Arrepender
1 Arrepender
Notas iniciais
Arrepender
O grande salão estava decorado com as cores de Gryffindor. Uma vitória difícil, mas merecida da casa depois do último ano agitado. Liberdade da escola, mas a iminência de uma guerra não o deixava calmo. O mundo mágico estava em polvorosa com a ascensão cada vez maior de Voldemort.
Mas nenhuma dessas preocupações importavam no momento, não quando os olhos cinzas observavam um certo casal. Os amigos haviam ido à biblioteca, livrar-se das últimas pendências de empréstimos antes do fim do ano letivo, enquanto ele andava distraído pelos terrenos da escola, aproveitando do tempo fresco da primavera, anunciando o calor o verão iria trazer nas próximas semanas.
— Você parece distraído Black. — uma voz feminina lhe chamou a atenção.
— Achei que estava na biblioteca Meadowes.
— Lupin e Pettigrew decidiram que Madame Pince precisava de uma ajudinha e devem estar entretidos com a organização dos livros.
Ele riu e observou de relance a moça ao seu lado. Dorcas Meadowes tinha pele escura, os cabelos habitualmente armados e olhos castanhos, que estavam quase fechados, acompanhando quem o rapaz observava.
— Acho que já entendi.
— Entendeu o que? — Sirius questionou, voltando a si, os olhos voltando para ela mais uma vez.
— Mais uma vez observando o casal do ano.
Eles riram com a menção a Lily e James, que andavam de mãos dadas metros à frente.
— Finalmente eles se acertaram. Já não era sem tempo. Ainda mais com todos as brincadeiras irritantes no ano passado.
— Você sabe que se chama "flerte", não é? Mas achei que você tinha conversado com eles. Ao menos com James. Sobre tudo, sabe?
Sirius engoliu em seco. Seus companheiros, tampouco seu melhor amigo, nunca repararam. Mas Dorcas sim. Claro que sim, maldita Ravenclaw, o olhar sempre tão perspicaz. Ela podia adivinhar toda a vida de alguém apenas observando bem a pessoa. Eles se tornaram amigos no terceiro ano, após serem duplas em Feitiços. E com a liberdade e intimidade que a amizade deles tinha, ela acabou por lhe abordar sobre o assunto no ano anterior.
O rapaz conheceu James Potter ainda no Expresso de Hogwarts. E algo naquele dia os tornaram inseparáveis. Remus e Peter se juntaram a eles, e o quarteto ficou conhecido como os Marotos. Mas o laço que havia com James... Ele não conseguia explicar. Era seu amigo, seu confidente até mesmo para as coisas mais obscuras e acabou por se tornar seu irmão quando os Potter o adotaram no último verão, quando fugiu de casa.
James lhe despertava um fascínio que não havia tido com ninguém em todos os anos de escola ou de frequência no círculo de amizades da família Black. Ele mataria se isso fosse garantir a segurança do seu melhor amigo.
Então veio o quinto ano. Eles haviam ido longe demais com Snape? Talvez. Mas nada justificava ele chamar Lily de sangue ruim. Isso havia desmoronado a relação de amizade deles, e foi logo depois que ele abordou a ruiva. Pela primeira vez, eles tiveram uma conversa que não terminou em discussão. Ela estava triste, e talvez isso a fizera se abrir para ele. E tal como o fascínio que possuía pelo seu melhor amigo, ele percebeu que sentia algo semelhante por Lily Evans.
Se antes Sirius se pegava imaginando uma vida pós Hogwarts ao lado de James, às vezes ele sonhava com uma vida onde Lily estava nela de alguma forma. E por muitas vezes, ele idealizava ambos ao seu lado. Isso o deixou confuso por meses. O que diabos de sentimentos eram aqueles?
Até que Lily aceitou o convite de James para sair na primeira visita à Hogsmead do sétimo ano deles. O pedido de namoro veio pouco tempo depois. E algo em Sirius Black parecia quebrar. Era óbvio que ele estava feliz pelo seu melhor amigo, mas se questionou se ainda o teria após a escola. E a ruiva... Ambos ao lado dele. Não como amigos. Mas como amantes. Eles poderiam ser seus amantes? Três pessoas numa relação? Aquilo era loucura! E se não houvesse reciprocidade?
Por fim, Sirius deu um passo para trás. Jamais poderia se pôr no caminho de James. A felicidade dele valia mais do que aquela loucura que se passava em seu coração. Só lhe restava observar e torcer para que houvesse espaço para ele na ceia de natal dos Potter quando tudo se resolvesse.
