Armadura de Espinhos
1 Espinhos na cidade de ferro
Notas iniciais
O sol mal surgia no horizonte de Virbank City, banhando a cidade portuária com uma luz fraca que mal conseguia atravessar o céu nublado. As fábricas já estavam em plena atividade, soltando suas colunas de fumaça escura no ar poluído, como uma sinfonia mecânica, que nunca parava. Para muitos, o som de engrenagens e o farfalhar das máquinas eram sinônimos de progresso e sobrevivência.
Para Thalia, eram apenas o som de mais um dia comum.
Ela caminhava pelas ruas estreitas do setor industrial, as mãos enluvadas firmemente enterradas nos bolsos de seu casaco marrom de mangas longas. O calor abafado das fábricas contrastava com a frieza interna que ela carregava, uma constante, como se algo dentro dela estivesse a ponto de explodir, apenas esperando o relógio dizer quando.
A cidade a ignorava, e ela agradecia por isso. Virbank era um lugar de trabalhadores, de pessoas que, principalmente, não faziam perguntas. Era fácil se perder na multidão de operários e carregadores dentro do distrito do Complexo de Virbank, misturados à neblina densa de fumaça e o cheiro forte de oleo. Naquele lugar, ninguém olhava para ela duas vezes. Exatamente do jeito que ela gostava.
Thalia morava em um pequeno apartamento, nos fundos de um edifício de fábricas. Era simples e modesto, porém, o mais importante, isolado. Os dias se repetiam em uma rotina monótona: conserva motores, ajustava as máquinas, recebia seu pagamento e depois desaparecia, antes que alguém começasse a perguntar demais. Se aproximar demais. Quase ninguém questionava sua preferência por trabalhar sozinha, e ela mantinha sempre suas interações ao mínimo necessário.
Ela não podia correr o risco de tocar em ninguém.
No início, ela evitava o trabalho com o medo de ferir alguém. Mas, o dinheiro era necessário, e as fábricas do complexo não eram exatamente do tipo exigentes quanto aos seus empregados, principalmente os bons. Ela descobriu rapidamente durante sua estadia em Virbank que seu talento natural com maquinário era suficiente para mantê-la empregada, mesmo que de forma discreta.
Era o suficiente para sobreviver.
O relógio marcava o fim do expediente quando Thalia resolveu pegar um caminho diferente de volta ao seu apartamento. A vegetação rarefeita da cidade era um alívio para seus olhos depois de passar o dia cercada por metal, concreto e fumaça. As folhas que cresciam teimosamente entre as rachaduras das calçadas a faziam sentir ainda que de uma forma sutil, uma ligação com algo mais natural. Uma lembrança distante de um mundo ao qual nunca pertenceria completamente. Enquanto caminhava, fitou seu próprio reflexo nas vidraças dos prédios. Sua jaqueta marrom-escura contrastava com a palidez de sua pele. Seus olhos verde-escuros a encaravam de volta, interrogando-a silenciosamente. A pele pálida só perdia destaque para seus cabelos prateados.
"Pele de Magnemite", ela pensou, lembrando-se do comentário casual de um dos colegas de trabalho.
Ela se sentou na grama, abraçando seus joelhos e olhando para o céu cinzento. Retirou cuidadosamente o par grosso de luvas de couro, observando ao redor preocupada, como se estivesse cometendo algum tipo de tabu e alguém fosse repreendê-la. Mas ela estava sozinha ali. Guardou-as em seus bolsos, deixando seus dedos nus tocarem o chão e a grama. Sentiu a terra e a sujeira sob suas mãos, o contato frio com o mundo que parecia sempre tão distante. A aspereza do solo arranhava levemente sua pele, mas havia um conforto estranho em sentir algo real. Pelo menos a terra não a rejeitava.
Thalia fechou os olhos. Às vezes, desejava ser imaginária, inexistente. Ou, se existisse, que fosse outra pessoa. Alguém que pudesse tocar sem ferir, alguém que vivesse, e não apenas existisse. Que não apenas sobrevivesse.
