Arrivederci Roma

13 VIVA E DEIXE VIVER


Acordei com a Ale atendendo o telefone, resmungando com alguém.

— Mel, o Luca está lá embaixo te esperando.

— O que? Que horas são? Meio drogada de sono vi que tinham algumas chamadas perdidas dele. — Credo! Sete horas ainda!

Mandei uma mensagem que aguardasse um pouco pois iria me arrumar. Fui para o banho enquanto pensava no que vestir (apesar de não ter muitas opções), me arrumei rapidamente, mal passei uma maquiagem já que habitualmente não sou de muita maquiagem, dei um beijo na Ale que voltara dormir e desci rezando para que Deus me guiasse nesse dia.

— Você caiu da cama hoje? Perguntei antes mesmo de chegar perto.

— Sou ansioso minha bela! – disse ele vindo ao meu encontro, pegando minha mochila e me dando um beijo no rosto.

— OK, vamos tomar café ou não conseguirei ter uma conversa descente com você.

— Estamos atrasados Mel, compro café para você no caminho.

Ainda dormindo resolvi não falar nada e sai sendo arrastada pelo hotel até o estacionamento onde ele havia deixado o carro.

— Você já deve ter conhecido bem Roma, agora vai conhecer o que não é muito divulgado para os turistas. — disse ele com aquele sorriso de canto.

Neste momento percebi o quanto seu sorriso é lindo e que sempre suas covinhas.

— Ok, você no comando desde que me compre um café! — disse eu em tom de ameaça.

— Você é um pouco rabugenta pela manhã!?

— Não sou, só quando fico sem café?

— Va bene! Vamos parar e tomar o seu café.

— Muito obrigada! — e o surpreendi com beijo na bochecha.

Não demorou muito para gente parar numa cafeteria e quando peguei a xícara de com aquele néctar preto com um aroma sem igual, era como se ligasse o botão “Bom Humor” e depois de vinte minutos estava pronta para continuar nossa “viagem misteriosa”.

— Então, vai me dizer para onde está me levando? Ou posso começar a ficar com medo?

— Vai depender muito de você Mel, você pode deixar esta viagem um céu ou transformá-la num verdadeiro pesadelo.

— Nossa, falando assim começo a ficar preocupada, muita responsabilidade.

Entre uma conversa e outra, podia desfrutar das incríveis paisagens, das lindas vinícolas que tiravam o folego, e em certo ponto ele pegou uma estradinha de pedras, que apesar de ser inverno ainda tinha muito verde, o que deixava o lugar como uma tela de filme de romance. Deduzi que estávamos na Toscana.

— Seja lá o que for que esteja aprontando, para mim já valeu a pena Luca!

— Você não viu ainda. – disse ele com um sorriso triunfante nos lábios.

Já se passava das onze horas quando chegamos, numa vinícola, havia um restaurante e uma loja, e ao lado que havia uma varanda que dava para o vale, com mesinhas e sombreiro, enfeitada de flores diversas e coloridas, e mais ao longe alguns bangalôs, havia poucos turistas no lugar o que me deixava mais à vontade para desfrutar daquele lugar de tanta energia.

Resolvemos almoçar primeiro, antes de começar a conhecer o lugar, confesso que já estava com fome.

— Por que escolheu este lugar? – perguntei intrigada.

— Pensei muito ontem e tinha que ser o lugar perfeito, um lugar onde não precisaria nos preocupar em comer, descansar e ter um lugar sem tumultos e aqui estamos!

— Estou realmente surpresa e não vejo a hora de dar uma volta, é lindo este lugar! – disse eu entusiasmada para conhecer o lugar.

Almoçamos com certa tranquilidade, tinham apenas alguns turistas no local que o reconheceu e foram pedir autografo, porém, não se demoraram muito e pudemos terminar o almoço, saboreei cada prato com direito a sobremesa.

— Vou ao banheiro e podemos ir se não tiver problemas. – estava animada com nosso passeio.

— Ok bela, enquanto isso vou ver umas coisas por aqui.

Eu me sentia totalmente a vontade com Luca, sem ansiedade ou nervosismo estava realmente gostando de estar com ele e enquanto retornava do banheiro ele estava conversando com um Sr que ficava na recepção.

— Está tudo bem? — perguntei curiosa.

— Sim, sim estava apenas me informando de algumas coisas. Podemos ir? — disse ele tentando disfarçar algo

— Sim vamos! — me virei e segui andando.

Apesar de estar num lugar alto e com um pouco de vento frio, fazia um lindo dia de sol, mas não me desanimaram a andar e fomos para as plantações de uvas que nesta época estão é claro secas, mas eram plantações a se perder de vista e com grama verde.

Em um momento, enquanto caminhávamos ele pegou minha mão e assim fomos andando apenas admirando a paisagem até chegarmos em uma casa de pedra onde se fazia degustação de vinho enquanto uma pessoa fazia uma breve explicação sobre o lugar. Eu como amo história fiquei atenta a cada detalhe daquela casa datada do século xv e a vinícola era de 1932.

