Arquivo de Crônicas
12 Maradona: O Deus Humano - Dia 25/11/20
Notas iniciais
"Murió Diego Armando Maradona" (Capa do Jornal Clarín, as 12:10 de Hoje)
Era pra ser mais um dia comum no mundo. Poderíamos discutir sobre eleições municipais no Brasil, sobre os processos eleitorais nos Estados Unidos, o imposto para as empresas de internet na França, entre várias notícias... Mas a partir desse horário de 13:10, no Brasil, a Argentina e o mundo do futebol pararam. Falecia, no bairro de Tigre, Buenos Aires, o maior jogador sul-americano pós-Pelé.
Sua trajetória, desde o bairro da Villa Florito, a apoteóse e idolatria no mundo, até hoje, será eternamente lembrada, apesar dos altos e baixos. Uma faixa, pregada na Igreja Maradoniana, demonstra o sentimento de todos os argentinos: "Não importa o que você fez com a sua vida, Diego. Mas sim, o que você fez com a nossa."
Maradona surgiu para o mundo no Argentinos Jrs. Desde o começo, ele já atraía multidões nas categorias de base. 1977 foi o ano em que ele subiu para o profissional, e, de lá, já começou a demonstrar o gênio que seria. Seu repertório com a perna esquerda era fantástico: gols, dribles, arranques, etc. Era o dom dado por Deus.
Deixado de fora da Copa de 1978 pelo então técnico César Luís Menotti, sua vingança se deu um ano depois, sendo artilheiro dos Campeonatos Argentino e Metropolitano, e sendo chamado pelo mesmo para a Copa do Mundo Sub-20. Ao lado de craques, como Ramón Diaz, Calderón e Escudero, só não fez chover no Japão. Foi o dono da bola e eleito melhor jogador do torneio.
Motivado na volta ao Argentinos Jrs, repetiu a dose com as mesmas artilharias em 1979 e 1980. Tantas boas atuações chamaram a atenção do seu time do coração, o Boca Juniors. A primeira passagem não foi tão proveitosa em termos de títulos, mas ele fez questão de deixar sua marca: em 1981, marcou gols em todos os jogos contra o River Plate. Também disputou inúmeros amistosos e jogou contra futuros adversários comuns: o Milan e Zico.
Nos campeonatos nacionais, seus gols contra Fillol marcavam torcedores a favor e contra o Boca. Seu talento, porém tinha um preço: um gênio incrivelmente forte, que não aceitava vaias ou derrotas. Um grande exemplo foi sua última partida na equipe do coração.
Quartas de final do Torneio Metropolitano de 1982. Boca Juniors x Vélez. Irritado com as faltas que sofria, Diego, no fim do jogo, decidiu revidar iniciando uma briga generalizada. Resultado: suspensão de 10 jogos pela AFA. Logo depois, ao excursionar pela América, Ásia e Europa, foi contratado pelo Barcelona.
Chegado na Catalunha com status de "salvador da pátria", sua passagem não ficou marcada pelos títulos, mas sim por problemas extra-campo, como o início de sua relação com as drogas. Dentro do campo, ele demorou a se adaptar. Mas bastou iniciar a exibir seu futebol, que as glórias vieram junto. Em 1983, na Copa do Rei, ele decidiu a decisão contra o Real Madrid, marcando nos dois jogos da decisão e mais, conseguiu ser aplaudido pela torcida adversária de pé no Bernabéu, feito só igualado 22 anos depois por Ronaldinho Gaúcho.
No Campeonato Espanhol, o poder de decisão que se esperava não se mostrou pois, com hepatite, deixou o time por três meses. Mesmo assim, o time perde pro Athletic Bilbao. E na segunda temporada, o gênio forte voltou a se mostrar presente: ao decidir a Copa do Rei, contra o mesmo Athletic Bilbao, Diego inicia uma briga generalizada entre as duas equipes.
Com o relacionamento se deteriorando com a equipe e direção catalã, o craque força uma transferência para o futebol italiano, em 1984. Cotado em Juventus e Nápoli, o craque escolhe ir pra equipe do Sul da Itália, o que se mostra a decisão mais acertada de sua carreira.
Já em sua apresentação, o craque é tratado como rei, chegando de helicóptero e recebido por mais de cinquenta mil torcedores, no Estádio San Pablo. Ele não demora a engrenar, mas, com uma equipe sem tanto entrosamento, ele só consegue deixar a equipe na décima colocação. Um ano depois, porém, sua força já se mostra presença, levando a equipe a terceira posição.