Ela não se lembrava bem de seu passado. Na verdade, tudo antes de seu aniversário de doze anos era uma grande incógnita, borrada e distorcida, como um sonho que sempre escapava. Quanto mais tentava alcançar, mais distante ficava, como uma criança correndo atrás da lua. Quando parecia estar perto, suas memórias se trancavam em uma caixa, deixando-a de fora.
Ela se lembrava de estar em um hospital. Pessoas de jalecos. Médicos. Testes. Sangue sendo colhido, amostras de fluidos... A picada da agulha, as perguntas incessantes. Lembrava-se de rostos, mas outros eram apenas sombras sem nome. Um dia, simplesmente dormiu e acordou em Virbank, com apenas a roupa do corpo e um envelope com mil e quinhentos reais dentro. Havia apenas uma palavra escrita no bilhete: sobreviva.
Desde então, sua rotina era essa. Sobreviver. Existir.
Enquanto estava perdida em seus pensamentos, Thalia é então despertada pelo movimento em uma vegetação próxima. Ela se levantou com cuidado, fitando o farfalhar do arbusto e cerrando os punhos. Caminhando lentamente em sua direção, a figura de uma fera surgiu das sombras. A figura de uma fera emergiu das sombras. Um Liepard selvagem, com olhos estreitos, a postura predatória impecável. Ele a observava como se estivesse analisando sua presa.
Thalia congelou. O coração bateu mais forte.
O pokémon continuava a lhe encarar de forma penetrante, movendo-se graciosamente em círculos ao redor dela, como um predador avaliando sua próxima refeição. Seus olhos brilhavam de forma penetrante, e Thalia sentiu o instinto de sobrevivência aflorar em cada músculo de seu corpo. Sua respiração tornou-se irregular, e as memorias de situações semelhantes do passado viam passando em sua mente, como um tipo de guia de autoajuda para saber o que deveria fazer. Não havia para onde correr, o pokémon era mais rápido que ela. E mesmo sem entender o motivo para ser o alvo, Thalia sabia que o porquê não importava mais naquele momento.
Liepard então avançou em direção em salto feroz, os dentes expostos e as garras estendidas. Thalia ergueu o braço de forma instintiva para se proteger. O impacto foi bruto. O pokémon a derrubou no chão, cravando uma mordida forte em seu antebraço, com força, porém, no mesmo instante, uma dor atravessou o corpo do felino como uma onda, fazendo-o se afastar.
Iron Barbs.
As palavras de um pesquisador que ela ouvira na televisão, durante um evento da Liga Pokémon, ecoaram em sua mente. “Quando um Pokémon com esta habilidade é atingido por um golpe físico, o atacante recebe dano. Cerca de 1/8 de sua vida máxima.”
O Liepard tropeçou, seus olhos antes predatórios agora refletindo confusão e medo.Thalia se levantou, os músculos tensos, a respiração ofegante. Olhava para o felino diretamente nos olhos, desafiando-o a tentar algo novamente. Ela observou enquanto o Pokémon recuava para as sombras, assustado, como se estivesse diante de algo que não compreendia. E pela primeira vez, aquele predador se sentiu como presa.
Thalia permaneceu imóvel. Seu corpo ainda estava tenso com a situação, e seu braço tremia, porém ela não sentia dor, mal sentira o impacto do pokémon na verdade. Não havia ferimento algum, afinal, a habilidade havia feito seu trabalho. Sua maldição, mais uma vez, lhe manterá viva.
"Viva é?", pensou ela, deixando-se cair de novo na grama, enquanto o coração ainda batia descontrolado.
Viver e estar viva eram coisas completamente diferentes. Sim, ela estava viva..., mas a que custo?
Os Pokémon não eram os únicos monstros naquele mundo. E ela sabia muito bem o que esperar de si mesma.