— Eu não poderia. — ele sussurrou.
— Você não sabe Black.
— Eu os amo. Amo mais do que consigo imaginar. E não suportaria perdê-los. Ainda mais para uma insanidade dessa.
Dorea apenas assentiu, sabendo que o outro não mudaria de ideia, e o olhar dela correu para o casal adiante. Eles haviam parado e o rapaz de cabelos escuros pareceu sussurrar algo para a ruiva, que riu.
— Vai ficar tudo bem?
Ele percebeu a agitação adiante. E o sorriso surgiu nos lábios dele quando Lily Evans aceitou o pedido de um James Potter ajoelhado à frente.
— E por que não ficaria? — Sirius sorriu, apressando-se para se juntar ao casal.
E com a mesma facilidade que aquele sorriso de alegria pelo melhor amigo veio naquele dia, o grito de ódio e frustração saíram de sua boca, quebrando o silêncio daquela noite agitada e fria de final de outubro.
A casa em Godric's Hollow destruída. Na sala de estar estava ele. O corpo caído, inerte. Os olhos opacos e sem vida. Ele se ajoelhou ao seu lado, tomando o corpo nos braços e uivou. James Potter estava morto. O homem que tanto amara e se que fora tão devoto desde os onze anos. Sirius fechou os olhos do outro, depositando um beijo em sua testa e deixou o corpo, subindo as escadas, as pernas trêmulas. O choro de uma criança vinha do quarto próximo e assim que entrou, ele a viu. Os olhos verdes outrora brilhantes como esmeraldas, agora não passava de algo sem graça. Os dedos roçaram em seus cabelos vermelhos e pegou sua mão fria, depositando um beijo ali.
Por céus, como havia acontecido aquilo? Como Lily e James foram encontrados? E o pequeno Harry... O bebê chorava, observando a cena sem entender. Sem saber que aquele homem havia perdido os dois amores de sua vida. Não poderia mais ouvir as risadas do amigo, tampouco receber os sorrisos calorosos da amiga. Nunca teria a oportunidade de sequer cogitar em contar ou não sobre seus sentimentos.
Não muito tempo depois, Hagrid passou pelo que restava da entrada do cômodo. Havia vindo buscar o garoto. Sirius pediu por sua guarda, já que era padrinho, mas o guarda caças de Hogwarts não o entregara. Sirius riu com amargura. Dumbledore não acreditava que o maroto fosse capaz de criar uma criança. Por mais que ele odiasse o velho por essa decisão, ele não podia discordar.
Agora Sirius Black estava sozinho. Sem seu melhor amigo. Sem a mulher que idealizava. Sem as pessoas que mais amara em vida. Amor este que por vezes machucava seu peito.
Alguém havia contado a Voldemort onde James e Lily Potter se escondiam. Só havia uma pessoa possível. E movido por aquele novo sentimento, ele foi em busca de Peter Pettigrew.
— Por quê? — Sirius cuspiu quando encontrou o outro no meio de uma rua deserta. — Porque você fez isso com eles Wormtail?
O outro, de altura menor, parou e se virou para olhá-lo, os olhos miúdos e escuros correndo pelos arredores. Percebeu uma casa acender as luzes.
— Padfoot... Eu soube dos Potter, eles...
— Não fale deles. Não tem esse direito. Apenas você sabia.
— O lorde das trevas... Eu, eu não quis nada disso, eu...
— Você era nosso amigo!
Peter passou a mão pelos cabelos castanhos e tomou uma postura menos defensiva. Percebeu pelo canto do olho que outras casas acendiam as luzes.
— Vocês nunca me consideraram um amigo. Estavam comigo por pena.
Por céus, o que Peter estava falando? Eles eram amigos. Eram os Marotos. Inseparáveis. Haviam passado por muita coisa juntos, não hesitavam de estender as mãos uns aos outros, principalmente quando se tratava de Remus.
Então Sirius pareceu se dar conta de uma coisa. Peter apenas estava com eles para que pudesse atingir níveis satisfatórios na escola e para evitar ser alvo do bullying que eles praticavam. Com amigos maiores e mais poderosos, quem iria mexer com o pequeno Wormtail?
— Não foi isso? Foi por isso que James permitiu que eu andasse com vocês. — Peter questionou, levantando a voz, trazendo o outro de volta à realidade.
