – Ela explica, um pouco assustada comigo.

– Nem pudemos agradecer… — Minha mãe lamenta, mas realmente não podemos fazer nada. Voltamos para casa, um pouco decepcionados. Eu, acima de todos. Entro no meu quarto esperando um pouco de paz e sossego, mas não aquilo.

Um bilhete. Pelo menos, eu sei ler:

“Caro Olívio, espero que você queime essa carta assim que a ler. Certas coisas não devem ficar registradas, como o que fazemos. Do contrário, não usaríamos máscaras. Eu, pessoalmente, não sei dizer se minha máscara é Bruno Caminhone ou BHatman. Espero que você nunca se veja nesse tipo de dilema, mas vejo em seus olhos que essas mesmas dúvidas passam por sua cabeça. Quando comecei esse tipo de trabalho, minha intenção era salvar a minha cidade. Torná-la um lugar bom para as pessoas. Não direi que entendo sua cruzada contra a água de coco, pois não entendo. Mas, em sinal de boa fé, eu tenho um presente e um desejo de boa sorte para você.”

Eu sigo o local indicado pelo mapa em anexo na carta. É um pouco distante e isolado. Um lugar perfeito para esconder um presente de um vigilante para outro. Mas não é um presente comum. É um presente do nível Bruno Caminhone. Uma grande caverna escondida. Inúmeros tipos de flechas com tamanhos e funções variadas. Computadores de última geração. Um arco composto. Toneladas de guaravita em pequenas latas. E um novo uniforme, embora, debaixo do capuz verde do manequim, haja uma máscara em forma de cueca.

“P.S.: Eu chamaria esse esconderijo de Aljava.”

Eu sorrio. É apenas o começo.