Arewhana
1 A Testemunha
Notas iniciais
O motor da van ronronava baixo, um som constante que quase se confundia com o da minha respiração.
Curitiba, 6h42 da manhã. Céu cinza, como sempre. A cidade parecia conter o fôlego antes do caos do dia começar.
Eu observava o reflexo dos prédios pelas janelas laterais, os vultos dos carros passando. Aprendi a ler o movimento das ruas como quem lê um rosto — cada sinal, cada pausa, cada olhar que dura um pouco mais do que o normal. É assim que se encontra o perigo: no detalhe que não combina.
O rádio chiava com interferência. O motorista, um sargento de expressão cansada, ajustava o volume com dedos que já pareciam moldados ao volante.
Atrás, a testemunha — Raul Menezes, ex-contador de uma empresa de fachada envolvido em lavagem de dinheiro e tráfico de armas. Testemunha protegido pelo estado. Contador de meia-idade, aparência de quem nunca imaginou estar no centro de um julgamento — tamborilava os dedos no joelho.
Eu o observava pelo espelho interno. Ele percebeu, e tentou forçar um sorriso.
Falhou.
— Relaxa. Eu estou aqui para garantir que nada aconteça com você hoje — eu disse, sem tirar o olhar da janela.
Ele assentiu, mas o tremor no canto da boca o entregava.
O trajeto era simples: levar Raul do hotel até o fórum, quarenta e três minutos de distância, tempo demais pra quem tem inimigos.
Tínhamos duas rotas de fuga, pontos de apoio a cada seis quadras e cobertura policial discreta.
Tudo calculado. Tudo previsível.
Mas previsibilidade é um luxo que o perigo não respeita.
Toquei o pingente que levava sob o colete — uma pequena estrela dourada que fora do meu pai.
Quando eu era criança, ele dizia que as estrelas eram faróis de velhos viajantes.
“Enquanto você as enxergar, nunca estará perdida.”
Às vezes, penso que meu pai nunca viveu de verdade neste mundo.
— Estamos nos aproximando do cruzamento da XV — avisou o motorista. — Ponto de troca daqui a dois minutos.
Assenti.
O céu começava a derramar uma garoa fina, lavando o parabrisa em listras diagonais.
Tudo parecia calmo.
Demais.
“Há silêncios que gritam — e esse gritava perigo.”
A voz do rádio estalou:
— Unidade Alfa, reportando. Tudo limpo no perímetro norte.
— Unidade Bravo, sem movimento anormal.
E então, um estalo seco — estática.
— Bravo, repita.
Nada.
— Bravo, responda.
O motorista me lançou um olhar rápido. Eu já estava com a mão no coldre.
O cruzamento seguinte parecia mais estreito do que deveria. Um caminhão estacionado atravessava metade da pista.
— Reverso, agora — ordenei.
Ele engatou a marcha ré, mas no retrovisor surgiu outro carro — preto, sem placa dianteira, bloqueando a retaguarda.
Raul prendeu a respiração.
O primeiro disparo veio do alto — vidro quebrado, o som metálico ecoando no peito.
O motorista gritou, e quando percebi eu já estava fora do veículo.
O mundo desacelera nesses momentos.
Os segundos esticam, e tudo o que sobra é o instinto.
Apontei a pistola e avancei agachada pela lateral da van, protegendo Raul que tentava sair atrás de mim.
— Fica abaixado! — gritei.
Dois homens atrás do caminhão. Um com espingarda, outro com pistola automática.
Contaram errado a distância.
Três tiros, dois recuos, e o primeiro deles caiu, atingido no ombro. O segundo fugiu para trás do veículo.
O som dos reforços vindo pela retaguarda se misturava à chuva que engrossava.
Um dos carros de cobertura apareceu na esquina. Sirene curta, um aviso rápido.
Os atiradores se dispersaram.
Silêncio.
O tipo de silêncio que vem depois da confusão — denso, quente, pulsando nas veias.
Agarrei Raul pelo braço.
— Anda. Precisamos seguir em frente.
