Arkhé - Perseguidos
10 Dramática? Eu? Você com certeza se confundiu
Notas iniciais
Depois que o sol se pôs, eu e Cami começamos a arrumar nossas coisas para ir embora. Tínhamos conseguido resolver uma parte do enigma e o resto veríamos depois. Já estávamos de saída quando Alex chegou com dois copos do Starbucks na mão.
—Anh... Nina, eu posso falar com você?
—Tchau Nina. A gente se vê amanhã. — Os olhos de Cami brilharam, ela nem me deu tempo de responder e já estava lá longe. Aposto que assim que eu voltasse para casa iria ter milhares de mensagens da Camila no meu celular perguntando o que tinha acontecido.
—Fala. – Me dirigi a Alex.
—Quer um?
Arqueei as sobrancelhas.
—O café. Você quer? – Perguntou receoso me estendendo o copo.
Peguei o copo da mão dele, mas não disse nada. Começamos a caminhar pelo parque.
—Olha eu queria agradecer pelo o que você fez e...
—Eu realmente não sei porque fiz aquilo – O interrompi no meio da frase – Você não merecia exatamente. De qualquer forma isso paga qualquer dívida que eu alguma vez tive com você.
—Ei – Ele se virou e pegou meus pulsos, me fazendo virar e olhar para ele – O que a faz pensar que eu não merecia?
—O modo como você me tratou hoje cedo exemplifica isso muito bem.
—Mas isso foi só....
—Precisa de um exemplo melhor? Depois que formou dupla com ela você nunca mais falou comigo. Olha quer saber, esquece. – Ia me virar para continuar andando, mas ele me segurou mais forte.
—Não. Me escuta. Eu só agi daquele jeito porque eu não queria que a Carol suspeitasse que eu tinha algo com você. Se ela imaginasse que eu tinha uma afeição por você, do mesmo modo que me perseguem, iriam atrás de você também.
—Afeição por mim?
—É. Acho que depois de tudo que passamos, somos amigos não?
—Somos? Eu me lembrava de estar muito brava com você.
—Mas se estivesse realmente brava comigo, não teria continuado com o plano. – Ele deu um sorriso.
—Não exatamente, por você ser o que é e por eu infelizmente compartilhar uma parte desse mundo, se capturassem você isso iria me atingir indiretamente, então foi uma ação egoísta mesmo.
Ele sorriu.
—Mas por falar no meu plano genial... O que você fez com o celular?
—Bom... Acho que eu devo estar indo para Europa neste momento e ao que parece a Carolina achou melhor ir ver pessoalmente se essa pista era verdadeira. E que não era para ninguém se preocupar se ela não desse sinal de vida por uns dias... – Disse Alex, o sorriso ainda nos lábios.
—Interessante.
—Nina, eu queria perguntar, você usou seus... – ele abaixou a voz – poderes? Digo depois que eu te contei e...
—Alex eu realmente não...
—É por que, só avisando, eles podem ficar meio fora de controle por alguns dias, não que isso alguma vez tenha acontecido comigo.
—Já estou imaginando a cena da sua casa pegando fogo, e do tornado particular do seu quarto, não precisa contar a história. Mas eu...
—Esse “mundo” não é brincadeira, de verdade. Se você quiser ajuda para treinar e...
—Não. Sério. Só por que eu ouvi sua história sobre o que eu sou e tudo mais, não quer dizer que eu concorde, acredite, ou queira mudar do nada a minha vida simplesmente porque você me contou, então eu muito menos quero falar sobre isso. – Falei com uma voz calma beirando a irritação.
Alex me olhou fixamente por um longo tempo.
—Como quiser.
Bebi um longo gole de café.
—Não podemos só falar de outra coisa?
Ele assentiu.
—Sobre o que quer falar? – Falou pensativo.
—Não sei, só...
—Vem, vamos aqui.
Alex me guiou para o pequeno lago que tinha no meio do parque, sentamos em um banco de frente para ele. Havia algumas crianças brincando por lá e fiquei observando.
Havia uma menininha correndo mais a nossa frente, ela tropeçou em uma pedra e ia cair no lago, arregalei os olhos, e ela parou, por um instante ela simplesmente parou, e depois recuperou o equilíbrio, cambaleando um pouco.
Alex olhou pra mim e levantou as sobrancelhas. Dei de ombros.
—O que? – Perguntei.
—Nada. – Ele bebeu outro gole do café.
Revirei os olhos.
Então subitamente Alex começou a sorrir. Maliciosamente.
—Alex?
—Oi?
—No que exatamente você está pensando?
Ele simplesmente sorriu.
Comecei a sentir uns pingos de água. Olhei para cima para ver se estava chovendo, mas não. Então senti mais pingos, ficaram cada vez mais fortes e pude perceber que vinham de trás. Assim que me virei, recebi um jato no meu rosto e descobri o que eram os pingos, o irrigador da grama tinha subido e eu estava na mira. Mas não. Olhei com mais atenção, o irrigador realmente estava ligado, mas eu não era para estar sendo atingida, a água aumentava o ângulo quando passava por mim, e me molhava.
