Arewhana

2 O Elefante de mármore


O sol da manhã batia na fachada com aquela luz fria e limpa que só Curitiba sabe produzir quando quer fingir que é gentil. A neblina ainda lambia a rua, baixa, preguiçosa, e o ar tinha cheiro de concreto úmido e café recém-passado.

A estátua de elefante de mármore na entrada parecia acordada antes de todo mundo.

Grande. Imóvel. Intocável.

Eu parei por meio segundo só pra olhar. Não por superstição — eu não faço isso —, mas porque era impossível ignorar. O mármore claro refletia a luz como uma lâmina. O elefante estava com a tromba erguida e as patas firmes, como se guardasse a porta de um templo.

Arewhana.

A placa de metal escovado ao lado do portão tinha letras simples, sem luxo. Eu não precisava que brilhasse. Precisava que sustentasse.

Atravessei a entrada enquanto o portão deslizava, pesado, e o som ecoou pelo pátio interno. O prédio tinha dois andares: embaixo, o ginásio com tatames, cordas, sacos de pancada, área de tiro seco e equipamentos; em cima, o escritório — meu e do Bóris — e as salas administrativas que eu jurava que nunca seriam tão cheias de papel.

Dentro do galpão, o dia já tinha começado.

O som de luvas batendo no saco. O estalo seco de um cronômetro. A voz de alguém contando repetições. O rádio no canto, sempre baixo, sempre ligado, como se o silêncio fosse perigoso demais pra existir por muito tempo.

No tatame, Cauan já estava suando. Tinha a energia de quem nasceu com o corpo sempre pronto pra correr. Ele girava o pulso, testava a câmera presa no colete, e mastigava chiclete como se aquilo fosse parte do protocolo.

— Bom dia, chefe — ele disse, sem parar o que fazia. — Hoje a senhora vai deixar eu pilotar o drone ou ainda tá traumatizada com o “pouso técnico” da semana passada?

— Aquilo não foi pouso. Foi um acidente diplomático — respondi, tirando minha jaqueta e pendurando no suporte. — E não, você não pilota nada antes de eu tomar café.

Ele riu e apontou pro canto.

Henrique estava encostado no balcão da copa improvisada, alto, largo, com aquele jeito de quem parece relaxado mesmo quando está analisando tudo. Ele girava uma caneca entre os dedos.

— Café da paz — ele anunciou. — Paz antes de vocês começarem a querer matar alguém por causa de planilha.

— Bom dia pra você também, Henrique.

— Eu sou educado. Só sou realista — ele piscou.

No outro lado, perto da parede de equipamentos, Yuri ajustava um rádio com calma de monge. Ele fazia tudo com precisão, como se qualquer gesto desnecessário fosse desperdício. Tinha o corpo firme e o olhar treinado para identificar padrões. Yuri não precisava levantar a voz. Ele só existia — e isso já impunha.

Samuel estava ao lado dele, conferindo baterias, cabos, microfones. Samuel tinha aquele tipo de presença que preenche uma sala sem chamar atenção. Era estabilidade com pernas.

— Frequência principal está limpa — Samuel informou, sem olhar pra mim, porque sabia que eu estava ouvindo. — Backup no canal três.

Eu só assenti. Ele entendeu. Com Samuel, eu nunca precisava repetir.

Mais adiante, perto do rack de computadores, Ravena estava sentada como se o mundo não tivesse o direito de perturbá-la. Pele clara, cabelo escuro preso, postura impecável. Os dedos voavam no teclado, e o olhar dela passava por mim como se me escaneasse do mesmo jeito que escaneava a tela.

— Você dormiu? — ela perguntou, sem levantar a cabeça.

— Eu fechei os olhos por alguns minutos. Conta?

— Não conta — ela respondeu. — Mas pelo menos você não ficou mais pálida.

— Obrigada pelo carinho.

— De nada.

Era o máximo que eu ia conseguir antes do meio-dia.

Atravessei o ginásio e subi a escada metálica que levava ao andar de cima. Cada degrau rangia do mesmo jeito, e eu não mandava consertar porque o barulho servia de aviso. Ninguém surpreende a gente aqui.

Lá em cima, o ar mudava. Era mais silencioso, mais limpo, mais burocrático. O corredor tinha vidro, madeira escura e iluminação fria. Meu escritório ficava à direita — porta sem enfeite, tranca de segurança — e o de Bóris ao lado, sempre com a porta entreaberta, como se ele fingisse que não precisava de privacidade.

Ele estava lá, claro. Camisa social arregaçada nos antebraços, uma caneta na boca, e uma pilha de pastas que parecia querer engoli-lo.