***
Thalia chegou em seu apartamento por volta das dezessete horas. Subiu as escadas enferrujadas e caminhou lentamente até sua porta, de número catorze. Não se preocupou em utilizar chave para abrir, afinal, a maçaneta não funcionava corretamente, então um pequeno empurrão já abria a porta. Outra coisa para resolver era aquilo, entretanto, sabia que nada adiantaria procurar as peças àquela hora. Era sexta-feira, e sabia que todos estavam fechando mais cedo devido ao Enigma do Patrat que se aproximava. O Enigma do Patrat era um evento simplório, que ocorria em um bar local de mesmo nome. Basicamente, bebidas alcoólicas por metade do preço. Acontecia uma vez ao mês, normalmente junto do lançamento de algum filme pela pokestar. Thalia fitou o interior de seu apartamento, esperando encontrar algo de novo, além da monotonia de sempre. O lugar era simples, organizado, discreto e compacto. Havia apenas uma sala com uma cozinha pequena e uma porta ao fundo, que dava acesso ao banheiro. Uma grande janela que dava vista ao setor industrial da cidade, que estava coberta com uma cortina amarela em tom claro. Não havia muitos moveis. Uma cama bem arrumar, uma escrivaninha pequena e um pequeno armário ao lado. Thalia não fazia questão de ter muitas coisas, afinal, sempre esperava não ficar ali para sempre.
O pensamento a fez parar por um momento. “Não ficar ali para sempre”, ela repensou para si mesma. “Doze anos que estou em Virbank, doze anos repetindo a mesma coisa.” Mas ela não podia reclamar, não é? Ela estava segura, estava viva. Estava sobrevivendo.
Ela se deitou em sua cama, fitando o teto esbranquiçado, tentando desenrolar seus pensamentos. Fechou seus olhos, tentando imaginar-se em qualquer outro lugar no mundo. Abriu os olhos, mas continuava em seu quarto. Desapontada, Thalia se levantou bruscamente, ajeitando o cabelo e pegando as chaves que jogara em cima da escrivaninha.
— Está na hora de fazer algo a respeito disso. – disse para si mesma, caminhando até a porta. Tocou a maçaneta ainda sentindo hesitação em seus próprios movimentos. Sua mão segurou com força a porta, como se seu próprio corpo quisesse evitar qualquer coisa que ela quisesse fazer. Determinada, girou a maçaneta, e saiu pelo corredor do prédio.
***
O bar Enigma de Patrat vibrava de vida naquela noite, preenchido pelo barulho constante de conversas, risos e o tilintar de copos. Era um dos maiores salões de Virbank, perdendo em tamanho apenas para o ginásio da cidade. Situado próximo ao movimentado Pokéstar Studios, o bar atraía uma— mistura curiosa de trabalhadores exaustos das fábricas e artistas em busca de uma pausa entre gravações.
A luz amarelada das lâmpadas, já desgastadas pelo tempo, lançava sombras suaves nos cantos, enquanto o cheiro de cerveja, tabaco e frituras preenchia o ar. As prateleiras atrás do balcão ostentavam garrafas de bebidas que iam de rótulos comuns a alguns raros, trazidos por visitantes de Kanto e Hoenn.
Thalia chegou, observando atentamente todos ao redor. Caminhou pelo salão e sentou-se em um canto mais afastado, onde as luzes eram mais fracas e as vozes, mais distantes. Era ali que gostava de ficar, à margem do caos vibrante do bar. Onde se sentiria mais confortável. Acenou para o bartender, que logo levou até ela uma caneca de cerveja com gengibre. Thalia segurou e deu um longo gole na bebida. O sabor picante era agradável — um pequeno conforto, embora o álcool não tivesse efeito algum sobre ela.
Por mais que tentasse, o álcool nunca a embriagava. Seu corpo era resistente demais. Assim como os pokémon do tipo metálico tinham imunidade a venenos, parecia que ela havia herdado essa mesma condição: uma incapacidade de sentir o torpor, de se entregar ao alívio temporário que a embriaguez proporcionava.
Ela suspirou, observando os grupos à sua volta: operários jogando cartas e rindo alto, alguns artistas discutindo sobre os últimos filmes lançados. Humanos vivendo, preocupados apenas com o agora. Era difícil não sentir inveja da simplicidade deles.
Tom, o bartender, aproximou-se silenciosamente e colocou uma nova caneca à frente dela, ao perceber que ela havia terminado.
— O de sempre, — murmurou, lançando lhe um olhar cúmplice.
— Obrigada, Tom. — Ela sorriu, agradecendo.
Ele se afastou sem perguntar nada. Tom entendia que ela não gostava de falar muito, e esse era um dos motivos pelos quais o Enigma de Patrat era o único lugar público onde ela se permitia relaxar. Enquanto levava a caneca aos lábios, uma voz leve e descontraída soou ao seu lado.
