Argentum

1 Capítulo 1 - Encurralado


Notas iniciais
As conversações destacadas em negrito estão traduzidas do latim para o português. Latim é a língua materna das criaturas da floresta e de Argentum.

A floresta brilhava sob os raios dourados da alvorada. Insetos zuniam no ar abafado. Aves belíssimas cantavam, ocultas pela cobertura esmeralda de folhas. Peixes de várias cores pulavam para fora da água cristalina de um riacho. Um pequeno cervo se aproximou do corpo d’água e abaixou a cabeça para sorver o líquido precioso.

A paz reinava sobre tudo.

Mas não por muito tempo.

Um galho se partiu embaixo de seus pés com um estalar alto. Ele se movia com a agilidade de uma gazela entre as árvores frondosas. Atrás de si, os cascos brutos esmurravam a terra fértil sem misericórdia, a armadura que revestia os corpos dos cavaleiros que os montavam tinia de uma maneira infernal, espantando todo e qualquer animal que tivesse se aninhado entre as raízes das árvores para um rápido descanso.

— Peguem-no! – Bradou o capitão para seus homens.

Argentum respirava com dificuldade. Seu peito estava dolorido ao ponto de parecer que iria explodir a qualquer momento. Suas pernas torneadas estavam cansadas, fazendo com que houvesse um exorbitante e gradual déficit em sua velocidade.

Apesar de seu corpo esguio ser atlético, ele não era páreo para as patas musculosas dos cavalos que seus perseguidores montavam, além do fato de os animais estarem devidamente descansados, o que era o oposto do que ele se apresentava no dado momento.

Seus olhos amarelos visualizaram uma elevação à sua frente. Se os quadrúpedes estivessem exaustos, com certeza aquilo selaria sua fuga, mas infelizmente os números estavam contra si.

Argentum possuía apenas alguns segundos para decidir qual caminho tomar, entretanto escolheu o que mais lhe oferecia segurança. Os cavalos nunca conseguiriam subir aquele aclive na velocidade atual, o terreno era muito acidentado, iria destroçar as juntas dos pobres animais.

Um sorriso determinado iluminou o rosto fatigado do rapaz.

Ele inspirou profundamente e acelerou o passo, seus músculos protestaram quanto ao esforço da subida, mas ele ignorou a dor.

Suas enormes orelhas, semelhantes as de um morcego, captaram o grito que o capitão teve que dar para diminuir o ritmo de suas montarias.

Argentum comemorou internamente.

Então tropeçou em uma raiz que se sobressaia da terra como uma cobra velha. Ele perdeu o equilíbrio e rolou declive abaixo, a relva lhe cortando e arranhando a pele cor de oliva.

Seu corpo perdeu a velocidade, parando ao pé do morro. O rapaz permaneceu imóvel, atordoado pela queda com um alto zumbido nos ouvidos.

Com dificuldade abriu os olhos, estava deitado de bruços sobre o solo úmido. O cheiro forte de matéria em decomposição invadiu suas narinas. Aos poucos o ambiente entrava em foco e o zumbido ia desaparecendo, dando lugar à tranquilizante música que a floresta emitida, com o vento percorrendo as folhas e com os animais trinando em harmonia.

Sentia-se tão cansado. Seu corpo implorava por um descanso, mas o trovejar dos cascos dos cavalos soava como um lembrete, denunciando que logo teria que se levantar se não quisesse ser capturado pelos cavaleiros... Novamente.

Exausto, ele obrigou seus braços a sustentarem seu peso ao se levantar. O rapaz olhou para o alto do aclive, assim que os cavalos chegassem ao ápice do morro, seria uma questão de tempo até o alcançarem.

Um suspiro escapou de seus lábios. Por que os humanos tinham que ser tão persistentes?