— Você viu? — ele perguntou, assim que me viu.

— Se eu vi o quê?

Ele apontou, com o queixo, para a janela.

Lá fora, o elefante de mármore brilhava sob o sol.

— Todo dia eu penso que alguém vai achar exagerado — Bóris disse.

— Todo dia eu penso que se alguém achar exagerado, não é o nosso cliente.

Ele sorriu, satisfeito. Bóris tinha aquele tipo de sorriso que acalma sem prometer. Eu precisava disso mais do que admitia.

— Você tá bonita quando tá mandona cedo — ele provocou.

— E você tá muito falante pro horário — retruquei, sentando na cadeira e abrindo meu notebook.

— Eu sou o alívio cômico da empresa. Tá no contrato social.

— Eu redigi o contrato social.

— Então você errou.

Dei um meio sorriso. Quase.

Lá embaixo, ouvi um motor acelerar. Olhei pela janela e vi um dos veículos da empresa saindo.

Lucas ao volante, óculos escuros mesmo com o céu fechado e a audácia de quem acredita que sempre tem controle de qualquer situação. Ao lado dele, Nicolai — alto, silencioso, ombros como parede, olhar perdido no horizonte como se já estivesse pensando na próxima saída, no próximo ponto cego, na próxima ameaça.

No outro portão lateral, Edmundo supervisionava a saída de uma moto. Edmundo não era veloz, mas era preciso. Tinha idade no olhar e experiência nas mãos. Fazia logística como quem organiza um campo de batalha: tudo no lugar, tudo com motivo.

E, perto da garagem, Miranda terminava de ajustar uma maleta de primeiros socorros. Mulher. Cabelo preso, rosto atento, a postura firme de quem não entra no jogo pra ser enfeite. Ela conferiu os itens com cuidado, fechou o zíper e subiu no banco do passageiro de outro carro. Ao passar pelo portão, ela ergueu a mão pra mim em um aceno curto.

Miranda não fazia alarde. Fazia presença.

E eu gostava disso.

— Metade da equipe já foi — observei.

— Tá tudo sob controle — Bóris respondeu, passando os olhos na tela do celular. — Contrato menor. Proteção de executiva por doze horas. Nada que vá arrancar pedaço.

— Normalmente é isso que arranca.

Ele me olhou por cima do ombro.

— Você tá no modo pessimista hoje.

— Eu tô no modo realista.

— Ah, então tá no modo “Lorena”.

Eu voltei ao notebook, mas antes de abrir qualquer arquivo, meu celular vibrou em cima da mesa.

Canal criptografado.

Remetente: Heitor Braga.

Eu senti o corpo reagir antes da mente.

Porque quando Braga chamava no canal seguro, não era convite pra café.

Atendi.

— Krieger — a voz dele veio baixa, dura. — Você tá na sede?

— Tô.

— Preciso de você em uma missão. Não vou passar isso pra ninguém da sua equipe.

O silêncio que veio depois era o tipo de silêncio que já tem sangue na intenção.

Bóris percebeu pela minha expressão e parou de brincar com a caneta.

— O que foi? — ele perguntou sem som, só com os lábios.

Ergui a mão, pedindo um segundo.

— Me explica — eu disse a Braga. — O que aconteceu?

— Um cientista. Victor Frossar. Pesquisador bioquímico. Está sob proteção do governo, mas temos risco de vazamento interno. E a ameaça não é “se alguém tentar”. É “quando tentarem”. A organização quer sequestrar o homem vivo.

Bóris já estava de pé, perto da minha mesa, sem invadir meu espaço, mas pronto para ouvir tudo que eu deixasse escapar.

— Por que eu? — perguntei.

— Porque você não é comprável. E porque você não falha — Braga respondeu, simples. — Preciso que você faça guarda pessoal por algumas semanas. Discreta. Contínua. Sem rodízio. Sem barulho.

Sem rodízio significava uma coisa: isolamento.

Um segurança constante é uma linha. Uma equipe é um mapa inteiro — e mapas vazam.

— Que tipo de pesquisa ele desenvolveu? — perguntei.

Braga hesitou só um pouco. Quando um homem como ele hesita, é porque a palavra seguinte pesa.

— Um método bioquímico de identificação e rastreio que pode ser aplicado em segurança nacional. Não é arma… mas pode virar. E é isso que assusta. Você entende.

Eu entendia.

Um homem que cria algo assim não é só uma pessoa. É uma chave.

— Eles já tentaram? — perguntei.

— Invasão frustrada na semana passada. Foi “limpa”, sem alarde. Mas encontramos sinais de monitoramento profissional. Não é ladrão de bairro. É estrutura.

