Arrow de coco

1 Capítulo 1 - A Flecha em meu coração


Meu nome é Olívio Rainha. Eu tracei meu caminho como todo empresário juvenil, famoso e bem-sucedido nesse país: Ganhei no Reality Show mais popular do Brasil, o Grande Irmão Brasil da Rede Esfera. No meu vídeo de candidatura, eu havia feito algo incrivelmente estúpido: Atirei flechas. Uma boa quantidade de flechas. Não que houvessem muitos alvos, havia apenas um, mas eu era incrivelmente ruim.

Entre as menções honrosas da ocasião, acertei a cerca do vizinho. A mulher dele. A janela dele. Então, quebrei o arco de R$ 1, 99 acidentalmente ao confrontá-lo e me desesperei. Na confusão, sem querer pisei no cachorro. A Rede Esfera amou aquele vídeo e decidiu que eu era ótimo para atrair audiência. O público me amou mais ainda, do contrário, eu não teria vencido o show e obtido a minha fortuna. Meu pai, que até aquele momento da minha vida me chamava de “parasita de vinte e um anos”, começou a se orgulhar de mim. Eu nunca havia recebido um abraço do meu pai antes.

Aquele momento com meu pai Roberto me deixou tão feliz que eu decidi que viajaríamos para o arquipélago Fernando de Noronha, em Pernambuco, com o meu novo iate, o Rainha Gambito adquirido na prova de trigonometria do Grande Irmão Brasil, o GIB. Apenas eu havia escrito o nome corretamente no cabeçalho, portanto o meu zero teve um valor maior do que os outros.

Eu jamais imaginaria que aquele momento decidiria a minha vida de tal forma. O meu iate de Reality Show me deixou na mão. Quando eu e meu pai menos esperávamos, entre farras e mais farras, uma tempestade nos atingiu em cheio, em alto-mar, fazendo com que o Rainha Gambito se partisse em dois e afundasse. Como o Titanic, mas sem Icebergs e Leonardos De Capricórnio. Apenas eu sobrevivi ao acidente, indo parar na ilha Dois Irmãos do arquipélago. Contudo, não encontrei a civilização que eu esperava naquela ilha.

Por cinco anos, eu fiquei aqui na Praia do Bode. Aguardei em vão que alguém viesse me resgatar. A ilha tem muitos perigos e para sobreviver a ela, precisei me tornar tão perigoso quanto ela. Precisei me tornar uma arma. E agora, munido de um arco e uma pequena porção de flechas, sou praticamente o rei dessa ilha. Um rei sem povo. Sinto minha loira barba espessa crescendo cada dia mais. Não quero cortá-la, ela me faz sentir como aquele ator: Tony Falcões.

Assim como Tony Falcões em seu filme, já tive um amigo chamado Wilson nessa ilha. No entanto, ele não era uma bola de vôlei. Ele ajudou a me moldar, a me transformar no que sou hoje. Como retribuição, tive de pôr uma flecha em seu olho. Longa história. Não gosto de me lembrar. Mas, espere! O que é aquilo? Não pode ser, estou delirando! É mesmo um barco no meu campo de visão ou mais uma miragem nesse lugar infernal?

Decido que preciso arriscar a sorte. Pego uma flecha da minha aljava, não as distingo, são todas iguais. Todas são feitas com pedras afiadíssimas e madeira. São os únicos recursos que eu sou capaz de encontrar nessa maldita ilha. E cocos. Há muitos cocos aqui, mas nenhum como o Kids que eu tomava em casa. Desenvolvi uma paixão por eles desde a minha infância, meu pai também os adorava. Lembrar de cocos sempre me lembrará dele. Uma promessa que fiz me persegue, não posso morrer até cumpri-la. Por isso, tenho que sair daqui.

Encaixo a flecha na corda do arco. Minhas mãos sequer tremem, apesar de todo o meu nervosismo. Me lembro de tudo o que passei até esse momento. Desde o meu vídeo de candidatura, brincando de arqueiro, até a última vez em que precisei atirar para valer em alguém. Eu não sou mais Olívio Rainha. Eu sou uma flecha. Eu decido a minha própria direção. Eu faço o meu caminho. E é por isso que eu nunca erro. Respiro fundo. É um longo caminho até o barco. A flecha pode… Não, não a flecha. Eu. Eu posso cair no meio do caminho. Perder a força, a velocidade, a direção. O vento pode tentar mudar o meu rumo. Preciso calcular tudo isso.

Não sei se isso se trata de números, nunca fui bom com eles, mas se tiver alguma relação, as equações são escritas apenas em meu coração enquanto imagino a minha trajetória. Finalmente solto a corda desgastada, me vejo naquele simples pedaço de madeira que carrega as minhas convicções e esperanças. Passo pelas areias da Praia do Bode com um zunido, estou no meu máximo. Começo a atravessar o mar. Um quilômetro, dois quilômetros, distância não é exatamente um problema.

A parábola que eu faço é indescritível. Um observador precisaria estar muito longe e observando muito atentamente para notar. Desvio poucos graus levemente, e gradualmente. Quando se nota que estou no caminho certo, é tarde demais para qualquer evasiva. Esse é o tipo de atirador que eu sou. Silencioso, calmo e preciso.

A flecha atinge uma das janelas principais do barco, a da cabine do comandante, e a estilhaça completamente. De longe, consigo distinguir um tumulto no barco. Do topo do morro de onde estou, começo a pular e sacudir os braços. Talvez alguém com uma câmera ou binóculo possa me ver. E então virão me salvar. Porque eu sou Olívio Rainha, o Arqueiro dos cocos, e vou sair desse inferno. Custe o que custar.