Arrest the Memory
11 Perda
Notas iniciais
Se eu pudesse abraçá-lo, eu não iria deixá-lo ir.
Havia um relógio na parede do corredor. O seu tic tac era o único som que podiam ouvir agora, juntamente do vento que uivava passando pelas janelas fechadas. Miku havia parado de chorar, permanecendo apenas abraçada com Vy2, enquanto ele acariciava sua cabeça. Ela notou que as janelas estavam mais rígidas e embaçadas; começava a se formar gelo sólido nos cantos do vidro e logo todos teriam que enfrentar a neve feroz de Nova Iorque.
Rin havia pedido para dormir com o irmão antes de chegarem do show, e Vy2 concordou em ser “babá” deles. Porém, eles dormiram tão rapidamente que ele nem precisou ficar no quarto. Vy2 tossiu e começou a tremer; ela percebeu que ele não poderia mais ficar tanto tempo ali. Pegou-o timidamente pelo pulso e puxou-o até seu quarto.
Era incrível como mesmo o quarto estando “habitável”, o chão continuava extremamente gelado. Vy2 começou a dar pulinhos ao retirar os sapatos e correu procurando um lugar para se aquecer; ele sentou-se em um sofá-cama, cobriu-se com quatro lençóis e puxou os bichinhos de pelúcia de Rin até o pescoço. Miku pôs a mão na barriga para rir; pegou um lençol também e sentou-se de frente para ele.
Ambos suspiraram pesadamente. Ele ainda fitou-a por alguns segundos antes de começar.
– Se quiser me falar por que estava chorando, eu vou escutar.
Ela engoliu em seco.
– Mas não precisa se não se sentir confortável. Pode ser algo que não tenha a ver comigo, mesmo.
– T-tem... Tem sim. – A voz dela saiu um pouco nasal.
Ele se ajeitou e colocou uma cebolinha de pelúcia no colo dela.
– Y-Yuuma-kun... – Ela apertou a garganta, respirando fundo. – Eu poderia ficar aqui só enrolando e demorar a chegar ao assunto. Mas não vou fazer isso.
– Tabom. – Ele retirou os bichinhos de pelúcia, permanecendo só com os lençóis.
– Acho que... A maioria dos vocaloids na empresa sabia do que eu sentia pelo Kaito. – Vy2 arqueou a sobrancelha pela falta do “-kun” no final – E, embora eu nunca tenha dito isso em alto e bom tom, eu preciso fazer isso agora.
Ela olhou pela janela a neve começar a cair.
– Eu amava o Kaito. Foi ele quem mudou as minhas atitudes, os meus pensamentos, o meu modo de ver o mundo. Foi ele quem me fez sentir que tenho um coração quase humano, que me fez cantar para o mundo e não para mim. Foi ele quem me acordou para a vida.
Ele arregalou os olhos. Aquilo foi como colidir com um poste a uma velocidade de 150 km/h.
– E como ele me fez sentir, eu tinha o objetivo na vida de salvá-lo do esquecimento. E quando consegui isso? Eu me descobri apaixonada e passei a tentar ser notada por ele. Queria que ele sentisse o mesmo que eu. Já havia se passado dois anos e nada. Eu já estava ficando impaciente.
Ela começou a respirar mais rápido; estava ficando nervosa.
– Quando teve aquele acampamento no Canadá depois do nosso primeiro show aqui na América, lembra?
Ele assentiu.
– Mikuo me disse que eu poderia parar de vegetar e fazer algo de uma vez por todas. Na verdade, eu nem precisei. Kaito me beijou em um dos dias que passamos lá. E o que era para ser o primeiro e melhor beijo da minha vida, me fez descobrir a verdade.
Vy2 viu uma simples lágrima percorrer a bochecha dela.
– Que ele não me amava. Nunca me amou. E, talvez, nunca me amaria. Bom, dessa última parte eu tenho certeza. E hoje eu resolvi esclarecer tudo.
– Então... Você foi falar com ele sobre isso?
– Sim. Eu contei tudo a ele. E... – Ela abaixou a cabeça.
Ele ia tocar seu ombro, mas ela levantou o rosto novamente e olhou-o nos olhos.
– Demorou... Mas eu finalmente percebi.
– P-percebeu o quê?
– ... Que se for para ser, será. – Sorriu. – Eu e Kaito não temos nada a ver um com o outro. Por isso não ficamos juntos. Embora meu amor tenha sido verdadeiro, não era certo.
Vy2 mordeu o lábio e fitou os dedos que brincavam com as próprias luvas.
– Se percebeu isso, por que voltou chorando?
Miku apertou os olhos. Ele sabia; só queria ouvir aquelas palavras de sua boca.
– Porque era o certo. – A voz dela saiu trêmula.
– O que é certo para você?
– O-o certo é...
– Como pode definir o que é certo assim? Se até um tempo atrás o certo era o Kaito?
– Y-Yuuma-kun... – Ela soluçou.
– Miku... As coisas não são assim. – Ele fez uma expressão dolorosa. – Com tudo isso que vem acontecendo, eu percebi que... A vida não é um conto de fadas como as nossas músicas. Você não pode, simplesmente, chegar e dizer que Kaito não era quem você pensava que era e sugerir o mesmo sentimento para mim. Tudo bem que eu me sinto... Desse jeito que sinto – Ele ruborizou momentaneamente. – Mas eu não posso aceitar dessa maneira.
– M-mas Yuuma-kun! – Ela aumentou o tom de voz. – Não é igual! Eu estava vivendo uma mentira, uma ilusão que eu mesma criei sobre ele. Embora eu o conhecesse há tanto tempo, eu diria que era somente amor à primeira vista. Baseado em contos de fadas. Ele era meu príncipe, a minha fantasia.
Vy2 se desvencilhou do bando de lençóis e levantou-se.
– Mas você não disse que era amor verdadeiro?
– Era sim! Mas depois que eu conheci você, eu vi que... – Ele arregalou os olhos e ela também, depois de alguns segundos. – Que...
Ele corou novamente e virou de costas. Miku se levantou e se aproximou minimamente.
– Naquele dia... Eu vi que eu não precisava mais correr atrás de uma utopia.
– ...
– A pessoa certa estava ali, ao meu lado, quando eu mais precisava.
– ...
– E mesmo que ela estivesse só ali naquele momento, eu sabia que ninguém mais faltava na minha vida.
Ele virou-se; e dessa vez ela pôde ver as lágrimas fazerem os olhos dourados brilharem.
– Como você pode me dizer uma coisa assim? Não percebe o peso dessas palavras?
Ela deu alguns passos para trás, e pôs a mão na boca para não chorar alto.
– Você nem me conhece direito! O meu único lado que viu foi o paciente e compreensivo. Eu-
– Você também, Yuuma-kun! – Ela gritou. – Você também não me conhece, você surgiu do nada e mudou tudo o que eu sentia, e fala como se soubesse quase tudo de mim.
Ele assumiu uma expressão de irritação e dor ao mesmo tempo. Como se ela tivesse atingido uma ferida.
– Eu surgi do nada?
Miku se xingou mentalmente. Ela escolheu as palavras erradas. A vontade que tinha era de abrir a janela e se jogar. Vy2 olhava para baixo; os seus ombros estavam abaixados, e sua coluna relaxada. Ele parecia, de certa forma, derrotado. A franja cobrindo um de seus olhos; ele sorriu tristemente e olhou para ela.