Degustamos alguns vinhos e continuamos a andar rumo ao mirante, havia algumas mesas para as pessoas ficarem sentadas, nunca imaginei ver tanta beleza no mesmo lugar.

Corri para o mirante, a vista para o vale era incrível, com montanhas ao fundo, e agradeci a Deus por poder estar ali. – Que grande obra da natureza!

— Sim minha bela. Fui surpreendida pelo Luca que chegou por trás me trazendo uma taça de vinho.

— Ai Meu Deus Luca, jurei que hoje não ia perder o rumo de casa!

— Fique tranquila não permitirei que perca. – disse ele me puxando para mais perto dele.

— Você não faz ideia de como estou feliz em estar aqui com você, que no meio de tantas mulheres que cercam você, você me escolheu, o sonho de tantas garotas e eu uma simples mortal, completamente a parte do seu mundo. Como isso é possível?

— Acredito que quando duas pessoas estão destinadas a se encontrar, o universo conspira, independente de classe social, cor de pele, país ou distância. Somos humanos imbuídos de sentimentos, que às vezes não conseguimos explicar. — disse ele sério, como se tivesse plena certeza de que isso iria acontecer.

Suas palavras me tocaram profundamente e simplesmente concordei com um aceno.

— Hoje, eu mais que ninguém sei disso, Luca.

— Você Mel, é meu sentimento inexplicado, sua extrema timidez, seu sorriso que ilumina qualquer lugar que você esteja e seu dom de transmitir uma tranquilidade e uma paz, seus lábios que carnudos, você é linda e isso são coisas que até o momento não consegui achar em nenhuma outra mulher que já tive.

Naquele momento era meu corpo que já estava reagindo só de ouvi-lo falar, e puxei ele para nos sentarmos em uma das mesas que tinha para continuarmos apreciando a vista, sentamos bem perto um do outro e podia sentir o calor que irradiava do seu corpo, meu real desejo era pular em seu pescoço e lhe beijar, mais me contive, não estávamos sozinhos no lugar e fiquei preocupada de logo sair especulações na mídia.

Mais aparentemente nenhum se aproximou de nós e logo estávamos sozinhos.

— Não imagina o quanto pensei ontem durante todo o dia, imaginando de como seria este momento com você, Mel.

-E quando foi que você percebeu que sentia algo por mim? — perguntei intrigada.

— No dia em que me contou que viria para Itália e queria conhecer Enzo pessoalmente, e não suportei a ideia de vê-la com ele, senti ciúmes.

— E por isso sumiu!? Por que não me contou? Me fez pensar que eu estava te incomodando de certa forma e que não queria mais ser meu amigo pelo jeito que falava comigo nos últimos dias.

— Você estava empolgada para conhecer o Enzo e eu queria que realizasse seu sonho de conhecê-lo, era claro como água que você era apaixonada, enfim, não queria ser a pedra no caminho de vocês.

Sentindo a sinceridade em suas palavras, respirei fundo e desabafei tudo que sentia.

— Luca você é o cara mais incrível, altruísta que já eu conheci, me desculpe por precisar passar a noite com Enzo para ele abrir meus olhos, desculpe pelo que te fiz passar, me perdoe por isso. – disse sem conseguir olhar nos dele.

— Sempre me boicotei na vida pelo fato de ser negra, de não estar nos padrões exigidos na sociedade, mesmo quando venço, ainda sinto que não é o suficiente, para demonstrar que sou capaz. Quando começou a falar comigo, só pensei que realizaria “meu até então sonho” de conhecer o Enzo pessoalmente de que eu poderia olhar para todos e dizer: — “Sim a sorte também sorriu para mim pelo menos uma vez! — Me perdoe Luca, por não ter percebido antes!

— Não há o que ser perdoado minha bela, e entendo perfeitamente seu lado, eu também poderia ter me aberto antes com você, mas tive medo de sua reação.

Um silêncio emergiu entre nós pois não havia mais palavras a serem ditas, naquele momento, seus olhos encontraram os meus, e inutilmente eu tentei esconder uma lágrima que teimou em descer.

— Está tudo bem minha bela Mel.- disse ele acariciando meu rosto.

Ele me puxou para mais perto dele, me abraçou e assim ficamos por um momento, até uma rajada de vento mais gelado bater e então decidimos voltar para onde tinha o restaurante. Durante o trajeto de volta ele ia me contando sobre as uvas, os tipos de vinho que tinham naquela região, mais também falávamos mais sobre a vida de cada um.

— Sentamo-nos novamente na varanda e logo um atendente veio nos perguntar se gostaríamos de degustar mais vinhos, eis que Luca me deixou paralisada com sua reposta.

— Sim por favor, mas agora vamos querer uma garrafa e por favor leve no bangalô 5.

Me afastei olhando como uma cara de (explique-se?) e ele logo entendeu minha indagação.

— Mel, já está muito frio o sol já se foi ainda temos muito que conversar e são quatro horas de viagem até Roma, vamos descansar e amanhã.... deixamos para amanhã.

Luca estava determinado a fazer isso, então apenas cedi a esta maravilhosa aventura.