Arkhé - Perseguidos
13 Cara eu do futuro: Não, repito, NÃO beba líquidos estranhos
Notas iniciais
Encontramos uma mesa para dois mais afastada do centro e sentamos nela. Eu ainda estava nervosa com o fato de que as pessoas do Complexo ainda estavam nos perseguindo, já tinha tentado sentir alguma coisa, mas não os achava. Isso era um boa sinal certo?
Alex percebeu minha preocupação.
—Ei, vai dar tudo certo. Nós escapamos deles, que tal só aproveitarmos o jantar?
—Como você consegue?
—O que?
—Ficar tão calmo? É meio estranho considerando que é a você que eles estão procurando.
—Eu não sei. – Ele deu de ombros – Já fui pego e escapei tantas vezes que nem ligo mais, virou rotina.
—Escapar é fácil, enfrentar é onde a coisa se complica. Eles pegaram a gente tão facilmente lá que... eu não sei. Acho que pensei que só por termos poderes, iriamos ser invencíveis, o que é um pouco prepotente da minha parte, mas considerando o quão rápido eles conseguiram me sequestrar... Eu diria que ou eles não estão de brincadeira, ou eu sempre fui um alvo fácil mesmo.
—Que eles não estão de brincadeira, isso é verdade, mas não diga que você não sabe se defender, eu posso comprovar por experiência própria que você sabe. – Ele sorriu, e eu lembrei do dia em que nós conhecemos — Você não estava preparada, só isso.
—Obrigada pelas palavras de consolo, mas não é questão de estar preparada ou não, é questão de reagir. E eu te garanto que isso não vai acontecer na próxima vez.
—Você é orgulhosa não é?
—Muito. Algum problema?
—Nada contra.
Um garçom chegou e deixou duas taças com um liquido escuro e com uma aparência não muito boa, o garçom saiu logo depois sem dizer uma palavra. Eu olhei para o copo, olhei para Alex e ele olhou para mim e depois para o copo, e concordamos silenciosamente em não tomar aquilo.
Começamos a conversar sobre assuntos variados. Até que minha cabeça deu um clic, ou seria plim? (Anotação: Pensar melhor nisso depois). Consegui perceber três homens entrando no restaurante, vestiam ternos pretos e gravatas, tinham armas escondidas e entre outras coisas, eram perseguidores do complexo.
—Alex, eles nos encontraram. – Apontei discretamente para os caras de terno na entrada.
—Droga. Temos que sair daqui.
Ele levantou e eu o segui, fomos até um corredor que parecia ser a porta dos funcionários, entramos lá e saímos correndo pelo longo corredor a frente, meus sapatos fazendo barulho no chão de concreto.
—Não. – Parei – Volta. Eles estão vindo por lá.
Voltamos por onde viemos e viramos em um corredor que não tínhamos reparado antes. Demos em uma bifurcação.
—Vamos ter que nos separar. – Disse já ofegante com toda a corrida.
—Não, nós podemos...
—Alex, você sabe que eu estou certa. Você vai pela esquerda e eu vou pela direita. Não importa onde esses corredores derem, a gente se encontra na mesa em que estávamos.
—Ok – Concordou ele meio apreensivo.
Tirei o salto e saí correndo, eu para um lado e ele para outro. Fui parar na parte do restaurante que ia em direção aos camarins (Não sei se eram bem camarins, mas os dançarinos deveriam ter um lugar pra se arrumar certo?), havia uma escada mais à frente que dava para um andar, mais acima, mas passei direto.
Saí por uma porta e fui procurar a mesa em que eu e Alex tínhamos sentado. Depois de me perder algumas vezes e ter que voltar alguns passos, acabei achando a mesa, mas poderia ter demorado bem mais, aquele lugar era enorme, coisa que não parecia do lado fora.
Sentei na mesa, por sorte ninguém tinha pegado o lugar. Estava apreensiva por Alex, claro que tinha sido eu quem tinha sugerido a ideia de nos separarmos, mas era o que tinha que ser feito, era óbvio. Mas mesmo assim, eu não conseguia deixar de me preocupar com aquele idiota, principalmente depois que ele falou que não conseguia enfrentar Whithill. Era estranho considerando o fato de que eu o conheci como uma pessoa forte e inabalável, ele deveria ter um motivo para agir assim de qualquer forma, um passado que ele não queria me contar. Não o culpava, também não gosto do meu passado, de qualquer passado na verdade.
Tentei me concentrar para procurá-lo pelo restaurante, quem sabe, talvez eu conseguisse senti-lo. Mas a julgar pelo tamanho do ambiente ele poderia estar em algum lugar que meus poderes não alcançavam. Mesmo assim tentei, não custava nada de qualquer forma (Mentira! Grande mentira! Eu estava com uma baita dor de cabeça!).
Fechei os olhos e procurei. Pessoa desconhecida, pessoa estranha, pessoa com uma cara feia, lâmpada, comida com uma cara muito boa, lustre, garçom, pessoa que nunca vi na vida, mulher com um decote que... continuando, pessoa, pessoa, pessoa.
Era como se eu conseguisse ver a distância, sentia cada átomo, cada molécula, que aos poucos se transformavam em pessoas e objetos, conseguia ver cada detalhe, sem estar realmente “vendo”.
Parei depois de um tempo, podia até ser legal ficar passeando por aí com a minha mente, mas estava me dando uma baita dor de cabeça.
Olhei para a taça com o líquido escuro que ainda estava em cima da mesa. O gosto não podia ser tão ruim quanto parecia podia? Era melhor eu não tomar, aquilo tinha um aspecto tão esquisito. Mas que mal faria? Líquido era líquido certo? Antes que eu me arrependesse, peguei a taça e tomei tudo.
A dor de cabeça melhorou, digo, ficou menos pior, o que para mim já era suficiente para voltar a procurar. Vendo a entrada, consegui perceber que os nossos perseguidores engravatados já estavam indo embora. Interessante. Agora só faltava achar o Alex.
Comecei a sentir sono, provavelmente cansaço devido ao dia que tive. Mas aquilo me pegou de jeito. Tinha que ficar me beliscando para me manter acordada e continuar procurando o Alex.
Um tempo depois, quando eu já estava quase pegando no sono. Percebi algo familiar, fiquei alerta (Tanto quanto eu podia) e foquei. Era o Alex, estava todo cheio de sangue e hematomas, a blusa rasgada e o blazer sabe-se lá aonde, podia sentir os cortes nas mãos dele também, e o fato de que estava sendo carregado por dois homens para o subsolo, inconsciente.
Depois disso? Seria interessante dizer que despertei do meu torpor de sono e corri para ajuda-lo, que dei alguns golpes naqueles caras e salvei ele, que fomos para casa e que tudo estava bem.
Na verdade, só o que aconteceu foi que tudo foi ficando mais escuro, e mais escuro, e mais escuro, e mais escuro, até que tudo era só escuridão. Dormi. E acho que devo ter caído da cadeira também.
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