Olhei inquisitivamente para Alex, aquele idiota ia me pagar.
—O que?
—Você vai ver.
Ele riu.
—O que foi que eu fiz? Não é culpa minha se o jato de água te atingiu.
—Ah claro. Então, me explique como você não se molhou também?
—Eu sou hidrofóbico.
—Ah sério? Vamos descobrir isso então.
Peguei o copo da mão dele e deixei no banco junto com o meu. Levantei e o puxei também. O arrastei até o irrigador. Ele ficou só me olhando. A água passou por ele e diminuiu o ângulo e não o molhou, quando passou por mim, o ângulo voltou ao normal e me molhou, completamente. Olhei para ele furiosa.
—Idiota. – Foi a única palavra que eu consegui pensar. Tantas outras existentes simplesmente sumiram do meu vocabulário.
—O que? Disse que era hidrofóbico.
—Claro. Você é hidrofóbico e está controlando a água. Incrível, gênio.
—Não posso não querer me molhar?
—E de passagem me molha?
—Não tenho culpa se você é azarada.
—Você é um grande idiota. Um cara metido a avatar muito idiota.
O empurrei para trás. Ele só sorriu.
—E o que você pode fazer a respeito?
O que eu podia fazer a respeito? Ah ele ia ver.
—Vou pra casa, cansei disso, além de que estou toda molhada.
Fui andando em direção ao lago.
—Ei! – Ele correu atrás de mim e segurou meu braço quando eu já estava à beira da água – Não precisa se irritar.
—Não estou irritada. Isso é tática. – Sorri e o empurrei na água.
Quando ele voltou a aparecer e tirou o cabelo molhado dos olhos, sorri de triunfo.
—Estamos quites.
Ele sorriu. E foi saindo da água lentamente, ou ao menos pensei que fosse, assim que chegou perto o suficiente de mim, ele me puxou pela mão, e eu cai no lago também.
—ALEX EU VOU TE MATAR!
—Já me disseram isso várias vezes. – Disse sorrindo. Aquele sorriso simplesmente não saia da cara dele.
Comecei a jogar água na cara dele.
—Idiotaaaaaa!
—Sabe, seria interessante se você usasse outro adjetivo.
—Eu estou irritada demais para pensar em outro. E idiota é perfeito pra você.
Uma onda me atingiu por trás. Quando consegui respirar ar novamente comecei a tossir. Alex estava rindo.
—Argh! Você...
—Eu não fiz nada! – Disse, rindo cada vez mais.
—Ah claro! E existem ondas em LAGOS por acaso?
Pulei pra cima dele. Mas ele foi mais ágil e me pegou na cintura antes de eu conseguir ataca-lo (Eu ia ataca-lo sim! De alguma maneira, que ainda não tinha pensado como). Ele me desceu lentamente, até que meus pés tocaram o chão do lago, não era exatamente fundo, mas a água batia na minha cintura. Ficamos nos olhando por um tempo, aqueles olhos verdes eram hipnotizantes. Ele me olhava de cima abaixo, os olhos inquietos. E eu simplesmente olhava para os olhos dele, patética. Ele se inclinou mais pra perto de mim.
—Ei! Vocês dois aí! É eu estou falando com vocês! Aqui é uma área pública! Tenham mais decência por favor! Saiam daí!
Enrubesci. O QUE?
Me virei para olhar quem tinha falado isso. Era um velho que estava passeando com uma garotinha, a neta talvez.
Olhei para Alex, ele parecia atordoado, mas se recuperou rapidamente. Saímos do lago rindo.
Mas soquei o ombro dele com força quando saímos.
—Ai! Por que você fez isso?
—Por ter me molhado, para início de conversa.
Ele revirou os olhos.
—Estou desculpado, pelo menos?
—Veremos. – Disse com um sorriso se formando nos lábios.
—Mas falando sério, eu nunca faria nada para te machucar, eu só agi daquele jeito para a Carol não suspeitar.
—Me veio uma pergunta agora: Deveríamos chamar ela de Carolina ou Carol, mesmo sabendo que o nome dela é outro?
—Conheci ela por Carolina, vai ser esse mesmo – Disse ele dando de ombros.
—Agora você está sem par no trabalho de física não?
—Ah... é mesmo. Mas tanto faz, resolvi aquele problema facilmente. – Olhei para ele ceticamente – Tá. Tudo bem, demorou um pouco para eu conseguir resolver, mas é porque o problema era confuso. Mas assim que eu consegui eu ainda fui te ajudar, então...
—Ainda me pergunto por que pensou que eu não daria conta, não sou burra sabe?
—Claro, sei disso. Mas só quis ajudar...