– Eu estive aqui o tempo todo. Só você não viu.
Kisetsu kurikaesu tabi
Cada vez que uma estação se repete
Hotsureteku kizuna wo
Sinto nossos laços se desvanecerem
Miku arregalou os olhos.
Tsuyoku, tsuyoku dakishimete
Quero prendê-los fortemente a mim
Nakusanuyou
Para que eles não sejam perdidos
– Eu... – Ele continuou. – Eu sempre observei as coisas ao meu redor. Eu nunca falei muito com os outros vocaloids, por isso não era você – que estava sempre rodeada de pessoas – a primeira pessoa que mudaria isso. Mas era a o que eu queria. Desejava muito poder conversar com você normalmente, como os outros faziam, mas eu sentia que iria ser só mais um na sua roda de amigos.
Ele parou para soluçar.
– Posso não ter sido grande coisa para os outros, mas eu tentava ajudá-la no que podia. Eu cheguei a pensar que se fizesse algo diferente iria ser mais conveniente e você iria querer ser minha amiga. Então eu aprendi a tocar guitarra, não só porque você gosta, mas porque nós gostamos. Ia ser algo em comum entre a gente, e poderia tocar para você. Mas aí Kaito aprendeu a tocar o Baixo na mesma época, e eu perdi novamente.
Ele tirou o cachecol; o aquecedor finalmente estava fazendo efeito.
– Eu já estava me conformando em só ver aonde você iria chegar por ele. Mas não pude ficar parado vendo-a sofrer e ser deixada de lado por alguém que tem outros problemas para resolver. O mínimo que eu podia fazer era dar uma parte de mim mesmo para que não se sentisse sozinha e que permanecesse sorrindo. Eu... – Ele pôs a mão no peito. – Fico feliz que deu certo.
O corpo de Miku ficou pesado demais para suas próprias pernas, e ela caiu de joelhos.
Kakaeta kotoba no omotasani
Pelo peso daquelas palavras
Ugoke nakunatte
Sem poder me mover, caí.
Tada atatakana yume ni oboreteta
Mas quando eu acordei daquele sonho, eu compreendi
Kizukeba kimi wo miushinai
Que eu já havia lhe perdido
Miku não podia acreditar no quão cega havia sido. Ela não conseguia ver o que esteve sempre ali, bem diante de seus olhos. Talvez não quisesse ou não pudesse. Não entendesse. Mas foi esse erro que a fez sofrer desnecessariamente. Não só ela, como Yuuma. E isso era o mais doloroso. O mais inaceitável. Enquanto ela esteve olhando para Kaito, ele pensava em como ser notado por ela e pelos outros. Tentava juntar coragem para falar com ela. Sempre pensando que se interferisse, estaria incomodando, quando ele era tudo o que sempre quis. Ela não pôde conter a dor que cresceu em seu peito. Tentou falar algo, mas só conseguiu se abaixar ainda mais e encostar sua testa no chão.
Tabane dakishimeteta sugata wo
Abracei aquela aparência tão sutil
Yaoragani chirashite akaku
E meu coração se espalhou em cor carmim
Itai hodoni sore wa yakitsuite
Por causa daquela profunda dor que se espalhou em mim
Hirari, hirari, hirari
Palpitando, palpitando, palpitando
Ele estreitou os olhos. Andou até ela e se agachou.
– E-eu só queria que você soubesse que... Mesmo que você não estivesse lá para mim, eu estava lá para você, e sempre estarei. Não queria fazê-la chorar.
Ele sentiu a mão dela tocar seu pé. Ela não conseguia levantar a cabeça, então ele puxou-a pelos braços e deitou-a em seu ombro.
– Está tudo bem. Eu não tenho raiva de você por isso; a culpa é minha afinal. Não devia ter jogado minhas expectativas em cima de você. Mas... Isso que você disse de eu ter aparecido só naquele momento, por favor, não diga isso de novo.
Ela agarrou com força sua camisa. Ele queria parar de chorar e falar direito com ela; tinha pensado tanto neste momento e em como seria, e ficar chorando descontroladamente, realmente, não estava nesses pensamentos.
Subitamente, ele sentiu luvas esquentarem seu rosto, e forçarem-no a olhar nos olhos dela. Ele ruborizou ao vê-la tão perto.
– Yuuma-kun... Eu amo você.
Sora e umi e dokoka tooku e
Eu ultrapassaria o céu, o mar ou qualquer outro lugar distante.
Kimi e hitohira demo todoku youni
Apenas para entregar uma única peça a você
Tsumugu kizuna no sono iro ga
A cor dos laços que criamos
Hirarira, hirarirari
Voando para longe, voando para longe
Ele arregalou os olhos e tentou se afastar. Porém, ela o segurou e o abraçou fortemente pelo pescoço.
– Não se esconda mais. – Suplicou entre soluços. – Eu vejo você agora, e não quero mais que vá embora. Não fuja de mim.
– M-Mik... – A voz dele era rouca e contida.
– Me perdoe. Por tudo o que eu fiz. Por tudo o que eu não fiz. Por ser ignorante e egoísta; por ter me restringido só ao o meu campo de visão e não ter ampliado meus horizontes. Porque eu tenho certeza que, se tivesse feito isso, tudo teria sido diferente.
– P-pare, não faça isso. Não diga isso. – Ele sussurrou e pôs as mãos no rosto.
– Você não acredita, não é? Que eu possa amar você? Que alguém possa amar você? – Ela o abraçou mais forte, como se isso fosse passar tudo o que ela sentia para ele. – Eu não tenho como provar que o amo. Porque não é algo mais que se explique em palavras. Por isso, eu peço...
Ele retirou as mãos do rosto e ela soltou-o sorrindo tristemente.
– Que confie em mim.
Itsuka kasureteiku omoi wa
Algum dia, os momentos que passamos juntos
Chira sareta setsuna ni saite
Voltarão em um momento de dispersão
Kuchiruto shitte nao azayaka ni
Mesmo que eu saiba que estão se deteriorando
Hirari, hirari, hirari
Palpitando, palpitando, palpitando
Ele continuou de olhos arregalados por alguns minutos, processando o que ela disse.
Ouviram o barulho de uma porta abrindo no quarto ao lado; quem quer que tenha entrado tropeçou e derrubou um monte de coisas. Ouviu-se um grunhido de dor e insatisfação em seguida.
– Kaito. – Riram em uníssono.
O hotel era maravilhoso e o quarto também, o único problema eram as paredes. Eles podiam até ouvir alguém batendo um garfo no prato em outros quartos; mas o lado bom disso era Kaito tentando se virar sozinho.
Ao se acalmar, Vy2 se inclinou e abraçou Miku com um braço só.
– Eu não esperava por nada disso. Eu deveria ter dito primeiro.
– Dito o quê?
Ele sorriu ternamente e pousou a testa no ombro dela.
– Que amo você.
Nido to tsugerarenai kotoba mo
Novamente não posso saber as palavras
Kimi e saigo kurai todoku youni
Mas eu posso ao menos lhe entregar uma ultima peça
Sotto ame noyouni furu koe
Nessa suave chuva, uma voz.
Hirarira, hirarirari
Voando para longe, Voando para longe
Miku fez um barulho no fundo da garganta e enrubesceu. Vy2 começou a rir.
– N-Não diga isso tão de repente. – Ela começou a bater nele repetidamente.
– Mas você também falou de repente. Qual o problema? – Limpou o canto dos olhos.
