Arkhé - Perseguidos
6 Eu sou a escória da sociedade
Notas iniciais
Quando voltei para a escola na segunda meus pensamentos ainda estavam nos acontecimentos de sexta e sábado. Não vejo Alex desde que ele comprou café pra mim em uma lanchonete perto da casa dele na manhã de sábado e eu fui embora (Depois de ter tomado todo o café, é claro). Não fui perseguida por homens de ternos nem parado balas no ar no domingo, mas, por mais que eu deseje, não é o suficiente para eu poder acreditar que foi tudo coisa da minha imaginação.
Passei no banheiro para pegar minha mochila, e ainda bem, ela estava no mesmo lugar que eu tinha deixado e com tudo lá dentro. Fui para a sala de aula, sentei em uma carteira no meio da sala, abri meu caderno e comecei a desenhar qualquer coisa que vinha na cabeça. Quase não percebi quando o professor de literatura chegou e começou a dar a aula.
Olhei para a carteira vazia ao meu lado. Camila, minha melhor amiga, ao que parece tinha “faltado a aula” para ficar conversando com o namorado dela pela internet. Ela faz isso tantas vezes que nem precisa mais avisar, quando ela não aparece é porque está conversando com o Rodrigo, que atualmente está morando na Europa.
O professor falava alguma coisa sobre Gregório de Matos e algo sobre o terrorismo blá blá blá quando a porta da sala se abriu devagar e um garoto entrou. Tinha cabelos castanhos, estatura média, braços definidos, olhos verdes brilhantes e... Calma, olhos verdes? Espera, eu conheço ele. É o Alex! O que ele está fazendo aqui? Sabe quando você sabe alguma coisa mas seu cérebro demora um pouco mais para ligar os pontos e você entender? Pois bem.
Tinha algumas cadeiras vazias na sala, duas no fundo, uma na frente, e uma ao meu lado. Adivinha onde ele sentou? Na carteira ao meu lado, muito bem! Eu ainda estava surpresa por ele estar aqui, então quando ele se sentou a única coisa que fiz foi levantar as sobrancelhas e olhar para ele, que deu de ombros.
—Então neste caso, podemos considerar o Barroco como... Ah desculpe, você é desta sala? – Disse para Alex.
—Ah, sou sim, eu fui transferido de escola.
—No final do ano?
—A minha antiga escola estava com algumas complicações, então achei melhor fazer as provas finais em um colégio mais conceituado e com melhores professores, eu garanto ao senhor que vou me esforçar.
Ah que ótimo, revirei os olhos, ele também era puxa-saco de professores além de tudo.
—Acho bom...
—Guilherme. Guilherme Andrade, senhor.
Olhei para ele sem entender nada. O nome dele era Alex, certo? Certo né?
—Tudo bem. Onde estávamos? Ah sim, o Barroco foi fundamental para...
—Na verdade, o assunto era terrorismo professor – Disse Lucas, um nerd da sala.
—Bom, então o terrorismo e o Barroco...
Assim que o professor se virou para escrever no quadro, me virei para conversar com Alex, ou Guilherme, o que seja.
—Guilherme? Pensava que seu nome era...
—Meu nome não é Guilherme, você sabe o verdadeiro, quer meu nome completo também? Mas caso não lembre ainda estou sendo perseguido, então colocar o nome real seria muita burrice. – Ele sussurrou pra mim.
—Eu quero.
—Ahn?
—O seu nome completo, eu quero saber.
—Foi uma pergunta retórica.
—Que seja. Estou te pedindo seu nome completo, ou pelo menos com o primeiro sobrenome. O verdadeiro, por favor.
Ele revirou os olhos, pegou uma folha do caderno e escreveu, arrancou a folha, dobrou e passou pra mim.
Alexandre Aguiar
Ah, então Alex era apelido? Não sabia dessa. Interessante.
—Agora o seu.
—O meu? O meu o que?
—O seu nome completo.
—Você vai descobrir no final da aula quando o professor fizer a chamada.
—Se eu tive que escrever no papel, você também vai ter.
Revirei os olhos, peguei a caneta e escrevi no verso do papelzinho que ele tinha me dado.
Catarina Castilho
Entreguei o papel para ele.
—Satisfeito? Agora fomos oficialmente apresentados.
Ele riu assentindo a cabeça. E eu voltei a desenhar. Quando a aula terminou foi que eu percebi que tinha desenhado um par de olhos verdes brilhantes que eu conhecia muito bem.
Não falei com Alex o resto do dia, ele foi se enturmar com os caras da minha turma e eu fiquei conversando com a Bruna e a Larissa, duas colegas de sala, que só queriam saber como eu conhecia o “gato do cara novo”, disse que tinha esbarrado nele por aí um dia desses.
Na última aula o professor de física entrou enfurecido, assim que chegou fechou logo a porta e uma parte dos alunos que estava bebendo água ou no banheiro ficou do lado de fora.