—Me dando a resposta? Se quisesse me ajudar me falasse o que eu estava confundindo, e isso SE eu fosse a sua dupla. Não sou o tipo de pessoa que gosta de ir pelo caminho fácil, se é para fazer alguma coisa, eu faço direito, EU MESMA. – Mentiraaaa deslavada. Eu sou uma pessoa preguiçosa ao extremo, sempre pego o caminho fácil. Mas de novo, o orgulho atacava.
—Tudo bem, se acalma. Entendi que você já tinha pego o gabarito antes mas...
—Oi?
—É o...
—Espera. Você acha que eu e a Camila só conseguimos resolver o problema porque eu peguei o gabarito!!?
—Mas você não pegou?
—Sim.
—E não olhou por acaso?
—Eu peguei os papeis e os dobrei sem ver uma resposta! Você acha que eu preciso disso? O único motivo pelo qual eu fui lá foi você! Para te ajudar! Você acha que eu sou tão incapaz assim? Ou então que eu realmente só conseguiria colando?
Tá. Essa parte é verdade. Eu realmente não olhei as respostas do trabalho. Juro. Estou, aos poucos, tentando ser uma pessoa melhor, está vendo? E foi por isso que eu me irritei, Alex não acreditava nisso, e ele mal me conhecia, e o problema era que eu me importava com o que ele pensava.
—Não é só que eu...
—Para o seu conhecimento eu realmente vi o erro da Camila! Eu realmente consegui entender! Tudo bem eu posso não ser um gênio em física, mas pelo menos eu sou honesta!
—Diz a garota que roubou o gabarito da prova!
—Por você idiota! Para um estúpido plano que ia salvar a sua pele!
—Mesmo que não este! O que você estava fazendo então quando nos conhecemos?
Silêncio.
—Pois é. – Ele continua quando eu não respondo.
—Isso não é da sua conta.
—No momento em que você me acusou de desonesto virou da minha conta. – Ele cruzou os braços.
—Eu usei a palavra errada, me processe.
—E qual seria a certa? Desculpe se isso te magoou Nina, mas a verdade é que você sempre agiu de um jeito desde que nos conhecemos e nunca me deu nenhuma razão para pensar que você era diferente.
—Então você pensou que eu era o tipo de garota que pegava o gabarito e colava em todas as provas?
—Basicamente.
Suspirei.
—Eu tento estudar, sério, tento mesmo, mas de vez em quando não é o suficiente. Não estou afim de repetir de ano, e o colégio tem uma política sobre isso: Nada de repetentes. Gosto de lá, não queria ter que ir para outra escola, então roubei o gabarito.
—Eu não...
Interrompi-o e continuei em tom controladamente calmo.
—Eu costumava ser bastante esforçada, ou tentava ser, fui crescendo e acabei mudando meu ponto de vista. Você tem razão, eu não sou honesta, nem um pouco na verdade. Mentir acaba sendo uma máscara para mim. Eu sou o tipo de pessoa que pesca as respostas de quem estiver sentado perto de mim. Faz um bom tempo desde que eu abri um livro para estudar por conta própria, no final, Camila acaba me dando resumos e é assim que eu passo nas provas. E se eu não tiver chance nem estudando, eu roubo o gabarito. Mas se tem uma coisa que eu mais odeio é quando me subestimam, quando me acham incapaz de fazer alguma coisa sozinha, seja qual for o motivo. – Sabe a parte em que eu falei controladamente? Então. Esqueça. E acho que elevei um pouco a voz também. – Já me trataram assim uma vez, bem, não é um ótimo exemplo de comparação já que o que aconteceu foi bem pior, mas o princípio é o mesmo, e como é sempre melhor cortar o mal pela raiz, o final vai ser também.
—Não entendo, o que aconteceu?
—Não estou afim de relembrar, e certamente não vai ajudar você já que só vai me trazer mais raiva. O meu ponto é que: Eu cortei aquela pessoa da minha vida, assim como estou cortando você agora.
—Nina, por favor. Não seja dramática.
—O que? Nina o que? Por que ninguém acha que eu consigo me virar sozinha?! Porque para eu fazer alguma coisa tem que sempre ter a ajuda dos outros? É tão difícil assim acreditar? Qual é problema comigo? Hein? Me fala!
—Nina, eu...
—Tchau Alex. Eu me cansei dessa conversa. E por favor, não fale mais comigo.
Saí andando pelo parque. Eu estava furiosa. Talvez por isso quase não reparei a sensação de alguém me olhando, me conhecendo, eu conseguia sentir onde ele estava, escondido entre as pessoas, camuflado pela multidão, mas de olho em mim e em Alex. Reprimi o pensamento, não estava com cabeça para ficar usando meus poderes (Por que aliás, isso não é nem verdade. Certo? Não? Enfim) e principalmente por que pensar nisso envolvia pensar no Alex.
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