– Y-Yuuma-kun. Você tem que aprender a falar as coisas na hora certa. – Ela inflou as bochechas.
– Ué, e tem hora certa para dizer isso?
Ela não conseguiu formular uma resposta. Sorriu.
Ele inclinou-se e beijou suavemente a bochecha dela, fazendo Miku fechar os olhos.
– Eu já vou. Está quase amanhecendo e temos que levantar daqui a algumas horas. – Levantou-se. – Durma b-
Ele se assustou ao ver Miku levantar rapidamente e abraça-lo. Ele ia retribuir, porém ela foi direta.
– P-por favor, fique. – Pediu, com o rosto enterrado na barriga dele.
– Você quer que eu durma com você? – Ele parou de respirar.
– Eh? – Ela olhou-o e piscou. – Haaaa? Y-Yuuma-kun, não desse jeito! – Ela correu para debaixo dos cobertores.
– T-tá, tabom! – Gritou e seguiu-a; ainda vermelho. – Foi mal por pensar isto!
– C-certo. V-você toma banho primeiro! – Ela gritou de volta, só com a cabeça para fora.
– As damas primeiro!
– Os cavalheiros primeiro!
– Vai primeiro, eu arrumo a sua cama! – Jogou os bichos de pelúcia para o chão. – Deixa eu só-
– Não! Yuuma-kun, você dorme junto comigo! – Ela agarrou a manga dele.
– Eeeeh?
E, em meio aos gritos, ouviram batidas fortes vindas do outro quarto.
– Calem a boca aí vocês dois! Tão pensando que é que horas?
– ...
– ...
– Acho que acordamos o Len-kun. – Miku fez uma careta.
Vy2 riu e tirou o cachecol de Miku. Ele subiu na cama e deitou; ela apenas observou.
– Depois a gente toma banho. – Bocejou e arrastou a voz. – To com sono.
Miku sorriu e se encolheu perto do tórax dele. Ela pôs as mãos perto do corpo dele e sentiu o seu coração acelerado. Ele não demorou a dormir; ao contrário dela que passou mais alguns minutos ouvindo sua respiração calma e o vento lá fora. Ela tinha certeza agora que aquela cena se repetiria frequentemente dali em diante.
.....
Seoul, Coreia do Sul, 19h do mesmo dia
Basicamente, a divisão dos quartos era óbvia – porém, polêmica. Meiko odiou ficar no mesmo quarto que Luka. Esta, por sua vez, pensou nas inúmeras maneiras de provocá-la. Os outros dois rapazes nem se importaram. Durante esses dias, nevou muito na capital coreana. Ninguém conseguia ficar na rua, portanto os estabelecimentos comerciais estavam lucrando bastante com as muitas pessoas que se escondiam do frio neles. Quando não estava em shows ou dormindo, Meiko estava em algum desses estabelecimentos. Ela evitava ao máximo ficar perto dos outros, tanto por não serem íntimos quanto pelo enjoo que sentia ao ver Luka perto de Gakupo. Pobre do Kiyoteru, que mal sabia o que estava acontecendo e só sorria o tempo todo. Ele não merecia aquilo. Ninguém merecia aquilo.
Ainda restava 1h30 para começar o show daquela noite. A equipe que foi para Seul chegou a pensar que o Estádio Olímpico era um lugar grande demais e que não haveria fãs o suficiente. Mais uma vez, estavam enganados. A capital da Coreia era uma das cidades mais populosas da Ásia, e isso era uma vantagem. Pois bem, aquele lugar estava tão lotado que nem imaginavam de quantos estádios precisariam preencher se Miku ou IA tivessem ido.
E depois de se prepararem para tudo, estavam agora esperando só dar o horário. Meiko ficou esperando dentro de seu camarim; não queria correr o risco de se deparar com pessoas indesejadas, acabar estressada e explodindo tudo durante o show. Mas, ainda assim, ela estava suprimindo a curiosidade em saber o que os outros estavam fazendo.
Luka circulava pelos corredores movimentados da parte protegida do estádio. Procurava incessantemente por Gakupo; e sem sucesso em sua busca. Talvez estivesse em algum lugar com o rosto enfiado em uma privada; ela percebia o quanto ele estava cansado e queria voltar para casa. Ao virar a esquina de mais uma parte dos camarins, ela viu Kiyoteru passar rapidamente por ela. Ambos viraram ao mesmo tempo e ela pôde perceber o telefone que ele tentava esconder com o cabelo. O rosto dele ruborizou ao vê-la levantar a sobrancelha com uma interrogação no olhar. Ele virou-se e tentou falar o mais baixo possível.
– Lily-san, espere só um minuto.
Luka fez uma careta. Ela saiu dali antes que ele se virasse; provavelmente ia fazê-la perder seu precioso tempo com desculpas e pedindo que não contasse a ninguém. Aquilo não a interessava nem um pouco, de qualquer maneira.
Por sorte, aquele era o corredor anterior ao do camarim de Gakupo. Finalmente! Por que diabos ele queria ficar tão afastado da sociedade? Ela queria poder reclamar sobre isso. Mas se bem que daqui a algum tempo ela já poderia fazer isso. Olhou para os lados e piscou ao ver o camarim em frente ao dele. Era o seu. Então ela havia rodado aquilo tudo... Em vão? Depois de se descabelar de raiva e morrer de vergonha pelos colaboradores que passaram olhando-a, resolveu bater na porta.
Ela bateu cinco vezes.
– Gackpoid-sama, está aí? Sou eu, Luka.
E nada. Três possibilidades: ele estava ignorando-a; ele realmente estava com a cabeça enfiada no vaso sanitário; ele não estava no camarim. Pelo bem dele, era melhor que fosse a última alternativa.
Ela testou a maçaneta e viu que a porta estava aberta. Olhou para os lados e se esgueirou para dentro.
Ele realmente não estava lá. E como olhou até atrás do vestuário para ver se ele não se escondia, percebeu que ele não levou o celular. Este estava piscando e vibrando irritantemente. Andou rapidamente e pegou o aparelho, já furiosa.
Era Kaito. De novo.
Já não bastava as vezes que tinha conseguido excluir as mensagens antes que Gakupo as visse, ele ainda tinha a coragem de insistir?
– Por que essa praga não vai infernizar a vida de outra pessoa? – Rosnou.
Ela rodou pelo celular e excluiu tudo o que Kaito havia mandado; desde mensagens até fotos e ligações. Pensou também em bloqueá-lo, mas Gakupo poderia perceber e estranhar.
– Eu estou só fazendo um favor a você, Gackpoid-sama. – Ela encostou a ponta do celular na bochecha e sorriu.
Ouviu a porta ranger lentamente e a voz de Gakupo conversando com alguém do lado de fora. Como este tinha a voz baixa e os passos leves ela não pôde ouvi-lo chegando. Seu coração disparou e ela não teve tempo de pensar em algum lugar para se esconder; ele entrou assim que ela se virou e arregalou os olhos.
– Hã? Oi Lu-
– Gackpoid-sama! – Seu sorriso tremeu. Ela jogou o celular de volta onde estava por trás. – Que coincidência vê-lo aqui!
– Mas este é meu camarim. – Ele entrou e jogou as roupas de frio em um sofá ali perto, sem quebrar o contato visual. Já estava vestido com seu traje original.
– Ah, eu sei! – Ele levantou uma sobrancelha. – É que a porta estava aberta e eu estava chamando você, então resolvi entrar e acabei aqui dentro e... E.... Para de me olhar com essa cara!