Faço uma pausa na trajetória napolitana para falar do auge do craque. 1986. Copa do Mundo. Quartas de Final. Argentina x Inglaterra. O orgulho argentino havia sido ferido com a derrota para os ingleses na Guerra das Malvinas. Maradona já havia colocado na cabeça que, iria fazer os adversários se arrependerem.
E de fato, foi a maior partida do argentino em toda a sua carreira. Os dois gols foram a síntese do que os sul-americanos sentiam. O primeiro, de mão, foi o roubo mais não-visto de toda a história. Ficou mais célebre ainda pela declaração. Não era a mão de Maradona, mas sim, A Mão de Deus. O segundo, teve o elemento da mais pura magia. Driblando toda a zaga do campo argentino, Diego fez Victor Hugo Morales, célebre narrador uruguaio radicado na Argentina, os ingleses, os torcedores e todo um país chorar. Era o gol do gênio, do Deus, do Pibe de Oro, do Diez.
A cereja do bolo foi o título, uma semana depois. E com um passe magistral do Pibe para Burruchaga, fechando a vitória em 3x2. Ao final, a estrela revelou uma lembrança: queria ganhar a copa para dedicar a sua mãe, que tanto sofria ao ver o filho jogar. A lenda sobre esta seleção é tanta que, pra justificar a falta de títulos desde então, surgiu a história da Santa de Tilcara. Ao se hospedar para uma pré-temporada antes da Copa, os jogadores pediram a santa da cidade o título, e prometeram voltar caso conquistasse. Venceram mas nunca voltaram. Ação divina? Nunca saberemos.
Motivado com o título do mundo, Maradona se empenhou na temporada 1986/1987 para dar ao seu clube o que mais sonhavam: o título italiano. Com um elenco reforçado e uma arrancada fulminante do meio da temporada pra frente, o Nápoli enfim pode conquistar o título nacional. Não satisfeito, Maradona liderou o clube a um patamar inimaginável: Supercopa da Itália 1988, Copa da Uefa 1988/1989 e Campeonato Italiano 1989/1990. Se para os italianos o argentino antes era rei, com esses títulos acabou se transformando em Deus.
Paralelamente, sua vida pessoal era o completo inverso do campo. Casado com Claudia Villafañe, sua namorada de infância, pai de duas filhas, Diego saia de casa para orgias regadas a sexo e drogas. Eram traições atrás de traições. O vício não era descoberto no campo por um simples motivo: como os jogos eram domingo, o clube exigia que Maradona ficasse limpo na quinta que nada apareceria.
A aura de ídolo máximo para os italianos ruiria definitivamente em 03 de Junho de 1990. Semifinal da Copa do Mundo. Argentina x Itália. Com suas declarações explosivas, Maradona conseguiu dividir um país inteiro. Se toda a nação era Itália, a população de Nápoles era Argentina. E após empate de 1x1, os pênaltis decretaram 4x3 para os Sul-Americanos. Logo após a partida, pesquisas declaravam que Diego era a pessoa mais odiada na Itália.
O gênio forte voltou a aparecer. Na grande decisão da Copa, contra a Alemanha, com o hino argentino vaiado e ao se perdeber filmado, o craque tomou uma decisão inédita. Em frente às câmeras, xingou os torcedores italianos. A vingança da torcida se deu no apito final. Todos os fãs gritavam "Deutcheland" em referencia a vitória europeia. Aos derrotados, o desabafo apareceu no choro.
Sem a proteção da mídia e da polícia, não demorou muito para que ele fosse descoberto. Um ano após a Copa, veio uma descoberta no anti-doping. Cocaína. Poucas semanas depois, escutas telefônicas descobriram sua ligação com a máfia italiana. Descoberto, foi preciso ir embora. Abrigou-se na Argentina. Por pouco tempo. Em 26 de Abril de 1991, uma denúncia levou policiais a um apartamento em Buenos Aies. Lá, Maradona foi descoberto com papelotes de cocaína.
Mesmo sem ser preso, não escapou de uma suspensão pela FIFA. 15 meses. Era um período sombrio do qual ele precisava escapar. O retorno ao futebol era também uma tentativa de retorno a vida. Foram várias tentativas. Sevilla, da Espanha, e Newell's Old Boys, da Argentina, não funcionaram. Mas ao mesmo tempo, começou uma pressão para que o craque fosse a Copa do Mundo de 1994.
Animado com um plano que lhe foi apresentado, ele se dedicou. Perdeu 13 quilos. Apresentou-se à seleção e foi convocado. Era o retorno dos sonhos. Pelo selecionado de seu país, numa Copa. Ao marcar na estréia contra a Grécia, um golaço a seu estilo, diga-se a verdade, mas a comemoração extrapolou. Correndo em direção às câmeras de TV, saiu gritando. Já na partida seguinte, contra a Nigéria, um passe magistral para Cannigia marcar o segundo gol.
