Aritmância
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Lily estava consciente da presença dele. É claro que estava.
Ela se encontrava em uma das mesas na Sala Comunal de sua casa havia algumas horas, rabiscando um pergaminho de Aritmância. Puxava para si, ora ou outra, um livro com conteúdos avançados para complementar sua redação e, de vez em quando, parava para esfregar os olhos com os nós dos dedos.
Consultou o relógio de pulso e constatou que estava tarde. Mais alguns minutos ali e marcaria meia-noite. Ela adoraria descansar. Realmente gostaria. Mas não podia. Os professores pareciam ter feito questão de sobrecarregá-los com deveres a ponto de um ou outro atrasar. Isto aconteceu com o seu de Aritmância e, agora, ela teria que correr contra o tempo. A entrega seria amanhã e ela não tinha certeza se escreveria tão bem ao acabar de acordar, caso deixasse a tarefa para o dia seguinte. Para ser sincera, já tinha adiantado-a demais.
Tirando seu cansaço da jogada, tudo estava correndo bem.
Estava. No pretérito imperfeito mesmo.
Tudo estava sob seu controle até ele adentrar o salão com um novo objeto.
Ela não se considerava uma pessoa curiosa — ou, pelo menos, não muito — mas, veja bem, Evans estava levemente entediada e James possuía em mãos algo que não era um pomo de ouro (não que Lily prestasse atenção ao que Potter carregasse por aí ou não. Não. Ela não fazia isto.), o que a levou a franzir o cenho.
Sua pena parou de trabalhar e o que quer que ele segurasse não emitia brilho à luz da lareira. O fogo crepitava e soava em seus ouvidos como um plano de fundo de uma noite de inverno. Era um cenário aconchegante mesmo se tratando de uma noite abafada de verão, e ele pareceu pensar o mesmo, pois largou sua mochila no chão com carpete e descansou o corpo no sofá, o objeto misterioso ainda em mãos.
Lily percebeu que tinha dois problemas. O primeiro, inicial e mais óbvio, era sua redação de Aritmância — matéria a qual ela estava passando a detestar momentaneamente, já que estava impedindo-a de ir para cama e a fazia hesitar (deixá-la de lado por um tempo e descobrir o que era aquilo ou seguir em frente com seu dever e ignorar sua repentina curiosidade?) — e, o segundo, claro, era... aquela coisa que estava sob posse de Potter. Por o que pôde observar àquela distância, tratava-se de algo pequeno, que cabia na palma de uma mão.
Hm. Curioso.
Seria muito estranho ela levantar aparentemente sem razão, juntar seus pertences e sentar na mesa que estava mais perto da lareira?
Ela quase fez isso. Quase.
Malditos instantes de impulsividade.
Ela quase desejou que tivesse se erguido logo e realizado algo porque agora voltara ao estado de indecisão. Sanar sua curiosidade ou honrar sua conhecida responsabilidade de Monitora Chefe?
Maldição.
Odiava não saber como agir. Se alguém olhasse para ela naquele minuto, veria uma leve carranca em seu rosto alvo e pintado de sardas, que iam da ponte de seu nariz à região logo abaixo dos olhos verdes.
Lily bufou. Alguns fios soltos do cabelo ruivo balançaram à brisa. Agora estava cansada e irritada. Ótimo. Simplesmente ótimo. Como ela havia parado naquela situação?
O som de algo sendo arremessado contra a parede invadiu seus ouvidos e ela se sobressaltou, pega de surpresa. James jogou o que segurava contra a parede e o pequeno objeto retornou às suas mãos.
Uma bolinha.
Uma bolinha.
Uma bolinha?
Patético. Simplesmente patético. Ela despendeu seu tempo (dez minutos, no máximo) pensando sobre o que poderia ser e como descobrir do que se tratava para nada. Quer dizer, para uma bola de borracha.
Uma mera bola de borracha. Patético.
Decidiu voltar à tarefa. Trabalhou no que foi pedido pela professora Septima Vector por mais algum tempo até que percebeu que seus dois problemas persistiam. O primeiro era o mesmo, porém o segundo mudou de forma. Aquela coisa patética estava fazendo barulho, perturbando-a.
Lily não sabia se James tinha conhecimento da sua presença (ele não olhou para Evans quando entrou na Sala Comunal como ela fizera ao ouvir o retrato deslizar para o lado e dar passagem), logo, não podia dizer se era proposital. Mas era irritante e ela estava irritada. E precisava pensar. Pensar sobre Aritmância e no que escrever, e não em Potter e em sua maldita bolinha.
Ela refletiu sobre o próprio pensamento e, então, riu. Ela riu porque tinha uma mente suja e estava cansada. Ela riu porque aquilo era ridículo e ela era idiota. Ela riu sem aviso prévio e isto o pegou de surpresa.