Argentum retomou sua fuga, mas mais lentamente, em um passo cambaleante. Suas forças estavam quase nulas. Se tivesse sido mais cuidadoso, ele teria notado a armadilha. A corrente de prata que haviam usado para segurá-lo havia feito enormes queimaduras em seu peito e mãos, além de minar suas forças. Ele ainda não entendia como havia conseguido escapar com o Coração em sua posse com toda aquela prataria ao seu redor.

Deveria ser mais cuidadoso, se tivesse ficado preso por mais tempo, teria caído inconsciente e então seria facilmente capturado, colocando em risco a floresta. Ele era o único guardião que podia sair da segura cobertura de folhas e penetrar o reino dos humanos sem grande alarde.

Seus pés atingiram o solo arenoso da área descampada que ficava ao lado do rio cujo curso estava seguindo. O corpo d'água terminava abruptamente em uma enorme cachoeira há algumas dezenas de metros a sua frente.

Argentum parou para tomar fôlego por alguns segundos. Suor encharcava seu corpo seminu, seus músculos estavam doloridos de tanto correr. As queimaduras devido à prata pareciam estar em chamas, levariam semanas para serem curadas.

— Lá está ele! – O grito flutuou pelo vento até chegar aos ouvidos do rapaz. Ele se virou assustado, mas já era tarde demais. Algo lhe acertou as costas com força, arrancando um grito esganiçado de dor. Outra flecha veio logo em seguida, se alojando no tronco de uma árvore morta.

Eles tinham flechas. Por que estava tão surpreso? Era óbvio que eles não iriam brincar de pega-pega com ele e depois desistir!

— Ao meu sinal! – Disse o capitão observando Argentum correr cambaleante na direção do rio. Sangue rubro escorria do ferimento que a flecha havia feito em suas costas, exatamente sobre a omoplata. – Arqueiros! Preparar... Apontar... Fogo!

O zunido que os dardos fizeram ao deixarem os arcos dos cinco cavaleiros fizeram os ouvidos do rapaz doerem. Quase todas as flechas erraram o alvo, apenas duas conseguiram concluir seu objetivo: uma se afundou no ombro dele e outra se enterrou em sua panturrilha, o fazendo tropeçar e desabar pesadamente no chão.

Os cavalos formaram um círculo ao redor do corpo de Argentum para impedir qualquer fuga por sua parte. O rapaz permaneceu imóvel, podia sentir a mortalidade que eles carregavam como defesa.

Apesar de querer lutar contra os cavaleiros e morrer na esperança de proteger a floresta, ele não conseguia mover um músculo sequer. Seus ferimentos já eram muitos, seus músculos estavam queimando. Havia perdido muito sangue também e estava sentindo-se tonto demais até para erguer a cabeça.

— Soube que espíritos da floresta são extremamente alérgicos à prata, estou certo? – Disse o capitão pulando de sua montaria e se aproximando dele. Suas botas pesadas de couro lustrado faziam um som horrível ao esmagar o cascalho sob suas solas. O som lembrava muito o de ossos se partindo.

— Cuidado, senhor. – Advertiu um soldado. – Ele é perigoso.

— Perigoso? Ele é só uma criança com seiva correndo por suas veias ao invés de sangue! – Bradou. Então ele chutou a perna do guardião que estava no chão. – Vocês vêem, homens? Três flechas foram o suficiente para abatê-lo. Isso que nem usamos as de prata. – Riu presunçoso. – Agora, seu merdinha. – Disse o capitão. Ele puxou sua espada, deixando que a lâmina arranhasse a bainha, produzindo um som agudo e estridente que fez Argentum se encolher e tapar os ouvidos com um ganido de sofrimento. – Você odeia sons estridentes, não é? – Não obteve resposta. – Não me surpreende. Se eu tivesse orelhas de abano que nem essas, viveria com duas rolhas enfiadas nelas. – Ele riu da própria piada. – Caso eu não tivesse me matado por ser uma aberração como você!

