Arquivo de Crônicas
11 Os 80 do Rei - Dia 23/10/20
Notas iniciais
Desde o início do dia, tenho pensado em como homenagear o maior jogador de todos os tempos. O mais espetacular da história dos campos. O que mais criou jogadas imprevisíveis. O maior representante do Brasil até hoje. O ídolo maior de uma nação. Mesmo com algumas polêmicas envolvendo seu nome, Pelé ainda segue tendo a imagem muito valiosa no mundo inteiro.
Falemos então dele: genal, dentro dos campos. Iniciou com 15 anos no Santos Futebol Clube. Precisou de um ano para entrar em campo, mas o primeiro ato, foi incrível: pelo combinado Vasco/Santos, no gramado do Maracanã, meteu três goles no Belenenses, em um Torneio Amistoso. E para guardar seu lugar nos corações cruzmaltinos, marcou o gol do Vasco, no empate de 1x1 pelo mesmo torneio. Sua gratidão pelo clube do “Expresso da Vitória” jamais deixou de existir.
“O Vasco foi o clube que me abriu as portas. Sem o Vasco, eu nunca teria meu primeiro destaque.”
Estas atuações o levaram pela primeira vez para o escrete nacional. Pela Copa Rocca, em 1957. Os dois duelos contra a Argentina foram muito tensos. E com resultados diferentes, mas com lembranças boas. No primeiro jogo, no Maracanã, derrota por 2x1, tendo marcado o gol de honra. No segundo, no Pacaembu, um gol e um passe na vitória de 2x0. Essas partidas mais as boas atuações com a camisa santista lhe credenciaram a convocação para a primeira copa.
1958 revelou ao mundo um jovem franzino, com um talento absurdo. Machucado, não atuou nas duas primeiras partidas, contra a Áustria e a Inglaterra. Já contra a URSS, mudanças no time. As entradas de Zito, Garrincha e Pelé mudaram o time. Com dois minutos, Mané literalmente desnorteou a defesa soviética. Pouco tempo depois, Vavá, marcaria dois gols e classificaria o Brasil as quartas de final.
O primeiro ato do Rei em copas se deu contra o País de Gales. Um jogo difícil, suado, complicado. A genialidade ajudou. Após um cruzamento para a área, um chapéu no zagueiro e um chute no canto. A bola morre nas redes. 1x0 e o suficiente para levar a seleção para as semifinais. Não satisfeito, meteu três contra a França dos craques Kopa e Fontaine. Mesmo com sustos, o Brasil estava na sua primeira final de Copa (lembrando que 50 foi triangular final).
A história dessa final de 58 é conhecida por basicamente 80% dos fãs de futebol do mundo. O que vale destacar são três coisas:
1. A educação dos suecos em secar o campo antes da partida, mesmo sabendo que seriam prejudicados;
2. A superstição de muitos jogadores que entraram em campo com o pé direito;
3. A famosa história de Mário Américo, que, ao final do jogo, deu um toque de leve na bola para tirá-la do árbitro e saiu em disparada para o vestiário.
A Taça do Mundo enfim foi nossa em 58, com exibição de gala da equipe brasileira. Ao apito final, Pelé lembrou-se de tudo. Seu pranto, ao ser abraçado por Gilmar e outros membros da equipe ficou eternizado.
“Aquele momento era a lembrança que eu tinha feito uma promessa ao meu pai. Quando o Brasil perdeu a Copa de 50, eu o vi chorando pela derrota. Então prometi que ganharia uma Copa do Mundo para ele e para o Brasil...”
Consagrado com a Seleção, os títulos seguiram com o Santos. Paulista 59, Rio-São Paulo 61, Taça Brasil 62... Veio a segunda Copa em 62. A responsabilidade aumentava pois o título anterior jogava um peso a mais nos ombros. Na estreita contra o México, Pelé mostrou que queria assumir isso. Arrancando pela diagonal, passou por quatro jogadores adversários e chutou rasteiro. A bola, obediente, foi na (hoje chamada) bochecha da rede, decretando o 2x0 do Brasil.
Mas... Diz o ditado que tudo que é bom dura pouco. Logo no segundo jogo, ao arriscar de longe, uma distensão muscular o obrigou a fazer número o jogo inteiro. (Abro um parêntese pra contar que esse jogo foi no dia do casamento do meu avô e durante a espera da noiva, ele soube da lesão. Bastou pra ele. Foram inúmeras interrupções da cerimônia até o fim da partida.) Voltando a falar do Rei, nenhum tratamento surgiu efeito. Fora da Copa, viu Garrincha se consagrar ao levar o Brasil ao bi-campeonato mundial.