James ergueu a cabeça do sofá e agarrou o objeto de borracha uma última vez.
“Evans?”
Sua voz saiu entrecortada por risadas ao responder.
“Olá, Potter.”
Ele parecia atordoado e confuso. Lily não o julgava. Se invertessem os papéis, assumiria a mesma expressão com o cenho franzido e as sobrancelhas unidas. Ela levou um certo tempo para parar de rir sozinha com sua frase pervertida.
Ao encará-lo com o canto dos lábios erguidos, no entanto, suas bochechas aqueceram e ela anteviu a pergunta saindo da boca de James (quem, por acaso, adoraria saber o que houve com ela e riria maliciosamente com sua resposta, caso Lily se prestasse ao papel de passar vergonha dessa forma).
“Você tá bem, Evans? Aconteceu algo?”
Não, a ruiva não estava. Era tudo culpa do cansaço que destruía seus músculos. E de Potter. Ele a pegou — não literalmente, embora ela pudesse achar a experiência um pouco interessante, já que havia ouvido boatos de que Madame Pince não se dirigia à Seção Restrita da biblioteca com frequência — de surpresa e ela não estava pronta para ouvir sua voz grave àquela hora. Não era bom para sua imaginação fértil.
Mas é claro que ela não disse isso.
“Tô bem, só que a sua bolinha aconteceu e eu não consigo me concentrar e terminar essa maldita tarefa.”
Não que essa resposta tenha saído muito melhor, de qualquer maneira.
James arqueou as sobrancelhas e deu a volta no sofá, os dedos hábeis manuseando o objeto mais rápido do que Lily poderia acompanhar. Colocou-se ao lado dela, a coluna inclinada na cadeira e os pés sobre a mesa. Por pouco não respingou tinta no seu pergaminho escrito.
Cerrou os olhos para ele, ao passo que Potter revirou os seus para ela. Inclinou-se e roçou os dedos nos de Evans ao retirar o trabalho de sua proteção.
“Vou tomar cuidado.”
Assentindo desconfiada, a ruiva esperou não-tão-pacientemente que o rapaz lesse sua longa redação e pudesse contribuir com mais do que um Tá muito bom. Você deveria ir dormir agora.
Para sua surpresa, James puxou a varinha do cós da calça e murmurou um feitiço de correção, mudando algumas palavras para parecem mais legíveis e alterando erros semânticos no texto. Lily mirou por cima do ombro e arregalou os olhos para os deslizes vergonhosos que cometeu devido ao sono. Suas bochechas aqueceram e sua face assumiu uma coloração rosada.
Céus, ela precisava descansar o mais rápido possível. O que a professora diria se a visse comparando a composição de tabelas conceituais e complexas com a diferenciação de piscadelas sexuais e desconexas?
“Acho que precisa de um tempo, Evans.”
Um arrepio desceu por sua coluna ao ouvi-lo ainda mais rouco que antes. Lily precisou de todo seu autocontrole para não aproximar-se mais e encaixar seus lábios nos dele.
O que diabos ela estava pensando?
Talvez Marlene McKinnon estivesse certa ao dizer que aspirar os aromas da sala de Poções por muito tempo não fizesse bem aos alunos. Talvez Dorcas Meadowes estivesse correta ao afirmar que a amizade da ruiva com Remus Lupin fosse um fator influenciador determinante para sua proximidade com Potter. E talvez Alice Fortescue tivesse razão ao insinuar que Lily se sentia atraída por James.
Talvez.
Oh, céus, ela estava mesmo levando aquela opinião absurda a sério?
Quer dizer, era James Potter. James Potter. O cara que fez bullying com seu ex-melhor amigo, Severus Snape. O idiota arrogante que azarava alunos descuidados apenas por diversão. O jogador de Quidditch convencido que andava por aí com aquele pomo de ouro estúpido para exibir-se, mesmo sendo artilheiro.
Mas… havia algo de errado em sua linha de raciocínio. Evans franziu o cenho ao perceber que se tratava do James dos primeiros cinco, seis, anos.
Potter havia mudado.
A perspectiva a pegou de surpresa. Lily precisou de alguns segundos para perceber que o número de detenções caíra desde o sexto ano — até porque, por algum motivo desconhecido, ele fora escolhido como Monitor-Chefe junto a ela — e a quantidade de pegadinhas proporcionadas a Hogwarts pelos Marauders sofreu uma diminuição drástica (é claro que ele e os amigos ainda pregavam peças, porém com bem menos frequência).
Ela precisava admitir: ele se esforçava para ser responsável. Até mesmo passou a chegar no horário preciso das aulas.
Em comparação ao início do período letivo, James participava ativamente das reuniões de monitoria, sugerindo métodos detalhados de como realizar as rondas eficientemente e de qual maneira poderiam pegar alunos após o toque de recolher de forma rápida e prática.
