Arrependimentos de uma viúva
1 Capítulo único
Notas iniciais
Espero que gostem. :)
Vejo o anel, largo, folgar, no dedo que tempos atrás carregava apenas o seu igual. A luz do sol reflete no bocado de metal em que gravamos as nossas iniciais; impede-me de vê-las, de me torturar com a recordação.
Tudo à minha volta sussurra o teu nome, a lembrança da tua voz — mas não te consigo sentir de verdade; penso no teu rosto e já não o vejo nítido. Os anos já não me deixam fazê-lo. Ah! Quisera eu ter mais um pouco contigo, dois dias que fossem, dois dias em que eu poderia avivar esta minha memória de velha, matar as saudades… — …Não. As saudades não se matam, meu querido; não as tuas. Estas nunca morrerão, e não quero que morram (prefiro, antes, que matem a mim…), porque seria como perder o que me resta de ti, a parte de mim que ainda carrega-te, vivo, dentro do meu peito. Matá-las seria como dizer que já não preciso da tua companhia, do teu abraço, da tua simples existência; dizer que estou satisfeita, que foi o suficiente. Como haveria eu de o querer? Mas dói-me não te ter mais aqui. O tempo apaga-me as lembranças, sabes? Sutilmente, como migalhas varridas pelo vento… Leva-me com tanta facilidade aquilo que eu me esforcei tanto para guardar. De que me servem agora as fotografias, as cartas, tudo — se mal consigo me recordar das sensações? Quero ouvir-te a falar do teu livro preferido outra vez, apenas pelo brilho que surgia nos teus olhos; quero adormecer à tua beira mais uma noite, ou mesmo uma tarde, e sentir outra vez o calor a emanar do teu corpo, aquecer-me a alma que ficou enregelada desde que tu partiste; quero ouvir outra vez o teu riso, aquele que mostrava o coração jovem que tinhas. Quero registar outra vez estes momentos que eu nunca percebi que gostava. Não quero esquecer… Oh, não me deixes esquecer. Deveria ter aproveitado mais a tua companhia. Deveria ter sorrido mais — tu sempre dizias que gostavas de me ver sorrir… Não dizias? Deveria ter congelado cada pequeno momento, como num filme, e poder revê-las todas, estas memórias que já não me alcançam; quando foi que parei de o fazer? Quando foi que parei de dizer, todos os dias, que te amava? Não me lembro, não me lembro… E isso assusta-me. Quando foi que comecei a esquecer? Os médicos dizem-me que tenho alzheimer. Conheço este nome, conheço-o bem; a mesma doença que arrancou-te de mim, muito antes de tu partires. Tenho medo. Não disto, não deste nome complicado que vem com todas aquelas precauções. O meu medo é do destino inevitável — de, pouco a pouco, as lembranças desintegrarem-se, arrancando de mim a essência do que sou; a essência do que fomos. Pesa-me o peito quando acordo sem ti. Custa-me não te ter mais ao meu lado. E angustia-me pensar viver num mundo em que já não sentirei esta dor, pois já nem mais sentirei sequer a tua falta. De que me valeria tudo sussurrar o teu nome, se eu já não conseguiria ouvi-lo? Fizeste-me prometer que nunca deitaria uma lágrima por tua causa. Perdoas-me agora, não perdoas? Faço-o por receio, não por tristeza; pelo temor de me tornar uma alma onde tu já não existes. Isto é culpa tua… Por isso, tu perdoas-me?… Perdoas-me por chorar, após todos estes anos, por ti? Perdoas-me por ter tido medo? Quando os médicos vierem e eu finalmente puder ir para a tua beira outra vez… Tu perdoas-me?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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