Ele hesitou, os olhos arregalados para o corpo caído a poucos metros.
— Ele… ele morreu?
— Não. Só vai precisar de um ombro novo.
Dentro da van, respirei fundo. Encarei meu reflexo numa superfície espelhada, os olhos verdes compenetrados. Uma mecha do meu cabelo castanho se soltou da trança.
A adrenalina baixava devagar, deixando um vazio incômodo.
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6h58 — Chuva.
Era sempre a chuva.
Curitiba parecia nascer molhada — como se a cidade inteira chorasse por quem ainda tenta ser forte.
O comboio policial se formava rápido, mas algo na cena me incomodava. O caminhão abandonado, a rota alternativa bloqueada, os rádios em silêncio intermitente…
Nada disso era coincidência.
— Braga, aqui é Krieger. A rota principal foi comprometida. O alvo está seguro, mas há falha de comunicação nas unidades. — Falei no comunicador.
— Recebido. — a voz dele veio firme, sem hesitação. — Mantenha a posição, reforço a caminho.
O reforço não chegaria a tempo, eu sabia.
Esses homens não estavam ali por acaso — tinham informação interna.
E se tinham informação, alguém vendeu o trajeto.
Raul tremia ao meu lado, as mãos espremendo o banco como se pudesse se esconder dentro dele.
— Eles sabem que eu vou depor… não é? — perguntou.
— Sabem. Mas ainda estou viva. Isso significa que você também vai estar.
Não era consolo, mas era o que eu podia oferecer.
Pedi ao motorista que seguisse a rota “Delta”, uma via secundária pelo bairro Rebouças, um labirinto de ruas estreitas e galpões antigos.
Se quisessem nos seguir, teriam que se expor.
— Vamos fazer o jogo deles — murmurei.
Abri o compartimento lateral e peguei uma pequena caixa metálica: dois sinalizadores de fumaça e uma granada de ruído.
Nada letal. Mas suficiente para ganhar tempo.
O rádio voltou a chiar.
— Alfa aqui, Krieger, avistamos dois veículos suspeitos a novecentos metros da sua rota. Um deles em aproximação rápida.
Olhei pela janela.
Faróis.
Baixos, fechando em nossa direção.
— Hora de dançar.
O carro deles nos alcançou rapidamente e bateu de raspão na lateral da van. O impacto fez Raul se curvar, soltando um grito abafado.
— Continua! — ordenei ao motorista.
Puxei o pino do sinalizador e joguei pela janela. Fumaça densa, branca, envolveu tudo atrás de nós.
O outro veículo reduziu, tentando manter o controle.
Mas o problema não vinha mais de trás.
Uma moto, com dois homens, surgiu pela calçada direita. Um deles empunhava algo — cano longo, frio, inconfundível.
— Atirador!
O estampido atravessou o vidro lateral. O motorista desviou no reflexo, e o carro derrapou, arranhando a lataria contra o muro.
Sem pensar, abri a porta lateral e saltei.
A moto vinha direto.
Um segundo para decidir.
Dois para agir.
O corpo reage antes da mente — rolei para o chão molhado, puxei a pistola e mirei.
O primeiro disparo atingiu o pneu dianteiro.
O segundo, o braço do atirador.
A moto caiu arrastando faíscas, o cheiro de gasolina se misturando à chuva.
Aproximei-me, arma ainda em punho.
Um deles gemia. O outro tentava levantar.
— Polícia! Fica onde está! — gritei.
Ele hesitou, mas largou a arma.
Minutos depois, o reforço chegou. Sirenes curtas, ecos distantes.
Braga desceu do carro, capa preta encharcada.
Olhou em volta, avaliou o cenário com o olhar pesado de quem já viu demais.
— Missão limpa, Krieger. — disse, depois de um instante. — Como diabos eles sabiam a rota?
Respirei fundo, observando o corpo da moto caída e os dois homens algemados.
— Alguém abriu a boca, delegado. E não foi por medo. Foi por dinheiro.
Ele assentiu.