– Mas é a única cara que eu tenho. — Ele piscou algumas vezes e começou a rir. — Você queria falar comigo. Não é por isso que está aqui?
– Sim... Er, onde você estava? – Ela virou o rosto.
– Fui resolver um problema com a equipe. Eles estavam querendo cancelar o show de agora por causa da neve. Só que tá muito em cima e já tá todo mundo aqui mesmo. Não podemos fazer isso com os fãs.
– Mesmo? – Luka fez uma careta de desdém.
– Não seja assim, Luka. – Falou calmamente.
Ela engoliu com dificuldade. O jeito que ele pronunciava seu nome era único. Queria que ele acrescentasse mais significado do que simplesmente só chamá-la. Permaneceu algum tempo pensando sobre isso, somente olhando para o rosto dele. Se ela lhe falasse o que sentia talvez aqueles olhos ternos pertencessem apenas a ela. Talvez não, iriam.
Apertou fortemente a saia.
– Eu queria falar sobre isso outra hora. Esse não é o ambiente perfeito e nem a hora perfeita. Mas como muito tempo já se passou, qualquer momento seria o melhor.
Gakupo deixou o lábio inferior cair levemente e ficou um tempo sem piscar. O que mais gostava nela era o fato de ser direta e realista; Luka não era o tipo de pessoa que ficava dando voltas para chegar a um assunto já que, assim como ele, era impaciente. Ela usava muitas metáforas, porém de fácil entendimento e isso o encantava. Os vocaloids maduros eram poucos, e pelo menos ele achava que ela fosse o exemplo ideal de um.
Digamos que ela o deixava cego.
– Muito tempo, hã... – Sussurrou para si mesmo.
– Não queria ter que perguntar coisas que já sei, mas é pedir demais querer ouvir o que você tem a dizer?
– O que você quer ouvir? – Ele sorriu simplesmente.
– Uma explicação. A sua parte da história. – Ela retribuiu da mesma maneira.
– Mas antes você tem que me contar a sua.
– Por que eu tenho que ser a primeira a falar?
– Porque foi você quem veio até mim. – Levantou o queixo e sorriu de lado.
Luka cruzou os braços. Foi derrotada. Suspirou e olhou para o chão.
Ela abriu a boca, porém só saiu e entrou ar. Subitamente, tinha perdido toda a coragem de falar. Ela já tinha certeza de tudo, não houve uma questão que não foi capaz de solucionar e essa história já estava totalmente respondida. Mas, mesmo assim, Gakupo ainda era o único capaz de dar nós em seu cérebro e em seu coração. Ele sempre foi imprevisivelmente interessante. E talvez, por isso...
Suas mãos tremeram.
– Ne, Luka? – Seus olhos mostravam preocupação.
O celular de Gakupo vibrou cinco vezes seguidas. Ele ignorou no começo, porém possíveis mensagens continuavam chegando e isso estava irritando. Andou até o aparelho. Quando esticou a mão para pegá-lo, Luka correu e pousou suas mãos fechadas sobre as costas dele. Encostou a cabeça.
– Espere! Não faça isso. Não leia as mensagens, por favor.
Ele parou por um momento, e então recolheu a mão. Ela soltou o jinbaori e deslizou as mãos para abraçá-lo. Ele não disse nada, mas ela sentir seu coração acelerando foi um sinal verde para falar. Estava esperando, obviamente, a explicação para aquilo.
– Eu sei quem as está mandando. E eu não quero que você as veja.
Ela sentiu o pescoço dele virar.
– Não recebi uma única mensagem dele esses dias. Perguntei-me o porquê disso... Mas acho que já encontrei a explicação.
– Você... – Mordeu o lábio inferior. – Por que age assim? Por que faz essas coisas?
– ... Quem é que deveria estar me respondendo isso? – Ela ouviu a voz dele mais perto, como se estivesse olhando-a de canto de olho, porém não ousou levantar a cabeça.
Luka respirou fundo e parou de se encolher.
– Fui eu quem começou a briga daquele dia; eu falei coisas de propósito para que Kaito me batesse e você visse. – O peito dele parou de se mover. – Fui eu quem fez Miku separar os grupos do jeito que estão. E fui eu quem apagou as mensagens, fotos e qualquer outro vestígio de Kaito no seu celular, quando você não estava vendo.
Ela soltou-o receosamente e se afastou. Alguns minutos se passaram sem que ele se virasse ou falasse com ela. Luka não se arrependia do que havia feito, porém ela sabia que aquele não foi o melhor jeito de reclamar o que era seu. E, àquela altura, já era odiada pela única pessoa com quem se importava agora.
Gakupo virou-se e a viu com os dedos inclinados sobre o rosto, tentando não expressar fraqueza. Mas era evidente que estava chorando.
– E? – Ela retirou as mãos por um segundo e o viu olhando-a de queixo erguido. Seus olhos eram intensos.
Luka engoliu em seco e voltou a se esconder. Sua voz saiu trêmula.
– O que você ainda quer que eu fale? Eu estou esperando você falar alguma coisa.
– Você não respondeu minha pergunta. – Cruzou os braços.
Ela apertou um pouco mais os dedos.
– Eu fiz isso porque... Eu... Eu não posso mais dividir você com ninguém!
Gakupo arqueou as sobrancelhas.
– Eu costumava odiar você, porque você sempre mexeu comigo de um modo que eu não entendia. Você tinha roupas legais, um jeito engraçado, e eu sentia inveja da atenção que lhe davam; mas mal sabia eu que só queria poder ser o seu único centro de atenção. E eu sempre soube que era a mesma coisa com o Kaito. A diferença era apenas o que nós dois significávamos para você.
Ela enxugou as lágrimas e ele abaixou a cabeça. Sua expressão era de dor.
– E eu tentei de tudo para chamar sua atenção. Eu tentei fingir uma personalidade fofa, que nunca tive; tentei fazer com que Kaito parecesse um imbecil aos seus olhos, assim você odiaria ficar perto dele. – Soluçou. – Tem tanta coisa que não dá para listar tudo.
Luka parou por um momento para respirar, e então, arregalou levemente os olhos. Gakupo havia pegado na cintura dela, como forma de encorajá-la a continuar.
– Mas mesmo você namorando o Kaito, eu sempre senti que... – Ela tocou o rosto dele. – Nunca foi bem assim.
Ele fechou os olhos devagar.
– E... Quando senti que você já me olhava do jeito que sempre sonhei, eu sabia que só precisava esperar, e você viria até mim. Mas eu já esperei tempo demais. E, já que eu falei tudo, agora é sua vez.
Gakupo sorriu e tocou a mão dela que estava em seu rosto.
– Você sempre conseguiu me ler de tal maneira que ninguém nunca conseguiu. Eu fiquei impressionado no começo, e depois esse sentimento foi crescendo... Queria que soubesse de duas coisas: seu esforço foi desnecessário. Se você apenas tivesse me dito essas coisas, nada disso teria acontecido. Eu teria escolhido você desde o começo.
Os olhos de Luka brilharam e sua boca abriu levemente.
– E a segunda é... Talvez queira saber por que fiquei com Kaito se sempre me senti assim... – Ele levantou a cabeça e virou os olhos para o lado. – Minhas brigas com Kaito sempre foram divertidas. Eu o via como um irmão. Alguém com quem eu podia contar até mesmo quando me sentisse sozinho, embora nosso jeito de expressar esse sentimento fosse de tal maneira bruta. Mas ele começou a agir de um modo estranho; eu me senti confuso com as coisas mudando tão de repente, e como consequência disso... Acabei dormindo com ele. – Coçou a nuca.