Olhei para Bóris. Ele não falou, mas o olhar dele já estava fazendo contas.

Braga continuou:

— Frossar vai ser deslocado pra um endereço seguro que só eu e mais duas pessoas sabemos. Ele precisa de alguém com presença constante, mas que não pareça escolta de Estado. Alguém que possa virar sombra.

Sombra. Escudo. Faca.

— Você quer que eu viva a vida dele — eu disse.

— Eu quero que você impeça que ele seja arrancado dela.

Fechei os olhos por um segundo. O elefante de mármore lá fora parecia maior agora, como se estivesse ouvindo.

— Eu aceito — respondi. — Me manda os detalhes.

— Vou mandar. E Lorena…

— O quê?

— Não subestime esse caso. — A voz de Braga endureceu ainda mais. — Não é sobre tribunal. Não é sobre depoimento. É sobre alguém que o mundo quer calar… e gente perigosa costuma ser criativa.

A ligação caiu.

Por alguns segundos, eu fiquei parada, encarando a tela do celular como se ali pudesse aparecer uma resposta mais fácil.

Bóris quebrou o silêncio primeiro, como sempre fazia quando eu parava de respirar por dentro.

— Solo? — ele perguntou.

— Solo.

— Por semanas?

— Por semanas.

Ele passou a mão na nuca, o humor sumindo como luz apagada.

— Isso é grande.

— É — concordei. — E é o primeiro caso pesado com a Arewhana respirando sozinha. Sem academia, sem Bartelsi, sem estrutura emprestada.

— Você não precisa provar nada pra ninguém, Lô.

Olhei pra ele.

— Eu preciso provar pra mim.

Ele me encarou por mais um instante e, então, assentiu. Bóris sabia quando discutir era só gastar energia.

— Tá. — Ele puxou uma cadeira e sentou ao meu lado. — Então a gente faz do jeito certo. Você vai, mas eu vou garantir que a base continue funcionando. E você vai me prometer uma coisa.

— Não gosto de promessas.

— Eu também não. Mas essa é simples: você vai se comunicar. Sem sumir. Sem bancar a mártir.

Eu respirei fundo.

— Eu vou.

— E quando voltar, eu quero férias.

— Você quer férias desde que eu te conheci.

— Eu sou um homem consistente.

Quase sorri de novo.

Lá embaixo, ouvi o som do saco de pancada sendo acertado. Depois risos. Depois silêncio. A base seguia viva.

E eu, de repente, me sentia fora dela.

Levantei, indo até a janela. O elefante de mármore estava ali, firme, recebendo a luz como se não pudesse ser tocado por nada.

Elefantes protegem os seus.

Não porque são bons.

Mas porque são fortes o bastante pra aguentar.

Encostei a mão no vidro.

— Victor Frossar — murmurei. — Espero que você valha o risco.

Bóris apareceu atrás de mim.

— Você tá falando com as estrelas ou com o mármore?

— Com os dois.

Ele soltou um riso baixo.

— Seu pai ia gostar disso.

Eu não respondi. Porque a verdade apertava o peito: meu pai teria gostado de muitas coisas que eu não vivi com ele tempo suficiente.

Virei de volta para a mesa, peguei o casaco, a arma, o fone, e senti o peso familiar se acomodando no meu corpo como uma segunda pele.

— Eu vou preparar a saída — disse a Bóris. — Quero Ravena checando qualquer vazamento de informação sobre Frossar. E Yuri revisando rotas indiretas. Mas sem dizer o nome. Só o necessário.

— Entendido, chefe.

— E Bóris…

— Hm?

— Se alguém perguntar, você diz que eu tô em missão curta. Nada de detalhes.

Ele me olhou, sério.

— Você vai voltar.

Não era pergunta.

Eu prendi o cabelo num rabo firme e enfiei a jaqueta.

— Eu sempre volto.

Desci as escadas e o som do ginásio me engoliu de novo. Cauan gritou alguma piada, Henrique respondeu com outra, Miranda passou por mim com a maleta no ombro, Ravena me lançou um olhar que dizia “eu já sei”, e Yuri ergueu o rádio como se estivesse saudando uma partida.

Eu atravessei o pátio.

O sol bateu na minha face, frio.

Passei pelo elefante de mármore e, por um segundo, senti que ele me observava de volta — uma presença antiga, protetora, silenciosa.

Arewhana não esquece.

Entrei no carro, liguei o motor.

E quando o portão se abriu, eu soube: aquele era o começo real.

Não da empresa.

Da guerra.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.