Sorteado para o exame antidoping, saiu sorridente e de mãos dadas com uma enfermeira. Logo no dia seguinte, saia a notícia: Maradona estava dopado. Efedrina. Na verdade, um mal-entendido gerou toda a confusão. Em seu plano de emagrecimento, antes da Copa, Diego consumia um controlador de controle de gula, chamado Universal Ripped Fast. Durante o torneio, com o estoque acabado, um representantes de sua equipe pessoal de fisioterapeutas, comprou um similar, chamado Universal Ripped Fuel. Com o primeiro, a urina estava limpa, com o segundo, infectada. Bastou para a FIFA. Nova suspensão.
Ao voltar, a Bombonera escancarou as portas para seu retorno, mesmo com duas tentativas frustradas em ser técnico antes. Com uma mecha amarela no cabelo, a segunda passagem foi longe de ser igual a primeira, mas midiaticamente rendeu bastante. Fazendo uma dupla entrosada com Cannigia, como já fora na Copa de 1990, quando eliminara o Brasil, Maradona deu aos torcedores seu único título no Boca, o Clausura de 1996. Mas a edição desse ano é mais lembrada por um beijo na boca entre ele e o colega na comemoração de um gol contra o River Plate.
O ano seguinte foi o último como jogador profissional. Tendo rumores de novo positivo em antidoping, após um Superclásico, Diego prefere anunciar o fim da carreira. O jogo de despedida, viria quatro anos depois, em partida entre a Argentina x Amigos do Maradona. O craque marca duas vezes: uma com a camisa da seleção e outra com a camisa do Boca, em homenagem a torcida presente a Bombonera.
Após deixar os gramados, a vida fora dos campos teve mais baixos do que altos. Internações por drogas, infecção cardíaca, acidente de caminhonete em Cuba, eleição como o melhor jogador do mundo, momentos com a torcida xeneíze... Mas faltava ainda um desafio. Em 2009, retornou a seleção argentina, dessa vez como técnico.
Mais uma vez, o futebol refletia sua vida: baixos grandes, como uma derrota de 6x1 para a Bolívia em La Paz, e altos interessantes, como a classificação pra Copa da África na repescagem contra a Austrália e um mergulho no gramado molhado em uma vitória contra o Uruguai.
A Copa foi um torneio que a equipe foi adquirindo confiança com o tempo: 1x0 na Nigéria, 4x1 na Coréia do Sul, 3x1 no México. Nas quartas de final, o destino o colocou novamente contra a Alemanha. Era o tira-teima definitivo. A favor de Diego, a vitória de 1986. Contra, a derrota de 1990. Os alemães nem sequer se importaram. Uma goleada fácil de 4x0 sacramentou a despedida de Maradona. Porém, a derrota demonstrou um líder leal. Ao invés de sair de campo e detonar seus jogadores, o Pibe foi a campo pra consolar todos.
As polêmicas se seguiam. Quatro anos depois, Diego, já separado de Villafañe, anunciou noivado com uma mulher 22 anos mais nova, Rócio Oliva. Parecia a calmaria após uma tempestade. Negativo. Ao descobrir ser roubado, Maradona a denunciou. A mulher, respondeu dizendo que o craque só bebia e a agredia. O desmentido foi suficiente para a imprensa perdoá-lo. Pouco depois, Rócio foi presa.
Na Copa da Rússia, em 2018, Diego fez várias declarações contra Sampaoli e a seleção argentina. As imagens dos gritos de gol no jogo contra a Nigéria ficou absolutamente famosa no mundo todo.
Depois de um 2019 sem tantos problemas, a pandemia do coronavírus reacendeu seus problemas. Anemia, depressão e mudanças repentinas de humor. Mesmo se submetendo a um tratamento firme, precisou ser internado no dia 03 de Novembro para tratar de um coágulo no cérebro. Parcialmente recuperado, a preocupação era com o pós-cirurgia.
Infelizmente pra Argentina, uma parada cardiorrespiratória levou hoje o maior ídolo do esporte portenho após Fangio e Di Stefano. Maradona tinha inúmeros defeitos, mas sempre foi aclamado como um dos grandes. Dentro de campo foi genial, e agora, deixa o mundo inteiro a tentar desvendar o seu mito.
Iniciei esta crônica com uma citação da Igreja Maradoniana. Fecho-a com outra, desta vez, de Eduardo Galeano: "Diego foi o mais humano dos deuses que o futebol já produziu."
Talvez seja a mais pura verdade já dita sobre este argentino. Gigante no campo, e humano fora dele.
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