Ambos ficaram tensos.
– E só depois de feita a besteira que eu fui perceber. Eu havia cometido um erro em me aproveitar do amor de Kaito só por causa de minha curiosidade. Porém quando tentei dizer isso a ele, eu me assustei com sua reação. Ele estava em um estado caótico, e... Não pude simplesmente deixá-lo. Não pude destruir sua felicidade. E mesmo que eu tivesse aprendido a gostar um pouco dele, ele ainda não era a pessoa que eu amava. Por isso continuei agindo dessa maneira.
Luka estava boquiaberta. Ela sabia o que Gakupo sentia por ela, mas achou realmente que ele gostava de Kaito da mesma maneira. Ela, por fim, abraçou-o.
– O que vamos fazer agora? – Ele retribuiu, abraçando-a pelo pescoço.
– ... Eu não posso mais mentir para ele. Uma hora isso teria de acabar.
Ela levantou a cabeça para olhá-lo nos olhos. Ele sorriu ternamente.
– Você não tem ideia do quanto esperei por esse momento. Tê-la em meus braços.
– Gackpoid-sama, eu...
– Por que ainda me chama assim? É muito formal. Só “Gakupo”, ne?
As bochechas dela coraram levemente.
– Gakupo, eu... Amo você.
Ele abriu um sorriso e seus olhos brilharam.
– Eu também a amo, Luka.
Ele beijou sua testa e depois seus lábios. Ambos sorriram entre o beijo.
Meiko retirou suas mãos da porta e se levantou paulatinamente do chão. As mãos se dirigiram à cabeça. Andou meio cambaleante por alguns corredores, esbarrando em funcionários — que berravam que o show estava para começar. Ela não lhes deu ouvidos. Andou até que se encostou a uma parede. Escorregou pausadamente. Quando suas pernas atingiram o chão, Meiko se encolheu e abraçou-as, enterrando seu rosto entre elas.
.....
24 de dezembro, 9h da manhã
Len, Rin, Kaito e o Diretor estavam olhando confusos para Miku e Vy2. Ambos estavam parados um ao lado do outro na frente da mesa do café da manhã. Pareciam ter passado por um furacão.
– Ué... Vocês acordaram na mesma hora? Nem desceram com a gente. – Rin levou a colher à boca.
– Não foi bem assim... Foi, mas não foi. – Vy2 puxou o gorro para cobrir-lhe os olhos.
Len suspirou impaciente.
– Quando eu fui buscar vocês, eu vi que Miku não dormiu com Rin, e sim com você. – O Diretor disse, olhando peculiarmente para Vy2.
O rapaz encolheu.
– N-não aconteceu nada! Ele não fez nada a mim, eu juro! – Miku ficou na frente dele e balançou as mãos freneticamente.
– Tudo bem, eu confio em vocês. – Ele cruzou os dedos na frente do rosto. – Mas qual o motivo dessa troca? Sabem que garotos não dormem no mesmo quarto com garotas.
– Só se forem namorados, ne Diretor? – Rin sorriu, falando alto.
Miku e Vy2 puxaram mais ar, e depois disso silêncio na mesa.
– ... Hã? – Kaito pendeu a cabeça.
– Espera um pouco ae! – Rin se levantou e ficou em pé na cadeira. – Como assim?
– Nee-chan, desça daí. – Len puxou os shorts da irmã.
– Não me segura, Len. Não me segura! – Rin chutou o ombro dele e olhou para os dois.
– Quem é que ta te segurando aqui, criatura? – Passou a mão no local machucado e afastou-se um pouco.
– M-mas por quê? Quando? Como? – Ela flexionou os braços abertos para frente.
Miku e Vy2 olharam um para o outro e sorriram. O Diretor levantou a sobrancelha.
– Então... Estão namorando ou não? – Indagou.
Eles não responderam.
– Quê? Vocês estão namorando? – Kaito bateu a mão com força na mesa. – Desde quando?
– Como assim, Kaito? – Miku cruzou os braços.
– Kaito?? – Exclamaram o Diretor e Rin.
– Que foi, gente? – Kaito ficou roxo de medo.
– Você não, Kaito-onii-chan. – Rin balançou as mãos como se o estivesse enxotando. – É que Miku-sama nunca chamou você desse jeito.
– E daí, cara? Quem liga para isso? – Len jogou a cabeça para trás e puxou o rosto para baixo.
– Enfim, parem de fugir do assunto. – O Diretor apertou um dos olhos e começou a falar entortando a boca. – Vão me responder ou não, Vy2 Yuuma e Hatsune Miku?
– Por que fica perguntando isso toda hora se já sabe a resposta? – Vy2 franziu o cenho.
– Ele gosta de se torturar. – Kaito riu.
– É por isso que perde os últimos fios de cabelo. – Len retornou a cabeça.
– Eu ainda tenho cabelo tá? Olhem aqui! – Ele puxou uma mecha fina de sua careca e se inclinou sobre os garotos. – Por acaso vocês são cegos? São cegos?
– Que é isso, véi, a gente não é cego não! – Vy2 balançou a cabeça freneticamente.
– Calem a boca! – Rin gritou e muitas pessoas no local viraram para olhá-los. – Eu fiz perguntas simples e quero que sejam respondidas! – Ela parecia muito nervosa.
Miku foi até Rin e tirou-a de cima da cadeira. A garota se sentou e arregalou os olhos.
– Nós nos acertamos hoje de madrugada depois de uma discussão. Eu e Yuuma-kun estamos juntos, sim. Eu o amo e ele também me ama.
O Diretor engasgou e Vy2 puxou o gorro até o nariz, dando um pequeno sorriso.
– Mas não se preocupe, isso não significa que ficaremos grudados ou algo do tipo. Nós sempre daremos atenção a você, ok?
Rin levantou-se correndo. Puxou Miku pela mão e juntou com a de Vy2.
– Essa é minha resposta. – Fez um “V” com a mão.
– Hoe, hoe. Quem disse que eu deixei? – O Diretor cruzou os braços.
Os dois viraram o pescoço para ele, meio ruborizados e com olhares felizes. Ele pôde ver o brilho de mangás shoujo em todo o ambiente.
– ... Deixa pra lá. – Uma lágrima caiu de seu olho. Levantou-se e abraçou um por um. – Mas olhem aqui! Eu não quero saber de gravidez!
Miku gritou de vergonha e o jogou longe. Vy2 segurou seus braços para que não batesse nele e nos outros também.
– Por que o diretor só pensa em sacanagem? – Kaito estava com a cabeça apoiada em uma das mãos.
– Olha quem fala. – Len murmurou para si mesmo.
– “Sacanagem”? “Gravidez”? – Rin pôs o indicador na boca.
– É, onee-chan. Gravidez é quando a mulher está esperando um bebê. E sacanagem... É sacanagem. – Bocejou.
– Não! Os bebês vêm das cegonhas. – Ela deixou o rosto bem próximo ao do irmão.
O garoto fez uma careta pela aproximação.
– Rin, pare de bobagens. – Kaito se levantou com um olhar sério e ajeitou a franja.
Todos olharam para ele surpresos.