—Quem não estiver sentado daqui a 5 SEGUNDOS vai ficar lá fora com eles! – Apontou para a porta.
Todos se sentaram rapidamente, hoje ele não estava de brincadeira.
—Quem é ele? – Perguntou Alex ao se sentar.
—O professor de física, Rontes, é melhor não brincar com ele.
—Certo...
—MUITO BEM. Todos sentados, que bom, ninguém vai precisar sair da sala e vão poder ouvir o que eu tenho a dizer, que por sinal é muito SÉRIO!
Tive pena do pessoal que estava na primeira fila, deveriam estar recebendo uma chuva de saliva legal. Peguei meu caderno e comecei a desenhar enquanto o professor falava.
—Olha gente, eu sei que física é o bicho-papão do ensino médio, sei que muitos de vocês vão para a recuperação esse ano, mas isso não significa que vocês tenham que apelar! ISSO EU NÃO ADMITO! O certo é aprender! Quero ver lá na frente quando vocês estiverem tentando entrar em uma faculdade, vão fazer como sem saber física?!! É por isso que vocês estão assim! Vocês são a ESCÓRIA DA SOCIEDADE!
Uma coisa não tinha nada a ver com a outra, de onde ele tirou escória da sociedade? Pelo menos o sermão sem sentido iria tomar boa parte da aula. Já era alguma coisa boa.
Voltei minha atenção para o caderno.
—ESSA PROVA! Foi encontrada no chão da sala do professores! Não no arquivo onde costuma ficar, mas NO CHÃO! E sabe o que mais? ESSA PROVA É A DE VOCÊS! É A PROVA DO PRIMEIRO ANO!
Parei de desenhar.
—Ou seja. Alguém entrou lá para PEGAR essa prova! Para COLAR! Não foram os professores, então adivinhem quem seriam?!
Gelei. Droga, quando vi que tinha um certo alguém me observando da janela e fui para o chão me esconder devo ter esquecido a prova lá. Ai. Isso vai dar problema.
—POIS BEM! ESSA PESSOA, OU PESSOAS, QUEM QUER QUE TENHA SIDO, CONSEGUIU! E VOCÊS OUTROS QUE SÃO PESSOAS HONESTAS TAMBÉM SERÃO PREJUDICADOS! ANTES VOCÊS TINHAM UMA PROVA COM DATA CERTA E SOMENTE O ASSUNTO DA UNIDADE? AGORA O DIA VAI SER SURPRESA E O ASSUNTO TAMBÉM, PODE SER QUALQUER ASSUNTO DO ANO TODO, EM QUALQUER DIA, AMANHÃ, DEPOIS DE AMANHÃ... QUALQUER DIA!!
Droga. Droga. Droga. O burburinho na sala aumentava, estavam todos surpresos e indignados, mas ninguém se atrevia a falar. Espera. O Alex está levantando a mão? Eu sabia que ele era idiota, mas não que ele queria ser um garoto morto.
—Com licença professor. Meu nome é Guilherme. Eu fui transferido de outra escola para cá. Vim procurando uma escola que fosse mais justa e no meu primeiro dia de aula vejo isso?
O olhar do professor parecia querer cortar o Alex ao meio. Ele percebeu isso, então foi mais sutil.
—Professor, podemos conversar em particular lá fora?
O professor de física não gostou nadinha, mas foi até a porta e a abriu, Alex foi até lá e eles dois saíram. Assim que a porta se fechou pareceu que a sala ia explodir, todo mundo comentando todo tipo de coisa, quem será que tinha tentado colar, a injustiça do professor, e a audácia do “Guilherme”.
Eles dois voltaram depois de um tempo. Mas nenhum dos dois falou nada. Mentira, na verdade o professor falou:
—Exercícios das páginas 190 a 200, para visto no final da aula!
Quando estava fazendo o dever recebi um bilhetinho do Alex:
Um obrigada Alex, não seria nada mal.
Ah e a fórmula certa é j = jo + wt
Olhei para ele com a maior cara de confusa.
—Ahn, obrigada pela formula certa?
—Não se faça de desentendida Nina.
Wow. Foi a primeira vez que ele me chamou de Nina, embora eu já tivesse dito meu nome para ele. Gostei dele falando Nina. Posso me acostumar com isso.
De qualquer forma continuei a olhar para ele sem entender.
—Eu sei que foi você. Eu te vi lá. E foi por isso que eu aliviei sua barra.
—Pera. Como ASSIM você aliviou minha barra? Você contou para ele?! – Falei sussurrando, mas com vontade de gritar.
—Claro que não. Mas dei uma ideia melhor a ele.
—Você por acaso mencionou o meu nome em alguma parte dessa ideia direta ou indiretamente?
—Não.
—E isso vai realmente ser melhor que essa prova surpresa?
—Acredito que sim.
—Bom então eu posso dizer “Um obrigada Alex, não seria nada mal”, porque sinceramente esse monte de números, letras e letras gregas estão mais para confusão e bagunça do que física.
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