Os cavaleiros desandaram em gargalhadas, porém aquilo não era nem um pouco engraçado para Argentum. Ele obrigou seus olhos pesados a procurar alguma maneira de escapar, mas seu cérebro estava entorpecido devido a prata que reforçava as armaduras de seus captores. Podia sentir a aura gélida que o metal emitia, mas parecia mais forte vindo do homem que o atormentava.

Eles haviam pensado em tudo. Maldição!

— Eu vou ser direto. – Retomou o capitão após esperar que seus soldados se calassem. – Você me entrega o que roubou e serei rápido quanto sua morte. – Barganhou, o sorriso malicioso que aquele ser humano ostentava era tão desprezível que chegava a dar nojo.

O guardião moveu a cabeça tentando fitá-lo nos olhos, mas a luz forte do Sol o impedia. Ele os cerrou novamente devido a dor que irradiou de outro chute, dessa vez nas costelas. O rapaz engasgou se encolhendo, seus gemidos se misturaram aos arquejos desesperados em busca de ar. O chute deveria ter trincado uma ou duas costelas, ou talvez algo pior.

— RESPONDA QUANDO FALO COM VOCÊ! – Explodiu o capitão, que puxou sua espada. Com outro chute forte, o homem virou o corpo de Argentum. Posicionando sua bota sobre o peito dele e a lâmina da espada bem próxima de sua garganta. – Escute bem, seu fedelho, porque não vou me repetir! Entregue o que roubou, ou vai conhecer seus deuses antes do previsto!

O rapaz não pôde lhe responder, lutava para respirar, pois a pressão sobre seu peito, mais os ferimentos não lhe permitiam sorver o ar. Sua visão estava escurecendo aos poucos. Suas pálpebras estavam tão pesadas quanto a bota que lhe esmagava.

Iria morrer pelas mãos de um humano. Que vergonha.

— Com licença, senhor! – Alguém disse. Argentum tentou mover a cabeça para ver quem era, mas sua visão turva lhe atrapalhava.

— Quem é você? O que você quer?! – Questionou o capitão de forma rude. – Não vê que estou no meio de algo importante ou seus óculos precisam de conserto?!

— Escute aqui, senhor! – Disse o homem esguio ajeitando os óculos remendados sobre o nariz aquilino. Ele usava uma roupa toda pomposa, totalmente diferente das armaduras brilhantes dos cavaleiros. – Sou o Doutor Alan P. Lussarolli Murchowich! E fui enviado pela princesa para acompanhá-los na missão de resgate da jóia da coroa que seria usada na coroação e...

— Desenbucha logo, antes que eu te bata! – Resmungou o capitão.

— Ele não irá responder suas perguntas se continuar a machucá-lo! – Exclamou com uma expressão de ultraje devido a maneira como foi tratado.

— Chega! Escuta aqui, quatro olhos! – O capitão avançou para cima do doutor em cólera. – Não venha me ensinar a fazer meu trabalho, seu rato de biblioteca! – Gritou agarrando a gola da casaca de Murchowich.

— Capitão! – Disse o doutor com a voz firme apesar de estar tremendo. Odiava conflitos e era péssimo em lutas também. – Ele está ferido demais! É um milagre ainda estar consciente! – Prosseguiu encarando no fundo dos olhos negros do homem. – O espírito já está enfraquecido o suficiente pela prata que consiste suas armaduras. Se continuar assim, irá matá-lo e nunca recuperará a jóia! – O cavaleiro encarou Murchowich por longos minutos até soltá-lo e se afastar.

— E o que você quer que eu faça? – Reclamou.

— Primeiro, afastem-se do espírito. – Disse o doutor, casualmente.

— ESTÁ LOUCO?! Ele irá fugir! – Rugiu o homem. Aquele engomadinho lhe estava dando nos nervos.

— Senhor. Olhe bem para ele e me diga se tem condições de, ao menos, erguer a cabeça! – Disse apontando o guardião, que ainda jazia no chão, tentando respirar com dificuldade.

