Arkhé - Perseguidos
4 Avatar: A Lenda do Idiota
Notas iniciais
Estamos no apartamento do “idiota” e estou no meu segundo Big Mac. Não sei quando mas devemos ter parado em algum lugar para comprar. Mentira eu sei sim, nos meus poucos momentos em que eu não estava atordoada, eu só lembrava do “Idiota” perguntando se eu estava bem e dizendo que precisávamos conversar. Quando eu me enchi dele falando a mesma coisa várias e várias e várias vezes e eu o interrompi e disse que só falava com ele se ele me desse comida. Devíamos estar perto de um Mc Donald’s na hora.
Depois só me lembro dele me guiando pelo prédio, abrindo a porta do apartamento, me colocando no sofá e me estendendo a sacola do Mc Donald’s. Como assim eu deixei ele me levar para a casa dele? Ele podia ser um sequestrador e eu poderia ser morta a qualquer momento. Tá, tá. O fato era que eu estava muito cansada pra isso, e eu queria respostas que só ele iria ter. Então eu tinha opções um pouco limitadas.
Assim que terminei, olhei para ele, e ele me olhou de volta com ternura. Não estava entendendo nada. Não era para ele ser legal comigo, era para ter medo do que fiz, do que sou (apesar de nem eu mesma saber). Mas aí eu lembrei: Avatar. Ele controlava os elementos, era igual a mim, ou quase isso, provavelmente já tinha passado por tudo isso também. A única coisa que consigo pensar para falar ao abrir a boca é:
—Você controla o ar também?
Ele sorri.
—É sério? É essa a sua pergunta?
Dou de ombros. Tenho mais perguntas a fazer, mas essa é uma das únicas que consigo falar, porque não é sobre mim.
—Ahn... Sim, eu controlo o ar também se é isso que quer saber. Eu realmente não queria usar meus poderes lá, principalmente porque não sabia exatamente o que você iria pensar em mim depois disso, mas acho que essa não deveria ser a minha maior preocupação não?
Fico em dúvida se devo mudar o apelido dele para avatar ou continuar com idiota.
—Antes eu te achava idiota. Agora acho que você é o avatar, só que idiota.
Ele ri. É bom me dispersar dos meus pensamentos com humor, me sinto leve, mais leve do que eu realmente estou.
—É uma surpresa para mim que você veja desenhos de qualidade, e fico honrado com a comparação. — E faz uma mesura em tom de deboche
Reviro os olhos. Mas não digo nada. Não por não ter palavras para revidar, se eu estivesse bem esse garoto ia ver, mas estou com coisas demais na cabeça para ficar discutindo com ele o que ele acha que eu assisto. Vou para outra pergunta.
—O que você é?
—Ahn, uma pessoa?
—Você sabe do que eu estou falando. A ideia da pergunta é como você tem esses poderes. Você uma pessoa idiota disso todos temos certeza, mas se é humano ou não eu ainda estou querendo saber. E pode contar a história do início, foi você quem me meteu nessa afinal de contas.
—Mas se eu não tivesse aparecido você não teria...
—Desculpa eu falei que queria uma história, e de acordo com as aulas de redação que tive todos esses anos isso não é uma. –Eu o encaro.
— Tá. O que eu sou ou como descobri isso?
—Os dois, pode escolher a ordem. — Sorrio sarcasticamente.
—Ok. Você já teve alguma aula de filosofia?
—Já. E o que isso tem a ver?
—Deixa eu falar. Você já ouviu falar da palavra arkhé?
—Oi?
—Arkhé
—Talvez, já tive aulas de filosofia, mas nunca disse que prestava atenção nelas.
—Certo. Arkhé é uma palavra grega que surgiu entre os antigos filósofos pré-socráticos e que significa a fonte de onde tudo surge. Hoje em dia, conhecemos isso como átomo, mas na época isso ainda não tinha sido descoberto. Então, vários pré-socráticos procuraram a arkhé do mundo, Thales de Mileto disse que era a água, Anaximandro uma matéria indefinida, Empédocles os quatro elementos. – Ele olha para as próprias mãos.
—Tá ok, obrigado pela aula de filosofia, mas você é um péssimo professor, a pergunta não foi essa.
—Deixa eu acabar. Arkhé também é como denominamos as pessoas da nossa sociedade, existimos desde muito tempo atrás, somos uma variação genética dos humanos, mesmas características mas com uma diferença importante, usamos mais partes do nosso cérebro do que eles, assim então conseguimos controlar a matéria, os átomos, mas cada um de uma forma diferente, alguns controlam o ar, outros as substancias, fazendo as mudar de forma, há pessoas que controlam a água e seus estados físicos, há aqueles que conseguem controlar as células, e muitas vezes conseguem que outra pessoa faça alguma coisa que não querem, há aqueles que controlam os elementos, como eu, e também os que conseguem controlar uma matéria por completo, tendo o que chamam de telecinesia, como você... – Ele me olha, mas eu desvio o olhar, de alguma forma acho que tornará o que ele está falando mais real. -Na Grécia antiga, muitos dos filósofos que proporam a arkhé do mundo eram arkhés, Thales de Mileto e Empédocles por exemplo. Alguns conheciam arkhés e então baseavam suas teorias da origem de tudo nisso. Outros eram simplesmente malucos, mas também haviam aqueles que realmente pensavam sobre qual seria a fonte de tudo.