A resposta do Rei, a todos que diziam que ele estava acabado, foi junto do alvinegro praiano. Com dois títulos até então inéditos para o futebol brasileiro: a Libertadores e o Mundial de Clubes, vencidas respectivamente sobre Peñarol e Benfica. E uma repetição da dose, mas dessa vez sobre Boca Juniors e Milan. Com dois bi-campeonatos mundiais nas costas, Pelé virou a esperança do Brasil para 66. No filme “O Rei Pelé”, de 1963, ele já expressava o desejo de todo um país, na sua fala final
“... E assim é o Brasil. Campeão na Suécia, bi-campeão no Chile e tri-campeão na Inglaterra. Assim será.”
Infelizmente, faltou combinar com a seleção portuguesa. Já fora da partida contra a Hungria após uma pancada violenta na estréia, Pelé foi literalmente caçado em campo. Após sucessivas entradas dos zagueiros, a estrela brasileira viu a equipe lusitana abrir 2x0. Mesmo tentando jogar, a situação não era das melhores, a ponto de só fazer número no ataque. Mesmo que o Brasil diminuísse, o dia era de Eusébio. O atacante português selou a desclassificação do escrete canarinho ao marcar o terceiro gol.
Ao voltar, Pelé tomou uma decisão que para todos soou surpreendente:
“...Tomei a liberdade de me aposentar da seleção... Eu acho que não dou muita sorte em copas, apesar de ter ganho duas com o Brasil... Vamos ver se eu volto. O futuro ninguém sabe...”
Mas uma derrota no campo não poderia deixar de ser vingada. Ao ser convidado para o Torneio de Nova York, no mesmo ano de 66, o Santos encarou o Benfica, base da seleção portuguesa, na semifinal. Foi um massacre. 4x0, fora o baile. Como cereja do bolo, na final, contra a Internazionale de Milão, outra goleada: 4x1. Bastou a partida se encerrar que a torcida, que assista na linha do campo, invadisse o gramado e abraçasse todos.
Com a prioridade sendo o Santos, a busca dos mil gols virou uma prioridade assim que 69 chegou. A cada jogo era uma ânsia maior. Jogos no exterior, como contra o Combinado Sampdoria/Gênova, atraía ainda mais gente. Jogos no Brasil, como contra Fluminense, Sport e até Botafogo-PB, onde saiu o gol 999, tinham pessoas querendo ver o milésimo. Houveram decepções como o Bahia: ao receber a bola na área, Pelé driblou o goleiro e chutou. O zagueiro Nildo salvou em cima da linha. E a história até hoje é controversa: há jornalistas que dizem que houveram vaias. Vários torcedores do Bahia dizem que não teve nada. Talvez seja uma controvérsia até o fim dos tempos.
Fato, é que o destino colocou o Maracanã como o palco, para o milésimo. Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Jogo contra o Vasco. Dia da Bandeira. O cruzmaltino abre o placar. Pelé tenta uma, duas, três vezes. A bola bate na trave, vai pra fora, é defendida por Andrada. Parecia que tudo conspirava contra. Até o gol de empate (contra do Vasco) não era necessariamente feito por jogadores santistas.
Aos 33 minutos do segundo tempo, Carlos Alberto lança Rildo, que é derrubado. O árbitro marca pênalti. É a chance. O Maracanã inteiro aguarda. Pelé se prepara. Olha para os companheiros. Se volta para Andrada. Observa a bola. Ouve o apito. Corre devagar e chuta. O goleiro pula no canto. A bola toca os dedos do argentino e entra. Enquanto ele soca o chão, de raiva, Pelé entra na meta e beija a bola. Vários repórteres buscam suas palavras. Ele diz pouco. Mas em suas palavras, a preocupação com o futuro do país.
“Pelo amor de Deus. O povo brasileiro não pode se esquecer das crianças, temos que ajudar as casas de caridade. Pelo amor de Deus, olhem o natal dessas crianças, vamos olhar pra elas... Quero oferecer esse milésimo gol a todas as crianças do mundo.”
Quando se tem duas copas, dois mundiais, uma penca de títulos nacionais e amistosos, mais de mil gols na carreira, o que se pode faltar na carreira de uma pessoa assim? Talvez nada, diriam os desinformados. Para Pelé, a resposta estava na última Copa do Mundo. No documentário “Pelé Eterno”, ele explicou as razões:
“... Eu ainda não tinha jogado uma Copa do Mundo inteira, não tinha dado para o Brasil essa contribuição de ter ganho uma Copa do Mundo inteira, aí eu fui pensando e meu deu aquela força e eu falei: ‘Não, vou jogar. Essa vai sei a minha Copa, e vai ser a minha maior Copa, eu vou me preparar, como nunca.’”