Um hiato se formou.

— Homens. Abram espaço para esse fedelho respirar. – O capitão finalmente rosnou entredentes.

— Segundo. Eu preciso checar os ferimentos dele. Apesar de ser uma missão de recuperação, eu gostaria de estudar o espécime. – Ele retirou algo da bolsa, um bisturi, já se aproximando de Argentum.

— Alto lá! Você vai fazer com que ele escape! – Disse o cavaleiro segurando o braço do doutor.

— Capitão, eu não queria ser rude. Mas se o senhor não me soltar neste exato momento, eu irei te cortar com meu bisturi! E acredite, é bem afiado! – Murchowich estreitou seus olhos castanhos com uma expressão desafiadora em sua face.

— Você tem 5 minutos! – Determinou o capitão.

O doutor se aproximou do guardião e se ajoelhou ao seu lado, erguendo o bisturi. Um raio de Sol acertou a lâmina, fazendo-a brilhar de maneira assustadora.

Os olhos amarelos do rapaz, apesar de semicerrados, capturaram o brilho da ferramenta. Ele tentou se afastar.

— Calma, calma. – Disse Murchowich tentando acalmá-lo. – Não vou machucá-lo. Sou um médico, sabe? Médico. – Pronunciou lentamente para fazer-se compreender.

— Prata… ? – Questionou Argentum.

— Não, não. A lâmina não é feita de prata. Fique tranquilo, irei tirar estas flechas incômodas. – Com delicadeza, virou o corpo do guardião o deixando de bruços. Seus olhos sábios avaliaram os ferimentos feitos pelos dardos. A sessão de tortura que o capitão havia infligido, fizera com que os objetos penetrassem ainda mais na carne. – Pode doer um pouco. – Avisou fazendo uma pequena incisão próximo à ponta de uma flecha, alargando o buraco. Após isso, ele puxou o objeto em um movimento fluído e rápido. O guardião arquejou dolorido, mas parecia bem melhor sem aquilo fincado em seu ombro. – Vou retirar as outras duas.

— Anda logo com isso! – Reclamou o capitão de braços cruzados. – Não temos o dia todo!

— Eu não demoraria tanto se não tivessem feito o corpo do espírito de almofada de alfinetes! – Retorquiu, franzindo o nariz em irritação. – Pronto. – Disse após um tempo, arrancando a última flecha. – Bem melhor, não é?

— Obrigado... – O doutor arqueou as sobrancelhas surpreso. O espécime sabia falar sua língua? Aquilo facilitaria as coisas.

— Eu sei que você roubou a jóia e aqueles homens estão furiosos por isso. – Comentou, passando um emplastro, que havia retirado de sua bolsa, sobre os ferimentos do guardião. – Seja bonzinho e devolva. Tenho certeza que posso te ajudar nessa.

— Eu não posso devolver... – Respondeu, seus olhos fitaram os de Murchowich. Ele podia ver que o doutor tinha uma boa alma, talvez até poderia confiar nele.

— E por que diz isso? – Questionou ajeitando os óculos, perplexo.

— Eu não posso devolver algo que não pertence a eles. – O homem estreitou os olhos.

— E por quê? A jóia é sua?

— Não. Pertence à floresta. Estes humanos invadiram um local sagrado e roubaram o objeto ao qual chama de “jóia”. – Contou, sentando-se ainda dolorido, mas se sentia muito melhor devido aos cuidados do doutor.

— Hum. – Fez o homem pensativo. – Por isso que se arriscou até às muralhas da cidade para tomá-la de volta?

— Eles não podem ficar com ela. Seu dono original precisa dela. – Insistiu Argentum.

— E o que… — Começou o doutor, mas este teve sua fala interrompida pelo capitão, que agarrou Murchowich, o afastando do rapaz.

— Chega de ficar conversando com esse merdinha! – Disse. – Homens! Capturem-no! Vamos levá-lo conosco.