Em seguida voltamos para o veículo e seguimos para o fórum sem maiores interrupções até que Raul estivesse completamente seguro para fazer seu testemunho.
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O relógio do painel marcava 20h17 quando chegamos à base.
O cheiro de café requentado misturava-se ao das armas limpas, e o som metálico dos coldres devolvidos ao armário preenchia o silêncio que vem depois da adrenalina.
Delegado Heitor Braga cruzou o salão com o passo firme de quem tem pressa. Braga era um homem de estatura média, devia estar em seus quarenta e poucos anos. As marcas da idade e de anos de trabalho árduo já faziam presença em seu rosto cansado e em seus cabelos castanho-escuros com fios grisalhos nas laterias. O olhar dele demorou-se em mim por um instante antes de se abrandar.
— Krieger. — disse, aproximando-se. — Trabalho limpo, sem baixas. O depoente está em segurança.
— Sempre o mínimo necessário, delegado. — respondi.
— O mínimo que, no seu caso, sempre parece muito mais do que o suficiente. — completou, com aquele meio sorriso que raramente mostrava.
Ele assentiu e se afastou para preencher relatórios. Eu fiquei ali, ainda de colete, com o cabelo colado no rosto pela chuva, sentindo o peso do silêncio.
Era o fim de mais uma missão. Mas, dessa vez, soava diferente.
A porta do corredor abriu-se, revelando uma figura familiar.
Lorenzo Bartelsi. Alto, barba alinhada, marcas de expressão acentuadas, corpo robusto, mas ligeiramente fora de forma. Ex-militar e fundador da Academia Bartelsi de Segurança e Defesa Avançada da qual eu me despeço hoje.
Seu terno amarrotado denunciava que estava ali desde o início da operação, acompanhando tudo pelo rádio.
— Sabia que você voltaria vitoriosa novamente. — disse ele, com aquela voz grave que parecia vir sempre depois de um charuto e um copo de uísque.
— Não costumo quebrar estatísticas.
— E é justamente por isso que vai me fazer falta.
Ele parou ao meu lado, observando o reflexo da chuva batendo na janela.
— Lembra da primeira vez que entrou na academia, Krieger? — perguntou. — Tinha acabado de voltar do Haiti, ainda com o sotaque de quem aprendeu a engolir o medo. Eu olhei pra você e pensei: “essa garota vai me dar dor de cabeça”.
— Deu? — perguntei, arqueando a sobrancelha.
— Todas as possíveis. Mas também os melhores resultados. — respondeu, rindo baixo. — E agora você me abandona pra montar a tal da… como é mesmo o nome?
— Arewhana. — pronunciei devagar, saboreando cada sílaba. — Significa “elefante” na língua maori.
— Claro que significa. — Bartelsi suspirou. — Um símbolo de força, lealdade e memória. Combina com você.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
As gotas batiam no vidro em compassos irregulares, como se o tempo tentasse acompanhar nossa conversa.
— Acha mesmo que é o momento certo pra seguir sozinha? — perguntou.
— Não existe “momento certo”. O certo se alinha no meio do caminho.
Ele assentiu, com um orgulho que não soube esconder.
— Então vá. Mas lembre-se: o nome que você carrega pesa. E as pessoas só respeitam o peso que você impõe.
Dei um meio sorriso.
— Eu aprendi com o melhor.
Bartelsi estendeu a mão, e eu a apertei.
— Boa sorte nessa nova jornada, Krieger.
Saí para o estacionamento ainda com o gosto metálico da chuva na boca.
O ar frio da noite curitibana me envolveu enquanto ligava minha Royal Classic 350 e partia com a moto rumo à casa.
As luzes da cidade tremulavam sob o breu das nuvens, e por um instante tudo pareceu suspenso — entre o passado e o que ainda viria.
“Alguns capítulos se fecham em silêncio.
Outros, com o som do motor e a promessa de um novo começo.”
Acelerei.
A noite se abriu à minha frente como uma página em branco.
E Arewhana acabara de nascer.
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