– Os bebês vêm das empresas Vocaloid, sua tola. Eles são produzidos lá e mandados ao mercado. – Abriu um largo sorriso.
O Diretor bateu no próprio rosto.
– Aaaah, faz sentido. – Rin arregalou os olhos.
– E não é? Hohohoho – Kaito riu vitoriosamente.
– Chega de viver. – Len se jogou em cima da mesa. Depois se levantou, e foi embora.
– Espera, aonde você vai, Len-kun? – Rin correu atrás dele.
E enquanto isso, Vy2 ainda estava tentando conter uma Miku se debatendo de vergonha.
.....
25 de dezembro
Por volta da hora do almoço, eles já estavam no avião que os levaria de volta para o Japão. Pelos cálculos do Diretor os outros vocaloids chegariam um pouco mais cedo ou mais tarde que o grupo que ele acompanhava. Depois de muita choradeira e promessas que não machucaria Miku, Kaito conseguiu sentar-se ao lado dela no avião. Ele contou-lhe alguns detalhes de sua vida referente ao vocaloid de cabelos roxos, já que não era mais necessário esconder de ninguém, e porque Miku era uma senpai do amor agora. Isso na cabeça do rapaz.
Ela ficou muito surpresa com o romance dos dois e fez inúmeras perguntas sobre como isso aconteceu. Kaito respondeu a todas e omitiu algumas informações não convenientes. Depois de fazer uma autobiografia, ele pôde finalmente chegar no assunto que queria.
– Como já vai ter passado o natal quando chegarmos em casa, eu queria dar alguma coisa de presente para o Gakupo. – Batia um indicador no outro.
– E quer que eu vá com você comprar um? Kaito, por que não fez isso lá em Nova-
– Não. Não vou comprar um presente. – Balançou as mãos. – Eu quero cozinhar para ele.
Os olhos de Miku brilharam de entusiasmo.
– Nossa, mas que legal! – Ficou de joelhos no assento. – Isso é muito bonito de sua parte!
Ele corou e bagunçou o próprio cabelo.
– O que você quer cozinhar? Eu te ensino! – Juntou as mãos.
– Queria fazer um bolo de chocolate com recheio de coco. Eu já o vi ficar muito feliz com um desses; fizeram num aniversário dele.
– Mas ele não gosta de berinjela?
– Acredite ou não, ele não gosta de bolo de berinjela. Simplesmente baixou um bom senso na cabeça dele para alguma coisa. – Uma gota desceu por sua testa.
– Que tal se fizesse um de chocolate com coco em forma de coração, então?
– Hã? Mas isso é muito... – Kaito ficou vermelho.
– Kaito, não vai me dizer que isso é muito gay. – Miku cruzou os braços e sorriu malvadamente. – Depois de tudo o que falou, isso é até meio hetero.
O garoto não sabia se ria ou se enfiava a cabeça em algum buraco entre os bancos. Ela riu até ir parando aos poucos. Levantou um pouco o corpo e a cabeça na direção de onde estava Vy2. Ele mexia na playlist de seu celular, porém notou na mesma hora que era observado e dirigiu um sorriso brando à garota.
Kaito percebeu a expressão triste que ela tinha em seu rosto e sorriu compreensivamente.
– Pode ir.
– Hã? ... O que disse?
– Você já me escutou e vai me ajudar. Eu agradeço muito por isso. Agora pode ir lá ficar com ele. – Se encolheu para dar passagem entre as cadeiras.
Miku levantou-se hesitantemente, olhando nos olhos azuis.
– Obrigada.
Como ela se apressou para chegar do outro lado, acabou por tropeçar na perna de um passageiro. Teria caído de frente e batido a cabeça nas cadeiras se não fosse pelo braço de VY2, que a segurou.
– O que está fazendo? – Ele riu levemente. – Não fique se machucando sem motivos.
Miku abraçou-o e ele a levou para perto da janela do avião, onde estava sentado. Kaito riu quando o Diretor ficou com o olho maior que a cara e com ciúmes ao ver a cena de longe. Ele certamente tentaria fazer algo parecido, com Gakupo, qualquer dia desses.
.....
26 de dezembro, 13h15 da tarde.
– Aaaaah! – Kaito berrou.
Ele jogou seu cachecol no chão e pulou freneticamente na ponta, onde pegava fogo. Miku estava com o cotovelo apoiado na enorme pia, com uma cara de tédio. Ela encheu um pote com água e jogou em cima dos pés de Kaito. As chamas imediatamente cessaram. Ele enxugou as lágrimas dos cantos dos olhos e abriu bem a boca.
– Nossa! Como você fez isso?
– Kaito, só você mesmo para conseguir queimar um cachecol fazendo chocolate. – Ela puxou o rosto para baixo.
– Mas ele encostou na boca do fogão! – Levantou as mãos para cima.
– Se ele está atrapalhando, então o tire.
– Não. – Fungou e abraçou o tecido. – Ele nunca está atrapalhando.
– Bom, agora está. Para fazer isso direito, vai ter que tirá-lo. – Miku pegou um pano e começou a limpar onde estava sujo.
Kaito fechou os olhos por um momento e então jogou o cachecol longe.
– Vou fazer isso pelo Gakupo.
– Não precisa desse drama todo. – Riu a garota. – É só que não precisa dele agora. Estamos no aquecedor.
– Ok então. – Estalou os dedos e puxou as mangas de sua camisa preta.
– Olhando assim até parece que você sabe de tudo. – Riu alto.
– Você vai ficar aí tirando sarro da minha cara ou vai me ajudar? – Kaito corou violentamente.
– Hai hai. – Limpou as lágrimas. – Agora que aprendeu a ligar o fogo, pega o leite, os ovos, a manteiga e o chocolate na geladeira.
– Pera pera, vai devagar. Primeiro é o quê?
– Ah, ia esquecendo o fermento em pó. E já que eu não alcanço a prateleira ali de cima, você também vai pegar a fôrma para o coração. Não se esqueça do doce de coco que vamos usar como recheio que também está na geladeira e do-
– Aaaaah! – Jogou o avental com tudo no chão.
Miku riu de novo e o levou para pegar os ingredientes que citou.
– Eu realmente não faço ideia de como você aprendeu a tocar Baixo.
Kaito levou o dia todo para aprender a fazer um bolo, com inúmeras tentativas frustradas. Alguns ficaram grandes demais, outros do tamanho de um cupcake; alguns pareciam uma pizza, outros nem pareciam um coração. Teve que jogar os “imperfeitos” no lixo e pensou até em dar pedaços destes para Luka e Len. Ele, também, conseguiu se cortar com a faca ao ajeitar o formato do bolo. Várias vezes. Queimou-se também ao passar o chocolate quente para a fôrma e vice versa. Mas, por fim, quando fez tudo direito, a sobremesa saiu até mais bonita do que na revista que Miku usava como modelo. Ele confeitou e escreveu “Feliz natal” em cima.
– Não vai escrever “Eu amo você”? – Miku lhe dirigiu um sorriso malicioso.
– ... – Kaito virou o rosto já vermelho novamente.
– Vai logo. Eu quero ver você fazendo isso. – Ela subiu em uma cadeira para olhar e apoiou o rosto nas mãos.
Kaito suspirou e fez o que ela pediu. Ele ficou um tempo olhando seu presente com um sorriso bobo nos lábios. Miku reparou que ele apertava os dedos fortemente, eles ainda sangravam. Eles saíram da cozinha e ela pegou seus fones borboleta para achar Vy2. Como ele estava sempre de fones, iria atender em pouco tempo.