Esperei pelo momento em que meu cérebro iria dar um tilt e dizer que ele era louco, que aquilo não tinha nada a ver comigo e que ele precisava ir para a ala psiquiátrica de um hospital. Infelizmente, isso não aconteceu.
Eu estava entendendo perfeitamente o que ele estava falando, cada peça do quebra-cabeça se encaixando na minha mente. E uma parte do meu pensamento (Essa qual eu tentava, sem sucesso, reprimir.) estava dando pulinhos imaginários e cantarolando “Eu tenho poderes! Eu tenho poderes!”.
O que estava acontecendo comigo? Por que diabos eu estava achando aquilo certo e... normal?! Eu fiquei louca também, essa é a explicação. Eu bati a cabeça muito forte e isso tudo é total e completo fruto da minha imaginação. Eu estou dormindo.
Ou não. Eu sabia bem o que tinha acontecido... o que eu tinha visto. Meus olhos ainda estavam com as sombras de luz do fogo que o garoto controlou. E de alguma forma, eu ainda conseguia lembrar da sensação que eu senti ao parar o projétil no ar. Da sensação de me sentir viva.
Para. Stop. Acabou. Eu sou uma pessoa racional, o que eu estou pensando agora é completamente insano. E como sou uma pessoa muito responsável, eu vou sair correndo pela porta de frente agora mesmo e ir o mais longe possível desse menino e nunca mais pensar sobre isso na vida. (Mentira, eu não sou responsável coisa nenhuma, eu sou a pessoa mais inconsequente da face da Terra. E foi exatamente por isso que eu fiquei. Além do fato de que eu ainda tinha algumas perguntas.)
—Ok, entendi essa parte. Agora, como você sabe disso tudo?
—Fiz algumas pesquisas...
—E como você descobriu que tinha esses poderes então?
—Da mesma forma que você – Faço uma careta — aconteceu inesperadamente.
—Sim, a história.
—Ah isso eu não vou contar.
—Por que não?
—Ah qual é! Eu nem sei o seu nome!
—Eu também não sei o seu! E mesmo assim salvei sua vida várias vezes!
—Várias vezes? Eu te salvei bem mais.
—Não foi não
—Falando nisso, e a nossa aposta? Quem de nós dois derrubou mais caras?
—Eu não estava contando mas podemos fazer isso agora, e você vai ver que eu ganhei. – Falei pegando um papel e uma caneta que estavam próximos.
—Não tenho tanta certeza.
—Ok, você atingou 1 homem com a arma sei lá o que, por sinal, tenho que te dizer: sua mira é péssima. Depois devemos ter atingido uns 4 com as bombas, 2 para mim e 2 pra você, depois...
—Depois pode colocar mais 7 para mim – Disse com um sorriso de triunfo, droga, tinha esquecido dos caras que ele derrubou quando deu uma de avatar. Escrevi os 6 dele e o ignorei.
—E depois mais 3 para mim e mais 1.
Ele abriu a boca para dizer algum discurso de vencedor, mas o interrompi.
—Mas, acho que como a ideia de ficar na armação e atirar de lá foi minha acho que pelo menos mereço mais, sei lá, aproximadamente 12,5% da contagem total. – Li em algum lugar que números quebrados dão sorte, esse foi o primeiro que veio na minha cabeça.
Ele me olhou desconfiado, e não esperei ele responder, fiz contas (12,5% de 16) colocando mais 2 para mim e riscando o 10 dele e colocando 8.
—Fica 8 e... 8. Droga. Empate. – O que. Eu. Fiz? Deveria ter pedido 25%, eu simplesmente trocaria de números com ele. Por que? Por que eu não fiz essa conta antes?? E qual é o meu problema com números quebrados? Essa teoria está completamente errada.
—Agora entendo o que disse quando falou que não era prodígio em matemática.
—Ei! Foi um erro válido! De 12,5 pra 25 é muito pouco, eu me confundi!
Ouço trovões a as luzes da sala piscam. Ele se levanta assustado.
—Com medo de trovões avatar?
—Eu não estou com medo. Foi um reflexo, só isso
—Ah não claro, porque nem dá para ver isso na sua cara. Não sei como você pode ter medo disso, acho tempestades de raios tão bonitas.
—Tá de brincadeira né?
—Não. De verdade. Vem aqui. – Peguei a mão dele e o levantei do sofá bruscamente e então fui até a janela e ficamos olhando os relâmpagos acenderem, os raios caírem e os trovões soarem na chuva lá fora. De vez em quando eu contava desde o momento em que vi o raio até ouvir o trovão para ver a que distância os raios caiam de nós.
—Está vendo idiota? É lindo.
Ele riu baixinho.
—É.
Ficamos um tempo em silêncio e então ele disse:
—Alex.
Olhei para ele, estava encarando os raios como se os desafiasse e ao mesmo tempo os admirasse. Quando percebeu que eu o estava olhando se virou para mim e sorriu.
—Meu nome. Nós passamos por tudo isso e sem nem saber nossos nomes. Bom, eu me chamo Alex.
—Nina. – Sorri.
Alex. Alex, Alex. É, talvez eu me acostumasse com esse nome e parasse de chama-lo de idiota, ou avatar. Ou talvez não.
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