Evans percebeu que não havia mais escapatória: ele havia amadurecido, realmente mudado. E, ao parar para pensar melhor, ele não fazia bullying com Snape, já que o tratamento grosseiro era mútuo e não havia uma relação de poder.
Era quase irônico Potter ter dedicado boa parte de sua atenção a Lily ao longo dos anos e ser ela quem estava ali listando, em sua mente, as qualidades do rapaz.
Ela mordeu o canto dos lábios e o focalizou em seu olhar. Ele a encarava com atenção, entretanto parecia mergulhado em seus próprios pensamentos. Ao expirar o ar pela boca, olhando para a de James, atraiu a atenção dele para ela e sentiu-se corar profundamente.
“Hm… é. Acho que sim.”
Lily sequer se lembrava com o quê havia concordado.
Potter uniu as sobrancelhas, desconfiado, e aproximou o rosto para olhá-la mais de perto. Um pouco mais e…
Ele não a beijou. Algo murchou dentro dela. Seu estômago deu uma pequena cambalhota de decepção.
“Deveria descansar mais. Sei que já é acostumada a ficar até tarde, mas suas olheiras estão profundas. Você precisa ir dormir, Evans.” Murmurou, tocando o rosto dela, o polegar deslizando com suavidade pela região abaixo dos olhos.
“Eu sei, é só que…” Podia sentir o hálito fresco e quente dele contra a pele dela, um pouco mais fria do que imaginava estar a de James.
Sem aviso prévio e com o olhar preso ao dele, apoiou a mão sobre a mesa, inclinou o corpo e o beijou. Nem precisou inclinar-se muito para isso e sequer encontrou resistência.
Potter roçou os dedos firmes em sua pele ao subir a mão para seu pescoço e enroscou os fios ruivos ao redor. A outra mão desceu para a cintura da garota, pressionando o corpo no dela. Todos os locais onde ele a tocava, queimava. Seu corpo ansiava por aquilo e cada músculo agradecia silenciosamente pelo contato.
Se não fosse pelo tecido grosso e por Lily arranhá-lo por cima da camisa, ele ficaria com marcas visíveis no dia seguinte. Não importava. Ela acabara de bagunçar seu plano inteiro de ir devagar e ser cauteloso, conforme as instruções de Moony. Enquanto corria as unhas por ser tronco, a outra mão da garota se ocupava em puxar seu cabelo.
Estava ocupada demais para perceber que saíra de onde sentava e acabara sobre o colo dele. Estava ocupada demais para importar-se, também. Agora desperta, interessava-se apenas em beijá-lo e procurar por um ângulo abrangente, que poderia dar a ele a oportunidade de explorar ainda mais a boca dela e acabar com a pouca sanidade que restava em ambos.
Ignorando os murmúrios incompreensíveis de James, Evans deslizou a mão direita por baixo da camisa e sentiu os músculos se contraírem sob seu toque. Ele grunhiu baixinho e a afastou antes que sua curiosidade a levasse mais embaixo.
“Gostei do jeito que você encontrou pra me agradecer.” O tom divertido contrastava com seus lábios inchados e a respiração descompassada.
Ela não estava diferente. As bochechas coradas ficaram ainda mais vermelhas ao desamassar a blusa e dar-se conta que estava em cima dele.
Céus.
Potter pareceu notar sua situação e adivinhar o que se passava pela mente da ruiva, pois riu e a puxou para si em um abraço acolhedor. O carinho em suas costas quase fez Lily esquecer do que acabara de acontecer e de que precisava entregar um trabalho de Aritmância em algumas horas.
“Eu acho… que tenho que terminar isso.” Referiu-se ao dever sem mover-se. Não conseguia e também não queria.
“Já tá pronto, Evans.” Ele retrucou, afastando-se o suficiente apenas para trazer o pergaminho para si e incitá-la a ler o que escreveu. “Você tava tão concentrada e pilhada que nem reparou.”
Ela piscou e sussurrou, sem jeito: “Oh.”
“Já pode ir pra cama.” James mordeu o lóbulo de sua orelha, o tom de voz baixo e carregado de segundas intenções. Lily precisou respirar fundo para não descer a mão para continuar o que e onde tinha parado.
Com um sorriso sarcástico e uma ideia pervertida em mente, ela afastou o tecido e mordeu a pele do ombro, arrastando a boca pelo pescoço até a orelha.
“Pode vir comigo agora ou me encontrar na biblioteca mais tarde, na Seção Restrita. Ou fazer os dois.”
Um gemido contido vindo de Potter foi o último som que ela ouviu antes de saírem da Sala Comunal e Evans buscar controlar os próprios no banheiro dos Monitores.
Fale com o autor