– Eu achei que tivesse dito que não iria ficar grudada nele. – Kaito riu, enquanto ajeitava o embrulho do bolo.
– E eu não estou. – Ela mudou o microfone de lugar. – Só to pedindo que ele procure alguns band-aids no meu quarto.
– Band-aids para que? – Arqueou uma sobrancelha.
– Você já olhou suas mãos? Parece até que um gato arranhou seus dedos!
Kaito olhou para as mãos e viu que um pouco de sangue estava sujando o presente.
– Aaaaah! – Ele desequilibrou.
– Não faz isso! – Ela pegou rapidamente o bolo. – Como é que você não nota quando está ferido?
– Eu só noto na hora, depois esqueço. – Choramingou.
Miku rolou os olhos e se despediu de Vy2.
– Escuta... Por que não dorme enquanto ele não chega? – Sugeriu. – Você passou o dia fazendo isso, não vai querer estar parecendo uma mucura quando der esse bolo a ele, não é?
Kaito fez uma careta de indignação no começo, mas então assentiu.
– Ok, você me avisa quando ele chegar?
– Naturalmente. – Sorriu. – Eu e Yuuma-kun vamos estar na recepção para recebê-los.
– Quando se encontrarem, peça para ele me encontrar na cobertura da empresa, ta?
– Hai!
Kaito parou e Miku também. Ele pegou o bolo cuidadosamente e se despediu, indo para seu quarto. Vy2 estava de pé à sua porta, esperando para entregar os band-aids. Kaito tentou falar alguma coisa, mas o outro apenas fez o que tinha que fazer e saiu quase que correndo. O vocaloid se perguntou, sinceramente, qual era o problema dele.
.....
22h da noite do mesmo dia
A neve caía agradavelmente nesse horário. Os funcionários da empresa Crypton estavam todos se despedindo entre si e entregando presentes, mesmo que o natal houvesse sido no dia anterior. Uma minoria ficou na recepção para receber dois grupos de vocaloids que ficaram de chegar nesse mesmo dia. Vy2 estava sentado em um sofá, com um braço em volta de Miku, vigiando a porta. Ela, por sua vez, estava deitada no ombro dele; abria e fechava os olhos de vez em quando, tentando se manter acordada. À frente deles estava Mikuo, dando escândalos sobre coisas como: os dois estarem naquela posição na frente dele.
Nas ruas as pessoas já saíam ou chegavam a seus trabalhos. O movimento de carros não estava tão grande, porém havia muitas pessoas nas ruas para compensar isso.
E, por volta de 22h30 da noite, tal agitação já estava parando, inexplicavelmente.
Neste exato horário, o grupo de Meiko, Gakupo, Kiyoteru e Luka chegou. Os funcionários e o Diretor correram tanto para ajudá-los com as malas quanto saudá-los. O primeiro a entrar foi Kiyoteru, que estava com seu sorriso gentil no rosto como sempre. Vy2 foi até a porta segurando uma bandeja com bolinhos e Miku deu um deles para Kiyoteru. Ela havia os feito depois que Kaito foi para seu quarto dormir, como presentes para seus amigos. O vocaloid aceitou de bom grado e saiu arrastando um Mikuo irritado de lá.
Em seguida, veio Meiko. Ela parecia tão cansada que Miku pensou que se a tocasse ela desabaria no chão. Tinha olheiras e olhava fixamente para baixo. Como estava quase derrubando as malas, alguns funcionários vieram e tiraram-nas dela; Meiko pegou o celular e olhou a hora. Miku ofereceu um bolinho; a vocaloid de cabelos castanhos suspirou um baixo agradecimento, saindo lentamente em seguida.
Luka foi a terceira pessoa a aparecer. Ela andava com um ar de superioridade e um sorriso sarcástico desenhava seus lábios. Ignorou a ajuda dos funcionários e levou suas malas ela mesma.
Vy2 se aproximou da orelha de Miku e entortou um sorriso ao falar.
– Será se ela não quer um tapete vermelho pra completar?
Ela pôs a mão na boca e se segurou muito para não rir. Ofereceu um bolinho rosa para a vocaloid, que o pegou sem olhar para ela. Os dois ficaram com cara de paisagem.
Alguns minutos depois, Gakupo subiu as escadas da entrada com as mãos nos bolsos. Ele não usava roupas grossas de frio, apenas um cachecol roxo e uma camisa de mangas longas preta. Miku começou a dar pulinhos de ansiedade e Vy2 segurou seu ombro para ela se acalmar. Quando o vocaloid lhes dirigiu seu olhar, ambos paralisaram. Ele estava sério, embora parecesse estar calmo. Foi em direção a eles.
– Gakupo-kun, boa noite. Espero que tenha tido uma ótima viagem. – Miku abriu um largo sorriso.
– É...
Ela piscou algumas vezes.
– Etto... Aceita um boli-? – Ela ia oferecer um, porém ele a interrompeu.
– Onde está Kaito?
Vy2 arqueou uma sobrancelha, estranhando; já Miku pareceu muito feliz.
– Ah, ele pediu que você fosse lá na cobertura do prédio! Ele está te esperando!
Gakupo tensionou os ombros e virou os olhos para cima, como se assim pudesse ver Kaito em tal lugar.
– Está bem.
Ele andou sem pressa em direção ao elevador. Vy2 expirou e cruzou os braços.
– O que foi, Yuuma-kun? – Ela virou-se para ele, preocupada.
– Nada não. – Sorriu, enrolando uma mecha de cabelo dela.
Os dois olharam para o elevador, que acabava de se fechar.
.....
Kaito estava sentado sobre um pano xadrez que estendeu no chão. Ele estava, mais uma vez, sentindo seu estômago revirar. Já havia checado a temperatura do bolo várias vezes; limpado os pequenos pratos e os talheres com um pano; arrumado a franja e os fios rebeldes repetidamente; andado pra lá e pra cá tanto para aquecer seu corpo quanto pelo nervosismo; cantado várias músicas, etc. Suas mãos tremiam. Sentia um aperto reconfortante no peito..
No momento em que puxou sua camisa na área onde ficava seu coração, a única porta de entrada para aquele lugar rangeu. Ele a observou se abrir com os olhos brilhando.
Gakupo olhou primeiro para o céu e depois para ele. Seus olhos estavam lamuriosos. Mesmo assim, Kaito não conseguiu conter um largo sorriso. Ele correu para abraçá-lo, envolvendo o pescoço do outro com seus braços. Gakupo não se moveu.
– Ei, como é que foi sua viagem? Como é lá em Se-alguma-coisa? Tava frio lá também? Puxa, você não sabe o quanto eu senti sua falta!
O mais alto empurrou Kaito suavemente pelos ombros e olhou-o nos olhos, sorrindo tristemente.
– V-Você também sentiu minha falta, não é? – Ele forçou um pouco o sorriso. – Ah! Por que não respondeu minhas mensagens, seu idiota? Você, pelo menos, viu as fotos de onde eu estava?
– ...
– E-er... – Kaito apertou as mãos uma na outra.
Ele correu até onde estavam as coisas que havia preparado. Planejava levar Gakupo até lá, mas por algum motivo estava inquieto. Pegou o bolo e foi até o rapaz.
– Olha, eu fiz para você. Passamos tanto tempo sem nos ver e... No natal também... Isto aqui é meio que um presente.