A Copa de 70 foi a consagração do Rei. Tudo que faltou nos torneios anteriores, sobraria nessa Copa. E de fato, ele fez de tudo. Gols, passes, lances inesperados. Nas palavras do falecido comentarista da Rádio Globo, Luiz Mendes:
“Ele ficou mais famoso pelos gols que não fez, do que pelos gols que fez.”
Mais uma verdade. Mesmo que a matada no peito e o chute certeiro contra a Tchecoslovaquia, a falta e o toque de sola contra a Romênia, e a cabeçada contra a Itália tenham sido fenomenais, não consegue, se comparar ao chute inesperado do meio campo na estréia, a cabeçada para o chão, contra a Inglaterra e o lance que foi o maior da história das copas: o drible de corpo contra o goleiro Mazurkievicz, do Uruguai. A bola passou ao lado da trave por centímetros. Gosto de brincar dizendo que ele fez de propósito apenas para provar ao mundo de que era apenas humano.
A consagração contra a Itália foi o ponto definitivo na carreira pela seleção brasileira. Foi a primeira de duas coroações com a camisa amarela, sendo carregado nos ombros dos mexicanos e usando um sombrero. A segunda foi no ano seguinte no Estádio do Morumbi. Despedida da seleção em São Paulo. O gol contra a Áustria foi o último de 95 marcados. Já a partida seguinte, no Maracanã, contra a Iugoslávia, foi a apoteose definitiva. Ao ser substituído no segundo tempo, e dar a volta olímpica, os torcedores não choravam, mas gritavam “Fica! Fica! Fica!”
Não faltaria mais nada, mas o choro na camisa revelava um sonho: uma despedida adequada pelo clube do coração. Três anos após deixar a seleção, e depois de um título paulista controverso e dividido com a Portuguesa, veio o último jogo. Contra a Ponte Preta, na Vila Belmiro. O berço do futebol teve o privilégio de ver o gesto de pegar a bola e colocá-la no centro do gramado. A volta olímpica repetiu o mesmo gesto da despedida da seleção e o choro na camisa.
Parecia ser o fim definitivo. Mas o destino ainda teria um último desafio. Após a insistência de um milionário americano e a proposta que o transformou no atleta mais bem pago do mundo, Pelé acertou a transferência para o Cosmos de Nova York. O principal do contrato não era um título, mas sim a popularização do futebol nos Estados Unidos.
Foi um trabalho duro de vários momentos. Com altos grandes, como a estréia, fazendo um gol de cabeça, e uma participação no Torneio Bi-Centenário jogando pela seleção de estrelas dos Estados Unidos. Ou o famoso 5x4 no Tampa Bay Rowdies. A abertura de várias escolas de futebol em Nova York. Mas o principal foi a conquista, após três anos, da Liga Norte-Americana de Futebol. Tendo a ajuda de outros craques como Carlos Alberto, Franz Beckembauer e Chinaglia, a conquista foi um pouco menos suada do que se esperava.
A vitória pra cima o Seattle Sounders por 2x1 foi o ponto definitivo na carreira. A homenagem final foi a cereja do bolo. Em jogo transmitido para o mundo inteiro, a despedida foi no amistoso Cosmos x Santos. E, diferente do que se imaginava, o gol final não foi pelo alvinegro praiano. Mas pelo verde de Nova York. Em falta cobrada aos 41 do primeiro tempo, Pelé marcou seu último tento na carreira. Após os 45 minutos iniciais, a camisa do Cosmos foi pra Dondinho. Após os 45 finais, a camisa do Santos foi pra Waldemar de Brito. E o discurso final, pedindo amor à todos os presentes, emocionou a todos: desde a torcida, a Muhammad Ali, presente no camarote ao lado de Henry Kissinger, secretário de governo americano.
Não é preciso dizer mais sobre Pelé. Um homem que transcendeu todo o mundo esportivo. Virou uma celebridade cultuada no planeta. Condecorado como Cavaleiro do Império Britânico. Uma referencia para os negros. Inspiração para os jovens em todos os lugares. O homem que fez o Brasil ser conhecido no mundo. O Deus da Bola faz hoje 80 anos. Que venham mais 80. Para que todos possamos reverenciá-lo ainda mais.
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