— Você sabe que pode tirar essas luvas, né? — Disse alguém, com uma voz feminina. — Não faz tanto frio aqui dentro.
Thalia ergueu os olhos lentamente e encontrou uma jovem de cabelos curtos e roxos, com um sorriso travesso nos lábios. A garota usava um gorro simples e roupas casuais, mas o brilho em seus olhos era inconfundível para Thalia, que já havia visto ela antes algumas vezes. Era Roxie, a líder do ginásio de Virbank. Especialista em tipos venenosos. O disfarce até que era bom para olhos menos atentos, mas para Thalia, não era o suficiente. Ela tomou mais um gole da bebida antes de responder.
— Me machuquei no trabalho, enquanto arrumava uma das máquinas — respondeu Thalia, levantando levemente as mãos cobertas pelas luvas de couro, fazendo um gesto com a mão esquerda.
Roxie deu de ombros e se sentou ao seu lado, sem muita cerimônia.
— Quer outra bebida? — Perguntou Roxie, apontando para a caneca vazia à frente de Thalia. — Eu pago.
Thalia hesitou por um momento, fitando Roxie com curiosidade, mas acabou aceitando. “Por que não?” Pensou consigo mesma, assentindo para a garota que aceitaria a oferta de bom grado.
Roxie levantou a mão para Tom, acenando para mais duas cervejas para que as serviu rapidamente. Enquanto a música e as conversas aumentavam ao redor, as duas se viram imersas em um diálogo leve e despreocupado — algo raro na rotina de Thalia.
— Então, — Começou Thalia, bebendo mais um gole da bebida, esperando que o álcool pudesse fazer algum efeito. — Não sabia que a famosa líder do ginásio frequentava bares assim, escondendo-se à vista do público, — comentou Thalia, com um meio sorriso.
Roxie ergueu as sobrancelhas, surpresa.
— Eu estou tão mal disfarçada assim? — Perguntou, curiosa e desapontada.
Thalia riu, discreta. — Não exatamente. Eu só observo bem.
Roxie inclinou a cabeça, claramente impressionada.
— Talvez você devesse ser um detetive ao invés de trabalhar com máquinas. — Provocou Roxie, com um sorriso. — Por falar nisso, você sabe meu nome, mas eu não sei o seu.
— É Thalia.
— Um nome muito bonito, Thalia. — Disse Roxie, com um sorriso. — Prazer em conhecê-la!
As duas brindaram, e a conversa continuou. Roxie falou sobre a temporada de treinadores, sobre como ser a primeira ou última parada no desafio da Liga podia ser cansativo, mas que a parte boa era que sua banda abriria o evento final no estádio.
— Parabéns, — disse Thalia, genuinamente. — Isso é impressionante.
Roxie sorriu, visivelmente satisfeita. Ela se ajeitou um pouco na cadeira, chegando mais perto de Thalia, o que a deixou um pouco desconfortável.
— Estou ansiosa. Depois disso, saio em turnê com o grupo.
Thalia sentiu-se quase normal, pela primeira vez em muito tempo. Sua conversa com Roxie fluía com tanta naturalidade, conversando sem o peso constante da solidão, que ela nem percebera o tempo passando.
— Mas então, você tem algum Pokémon? — perguntou Roxie, depois de um gole de cerveja.
— Não. — respondeu Thalia, desviando o olhar.
Roxie deu de ombros.
— Nem todo mundo gosta de treinar. Mas ter um Pokémon é incrível. Eles são mais que companheiros de batalha. Você devia tentar. — Ela tomou mais um gole de sua caneca. — Força do hábito perguntar essas coisas, desculpe. É costume, passo o dia inteiro com eles, afinal.
A lembrança do encontro com o Liepard veio à tona, nítida e perturbadora. O felino cravando os dentes em seu braço, apenas para recuar em dor, confuso e assustado.
— Talvez, — murmurou Thalia, sem muita convicção. — Quem sabe um dia eu consiga ter essa experiência.
Roxie a observou por um momento, antes de sorrir de novo.
