Arrow de coco

3 Capítulo 3 - O outro vigilante


Meu nome é Olívio Rainha. Eu passei cinco anos na ilha de Dois Irmãos com apenas um objetivo: Tomar a minha água de coco Kids. Mas a minha estadia não foi preenchida apenas por sonhos, eu treinei muito. Fortaleci corpo e mente, sou um arqueiro imparável. Agora, de volta a Brasília, meu objetivo permanece o mesmo. Contudo, para fazer isso, preciso salvar a minha água de coco.

A Rainha Coconsolidados, como o nome sugere, produz água de coco. Mas não a água de coco Kids que eu estava acostumado a tomar e que me inspirara a construir a companhia. Ainda no Rainha Gambito, meu pai tentou me avisar que um empreendedor chamado Mal Come Merlin pretendia assumir o controle sobre todas as empresas de água de coco. Mas agora, eu vejo que ele fez pior.

Merlin não apenas controla praticamente toda a água de coco de Brasília, ele a modifica a seu bel prazer. Maçã, abacaxi, morango e uva. Cada um dos chefões ricos de Brasília comanda um desses sabores de água de coco e meu pai sabia que isso ia acontecer. Acontece que isso é um absurdo e eu não posso permitir. A companhia é minha, mas a minha mãe trabalha com Mal Come, o que dificulta um pouco as coisas para o meu lado. Olívio Rainha não pode fazer muito sobre isso.

Por sorte, eu não sou apenas Olívio Rainha.

Escolhi uma roupa totalmente verde do meu luxuoso guarda-roupa. Na floresta de Dois Irmãos, a camuflagem era essencial e o verde era perfeito para isso. Os velhos hábitos custam a morrer, e talvez não precisem. Afinal, nos velhos tempos, já passei por coisa pior…

“Eu adentrava cada vez mais na floresta de Dois Irmãos. Ao olhar para trás, via apenas mais vegetação, não sabia mais como retornar para a Praia do Bode. De qualquer forma, não havia muito para mim lá, nenhum turista ou algo parecido. Eu sequer fazia ideia do nome da ilha na época. Após muito andar, recebendo inúmeras picadas de mosquito que me faziam lembrar do singelo período de vinte anos vivido na favela, me convenci de que a ilha não era habitada. Contudo, uma flecha passou zunindo próxima ao meu rosto, fazendo um pequeno corte:

– Não se mexe, não se mexe. – O chinês era fluente em português, se não visse o seu rosto, eu jamais imaginaria que ele fosse oriental. E também, levei a ameaça muito a sério, até ele começar a cantar. – É o bonde do boréu no artigo 1-5-7, vai.

– Ahn, o quê? – Eu me lembro de ter falado, atônito com aquela cena bizarra. Um velho oriental em cima de uma árvore apontando um arco e uma flecha para mim e cantando algum tipo de funk carioca em plena suposta ilha deserta.

– Meu nome é Yaoi Feio. E você tem três segundos para dizer algo que me impeça de matá-lo. – Ele falou, extremamente sério.”

Na entrada do prédio central da Rainha Coconsolidados, havia dois guardas. Tarefa fácil. Atinjo o primeiro com uma flecha de uma distância de aproximadamente 30 metros. O outro olha para o lado enquanto eu avanço. Sua surpresa ao ver o companheiro ser atingido no braço por uma flecha certeira não se compara a expressão que ele faz quando aplico a minha famosa voadora da Amy Winecasa nele.

Deixo os dois desacordados enquanto entro na minha própria companhia. A cueca em minha cabeça tem dois furos para os olhos, contudo, meu cabelo se torna visível por onde as pernas deveriam sair. Eu duvido que alguém seja capaz de notar isso na escuridão, mas as câmeras podem. Destruo uma. Agora me restam cinco flechas.

Tem um jeito mais fácil. Posso cortar a energia do local. Mas onde diabos ficam os geradores? Invadir esse local parece não ter sido uma boa ideia, percebo enquanto ando por um vasto corredor escuro. E se ativaram os alarmes? E se…?

– Argh! – Eu grito ao ser chutado por trás. Não foi um simples chute. Na verdade, eu nunca recebi um tão forte. Uma coisa inédita para alguém cheio de cicatrizes como eu. Eu olho para trás após cambalear um pouco. Não sou o único fantasiado por aqui, pelo visto.

O homem tem orelhas pontudas em sua máscara negra, com uma abertura apenas para a boca, que possui um queixo de bunda. O traje todo cinza possui um grande morcego negro no peito e uma capa negra por trás. O sujeito realmente deve gostar da escuridão. Sua voz, meio grossa, meio rouca, me intimida por um momento. Mas só por um momento:

– O que você está fazendo aqui?

Não sei quantos doentes mascarados cabem em uma cidade, mas para a Coconsolidados, apenas um é o bastante. E esse sou eu. Pego outra flecha da aljava e encaixo no arco, apontando para esse homem-morcego, que se for esperto, vai sair bem de mansinho e torcer para eu perdoá-lo:

– Eu estou aqui há negócios. E você está interferindo neles. – Elevo a minha voz também. Em parte, porque não quero que ele saiba quem sou. Mas, na verdade, gostei do efeito sombrio que uma voz assustadora pode dar. Me sinto em um filme daquele diretor, o Cristopé Nolan.

– Sem a cueca, você pareceria melhor. – Ele sorriu nas sombras, um pouco antes de se abaixar. Por instinto, disparo a flecha. Se ele fosse qualquer um, minha flecha atravessaria a sua cabeça antes que ele pudesse se mover mais. Mas eu logo percebo que esse homem não é nenhum qualquer. Sua velocidade é incomparável, ele me agarra pela cintura e me empurra pelo corredor, que termina em uma janela fechada:

– Espere, espere! – Eu tento dizer, mas ele não me ouve. Nós dois caímos pela janela, estilhaços voam por todos os lados. Ele me solta, ativando algum tipo de dispositivo com cordas, me largando para cair sozinho. Enquanto caio, retiro uma flecha da aljava e atiro. O desgraçado não pode se desviar em pleno ar, mas não fico olhando para saber se acertei. Eu giro para tentar amortecer a minha queda, mas caio por cima do ombro.

A dor é insuportável, eu quase desmaio. O desespero toma conta de mim, como tomava na ilha…

“ — Eu naufraguei aqui! Eu naufraguei! Não sei que lugar é esse! Não atire em mim, por favor. – Eu imploro para Yaoi Feio. As pontas de pedra afiada das flechas dele quase brilham de tão polidas. Eu até acharia aquilo bonito, se não fosse o instrumento mortal que ameaçava ceifar a minha vida.

O velho oriental me olhou com pena:

– Você morrerá horrivelmente aqui. Os habitantes da ilha não terão pena de você. – Ele suspirou enquanto abaixava o arco e sumia entre as árvores. Seu traje verde ajudava na camuflagem, eu não podia distingui-lo na vegetação nem em cem anos. Estava sozinho. Faminto. E a morte pairava sobre a minha cabeça. Não, espere. Era um pombo. E ele cagou em mim.”