— Não fale o nome dele! — Sirius gritou mais uma vez. As primeiras pessoas começavam a sair de suas casas para ver a origem daquela gritaria. — Você tirou tudo de mim. E por uma tolice dessas.
— Eu não tirei nada de você Padfoot. Prongs não era seu, nem mesmo Evans.
O mais alto congelou. Do que ele estava falando? Ele sabia? Impossível. Jamais havia contado a uma alma sequer. Duvidava que a falecida Dorcas Meadowes o tivesse traído e contado aos seus amigos pelas costas dele.
— Acha que eu não reparei? Apenas Prongs era tolo o suficiente para não reparar. Também, ele só se importava com aquela sangue-ruim. Que belo Gryffindor você é. Nem ao menos teve coragem...
— Calado!
Sirius sacou a sua varinha. O ódio tomava conta de si cada vez mais. Quem ele era para julgá-lo? Nem ao menos notou o momento em que as lágrimas deixavam os olhos cinzas, tampouco notou as pessoas se aproximando.
— Você é o culpado pela morte de James e Lily Potter, Padfoot. Foi você que os deixou na mão quando mais precisaram, não lembra? Traiu as pessoas que disse amar. Você, Sirius Black, é um assassino!
Tudo aconteceu muito rápido depois disso. O grito ensandecido que deixou sua garganta, a varinha em punho apontada para o coração do menor. Ele estava pronto para matá-lo, nem que precisasse ir junto.
Entretanto, era claro que Peter usaria os trouxas como um escudo enquanto fosse conveniente. Sem remorso algum, ele causou a explosão que levou à morte dos trouxas, presenciado por outras dezenas, que estavam transtornados pelo que haviam acabado de ver.
Sirius foi jogado para longe. Não morto, mas a consciência oscilando, os ouvidos surdos devido ao impacto da explosão. A única lembrança antes da dor era da figura minúscula se transformando. Peter havia se transformado e certamente fugido para algum lugar longe.
Quando sua consciência voltou, os agentes do Ministério da Magia haviam chegado. Haviam sido rápidos para lidar com a confusão. E com a mesma rapidez, ele foi levado para Azkaban. Não houve julgamento, já que as testemunhas diziam que o pequeno havia gritado que Sirius Black era culpado pelas mortes de um tal de James Potter e sua esposa Lily. Apenas a sentença proferida por Barty Crouch. Culpado pela explosão que havia matado doze trouxas. Culpado pela morte de alguém que não havia morrido. Culpado pela morte dos dois amores de sua vida.
As boas memórias com Lily e James haviam ido embora, restando apenas os corpos caídos em Godric's Hollow para lhe visitar todos os dias. Entretanto, ele sabia que era inocente. Percebeu que a inocência não era um pensamento feliz que pudesse ser roubado pelos dementadores. Agarrando-se ao fato de ser inocente, ele conseguiu reunir forças para se transformar em cachorro.
Os dementadores não conseguiam saber lidar com os pensamentos de um animal, mesmo este sendo humano. Nas poucas vezes que se mantinha transformado, as lembranças de James como cervo correndo pela Floresta Proibida vinha à tona. A risada divertida de Lily ao vê-lo transformado também surgiu. E elas não poderiam ser tiradas.
Mas ver Peter Pettigrew depois de doze anos estampado na capa do Profeta Diário parecia ter reacendido o ódio e o desejo de vingança. Aquilo também não era um pensamento feliz para os dementadores roubarem, e foi o suficiente para reunir as forças que precisava para fugir. Ele encontraria Peter, ele traria justiça a James e Lily.
Até tudo dar errado naquela noite quente de junho. Ele havia encontrado Harry Potter e conseguiu contar o que realmente havia acontecido naquela noite fatídica de 31 de outubro de 1981. Por céus, olhá-lo lhe trazia a imagem de James em seu terceiro ano à sua mente, porém os olhos eram de Lily, tão verdes, determinados, compreensivos, procurando ver a bondade acima de tudo. Era como se pudesse estar com os dois amores de sua vida mais uma vez... E ele poderia ter uma vida digna, poderia finalmente ser tutor do garoto. Mas Peter havia conseguido escapar, levando-o a vida de foragido mais uma vez ao ser liberto por Harry e Hermione.