— Sabe, Thalia, eu achei você bonita demais para ficar aqui sozinha. — Disse Roxie. — Deveríamos trocar contato, assim quando estiver aqui de novo, podemos vir juntas.
Thalia arqueou uma sobrancelha, surpresa, mas também divertida com o comentário de Roxie.
— Isso foi uma cantada?
Roxie deu uma risadinha e levantou as mãos, rendendo-se.
— Talvez. Quem sabe? — Ela respondeu, bebendo mais um gole. — Por quê? Funcionou?
Elas riram juntas, e por um instante, o peso sobre Thalia pareceu diminuir. Era bom se sentir assim, como se pudesse fazer parte de algo, mesmo que por um momento breve.
Após mais alguns goles, Roxie olhou para o celular e fez uma careta.
— Passei da conta. Não vou poder dirigir assim. — Disse com um longo suspiro.
Ela fez uma ligação rápida, a voz do outro lado soando impaciente. Quando desligou, deu um sorriso para Thalia, os olhos já um pouco turvos.
— Era meu pai. Ele está vindo me buscar. — Ela tirou um cartão do bolso e o entregou a Thalia. — Vai ter um show daqui a alguns dias. Eu adoraria te ver lá. Meu numero está no verso, caso tenha alguma dúvida.
Thalia pegou o cartão, guardando-o com cuidado.
— Vou pensar. — Respondeu com um sorriso.
Roxie se despediu e Thalia a observou pela janela enquanto a garota saía do bar. Do lado de fora, um homem mais velho a esperava — provavelmente seu pai. Ele a repreendia com um tom cansado, mas não havia raiva genuína em sua voz, apenas o cansaço de alguém que já passou por essa rotina muitas vezes.
Thalia pediu mais uma cerveja a Tom, o bartender. Enquanto esperava, se perdeu em pensamentos.
Como seria a vida se eu fosse normal?
Ela imaginou-se em uma jornada, com um parceiro Pokémon ao lado, como tantas outras pessoas. Talvez pudesse ir a shows, se preocupar com roupas, maquiagem, e redes sociais. Poderia ter amigos como Roxie, sair para dançar, se importar com coisas simples.
Ela não poderia se permitir isso?
Quando Tom colocou a caneca à sua frente, ela segurou-a firme e virou todo o conteúdo de uma só vez, desejando desesperadamente que, só por uma vez, pudesse ficar bêbada.
Mas o vazio permanecia, tão sólido quanto a pele metálica que a protegia. Tocou suas luvas pensando em como seria bom poder tocar alguém sem ferir os outros. O couro grosso das luvas sempre parecia sufocar suas mãos, mas era um peso familiar, um lembrete da barreira que mantinha entre ela e o mundo.
Ela virou a caneca e terminou de beber tudo em um só gole. Deixou dinheiro no balcão e agradeceu a Tom com um aceno.
***
Thalia empurrou a porta do apartamento com mais força do que pretendia. O trinco rangeu, mas não se importou. Ela jogou as luvas no sofá e foi até a cozinha, onde pegou um copo d’água. Bebeu de uma vez, mas o vazio não foi embora. Nada nunca ia. Enquanto colocava o copo na pia, algo chamou sua atenção — um envelope estava cuidadosamente colocado na escrivaninha. Ela tinha certeza de que não estava lá antes.
O coração de Thalia acelerou, mas ela não demonstrou nada. Afastou uma mecha de cabelo do rosto e caminhou até o envelope, pegando-o com dedos hesitantes. O papel era grosso e formal. Não havia remetente, apenas o nome dela, escrito com uma caligrafia elegante.
Ela abriu o envelope com cuidado, e uma única folha deslizou para fora. As palavras escritas eram poucas, mas suficientes para gelar seu sangue:
"Você não pode fugir de quem é, Thalia. Estou esperando...
Doca 5, amanhã 18h. Gregorio."
O papel quase caiu de suas mãos. A caligrafia era a mesma. A mesma que recebera anos atrás, quando aparecera em Virbank. Ela se obrigou a respirar fundo, mas o ar parecia preso na garganta. O nome soava familiar, mas, ao mesmo tempo, distante, como uma sombra do passado que ela nunca conseguiu encarar.
Então, um ruído sutil soou do lado de fora do apartamento — passos.
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