Gakupo voltou seus olhos para a sobremesa. Estava tão bem decorada. Mas ele conseguiu sentir nada ao vê-la.
Kaito estava com o bolo apontado para ele, esperando que ele pegasse. Aos poucos, suas mãos começaram a tremer violentamente.
– Se está pesado, solte-o. – Gakupo levantou a cabeça para olhá-lo.
– ... N-não está. – Kaito estava de cabeça baixa. A franja cobrindo seus olhos.
– ...
– Não quero soltar. – Sua voz tremeu.
Gakupo contornou-o e andou até o pano no chão. O vocaloid de cabelos azuis permaneceu inerte.
– S-se... – Falou alto. – Se não gostou, eu posso fazer outro. O-ou dar outra coisa.
O outro percebeu que Kaito estava confuso.
Ele queria ter todo o tempo do mundo para falar com ele sobre isso, mas não tinha.
– Kaito...
Ele queria poder resolver o assunto sem desentendimentos, mas seria impossível.
– Olhe para mim.
O garoto virou lentamente. Embora estivesse com um sorriso pequeno no rosto, seus olhos estavam marejados.
Ele queria poder não ter que passar por isso; ele queria que nada disso tivesse acontecido. Mas agora...
– J-já sei o que vai dizer. – Riu fracamente, e andou até Gakupo. – “B-BaKaito, que homem gostaria de algo t-tão feminino assim?” Haha eu já disse que posso fazer melhor.
O outro estreitou os olhos.
– Mas n-não quer mesmo provar? É o seu favorito! – Ele ia oferecer novamente.
Gakupo bateu nas mãos dele e o bolo se esparramou no chão.
Agora era tarde demais.
Kaito ficou imóvel, as mãos posicionadas como se ainda estivessem segurando o alimento.
– Viu? Era só soltar. Não está mais leve agora?
O outro demorou um pouco para responder. Abaixou-se para ver o estrago, e com um fio de voz voltou a falar.
– E-está. Não precisa se preocupar, d-deixa que eu.... Que eu limpo. – Ele puxou o pano cuidadosamente para os pratos não caírem no chão.
Gakupo observou os band-aids nas mãos de Kaito. Suspirou pesadamente e virou de costas.
– Esqueça.
– Esquecer o quê? – Kaito forçou um sorriso, enquanto limpava as lágrimas. – Se eu não limpar, o Diretor-
– Não estou falando disso.
O vocaloid de cabelos azuis olhou na direção do outro. Ele mal conseguia segurar o pano direito.
– Estou falando de mim... E de você.
– ... Ga... G-Gakupo, o que- — Soluçou.
– Eu nem comecei a conversa direito e você já está chorando? – Ele falou em um tom grosseiro. – Pare com isso, é irritante.
A mandíbula de Kaito pareceu pesar mais que o normal.
– P-por que está dizendo isso?
– Porque, Kaito...
Ele suspirou longamente e pausou. Momento que durou milênios para o garoto de joelhos no chão.
– Eu, simplesmente, cansei.
Os sons da cidade pareceram ficar inaudíveis. A neve engrossou; ficou tão difícil respirar que Kaito pensou que seus pulmões haviam perdido a vontade de se movimentarem. As únicas cores vívidas da noite começaram a se entristecer, e deram lugar ao cinza opaco.
– Eu cansei de você.
Kaito arregalou lentamente os olhos. Seu sorriso forçado desapareceu tão rápido quanto surgiu. Ele levantou-se cambaleando, as lágrimas eram tão grossas que ele só podia ver a cor roxa dos cabelos do outro.
– O-o q-que eu fiz? D-diga, G-Ga... E-eu fiz algo errado?
– Pare de gaguejar. – Bufou.
– P-por favor, me desculpe. – Pôs as mãos na boca para tentar conter o choro.
– O erro aqui foi termos, um dia, nos envolvido.
– Foi a Luka, não foi? Ela fez sua cabeça nessa maldita viagem! Eu sabia que não devi- Kaito começou a gritar.
– Não envolva Luka nisso! Não pense que esqueci sua covardia de bater nela! – Ele virou-se e lhe dirigiu um olhar furioso.
Kaito cobriu a boca novamente para abafar os soluços e fechou os olhos com força.
– Gakupo, por favor... Não.
– Nós dois sabíamos que esse dia chegaria... A não ser que você estivesse pensando que eu iria ficar com você pelo resto das nossas vidas. – Arqueou as sobrancelhas.
– M-mas você me ama, certo? Por que não ficaria? – Kaito correu até ele e agarrou sua gola. – Não pode me deixar! Não me deixe, por favor!
– É melhor assim. Nós dois já vivemos tempo demais nessa ilusão.
– Não foi uma ilusão pra mim! Tudo o que passamos juntos foi mentira? Por favor, me diga que não! – Ele encostou sua cabeça no peito de Gakupo. – Não vá embora, por favor!
O outro apoiou o pé mais atrás para Kaito não derrubá-lo.
– Amor não se implora, Kaito. É algo que acontece de repente, no lugar que menos esperamos, com quem menos esperamos. Você não pode exigir que eu o ame.
– Eu não estou exigindo! Você me ama! Você me amou desde o começo, ne? Está só confuso! Se você se lembrar de tudo o que fizemos juntos, tenho certeza que tudo vai ser como antes!
Gakupo o empurrou novamente. Ele virou as costas para o garoto e foi em direção à porta da cobertura.
– Não vá embora! – Kaito correu até ele e se agachou para segurar suas pernas. – Não me deixe, eu imploro!
– Me solta, seu doente! – Puxou a perna que estava presa.
– Não! Gakupo, eu prometo... – Soluçou repetidamente e abaixou a cabeça. – Se me der mais uma chance, eu vou mudar! Eu não vou mais ser lento; vou parar de fazer perguntas idiotas, vou ser mais maduro, eu vou fazer tudo o que você disser!
– Pare com isso! Você está se humilhando! – Sacudiu a perna com mais força.
– Não estou! Se isso fizer você dizer mais uma vez que me ama, eu farei sem arrependimentos! – Ele arranhou a perna do outro, tentando puxá-lo para baixo.
Gakupo arregalou os olhos. Ele observou Kaito por um momento. Ele não reconhecia aquela pessoa aos seus pés. Quem era essa pessoa que não tinha nenhum amor próprio? Aquele não era Kaito. Ele estava claramente se humilhando, desistindo da sua própria personalidade por um amor doentio. E ele não estava nem um pouco interessado em alguém assim. Gakupo puxou a perna de vez, fazendo Kaito cair no chão.
– Você não entendeu ainda...
Kaito olhou para ele, seus olhos mostravam desespero, e as lágrimas ainda caíam com força. O outro virou de costas e o encarou inexpressivamente por cima dos ombros.
– Kaito... Alguma vez eu disse que te amava?
Pequenas rugas se formaram ao redor dos olhos azul-escuro, agora quase cinzentos. Os braços que tentavam alcançar as pernas da pessoa que amava perderam suas últimas forças. Os joelhos falharam e o fizeram ficar sentado e imóvel; tremiam tanto que nem conseguiria levantar. A calça estava suja por estar em cima da sobremesa que fez, e nem sequer percebeu isso. Gakupo abraçou o próprio corpo, não só por causa do frio, mas pelo clima pesado. Ele recolheu os panos e olhou Kaito uma última vez, antes de sair.
E eu nem sei mais por que é que estou aqui
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