Os anos seguintes levaria Sirius para longe da Inglaterra. Isso lhe doía, mas não podia trazer nenhum risco a única coisa que restara de James e Lily. Entretanto, com o iminente perigo ao seu afilhado, ele voltou e não poderia mais deixar o país. Ficaria escondido na casa de sua família. Sem nenhum parente vivo, aquele lugar estava vazio, restando apenas Kreacher. E como um esconderijo para ser usado pela nova formação Ordem da Fênix, muitos de seus membros o visitavam com frequência.
Naquele dia, Harry e seus amigos já haviam partido para Hogwarts. Molly e Arthur insistiram em voltar para a Toca, pois com os filhos protegidos na escola, eles conseguiriam dormir despreocupados em casa.
Sirius estava em seu antigo quarto, observando um pedaço de pergaminho e uma foto antiga. Ele ouviu uma batida na porta e viu Remus parado à soleira.
— Achei que tinha partido também Moony.
— Eu vou, mas queria saber como você está antes.
— Vou ficar bem, não se preocupe.
Mas o outro se aproximou e se sentou ao seu lado na cama, observando a foto em mãos.
— Às vezes me pergunto como teria sido. Se Prongs não tivesse morrido.
— Não há um dia que eu não pense nisso. — Sirius confessou. — Não há um dia que eu não sinta falta dele. Ou de Lily.
— Talvez você pudesse ter contado, não é?
Sirius o olhou surpreso.
— Como...?
— Como eu sei que você era apaixonado por James e Lily? Eu sou um bom observador, sabia? Um dia, eu comentei com Wormtail sobre isso e ele achou que fosse apenas um delírio.
Então a noite da morte de James e Lily voltou à sua mente. Peter havia ouvido o que Remus achava. E para ganhar tempo até o momento da explosão que se sucedeu a sua fuga, ele usou essa carta contra Sirius. E havia funcionado, afinal, o ódio que se seguiu depois não o havia permitido ver com clareza o que ele estava planejando fazer.
— Quando ele me chamou de covarde naquela noite. — Sirius começou. — Por não ter contado como me sentia para Prongs, eu fiquei furioso. Furioso por saber que era verdade.
— Por que nunca contou?
— Dorcas havia me perguntado a mesma coisa na escola. Não suportaria perdê-los.
— Você não teria como saber se não contasse Padfoot.
— Eu sei. Por céus, eu sei! — Sirius falou, levantando a voz e passando a mão nos cabelos. — Mas como poderia falar? Prongs, Lily, eu amo vocês? Amo mais do que consigo suportar? E queria ter vocês dois comigo, como meus amantes? Quanta loucura para se contar Moony!
Remus sorriu contido. O braço dele passou pelo do amigo e o trouxe para junto num abraço. E pela primeira vez desde aquela noite, Sirius Black chorou. Chorou ao pensar nos corpos mortos de James e Lily. Chorou por saber que a chance de contá-los havia sido tirada dele. Chorou por saber que não contar o que sentia para seus dois amores havia se tornado o maior arrependimento que possuía.
— Se eu pudesse voltar no tempo, eu gostaria de poder contar isso a eles. Não me importaria de ir embora, desde que isso os mantivesse vivos.
— Não seja tão pessimista assim. Eles o aceitariam.
— Não diga coisas que você não sabe.
— Mesmo que você não os tivesse como queria, Prongs e Lily jamais permitiriam que você partisse. Nem eu, seu idiota. Pense nos seus outros amigos também.
Eles riram. Sirius limpou as lágrimas e trouxe o pergaminho em mãos para um abraço. Ele se agarraria para sempre nas lembranças dos seus amores para continuar. Guardou a carta que Lily havia lhe mandado tantos anos atrás, mesmo que a folha não estivesse em melhores condições ou que não houvesse mais o cheiro de lírios que a ruiva tinha.
E no ano seguinte, quando duelava contra comensais da morte no Ministério da Magia, ele pensava apenas em manter a salvo o legado de James e Lily. Não falharia com Harry. Contudo, quando sentiu o feitiço de Bellatrix Lestrange que o empurrou para o véu no Departamento de Mistérios, ele não lutou. Não sentiu dor. Apenas serenidade. Ali acabava sua vida com toda certeza.
Finalmente, Sirius Black iria se juntar a Lily e James Potter pela eternidade. E algo lhe dizia que seus amigos o aguardavam. Ele poderia contar para eles como se sentia. Eles o abraçariam e o aceitariam. Sentiria seus beijos e se perderia no amor deles.
Notas finais
Bye Bye Beautiful!
Fale com o autor