— Não! Espere, capitão... – Insistiu o doutor encarando os cavaleiros cercarem o guardião.

De repente um uivo cortou o ar. As moitas ao redor da orla da floresta ganharam vida de repente quando um bando de lobos pulou dali com os dentes arreganhados e os pelos eriçados.

— Lobos! – Exclamou um soldado, os outros já haviam desmontado e estavam puxando suas espadas, prontos para o combate.

— É por causa dele! – Gritou o capitão. — Matem-no!

— Não! – Tentou intervir o doutor, mas ele foi nocauteado pelo homem com um soco poderoso em sua face.

— Não incomode, seu idiota! – Bradou o cavaleiro, brandindo sua espada para entrar na luta. – Atacar!

Os soldados avançaram contra os lobos com um grito de guerra.

— Argentum! – Ele pôde ouvir alguém chamar. Ele procurou o dono da voz, mas não conseguia vê-lo em meio aquela desordem. – Argentum! – Novamente, mas o chamado parecia vir de todo lugar.

O rapaz estava estático encarando a luta que se discorria diante de seus olhos incrédulos.

Um lobo pardo pulou sobre um soldado, lhe mordendo o pescoço. Outro, uma fêmea de pelo cor caramelo, arranhava o rosto de um homem que estava caído no chão. Um cavaleiro desviou do bote de um lobo cinzento, para então cravar sua espada na barriga da fera. Sangue espirrou para todo o lado.

— Argentum! — Dessa vez o grito foi ao seu lado, mas o guardião estava tão hipnotizado por aquela violência sangrenta que mal escutou o chamado. De repente ele sentiu fortes mandíbulas se fecharem ao redor de seu ombro ferido.

A mordida fez com que ele acordasse. O rapaz agarrou o ombro sangrento com um gemido de dor.

— Acorda! – Um jovem lobo escuro estava falando com ele. Sangue pingava de suas presas, provavelmente fora ele que mordera o guardião para retirá-lo de seu estado catatônico.

— Yosay?! – Reconheceu piscando aturdido.

— Sim, meu amigo. — Murmurou. Ele parecia estar nervoso com algo, pois não parava de olhar na direção da floresta. – Você precisa fugir! Agora!

— Não posso! Vocês serão aniquilados! — Protestou o rapaz se colocando de pé rapidamente. Seus músculos protestaram quanto ao movimento brusco.

— Seu idiota! Shiba está vindo! Ela irá te matar! — Gritou Yosay com urgência em sua voz.

— Não posso abandonar vocês!

— Pode sim! Leve o Coração até a Matrem! Agora! – Implorou, tentando empurrar o rapaz na direção do rio.

Os olhos amarelados do guardião captaram algo. Argentum ergueu o olhar a tempo de ver um lobo ruivo se aproximando de Murchowich, que se moveu, acordando. A fera encostou o peito no chão com os olhos azuis fixos em sua presa. Estava armando um bote.

— NÃO! – Gritou o rapaz empurrando Yosay de sua frente e correndo naquela direção. – ELE É INOCENTE! — Mas o clangor da batalha estava tão ensurdecedor que o lobo não lhe ouviu.

O lupino saltou, suas garras afiadas prontas para dilacerar o peito do doutor.

Murchowich ergueu o olhar grogue ao ver a fera se avolumando sobre si, seus olhos se arregalaram com medo...

Então Argentum trombou com o animal em pleno ar e ambos caíram no chão engalfinhados.

O lobo fincou seus dentes no exato local que Yosay havia mordido antes, suas garras rasgaram o peito do rapaz, o fazendo gemer de dor.

O guardião chutou o lobo para longe. Rapidamente se aproximou de Murchowich e rosnou para o lobo que havia atacado. O doutor estava completamente acordado agora e encarava atônito o espírito o defendendo da fera lupina.

— O que está fazendo?! – Sibilou o animal. O rapaz o reconheceu, era uma de suas antigas inimizades: Leigh. – Ele é um humano!

— Eu sei! – Retrucou. – Mas ele é inocente!

— Nenhum humano é inocente! – Rosnou, circulando o rapaz e o homem.

— Este é! Salvou minha vida! – Então se virou para Murchowich. O nariz dele sangrava devido ao soco, seu óculos havia desaparecido. – Você está bem? – Questionou, oferecendo sua mão para ajudar o doutor a levantar.

— Traidor! — Bradou Leigh atacando Argentum, mas Yosay foi mais rápido e interveio, empurrando o oponente para longe de seu amigo.

— Vocês dois são traidores de sua própria raça! – Rosnou o lobo.

— Rápido! Saía daqui. – Instruiu o rapaz ao doutor. – Fuja enquanto eles estão ocupados!

— Por que está me ajudando? – Questionou o outro, confuso.

— Você me ajudou. Devo retribuir o favor. Agora vá! – Murchowich fez um rápido aceno de cabeça em despedida e desapareceu pela mata.

— Argentum... – Chamou Yosay recuando. – Temos um problema. – O rapaz se virou, os lobos já haviam derrotado os humanos, alguns haviam escapado, e outros jaziam trucidados pelo cascalho. Mas não era isso que prendia a atenção do lupino ou do rapaz, era a belíssima loba albina que irrompeu da floresta com um olhar arrogante. Todos os animais se curvaram em mesura diante da fêmea, até mesmo Yosay.

— Shiba... — Murmurou o rapaz com um arrepio descendo por sua espinha. Ele recuou quando a loba lhe lançou um olhar gélido.

— Argentum. – Disse ela caminhando de maneira elegante em sua direção. – Que bela surpresa! — Prosseguiu, apesar de suas palavras, ela parecia muito irritada. – Você conseguiu recuperar o Coração dos humanos? – Questionou.

— S-Sim... – Ele normalmente não temia nada que fosse vivo. Seu único medo era de prata, mas a loba era sua única exceção. Ela era a alfa que comandava todas as alcateias da floresta. E possuía um ódio especial sobre o guardião devido a um mal entendido passado.

— Entregue-me. – Exigiu avançando lentamente em sua direção, o rapaz continuou a recuar. – Vamos! – Bradou já sem paciência. – Dê-me o coração e lhe pouparei desta vez!

Argentum sentiu o chão sumir atrás de si, ele espiou por cima do ombro e percebeu que estava a beira de um precipício, lá embaixo corria o rio normalmente e, ao seu lado, a cachoeira rugia como se estivesse em cólera.

O rapaz odiava água.

Estava encurralado.

— Eu não irei me repetir. – Disse estreitando os olhos.

— Tudo bem, Shiba... – Suspirou derrotado. – Mas antes de estregar o Coração, eu queria te perguntar uma coisa. – Falou.

— E qual seria sua pergunta? – Questionou a loba.

— Lobos sabem nadar? – Então ele se jogou.

— NÃO! — Rugiu Shiba correndo na direção do rapaz na tentativa de impedi-lo, mas já era tarde.

Argentum caiu com seu olhar preso na borda do precipício. Os lobos haviam se reunido para vê-lo despencar para a morte. Entre eles, Shiba, que parecia irada.

Logo ele não pôde mais vê-los devido à distância.

Com um baque forte ele acertou a água. O impacto fez seu corpo inteiro doer, parecia que estava se despedaçando. A água fria lhe espetava a pele com milhares de minúsculos espinhos.

O rapaz podia ver o sangue que se esvaía de seu corpo se misturar ao líquido gélido.

Bolhas escaparam de sua boca quando perdeu o fôlego. Seus olhos se cerraram lentamente com uma sensação agradável transbordando por seu corpo ferido e fatigado.

Estava morrendo.

Notas finais
Há o uso de pronomes masculinos para se referir a Argentum pois, apesar de não ser humano, ele é do sexo masculino.